Mostrando postagens com marcador censura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador censura. Mostrar todas as postagens

17 julho, 2026

Estratégias da imprensa brasileira para sinalizar a censura durante a ditadura militar

Durante esse período, diversos jornais brasileiros desenvolveram estratégias criativas para sinalizar a censura sem confrontá-la diretamente. Enquanto O Estado de S. Paulo publicava receitas culinárias no lugar de notícias censuradas e a Folha de S.Paulo utilizava trechos de "Os Lusíadas" e outros poemas clássicos. Foram tantas as matérias censuradas que o jornal acabaria publicando duas vezes os 8.116 versos do poema quinhentista de Luís de Camões, entre dezembro de 1969 e janeiro de 1975, quando finalmente os censores saíram da redação.
Já o Diario de Pernambuco optou por uma abordagem diferente: a publicação de narrativas ficcionais sobre eventos sobrenaturais. Fundado em 1825 e reconhecido como o jornal diário em circulação mais antigo da América Latina, o Diario de Pernambuco enfrentava dificuldades para preencher seus espaços editoriais devido ao corte sistemático de matérias pelos censores. Então, em dezembro de 1975, começou a publicar uma série de matérias relatando o suposto aparecimento de uma "perna fantasma" no bairro de Tiúma.
A criatura era descrita como uma perna humana decepada, coberta por pelos escuros e espessos, que se movia autonomamente pelas ruas da cidade, atacando transeuntes com rasteiras e chutes durante a noite. Considerada uma das lendas urbanas mais conhecidas do imaginário recifense, foi reapropriada ao longo das décadas em diversas adaptações culturais, inclusive no filme "O Agente Secreto" (2025), que a incorporou como um elemento narrativo central.
Estratégia do Pasquim 
Ao terminar a censura prévia a que estavam submetidos, os editores do semanário  O Pasquim adotaram o recurso de inserir na publicação um selo com a seguinte mensagem:

ENQUANTO VOCÊ ENCONTRAR 
ESTE SELO
O PASQUIM CONTINUA 
SEM CENSURA PRÉVIA

Era uma forma de avisar seus leitores de que estaria havendo o recrudescimento da censura.

19 fevereiro, 2025

O branqueamento das escolas militares nos Estados Unidos

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América está impondo um regime de censura abrangente em sua rede de 161 escolas primárias e secundárias — eliminando conteúdo que reconheça as contribuições de mulheres, minorias e pessoas LGBTQ+.
As restrições pretendem implementar ordens executivas do presidente Trump, incluindo "Defender as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurar a verdade biológica ao governo federal" e "Acabar com a doutrinação radical na educação básica". A repressão ao discurso é considerado importante, não apenas porque afeta 67.000 alunos de famílias militares, mas porque provavelmente reflete uma agenda que o governo Trump tentará impor a todas as escolas públicas.
O memorando cancela "todos os eventos especiais planejados e atividades não instrucionais relacionadas a observâncias de conscientização cultural". Isso significa que as escolas estão proibidas de celebrar o Mês da História Negra, o Mês da História das Mulheres, o Mês do Orgulho, o Mês da Herança Hispânica, o Mês da Herança Indígena Americana e outros eventos.
Como parte do cumprimento da diretriz, algumas escolas estão removendo pôsteres e conteúdo de mídia social que homenageiam mulheres e pessoas de cor. Uma escola militar, de acordo com o congressista Jamie Raskin, "removeu fotos das paredes de Susan B. Anthony e Dr. Martin Luther King Jr.".
Extraído de:
The whitewashing of military schools. In: Popular.Info

18 fevereiro, 2023

Tableau vivant

Aqui está uma arte perdida: o tableau vivant, ou "quadro vivo", era uma forma de entretenimento popular em que os atores faziam poses, mas não falavam nem se moviam.
Este apresenta o elenco original do balé de Tchaikovsky, "A Bela Adormecida":

http://www.futilitycloset.com/2021/11/03/freeze/

O tableau vivant formava uma espécie de ponte viva entre a pintura e o palco, representando momentos dramáticos em três dimensões que poderiam ser estudados e admirados como parte do mundo real. Às vezes, as histórias eram contadas por meio de uma série de quadros conectados, uma técnica que acabaria por levar aos storyboards e histórias em quadrinhos modernos.
A forma também inspirou uma prática curiosa: as leis de censura na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos proibiam as atrizes de subir no palco sem roupas, então os expositores passaram a apresentar mulheres nuas em tableaux vivants, imitando obras de arte clássica. Os apresentadores podiam alegar que isso era edificante, o público tinha seu entretenimento erótico e a arte triunfava - desde que as mulheres não se mexessem.

