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29 março, 2023

Assim é (se lhe parece)

Mesmo tendo sido escrita em 1917, a peça "Così è (se vi pare)" , de Luigi Pirandello, é mais atual do que nunca, pois revela uma das características marcantes das pessoas: a mania pela curiosidade da vida do outro, a fofoca e a bisbilhotice.
A trama central de "Assim é (se lhe parece)", o título da peça no Brasil, gira em torno da chegada de uma família numa província do interior da Sicília, no sul da Itália, após sobreviver a um terremoto. O que provoca a curiosidade da população local é o fato de que eles moram em locais diferentes, o núcleo familiar em uma residência e a sogra em outra. Genro e sogra têm versões opostas para este fato, o que deixa os cidadãos ainda mais curiosos para saber a verdade; eles não se cansam para elucidar o porquê de uma única família não morar sobre o mesmo teto.
Além de morarem em casas separadas, a senhora Frola visita a filha diariamente, mas apenas à distância. Ela diz que em razão da possessividade do genro, mãe e filha não podem ter contatos íntimos. Já o genro diz que a sogra tem problemas psiquiátricos, pois não admite que sua filha morreu há anos e, por isso, ele pede que sua segunda esposa se passe pela filha da Sra. Frola. 
Essas versões distintas do fato é que aguça a curiosidade dos moradores locais, que promovem um verdadeiro tribunal informal para se chegar à verdade.

07 abril, 2022

Sino, livro e vela

A expressão "sino, livro e vela" faz referência à excomunhão, uma punição utilizada para retirar ou suspender um crente de uma filiação religiosa. A excomunhão significa literalmente colocar alguém fora da comunhão. 

Ex.: "Seremos amaldiçoados com sino, livro e vela".

Na Idade Média, a excomunhão era pública e havia uma cerimônia em que os oficiantes fechavam o livro (dos Evangelhos), apagavam a vela e tocavam um sino, como quem diz já morreu.

Shakespeare usou a frase em King John, 1595:
BASTARDO:
Sino, livro e vela não me levarão de volta
Quando ouro e prata me chamam para ir.

"Bell, Book and Candle" é o título de um filme americano de 1958, estrelado por Kim Novak.

Acrílico "Bell, Book, and Candle"

O filme é um dos meus favoritos há muitos anos. Esta pintura não é um esforço para criar uma cena do filme, mas é inspirada no nome do filme. Foi uma tarefa difícil encontrar este sino. Por fim, encontrei-o em uma loja de antiguidades e perguntei ao proprietário se poderia “alugar” como acessório. Paguei a ele o valor total, com o acordo de que poderia tê-lo de volta, menos $ 5 do preço quando devolvesse o sino. Mas acabei mantendo o preço cheio - ainda assim, a ideia de alugar objetos em antiquários para orientar pinturas parece uma situação vantajosa para o pintor e o lojista. ~ Myke Daymon

Bom para o DBF, o Dicionário Brasileiro de Frases

18 julho, 2021

A polêmica peça "Roda Viva"

A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que sente / O quanto deixou de cumprir.
Primeira obra para teatro de Chico Buarque, Roda Viva é uma comédia musical em dois atos e título da canção que dá nome à peça. Estreia no Rio de Janeiro, em 1968, como uma crítica contundente à sociedade de consumo e à violência institucional. Lançada no ano de acirramento da censura praticada pela ditadura civil-militar brasileira, é considerada um marco da luta artística por liberdade de expressão.
O enredo acompanha a transformação de Benedito da Silva, um cidadão comum, em Ben Silver, ídolo pop fabricado na esteira do sucesso dos festivais de música e da crescente massificação cultural, que submete os corpos à roda viva das engrenagens capitalistas. Ben Silver é lançado como cantor de iê-iê-iê (rock), mas aderindo às novas tendências, transforma-se em compositor engajado, rebatizado de Benedito Lampião, até ser descartado pela indústria de entretenimento e substituído pela namorada Juliana, que adere à Tropicália.
Em São Paulo, na noite de 18 de julho de 1968, no Teatro Ruth Escobar, a sala Galpão é invadida por um grupo de homens do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que depredam o espaço, agridem os artistas e destroem equipamentos. Em setembro do mesmo ano, em Porto Alegre, os atores são brutalmente agredidos no hotel onde estão hospedados, e a peça é censurada.


