Duas horas antes do combinado, bati de leve na porta do quarto dos meus pais. Bati outra vez.
O táxi, um Buick negro e solene, encostou na calçada e deu um trinado curto. Começava aí uma guinada na vida.
Meu pai era cearense; minha mãe, ouro-pretana. Os dois deixavam Belo Horizonte para sempre, rumo a Fortaleza, e eu só entendia que ia andar de trem.
O Vera Cruz era o trem de luxo. Minha mãe usava o tailleur azul-marinho, o melhor que tinha. Meu pai, calça e camisa bege, sem um vinco fora do lugar. Nas redes de bagagem, chapéus. No banco da frente, um homem de gravata dormia sentado.
Não levávamos móveis: tudo fora vendido nas semanas anteriores, e nos restavam as malas de mão, com roupas e o que era pessoal.
Colei o rosto no vidro até a testa ficar marcada. Os laranjais corriam ao lado dos trilhos, quilômetros deles, e em cada estação o trem parava para que a vida acontecesse.
Alguém corria, outro chorava, lenços brancos subiam e desciam, e os acenos iam ficando pequenos na fuligem. O mundo me parecia maior do que o atlas da escola mostrava, e muito mais interessante.
No Rio, Tia Eurídice, irmã do meu pai, nos esperava na plataforma, com Tio Esmerino, jornalista de "A Noite". Dormimos uma única noite em São Cristóvão, numa casa cheia de vozes que eu ainda não sabia distinguir. Eram os primos cariocas.
No dia seguinte, o chão ficou para trás. Era um daqueles Lockheed Constellation da Panair do Brasil, quatro motores, o corpo de alumínio feito de placas rebitadas que, para um menino, pareciam frágeis demais para sustentar aquele gigante.
Hoje, um quadrimotor daqueles pareceria brinquedo de lata. Para o menino, era um gigante. O ronco entrava pelos ouvidos e ficava nos ossos, e a cabine cheirava a comida.
Deixaram-me visitar a cabine de comando. Diante de tantos relógios e manetes, olhei os dois pilotos e fiz uma das primeiras perguntas idiotas da minha vida:
"Esse avião cai?"
Não preciso dizer que a resposta foi um riso geral.
Voar exigia postura, elegância e, naquele tempo, o serviço de bordo era farto e delicado. O gigante partiu para fazer escala em Salvador, depois em Recife, costurando a costa, até que, na minha janela, se abriu Fortaleza: o mar em faixas de verde, azul e espuma branca. Competiam entre si.
Iria viver ali quinze anos.
Na chegada, virei atração entre as crianças da família e os vizinhos. Rodeavam-me e pediam:
"Fala de novo!"
Eu falava, e elas riam da curva das minhas vogais. Eu não entendia a graça.
Em Belo Horizonte, eu não tinha parente nenhum. Em Ouro Preto, duas tias solteiras. Em Juiz de Fora, a única casada. Em Fortaleza, de repente, um exército de tios e primos, que eu nem suspeitava existir.
Gente que eu adoro e que continuo frequentando quando a saudade bate e vou vê-los. Minha família é o meu tesouro, e os cearenses sabem fazer você se sentir acarinhado.
Saí do Ceará já homem feito, levando a cultura nordestina entranhada.
O sotaque, com as décadas e os regressos, foi se gastando pelo caminho. Hoje, falo mineirês com toques nordestinos. Assim, confundo e me divirto.
Entretanto, em seu apogeu acabou por ter suas operações aéreas abruptamente encerradas em 10 de fevereiro de 1965, devido a um decreto do governo militar, que suspendeu suas linhas. A opção pela suspensão, ao invés da cassação, foi um mero artifício técnico encontrado pelo governo militar. Assim as operações poderiam ser, na prática, paralisadas de imediato, sem o decurso dos prazos legais de uma cassação.
O fechamento total da empresa pela ditadura militar, só se deu definitivamente em 1969, através de outro ato também inédito na história do direito empresarial brasileiro, um "decreto de falência" baixado pelo Poder Executivo, durante o governo do General Costa e Silva. O principal beneficiário deste processo foi Ruben Berta, proprietário da VARIG, que era apoiador do regime militar e amigo pessoal de diversos militares de alta patente, que acabou recebendo as concessões de linhas aéreas internacionais da Panair do Brasil e incorporou parte dos qualificados funcionários da empresa sem custo algum.
Fonte: http://cronicasmacaenses.com/2013/12/12/o-lockheed-l-049-constellation-da-panair-do-brasil-no-museu-tam/
Elegante e poderoso (para a época), o Lockheed Constellation estabeleceu alguns recordes na aviação mundial. Em 1.º de outubro de 1957, um L1649A voou de Londres para São Francisco em 23 horas e 19 minutos, velocidade média de 369,2 km/h. Este foi o recorde de duração de voo sem escalas de passageiros, até a chegada do Boeing 777.
Ao redor do mundo encontram-se ainda exemplares do Lockheed Constellation, alguns em tão bom estado de conservação que ainda podem voar. Há um exemplar no Brasil, pintado nas cores da extinta Panair do Brasil, no Museu TAM, ligado à TAM. Localizado na cidade de Itu, no interior do Estado de São Paulo, já foi o maior museu de aviação do mundo mantido por uma companhia aérea privada até ser desativado em 2016.
Vídeo do filme: "Panair do Brasil - Uma história de glamour e conspiração"