Voluptas mors - com sete mulheres nuas

20 novembro, 2022

Tiro ao Álvaro

1960 "Tiro ao Álvaro" foi composta por Adoniran e seu produtor Oswaldo Moles.

1973 Junto com outras canções de Adoniran, "Tiro ao Álvaro" foi censurada. A Censura expressou-se assim: "Letras com palavras incorretas e que brincam com a oralidade de São Paulo". Para que pussese ser aprovada tinha que virar "Tiro ao Alvo" e as palavras "tauba", "automorve" e "revorve" deveriam ser corrigidas. Adoniran, que fazia os sambas para o povo - e era desse jeito, coloquialmente, que o povo se expressava-, preferiu guardar suas canções a ter de adequá-las.

1978 "Tiro ao Álvaro" voltou à cena. Desta vez, no histórico encontro de Adoniran Barbosa com Elis Regina no Bar da Carmela, no Bixiga, em São Paulo. Adoniran elogiou a cantora, dizendo: "Não é por que o samba é meu mas você canta como eu quero, você leva a sério as coisas e não fica fazendo gracinha, e não tem graça o samba, é um drama, é um drama..."

1990 O grupo Demônios da Garoa grava pela Copacabana "Tiro ao Álvaro" no LP "Esses Divinos Demônios da Garoa".

Transcrito de: "Censura na Música Brasileira", vídeo por Badi Assad, com inclusão de outras fontes.


O Dona Carmela não existe mais. Junto com imóveis vizinhos, foi demolido, cedendo espaço para um grande estacionamento. Pois, então. São Paulo não tem um personagem mais amado, em sua história, do que Adoniran Barbosa. A gaúcha Elis Regina projetou-se, a partir de São Paulo, como a maior cantora brasileira de todos os tempos. O cantinho deles deveria ter sido guardado, como algo quase sagrado, como as fotografias de nossos mais queridos antepassados.

18 julho, 2021

A polêmica peça "Roda Viva"

A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que sente / O quanto deixou de cumprir.
Primeira obra para teatro de Chico Buarque, Roda Viva é uma comédia musical em dois atos e título da canção que dá nome à peça. Estreia no Rio de Janeiro, em 1968, como uma crítica contundente à sociedade de consumo e à violência institucional. Lançada no ano de acirramento da censura praticada pela ditadura civil-militar brasileira, é considerada um marco da luta artística por liberdade de expressão.
O enredo acompanha a transformação de Benedito da Silva, um cidadão comum, em Ben Silver, ídolo pop fabricado na esteira do sucesso dos festivais de música e da crescente massificação cultural, que submete os corpos à roda viva das engrenagens capitalistas. Ben Silver é lançado como cantor de iê-iê-iê (rock), mas aderindo às novas tendências, transforma-se em compositor engajado, rebatizado de Benedito Lampião, até ser descartado pela indústria de entretenimento e substituído pela namorada Juliana, que adere à Tropicália.
Em São Paulo, na noite de 18 de julho de 1968, no Teatro Ruth Escobar, a sala Galpão é invadida por um grupo de homens do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que depredam o espaço, agridem os artistas e destroem equipamentos. Em setembro do mesmo ano, em Porto Alegre, os atores são brutalmente agredidos no hotel onde estão hospedados, e a peça é censurada.


Por décadas, Chico Buarque não autorizou novas montagens da peça. Em 2018, entretanto, o diretor José Celso obteve autorização do compositor para que o Teatro Oficina Uzyna Uzona faça a remontagem do musical. A nova versão manteve a crítica política, mas a agressividade dirigida ao público deu lugar a uma conjunção celebratória.

RODA Viva. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento405843/roda-viva. Acesso em: 04 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.ISBN: 978-85-7979-060-7

A remontagem de Roda Viva, em 2018 (50 anos após).