Por décadas, Chico Buarque não autorizou novas montagens da peça. Em 2018, entretanto, o diretor José Celso obteve autorização do compositor para que o Teatro Oficina Uzyna Uzona faça a remontagem do musical. A nova versão manteve a crítica política, mas a agressividade dirigida ao público deu lugar a uma conjunção celebratória.

RODA Viva. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento405843/roda-viva. Acesso em: 04 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.ISBN: 978-85-7979-060-7

A remontagem de Roda Viva, em 2018 (50 anos após).

18 maio, 2021

TEATRO CORISCO. O capitalismo mais reacionário

Tragédia em um ato
Autor: Millôr Fernandes
Personagens: o Patrão e o Empregado
Época: atual

ATO ÚNICO
Empregado
– Patrão, eu queria lhe falar algo seriamente. Há quarenta anos que eu trabalho nesta empresa e, até hoje, só cometi um erro.
Patrão
– Está bem, meu filho, está bem. Mas, de agora em diante, tome mais cuidado.
(Pano rápido)

28 julho, 2020

Uma faísca inesperada de percepção

"Por mais longa que seja a vida de um ator, ele não tem como declarar: 'Estou pronto'. E se fizer, não é do ramo, Embora no teatro se repita, dia após dia, o mesmo gesto, a mesma intenção, o mesmo texto, dentro da mesma encenação, repentinamente 'uma faísca inesperada de percepção' revela outra zona a seguir – que depende de sua inquietação, Em Reflexões de um comediante, de Jacques Copeau, lê-se sobre essa 'anomalia':
"Nisto consiste o mistério – que um ser humano possa pensar e tratar a si próprio como matéria de sua arte. Ao mesmo tempo agir e ser o que é manobrado. Homem natural e marionete."
— Fernanda Montenegro, em sua autobiografia Prólogo, ato, epílogo: Memorias.

07 maio, 2020

O homem brasileiro em cena

O ator Lima Duarte gravou um vídeo em que, emocionado, dirige uma comovente mensagem ao colega Flavio Migliaccio, que cometeu suicídio na última segunda-feira (4).
"Eu te entendo. Eu te entendo, Migliaccio... Agora quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrivel de 68... Agora, 56 anos depois... Eu tenho 90 e você, com 85... Quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais. Não tive a coragem que você teve. Mas eu vou logo, meu amigo."



Para os que ficam, Lima Duarte termina com uma frase que tem tudo a ver com Brasil atual: "...os que lavam as mãos o fazem em uma bacia de sangue!" Referindo-se a uma fala de um personagem, Pedro Jáqueras, da peça "Os Fuzis da Senhora Carrar" (1937), de Bertold Brecht.

Um dos lemas do Arena era: colocar o homem brasileiro em cena.

