“Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!”
(Castro Alves)
Existem dois métodos para digitalizar livros, um dos quais não implica a destruição do exemplar, pois utiliza escâneres planos ou dispositivos em forma de V que digitalizam as páginas sem desmontar a encadernação. O outro é o "procedimento destrutivo", basicamente um processo que começa com o corte da lombada para que as folhas fiquem soltas. Em seguida, estando as folhas já separadas, são estas introduzidas em escâneres industriais de alta velocidade, que as digitalizam de forma automática e muito mais rapidamente.Digitalizar livros permite preservar os textos escritos ao longo da história humana, mas o objetivo principal (pelo menos no caso da companhia Anthropic) parece obedecer mais ao treinamento da inteligência artificial do que a um espírito de conservação.
A Anthropic, dona do assistente de IA Claude, entre 2024 e 2025 manteve uma operação interna batizada de "Projeto Panamá" para escanear destrutivamente livros físicos — cortando lombadas e triturando as respectivas folhas após a digitalização. Documento interno vazado à época definia o objetivo como "escanear destrutivamente todos os livros do mundo" e pedia sigilo: "não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso".Em agosto de 2025, a Anthropic aceitou pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar uma ação de autores — mas por causa dos livros piratas, não dos comprados e destruídos, que a Justiça americana considerou uso legítimo.
Por que isso importa: a decisão judicial transformou "comprar e destruir livro raro" numa estratégia legalmente incentivada, que disparou um mercado global de compra em massa de assustar livreiros na Europa e na Oceania.
A lógica por trás da operação é o ponto mais revelador. Segundo os documentos, executivos da Anthropic buscavam livros anteriores à era digital porque queriam ensinar o Claude a "escrever bem", em vez de imitar o "texto de baixa qualidade" da internet. Havia ainda uma preocupação técnica concreta: o chamado colapso de modelo — a degradação que ocorre quando uma IA passa a treinar sobre conteúdo gerado por outras IAs, contaminando o próprio aprendizado. Livros oferecem o que a web cada vez menos garante: enormes volumes de texto escrito e editado por humanos, ainda não poluído por conteúdo sintético.
Fonte - Artigo no jornal britânico "The Telegraph" intitulado "Barbárie cultural: como as empresas de IA estão destruindo os livros no mundo".
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