13 junho, 2021

Jorge Maravilha. Versão Playmobille



Sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, esta canção foi enviada por Chico Buarque à Polícia Federal, em 1974.
Os intérpretes de entrelinhas logo vislumbraram na letra uma referência ao general Geisel ("você não gosta de mim"), cuja filha, Amália Lucy ("mas sua filha gosta"), manifestara admiração pelas obras do autor.
Respondendo à questão em 2007 para a revista Almanaque, Chico disse:
"Nunca fiz a música pensando na filha do Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado ou do outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhe passaram pela cabeça. Achavam que a maioria dos artistas só fazia música pensando em derrubar o governo."
Em 1975, uma matéria sobre censura publicada no Jornal do Brasil revelou que Julinho da Adelaide e Chico Buarque eram a mesma pessoa. A partir de então a Polícia Federal passou a exigir cópias do RG e CPF dos autores.

Homem, Wagner. Histórias de Canções: Chico Buarque / Wagner Homem. São Paulo: Leya, 2009. pp.126–128

25 abril, 2021

Bolsa de Amores

Composição de Chico Buarque (a pedido de Mário Reis, que a gravou em 1971). 
Brincando com o amigo, Chico fala de uma desilusão amorosa, utilizando-se do jargão da Bolsa de Valores. A canção foi censurada.
"... uma música que eu fiz pro Mário Reis e que não era nada, e eles proibiram alegando que era uma ofensa à mulher brasileira. Chamava-se Bolsa de Amores. Era uma brincadeira que eu fiz com o Mário Reis, porque ele gostava muito de jogar na bolsa..." (de uma entrevista do compositor para Geraldo Leite, da Radio Eldorado).


"Mário Reis, o homem que ensinou o brasileiro a cantar"
O carioca Mário Reis (1907- 1981) é, para a maioria das pessoas, um personagem musical encoberto de poeira, traças e esquecimento. Mas, para seu primeiro biógrafo, o jornalista Luís Antônio Giron, ele merece as 320 páginas de "Mario Reis - O Fino do Samba" por ser uma daquelas raras figuras paradigmáticas que alteram para sempre o rumo da arte em que dão de se intrometer.(...) Ele criou uma nova fonética para o samba, um coloquialismo na forma de dividir as frases que se opôs à maneira italiana, empostada, de cantar.
http://feeds.folha.uol.com.br
Mário Reis é considerado um dos precursores da bossa nova. Seu modo peculiar de cantar possivelmente influenciou o de João.

17 janeiro, 2021

Tamandaré

Proibida pela censura — considerada ofensiva ao almirante Tamandaré, cuja figura era estampada nas notas de 1 cruzeiro, e para quem Chico Buarque perguntava:
"...Meu marquês de papel, cadê teu troféu? Cadê teu valor? Meu caro almirante, o tempo inconstante roubou..."
— esta música permaneceu proibida até o ano de 1991, quando foi gravada pela Quarteto em Cy.


"E já que o assunto da semana foi a nova nota de R$ 200 com o lobo-guará, minha thread musical deste sábado (01/08/2020) é sobre a história da moeda brasileira contada (ou melhor cantada) pela MPB."
@BrunoCarazza
Siga o fio!