12 dezembro, 2019

Chico Buarque na literatura, teatro e cinema

LITERATURA - Ainda adolescente, publica suas primeiras crônicas no Verbâmidas, jornal do Colégio Santa Cruz.
Em 1966, publica em O Estado de S.Paulo o conto "Ulisses", incorporado depois no primeiro livro chamado "A banda" que trazia os manuscritos das primeiras canções.
Em 1974, sai a novela pecuária "Fazenda Modelo". Em 1979, é editado "Chapeuzinho amarelo" e, em 1981, "A bordo do Rui Barbosa", poema da década de 60 ilustrado por Vallandro Keating.
A partir do início dos anos 80, Chico tem alternado a produção musical com a literária: os romances "Estorvo" (1991), "Benjamim" (1995), "Budapeste" (2003), "Leite derramado" (2009), "Irmão alemão" (2014) e "Essa gente" (2019) e o livro de contos "Anos de chumbo" (2021).
TEATRO - Em 1965, a pedido de Roberto Freire, diretor do TUCA, Teatro da Universidade Católica de São Paulo, Chico musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua presença no teatro brasileiro tem sido constante. Foram quatro peças ("Roda Viva", "Calabar", "Gota d'água", e "Ópera do Malandro") que Chico Buarque escreveu, além das diversas canções que ele compôs para o teatro.
CINEMA - Em 1966 fez seu primeiro trabalho para cinema compondo as canções para o filme "Anjo assassino", de Dionisio Azevedo.
Em 1980, chegou às telas o documentário "Certas palavras", de Mauricio Beiru, sobre sua vida.
Escreveu os roteiros de "Os saltimbancos trapalhões", de J. B. Tanko (1981) e Ópera do malandro", de Ruy Guerra (1986).
Como ator, participou de "Garota de Ipanema", de Leon Hirzman (1967); "Quando o carnaval chegar", de Cacá Diegues (1972) - para o qual compôs diversas canções além de organizar as peladas nos intervalos da filmagem; "Vai trabalhar vagabundo II – A volta", de Hugo Carvana (1991); "Ed Mort", de Alain Fresnot (1996); "O mandarim", de Júlio Bressane (1995); "Água e sal", de Teresa Villaverde (2001).
Compôs dezenas de canções para filmes ("Bye bye, Brasil", "Dona Flor e seus dois maridos", "O Grande Circo Místico", "A ostra e o vento", "Joana Francesa", "Eles não usam black-tie" e muitos outros) e participou de diversos documentários:
"O povo brasileiro", de Isa Grinspum Ferraz (2000); "Raízes do Brasil", uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda, de Nelson Pereira dos Santos (2003); "Vinicius de Moraes", de Miguel Faria Jr. (2005); "Fados", de Carlos Saura (2005); "Maria Bethânia: Música é perfume", de Georges Gachot (2005); "O Sol - Caminhando contra o vento", de Tetê Moraes, Martha Alencar (2006); "Oscar Niemeyer - A vida é um Sopro", de Fabiano Maciel (2007); "Palavra encantada", de Helena Solberg (2009)

www.chicobuarque.com.br, com acréscimos. Ainda há itens não incluídos que estão em: http://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-194465/filmografia/

23 novembro, 2019

Marx improvisa

Harpo e Groucho

Nós nunca paramos de improvisar. Nunca houve duas apresentações iguais. Uma matinê, durante o segundo mês em Nova Iorque, eu fiz uma pequena surpresa para Groucho. Durante uma de suas cenas mais calmas, enquanto eu estava fora do palco, eu selecionei uma linda loira plateia, e perguntei se ela gostaria de ter um papel no espetáculo. Ela estava disposta a tanto. Eu disse a ela que tudo o que tinha de fazer era correr gritando pelo palco. Ela o fez, e eu corri atrás dela em plena perseguição, pulando e buzinando. Isso acabou com a cena de Groucho, mas quando as risadas diminuíram, Groucho estava pronto para superar a interrupção.
"Primeira vez que vi um táxi chamar um passageiro", disse ele.

- Harpo Marx, "Harpo fala!", 1961
(https://www.futilitycloset.com/2019/06/06/extempore/)

15 novembro, 2019

A palavra de Cambronne

Merda é uma palavra latina ainda hoje utilizada por falantes de várias línguas em sua forma original.
No século I d.C., o poeta Marcial já dizia:
Sed nemo potuit tangere: merda fuit. Tradução - Mas ninguém podia tocá-la: era [uma] merda.
No epigrama acima, completo, o que parecia ser uma torta era na verdade… uma merda. Estava quentinha e não podia ser tocada, o guloso a assopra e, quando vai meter-lhe os dedos, vê que é uma porcaria.
http://pt.quora.com/Ainda-existe-alguma-palavra-em-latim-que-%C3%A9-utilizada-atualmente-na-sua-forma-original

Os franceses, com sua proverbial elegância, se referem à "merde" (merda) como «le mot de cinq lettres» (a palavra de 5 letras), e também a chamam de "le mot de Cambronne", isto é, "a palavra de Cambronne".
O general francês estava sendo derrotado pelos britânicos... Mas Cambronne teria respondido: “A Guarda (Imperial) não se rende jamais!”
Os britânicos teriam insistido e ele teria respondido de forma lacônica: "Merde!"
Este evento foi retratado várias vezes na literatura francesa e até integrou canções de rap. Também apareceu como uma referência irônica nos Smurfs.
⇚ Pierre Cambrone escreve seu livro sobre a história da Inglaterra. Sátira antibritânica de Willete (1899)
https://twitter.com/arielpalacios/status/1082326723373531136

"Merde!"
No teatro, "merda" foi (talvez ainda seja) utilizado entre os atores de uma peça para desejar boa sorte ao entrar em cena.
Este costume veio da França pelo fato de o público ter acesso à casa teatral por meio de carruagens a cavalos que, muitas vezes, amontoavam fezes na entrada.
Haver muita merda na entrada do teatro era sinal do sucesso das apresentações
https://br.pinterest.com/pin/2533343524611825/?utm_campaign=category_pp&e_t=c3e20afa2efb4b86ba9d5196abd7671a&utm_content=2533343524611825&utm_source=31&utm_term=1&utm_medium=2012

https://blogdopg.blogspot.com/2011/01/merde.html
https://blogdopg.blogspot.com/2008/10/pour-pater-les-bourgeois.html
https://blogdopg.blogspot.com/2018/07/batidas-na-madeira.html

05 dezembro, 2018

A remontagem de "Roda Viva"

Em 1967, Chico Buarque fazia sua primeira incursão no teatro. Sua peça, "Roda Viva", estreou no Rio de Janeiro, em encenação dirigida por Zé Celso Martinez e estrelada por nomes como Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro.
O trabalho foi, antes de tudo, um marco na linguagem do teatro brasileiro. Por fazer, por exemplo, um retorno ao coro grego, incorporando-o diretamente na trama do personagem Benedito Silva, músico de sucesso inventado e fabricado pela mídia.
A repressão que sofreu em apresentações posteriores, em São Paulo e Porto Alegre, fez do espetáculo um marco na resistência à ditadura militar.

CHICO BUARQUE NO ENSAIO DE RODA VIVA (1967). ACERVO TEATRO OFICINA

Agora, meio século depois, dirigida pelo mesmo Zé Celso e com a montagem atualizada para alguns aspectos, a peça "Roda Viva" encontra-se em cartaz no Sesc Pompeia, de onde seguirá para uma temporada de apresentações no Teatro Oficina (www.teatroficina.com.br).

05 julho, 2018

O doente e a entrevista imaginários

O hipocondríaco Argan
Da biografia de Molière (1622-1673), um dos mais marcantes momentos foi sua morte, que se tornou lenda.
É dito que ele morreu em 17 de janeiro de 1673, aos cinquenta e um anos, durante a encenação de uma comédia de sua autoria, ironicamente intitulada, Malade Imaginaire (O doente imaginário), em que representava o papel principal. Na verdade, Molière apenas desmaiou no palco, ou melhor, tuberculoso, teve um ataque de hemoptise, expectoração sanguinolenta através da tosse, em cena aberta. Molière, porém, insistiu em terminar seu desempenho. Mas, em seguida, desabou de novo. O público imaginou tratar-se apenas de mais uma interpretação brilhante do grande ator e aplaudiu estrondosamente, enquanto Molière se curvava de sofrimento e perdia sangue pela boca. Depois de o pano cair, Molière foi levado agonizante para a sua casa de Paris, morrendo horas mais tarde, sem tomar os sacramentos já que dois padres se recusaram a dar-lhe a última visita, e o terceiro já chegou tarde. No momento de sua morte, Molière estava vestido de amarelo, o que gerou a superstição de que esta cor traz má sorte para os atores.
Para piorar as coisas, os atores (comediantes) da época não podiam, por lei, serem sepultados no solo sagrado de um cemitério, já que o clero considerava a profissão como mera "representação do falso". No entanto, a viúva de Molière, Armande, pede a Luís XIV que interceda em favor de seu cônjuge para que lhe seja permitido um funeral normal. O rei consegue obter do arcebispo a autorização para que o enterrem, durante a noite, na parte do cemitério reservado para crianças não batizadas.
Em 1792, os seus restos mortais são levados para o Museu dos Monumentos Franceses e, em 1817, transferidos para o cemitério do Père Lachaise, em Paris, ao lado da sepultura de La Fontaine.
MOLIÈRE: A MORTE NO PALCO
Crédito a Ricardo Sérgio, Recanto das Letras