06 dezembro, 2019

A censura prévia no Pasquim

Nascido em junho de 1969, o jornal satírico O Pasquim esteve sob censura até 1975.
A primeira manifestação concreta da censura ocorreu em 1970, ao ser publicada no semanário uma reprodução de uma pintura de Pedro Américo ,"Independência ou Morte", realizada em 1888. O caricaturista e jornalista Jaguar, um dos criadores do Pasquim, usou uma reprodução do quadro que consagrou "a participação de Pedro Américo na montagem de um imaginário particularmente importante na construção simbólica do regime político, sobretudo em momentos de redefinição da identidade nacional". Jaguar transformou a imagem inicial e fez Dom Pedro I  dizer "Eu quero mocotó", referindo-se a uma canção de Erlon Chaves e Jorge BenJor, de 1970.
Após esse evento, o jornal contou com a presença física de censores dentro da redação, ao lado dos jornalistas, para vigiar e cortar as matérias antes mesmo da edição. A partir de 1974, a sede da censura mudou para Brasília, aonde o jornal tinha que mandar as matérias para a censura prévia, o que ocasionava inúmeros problemas técnicos e financeiros para a redação.
Alvos da censura, os desenhistas da redação do Pasquim rapidamente passaram a criticá-la, de
forma humorística, poética, irônica ou cínica. Uma charge, do Millôr Fernandes, representava a ação dos censores, os protagonistas de muitos desenhos e muitas críticas, pois a presença deles impactava de forma direta e concreta no trabalho cotidiano dos jornalistas. Aqui, sob o lápis irônico do Millôr, os responsáveis pela verificação dos conteúdos se empurram para poder ver as matérias, como se fosse um espetáculo. Uma inversão, portanto, opera-se na atitude dos censores, que manifestam um forte interesse pelas produções que teriam de criticar, denunciar e cortar.
Em 1977, Millôr Fernandes, ao comentar os anos de trabalho marcados pela censura nessa publicação, disse:
"Foram 300 semanas de um jornalismo aventuroso, com alguns momentos de extrema euforia e a maior parte de depressão e angústia diante da perseguição violenta e constante. Pois, dos seis anos quase completos que eu trabalhei no Pasquim, mais de cinco foram sob a bengala branca da censura mais cega que já existiu neste país – e eu sei bem do que falo."
Ao terminar a censura prévia a que estavam submetidos, os editores de O PASQUIM adotaram o recurso de inserir na publicação um selo com a seguinte mensagem:
ENQUANTO VOCÊ ENCONTRAR ESTE SELO
O PASQUIM CONTINUA SEM CENSURA PRÉVIA.
Era uma forma de avisar seus leitores de que estaria havendo recrudescimento da censura.
Webgrafia
Mélanie Toulhoat. Usos políticos do humor gráfico nas páginas do jornal Pasquim sob censura (1969-1975). FAFICH. II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS, Jun 2013, Belo Horizonte, Brazil. 2013, Anais Eletrônicos do II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS.
Censura Lendo o Material do Pasquim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Acesso em: 19 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Blog EM. https://blogdopg.blogspot.com/2019/04/eu-quero-mocoto.html

Ler também: O Pasquim e a MPB

08 novembro, 2019

Gregório Duvivier: esse governo é um pré-sal da estupidez

O ator e humorista participou de audiência pública no STF (Supremo Tribunal Federal) nesta 2ª feira (4.out.2019) sobre o Conselho Superior do Cinema.



[Trechos iniciais] Eu queria começar falando de São Lourenço, padroeiro dos humoristas. Pouca gente sabe que São Lourenço morreu na grelha por uma piadinha. São Lourenço fez uma gracinha. O imperador de Roma pediu que entregasse todas as riquezas da Igreja, e Lourenço foi ao imperador, com uma multidão de pobres, e disse: "eis a maior riqueza da igreja". E foi condenado à grelha. Na grelha, ardendo em chamas, deitado sobre a grelha, e já ardendo quase morto, ele ainda se vira para o carrasco e diz: "pode virar que este lado já está bom". Por essa, São Lourenço é o padroeiro dos humoristas e dos cozinheiros (e dos churrasqueiros também). Eu sou devoto de São Lourenço, apesar de ateu.
Eu aprendi com ele que o humorista não pode ter medo, que o humor não convive com o medo. Então, eu não tenho medo nem da morte, eu vou ter da censura? Ao contrário, eu quero agradecer aos censores, sim, porque não tem nada melhor para a classe dos humoristas do que a figura dos censores. Não há nada mais patético, mais risível, mais ridículo, mais propício a piadas do que essa contradição humana, que é o sujeito pudico que passa o dia à procura de sacanagem. É um beato que passa o dia inteiro à procura de um pinto. Ele acorda, ele se senta à sua mesa, ele põe os óculos e pega uma caneta e, até o final do dia, ele procurará mamilos, riscará petecas, sublinhará a bilaus. É isso que ele faz na vida.
Ele é um sujeito que se dedica a procurar a obscenidade. É um sujeito que, para escolher essa profissão, precisa ser no mínimo um pervertido. Ele quer a sacanagem só para ele e não deixa que ninguém mais veja. Pior, ele sugere arremedos que sempre pioram o objeto censurado. Tanto é que a história se encarrega de esquecê-los. Nelson Rodrigues, Chico Buarque, Caetano Veloso, Graciliano Ramos, Cassandra Rios, Érico Veríssimo - todos censurados! Alguém se lembra do nome dos censores? Ninguém. Não há sequer um beco em homenagem a eles. Ele está no último dos círculos do inferno de Dante.
Segundo o atual diretor de artes cênicas da Funarte, os artistas estão "deturpando os valores mais nobres da nossa civilização, propagando suas nefastas agendas progressistas, denegrindo nossa sagrada herança judaico-cristã". É graças a gente como ele que eu tenho um emprego garantido pelos próximos três anos, porque esse governo é um pré-sal da estupidez. Então, nesse processo de "damarisação" do Brasil, alguns choram, outros vendem lenço. Eu estou vendendo lenços, mas o mesmo não pode ser dito dos artistas que não vivem do ridículo alheio e que são muitos. Esses, sim, correm um sério risco, porque toda arte que presta (um dia) na história foi considerado nefasta. [. . .]