Pensamentos mortais de Jean Molière
"A morte é o remédio para todos os males, mas só devemos utilizá-lo na última hora."
"Morre-se apenas uma vez, mas por tanto tempo!"
"Eu prefiro viver dois dias na terra do que mil anos na história."
"Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos."
"Aqui jaz o rei dos atores. Neste momento se faz de morto e o faz muito bem."
Blog EM e outros sites

Em 1957, você atuou na peça "Perdoa-me por Me Traíres", de sua autoria. Não teve medo de passar vergonha por não ser um ator profissional? 
Nelson Rodrigues Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando. Além do mais, o ator possui uma técnica, uma tarimba, um charme, que o envaidecem. Ao morrer em cena, não conseguem esconder sua satisfação ilimitada de estar morrendo tão bem. Não lhe ocorre que o personagem morreria mal, morreria pessimamente.
OS CRETINOS FUNDAMENTAIS DESPREZAM O BRASIL

30 janeiro, 2018

Romeu e Julieta



É uma bela história de amor entre adolescentes. Durou três dias e causou três assassinatos e dois suicídios.
Shakespeare matou bem mais que Nelson Rodrigues: 41 x 20.
Fonte: VIP

Imagem: Romeu e Julieta na cena do terraço, por Frank Dicksee, 1884.

09 julho, 2017

Hemoptises

1
O último ato da vida de Molière foi em 17 de fevereiro de 1673, numa noite de inverno. Menosprezando os conselhos dos médicos, que lhe diziam para ficar em repouso e não ir ao teatro, ele foi representar o hipocondríaco Argan em sua sua famosa peça, "Le Malade Imaginaire" ("O Doente Imaginário"), em que satirizava as práticas médicas de sua época. Quando recitava os versos da peça, Molière sofreu uma catastrófica hemoptise (de provável origem tuberculosa) no palco. Em seguida, enquanto a plateia delirava em aplausos, foi tomado por uma convulsão e levado para casa, onde morreu poucas horas depois.
2
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Pneumotórax. In: Poesia Completa e Prosa, de Manuel Bandeira
3
[...]
Jeje, tua boca do lixo
escarra o sangue
de outra hemoptise
no Canal do Mangue. [...]
Nação. In: A Arte de João Bosco (disco)


31 março, 2017

Honorificabilitudinitatibus

É a palavra mais longa utilizada por Shakespeare em sua obra. Aparece apenas uma vez, mencionada pelo personagem Costard, na cena I do ato V de "Love's Labour's Lost" (Trabalhos de Amor Perdidos).
Honorificabilitudinitatibus é dativo e ablativo plural da palavra latina honorificabilitudinitas, que pode ser traduzida como "o estado de ser capaz de alcançar honras".
É também a maior palavra a figurar no idioma inglês alternando consoantes com vogais.
Neste vídeo, um elenco tenta inutilmente pronunciar a tal palavra. Apenas um dos atores foi capaz de alcançar a honra..



No mínimo vai ficar com o papel de Costard .na próxima temporada da peça.

Poderá também gostar de ler: Palavronas

25 setembro, 2016

Com grande fôlego

Numa noite de 1866, a peça "Oonagh / The lovers of Lismona", de Edward Falconer, começou a ser apresentada no horário das sete e meia. À meia-noite, a maioria do público já havia deixado o teatro. Por volta das duas horas, apenas alguns críticos ainda estavam por lá – a dormir.
Às três horas da manhã, com a ação ainda está em andamento, a equipe de palco baixou as cortinas e a peça foi suspensa.

The Methuen Drama Dictionary of the Theatre, 2013. Página 296

Se as receitas de bilheteira forem ajustadas pela inflação, "Gone with the Wind" (... E o Vento Levou, duração: 3h58) ainda é o filme de maior bilheteria de todos os tempos, com ganhos de US $ 3,4 bilhões em dólares de 2014.
Após a estréia do filme em 1939, em Atlanta, o dramaturgo Moss Hart ligou para o produtor David O. Selznick e disse: "Ah, tudo bem, vá em frente e tenha um sucesso comercial VULGAR!"

Aeolistic, adj. COMO PRONUNCIAR
Tradução: com grande fôlego

05 setembro, 2016

Um dramaturgo à procura de um datilógrafo

Nesta fotomontagem feita pela agência Mondadori Portfolio, o dramaturgo italiano Luigi Pirandello(1867 - 1936), autor de Seis personagens à procura de um autor, dita um texto para si mesmo datilografar em uma máquina de escrever Underwood portátil.
Cada um a seu modo.
Pirandello encontrou o profissional que procurava. Assim é se lhe parece.

http://jornalggn.com.br/noticia/26-escritores-e-suas-maquinas-de-escrever

Os grifos da nota acima referem-se a títulos de peças de Pirandello.



01 agosto, 2016

Quem fratura um dedo fatura um amigo

Ellen Terry, aos 16 anos de idade
Em 1856, Ellen Terry, aos 10 anos de idade, estava prestes a dizer a fala final de Puck, em "Sonho de Uma Noite de Verão", de Shakespeare, quando um assistente de palco fechou um alçapão sobre seu pé, quebrando-lhe o hálux, vulgo dedo grande do pé. Ela gritou, e a gerente Ellen Kean ofereceu dobrar seu salário se ela terminasse a representação.
Assim, apoiada por Kean de um lado e por sua irmã Kate, por outro, ela recitou o monólogo.
"Como eu consegui, não sei!", escreveu Ellen em seu livro de memórias, de 1908. "Mas meu salário foi duplicado – de quinze xelins para trinta – e Mr. Skey, diretor do Bartolomew's Hospital, que estava por lá, naquela mesma noite foi até os bastidores para recolocar o meu dedo do pé no lugar certo. Ele ficou sendo meu amigo pela vida toda".
Fratura do hálux
http://www.clinicadeckers.com.br/html/orientacoes/ortopedia/109_fratura-halux.html
Por que nós ainda temos os dedos dos pés?
Sério, por quê? Eles são péssimos para pegar as coisas, quebram facilmente, e eles parecem, em um sentido puramente estético, meio estranhos.
Ler no Acta Obscura.
Nomenclatura
http://blogdopg.blogspot.com.br/2014/06/nomenclatura-para-os-dedos-do-pe.html

27 janeiro, 2014

A origem dos robôs

Em 1921, o checo Karel Capek escreveu uma peça de teatro chamada R.U.R., iniciais de "Rossum's Universal Robots".
A peça conta a história de um cientista brilhante, chamado Rossum, que constrói humanoides (robôs), com o intuito de que sejam obedientes e realizem todo o trabalho físico.
A peça introduziu a palavra robô, que deslocou palavras mais antigas como "autômato"ou "androide", nas línguas ao redor do mundo. Em um artigo, que escreveu posteriormente, Karel Capek nomeou o seu irmão Josef, também escritor, como o verdadeiro inventor dessa palavra. Robô, ou robota como a palavra foi criada em checo, significa trabalho forçado ou escravo.
Para finalizar a nota, um trecho da R.U.R., de Karel Capek, que traduzi da versão inglesa:
DR. GALL: Você vê, tantos robôs estão sendo fabricados que as pessoas estão se tornando supérfluas; o homem é realmente um sobrevivente. Mas ele deve começar a morrer, depois de uns reles trinta anos de competição. Essa é a parte terrível! Você pode pensar que a natureza foi afetada com a fabricação dos robôs. Todas as universidades estão enviando petições para restringir sua produção. Caso contrário, dizem eles, a humanidade será extinta por falta de reprodução. Mas os acionistas da R.U.R., é claro, não vão ouvi-los. Todos os governos, por outro lado, estão clamando por um aumento na produção para elevar os padrões de seus exércitos. E todos os fabricantes do mundo está requisitando robôs como loucos.
HELENA: E não tem ninguém exigindo que a fabricação cesse por completo?
DR. GALL: Ninguém tem a coragem.
HELENA: Coragem!
DR. GALL: As pessoas iriam apedrejá-lo até a morte. Você vê, afinal, é mais conveniente contar com o trabalho feito pelos robôs.
HELENA: Ah, doutor, o que vai acontecer com as pessoas?
DR. GALL: Deus sabe, Helena. Parece-nos, a nós cientistas, com o fim!