20 abril, 2019

Eu quero mocotó!


Em novembro de 1970, a maior parte da redação de "O Pasquim" foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga (de autoria de Pedro Américo). Os militares esperavam que o semanário saísse de circulação pela subsequente perda do interesse de seus leitores.
Mas, durante todo o período em que a equipe esteve encarcerada — até fevereiro de 1971 — "O Pasquim" foi mantido sob a editoria de Millôr Fernandes (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e outros intelectuais.
As prisões continuariam nos anos seguintes. E o hebdomadário havia sido, acrescente-se aqui, alvo de dois atentados a bomba, uma em março de 1970, a outra em maio. Na década de 1980, as bancas que vendiam jornais alternativos como "O Pasquim", "Opinião" e "Movimento" passaram também a ser alvos de atentados a bomba.
Aproximadamente metade dos pontos de venda decidiu não mais repassar a publicação, temendo ameaças. Era o início do fim para o Pasquim. [WIKI]
Abaixo, a história da canção de Jorge Ben que, por ter o refrão mencionado no balão de fala de Dom Pedro, causou a prisão da maior parte da redação de "O Pasquim". "Uma coisa é certa: lá dentro deve estar muito mais engraçado do que aqui fora”, que foi como alguém comentou numa edição remanescente do semanário.


15 dezembro, 2018

HTTP 451

Em redes de computadores, HTTP 451 Unavailable For Legal Reasons (Indisponível Por Razões Legais) é um código de status de erro do protocolo HTTP, a ser exibido quando o usuário solicitar um material ilegal, como uma página web censurada pelo governo. O número 451 é uma referência à novela distópica Fahrenheit 451, escrita por Ray Bradbury em 1953, na qual livros são ilegais. O 451 pode ser descrito como uma variante mais descritiva do 403 Forbidden (Proibido).

10 setembro, 2018

Não, Dona Solange de novo, não

Na ditadura militar, segundo o filósofo Raulzito, existia um "Dicionário da Censura". Lá constavam as seguintes palavras proibidas em músicas: povo, gente, universidade...
Aí, depois de uma música do Raul Seixas, passou a constar no tal Dicionário" a palavra "aranha". Proibidíssima.
Rock das Aranhas: https://youtu.be/L9H0BfvlLFQ
Agora, proibiram a palavra "Lula" nas propagandas eleitorais. Tornou-se também uma palavra proibidíssima.
E nem sabemos se já existe um novo "Dicionário da Censura". Ou se apenas ampliaram o antigo.

Fernando Gurgel Filho

21 novembro, 2017

Chico Buarque e seu apoio à FNCC

Jornal GGN – Chico Buarque declarou apoio à Frente Nacional Contra a Censura - FNCC, que será realidade no dia 21, quando será lançada em Belo Horizonte. O evento se dará no Palácio das Artes. Chico saúda o movimento e afirma ser necessário que artistas, bem como brasileiros esclarecidos em geral, se manifestem enquanto é tempo. A escalada dos movimentos ditos conservadores, mas que na realidade são fascistas é grande, e é preciso reagir.
Esses movimentos conservadores se valem de intimidação e de violência, tanto nas ruas quanto nas redes sociais, contra a liberdade de expressão, disse Chico. E, nos últimos meses, eles, os fascistas travestidos de moralistas, iniciaram uma cruzada moralista para cobrir as reais intenções, que é desviar a atenção do público para isso enquanto o Brasil é desmontado por Temer e sua patota. O Brasil vai sendo dilapidado. (*)
A Frente Nacional Contra a Censura publicou mensagem no Facebook que explica bem a que veio e o próximo evento em Belo Horizonte.
(*) "O golpe tem três eixos: retirar direitos, entregar riquezas e proteger corruptos." ~ Erika Kokay (PT - DF), entrevista à TV 247

"Passando por cima de direitos democráticos elementares; a onda obscurantista que assola o País vem condenando exposições, peças de teatro, apresentações de dança, shows e outras atividades artísticas e culturais e promove retrocessos em vários aspectos da vida nacional. Tal movimento visa controlar e cercear as liberdades de pensamento, de criação e manifestação artística legítimas de nosso povo.
Seguindo esse caminho de resistência, entidades da sociedade civil, intelectuais, artistas, personalidades e ativistas de diversas áreas e segmentos democráticos em âmbito nacional estão articulando uma – Frente Nacional Contra a Censura – a ser lançada formalmente no dia 21 de novembro, no Palácio das Artes."


N. do E.
Mata-burros são dispositivos que impedem a fuga de animais nas propriedades rurais, mesmo quando a porteira está aberta.

16 outubro, 2016

O fogo da história

O professor Rogério Cezar Cerqueira Leite responde ao juiz Sérgio Moro, que questionou seu artigo Desvendando Moro:
"Respondo aqui ao juiz Sergio Moro, embora ele não tenha se rebaixado à responder a um simples plebeu, preferindo incitar a Folha a censurar meus artigos. Acusa-me o juiz de promover atos de violência. O fogo a que me refiro é o fogo da história. Intelectos condicionados por princípios de intolerância não percebem a diferença entre metáforas e ações concretas. O juiz ainda se esquiva de responder à principal acusação que lhe faço, a de que é absolutamente parcial e está a serviço das classes dominantes."
– Rogério Cezar de Cerqueira Leite, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha.
"Moro presta um serviço fundamental à mídia. Os vazamentos da Lava Jato são ouro. No pacote, foi transformado no Batman. De mentirinha, claro.O problema é que ele acreditou. A ponto de sugerir a um jornal o que ele deve ou não dar. Abusou. Achou que estava acima do bem e do mal e se queimou. O cristal se quebrou. E nada indica que ele vá parar por aí.Ah, sim. Antes que alguém me entenda mal: “se queimou” é figura de linguagem."
– A tréplica do autor do artigo sobre Moro mostra que sua lua de mel com a mídia está no fim. Por Kiko Nogueira, DCM
"O artigo de Cerqueira Leite foi mais uma opinião no grande debate aberto pela Operação Lava Jato. A contrariedade de Moro produziu uma surpresa: há algo de Savonarola no seu sistema."
– Elio Gaspari, Folha de SP
"Nada mais importa à Justiça brasileira porque o que importa em qualquer Judiciário já lhe falta – muito e há tempos: independência e equilíbrio." 
– Fernando Brito, do Tijolaço

22/06/2019 - Atualizando ...
"Quando Savonarola saiu do fundamentalismo moralista e se meteu nos negócios sucessórios do Vaticano foi queimado no mesmo local onde queimou tantos 'infieis'.Na frente do Palazzo Vecchio."
– Roberto Requião, no Twitter