08/02/2015 - Atualizando...
Vídeo ROBÔS NO CINEMA

02 novembro, 2013

Memento mori

É uma expressão latina que significa "lembre-se de que você vai morrer" ou, traduzida ao pé-da-letra, "lembre-se da morte". Este tipo de pensamento é muito utilizado em literatura, principalmente em literatura barroca, e no teatro.


Quando o compositor polaco André Tchaikowsky morreu em 1982, ele deixou o seu crânio para a Royal Shakespeare Company na esperança de que ele poderia aparecer como Yorick em uma produção de "Hamlet".
Ninguém se sentia à vontade para cumprir esse desejo até que David Tennant usou o crânio numa apresentação em Stratford-upon-Avon em 2008. Ele continuou a usá-lo durante muito tempo, inclusive em uma adaptação de "Hamlet" para a televisão.
"O crânio de André era um profundo memento mori, o que talvez nenhum outro crânio conseguisse representar", disse o diretor Gregory Doran. "Espero que outras produções possam, com o maior respeito por André, a continuar usando o seu crânio como ele pretendia que fosse utilizado, precisamente para esse efeito."

Bis, Futility Closet
Para ler ou não ler
Matar ou morrer, Um esqueleto para Michael Jackson, O Guinness-YouTube e A Morte

02 junho, 2013

♪Mulheres de Atenas♪

Da peça "Mulheres de Atenas", do dramaturgo Augusto Boal, a qual foi baseada na obra "Lisístrata", do comediógrafo grego Aristófanes (447 a.C. - 385 a.C.).
Na época em que foi escrita, Atenas atravessava um período difícil de sua história. Abandonados por seus aliados, os atenienses tinham, ao redor das muralhas de suas cidades, as tropas de Esparta. Essa luta fratricida enfraquecia a Grécia, pondo-a à mercê dos persas e medos. A peça de Aristófanes, faz uma crítica severa a essa guerra, envolvendo as mulheres das cidades gregas na Guerra do Peloponeso, lideradas pela ateniense Lisístrata, que decidem instituir uma "greve dos joelhos colados" até que seus maridos parem a luta e estabeleçam a paz. No final, graças às mulheres, as duas cidades celebram a paz.
Boal tinha pedido a Chico, que fizesse algumas músicas para a peça, que ainda não tinha nome. Chico compôs "Mulheres de Atenas", que foi lançada antes de a peça ir a cartaz, fazendo enorme sucesso. E Boal não pensou duas vezes: colocou em sua peça o mesmo nome da música de Chico.

Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade;
Têm medo apenas.
Não tem sonhos, só tem presságios.
O seu homem, mares, naufrágios...
Lindas sirenas, morenas.



Analisem. Como poderia um homem entender tanto da alma das mulheres, de sua posição perante o tempo, e suas ânsias mais profundas? Ou sendo um gênio ou uma mulher. Genial, Chico é. Será que seria, também, uma mulher?
Comentário extraído de O caminho da mulher em Chico Buarque, artigo de Luiz Guilherme Libório, publicado no site Obvious.


Chico, ao ler o artigo do Libório, se preparando para defender sua vaga masculinidade