14 setembro, 2013

Manifesto dos intelectuais brasileiros contra a censura às biografias

Vi no Blog do Marcelo Gurgel a notícia da leitura pelo jornalista e escritor Ruy Castro (foto), na Bienal do Livro do Rio, dia 7, do manifesto contra a censura às biografias (abaixo), que foi assinado por 45 intelectuais brasileiros:
Desde o século XIX, a Biografia teve papel importante na construção da nossa ideia de Nação, imortalizando personagens e ajudando a consolidar um patrimônio de símbolos e tradições nacionais.
Mais recentemente, na segunda metade do século XX, a Biografia ganhou outra dimensão: além de relatar os feitos dos grandes nomes, transformou o personagem em testemunha de sua época. A Biografia moderna não é só a história de uma pessoa, mas também de uma época, vista através da vida daquela pessoa.
No Brasil, tal forma de manifestação encontra-se em risco, em virtude da proliferação da censura privada, que é a proibição das biografias não autorizadas.
A ninguém é dado impedir a livre expressão intelectual ou artística de outro, garantia consagrada na Constituição democrática de 1988, que baniu definitivamente a censura entre nós. Por isso, não faz sentido exigir-se o consentimento prévio da personalidade pública cuja trajetória um autor ou historiador pretende relatar (e, menos ainda, exigir-se a autorização de seus familiares, quando já falecido o biografado), como condição para a publicação de Biografias.
É apropriado que a lei proteja o direito à privacidade. Mas este direito deve ser complementado pela proteção do acesso às informações de relevância para a coletividade, na forma de tratamento distinto nos casos de figuras de dimensão pública, os chamados protagonistas da História: chefes de Estado e lideranças políticas, grandes nomes das artes, da ciência e dos esportes.
O Brasil é a única grande democracia na qual a publicação de Biografias de personalidades públicas depende de prévia autorização do biografado. Um país que só permite a circulação de biografias autorizadas reduz a sua historiografia à versão dos protagonistas da vida política, econômica, social e artística. Uma espécie de monopólio da História, típico de regimes totalitários.
Este erro produz efeito devastador sobre a atividade editorial. A necessidade do consentimento prévio das pessoas retratadas nas obras cria um balcão de negócios de valores vultosos, em que informações sobre a nossa História são vendidas como mercadorias.
Há um efeito ainda mais grave no que tange à construção da memória coletiva do país. O conhecimento da História é um direito da cidadania, independentemente de censura ou licença, do Estado ou dos personagens envolvidos. O ordenamento jurídico deve assegurar pluralidade, cabendo à sociedade e ao cidadão formarem livremente sua convicção.
É pertinente lembrar que a dispensa do consentimento prévio do biografado não confere ao autor imunidade sobre as consequências do que escrever. Em casos de abuso de direito e de uso de informação falsa e ofensiva à honra, a lei já contém os mecanismos inibidores e as punições adequadas à proteção dos direitos da personalidade.
Hoje, quando a sociedade clama pela ética e pela plena liberdade de expressão, está mais do que na hora de eliminar este entulho autoritário e permitir novamente que os brasileiros possam ter acesso à sua própria História.
Assim, os intelectuais brasileiros apoiam as iniciativas legislativas e judiciais voltadas à correção dessa anomalia do ordenamento jurídico brasileiro, de maneira a permitir a publicação e a veiculação de obras biográficas sobre os protagonistas da nossa História, independentemente da autorização dos personagens nelas retratados.
Assinam:
Alexei Bueno, Ana Maria Machado, Antonio Torres, Carlos Heitor Cony, Eduardo Portella, Fernando Morais, João Ubaldo, Lira Neto, Luis Fernando Veríssimo, Nelson Pereira dos Santos, Roberto da Matta, Roberto Toledo, Ruy Castro, Sergio Rouanet, Ziraldo Pinto e Zuenir Ventura, entre outros.

29 junho, 2012

Error 451

Um novo status para a censura na rede em homenagem a Bradbury
Tim Bray, da Google, apresentou uma proposta oficial para introduzir uma nova mensagem de erro na internet que indique a restrição de accesso a um sítio por razões legais.
Error 451, é um código HTTP em tributo a Ray Bradbury e inspirado em sua obra-prima “Fahrenheit 451", cujo enredo se desenvolve no futuro onde todos os livros são proibidos.
A existência de um código de HTTP para a censura é necessária em um mundo onde a censura técnica acontece com uma frequência cada vez maior, por causa da ignorância generalizada de governos e de fracos sistemas de justiça, que, muitas vezes, sucumbem à pressão de monopólios intelectuais.
Geraldine Juarez, ALT1040



Ray Douglas Bradbury foi um escritor de ficção científica, nascido nos EUA e de ascendência sueca. Morreu recentemente (6 de junho de 2012), aos 91 anos, de causas não divulgadas. É conhecido principalmente por suas obras "The Martian Chronicles" (Crônicas Marcianas), de 1950, e "Fahrenheit 451", de 1953.
«Há coisas piores do que queimar livros, uma delas é não os ler.»
Ray Bradbury foi homenageado neste blog com a publicação de uma coletânea de frases que falam de seu profundo amor ao conhecimento.