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24 abril, 2026

Otimismo

por Jane Hirshfield
Cada vez mais admiro a resiliência.
Não a simples resistência de um travesseiro, 
cuja espuma retorna repetidamente à mesma forma,
mas a tenacidade sinuosa de uma árvore: 
ao encontrar a luz bloqueada de um lado,
ela se vira para o outro.
Uma inteligência cega, sem dúvida.
Mas dessa persistência surgiram tartarugas, rios, mitocôndrias, figos
— toda essa terra resinosa e irredutível.

"Lua de Inverno em Toyamagahara", 1931 — uma xilogravura vintage de árvores do artista japonês Hasui Kawase.

04 janeiro, 2026

Um poema, uma canção

O poema: "E então, o que quereis?", de Vladimir Maiakovski.

"Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas".

A canção: "Corsário", de João Bosco e Aldir Blanc.

03 outubro, 2025

Vamos ao parque

Uma meditação lírica sobre ir ao parque para brincar, que se estende a uma reflexão sobre a própria vida.


Meu primeiro grande choque cultural ao chegar na América foi que playgrounds de concreto, quadras de basquete e pequenos triângulos de grama entre ruas movimentadas tinham placas que os chamavam de "parques". De onde eu vim, um parque era um lugar de canto de pássaros e folhas farfalhantes, um lugar para passear, para se perder, para sonhar; um pedaço de maravilha no meio da cidade; um deserto de bolso. Foi em um parque que dei meus primeiros passos, dei meu primeiro beijo, me perguntei pela primeira vez por que estamos vivos.
O parque — o parque propriamente dito — como um lugar de contemplação, iluminação e descoberta ganha vida com grande emoção em We Go to the Park — o produto de uma colaboração incomum entre a autora e dramaturga sueca Sara Stridsberg e a artista italiana Beatrice Alemagna.
No alvorecer da pandemia, em meio ao cativeiro enlouquecedor do lockdown e à tempestade da incerteza, Alemagna entrou em uma espécie de transe de pintura — uma explosão de cor e sentimento canalizando suas esperanças e medos, sonhos e lembranças. (A arte de cada artista é seu mecanismo de enfrentamento — fazemos o que fazemos para nos salvar, para permanecermos sãos, para encontrar o fino cordão da graça entre nós e o mundo.)
Quando Stridsberg recebeu uma seleção dessas imagens impressionistas sem história, ela foi movida a responder com sua própria arte. Suas palavras esparsas e líricas deram coerência às imagens, fazendo delas algo incomumente adorável: parte história, parte poema, parte oração.
Alguns dizem que viemos das estrelas,
que somos feitos de poeira estelar,
que um dia surgimos no mundo
do nada.
Não sabemos.
Então vamos ao parque.
Extraído de: We Go to the Park, por Maria Popova. In: The Marginalian

24 setembro, 2025

Panis et Circenses


OS ENGENHEIROS DO CAOS - Giuliano Da Empoli 
"Governar criando factoides a cada minuto não parece uma boa ideia. Mesmo quando o eleito não tem a mínima ideia de como usar um cargo tão importante. 
Ainda mais em um país que pretende governar o mundo. Periga repetir a estória do palhaço que saiu no palco gritando para todos correrem 
que o circo estava pegando fogo 🔥. 
Ninguém acreditou. Todo mundo pensou que era apenas mais uma palhaçada 
e todos morreram queimados".

PANIS ET CIRCENSES - Fernando Gurgel Filho
O Circo precisa da patuleia
Precisa de nós, cidadãos e palhaços
Se divertindo, no palco e na plateia
Cidadãos alegres, humilhados e catequizados
E o Circo, mesmo caro, ainda é grátis
Entra em todas as casas sem pedir licença
Pelo ar, nos noticiários, pelas ruas, nos "ridículos tiranos"
Precisamos apenas de Circo?
Nós, palhaços, também precisamos de Pão
Precisamos de Pão e Circo,
E o Circo não nos falta:
Malabarismos, sangue no palco, mentiras...
Tudo grátis, diversão da patuleia
Se o Pão falta na mesa da plateia
É porque dá mais trabalho
E não há tempo a perder
Dando o Pão, se o trigo é caro
Então, divirtam-se aplaudindo o Circo
Para esquecer a fome, aquecer do frio.

15 março, 2025

O mapa alternativo de Portugal pelos portugueses


Jardim da Europa à beira-mar plantado
É verso de Tomás Ribeiro (1831-1901) incluído no poema "A Portugal", que abre o seu livro "D. Jayme" (1862). Este poema, constituído por 15 oitavas, dá, de resto, o mote do livro em seu acentuado pendor nacionalista. Dele se transcreve uma das estrofes:

"Jardim da Europa à beira-mar plantado
De louros e de acácias olorosas,
De fontes e de arroios serpeado,
Rasgado por torrentes alterosas,
Onde num cerro erguido e requeimado
Se casam em festões jasmins e rosas;
Balsa virente de eternal magia
Onde as aves gorjeiam noite e dia."

31 dezembro, 2024

Ano Novo - Ferreira Gullar

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

28 junho, 2024

Marcharei, não me arrastarei

Brian Bilston. Versão: PGCS

À medida que envelheço,
não vou me deixar levar
pelo interesse próprio
e fazer aquele lento recuo
para a direita.

Serei um rebelde septuagenário
marchando com as crianças. Cantarei
"La Marseillaise", enquanto ergo
cartazes caseiros que proclamam 
ABAIXO ESSE TIPO DE COISA.

Serei um obstrucionista octogenário
e construirei barricadas inescaláveis
com garrafas de limonada,
cobertores xadrez e tela de galinheiro.
Vou lançar o preconceito sobre o fogo do braseiro.

Serei um inconformista nonagenário,
armado com uma caneta esferográfica
e uma mão que treme de raiva e sem envelhecer,
diante dos últimos crimes dos políticos,
em cartas fortes aos jornais.

Serei um centurião centenário
e não permitirei a entrada de injustiças.
Vou organizar protestos de longa data.
Minha scooter e eu
não cederemos a ninguém.

E quando eu morrer
serei as cinzas espalhadas
que se prendem aos cílios
e cegam os olhos
dos racistas e fascistas.

15 março, 2024

Uma ode à resiliência

The Weighing (A Pesagem)
de Jane Hirshfield
Tão poucos grãos de felicidade
pesados contra toda a escuridão
e ainda assim a balança se equilibra.
O mundo pede de nós
apenas a força que temos e damos.
Então ele pede mais e nós damos.
Bon mot
"Todos procuramos a felicidade, mas sem sabermos onde encontrá-la: como os bêbados que procuram a sua casa, sabendo vagamente que a têm." ~ Voltaire

08 março, 2024

"Quadrilha", um poema seminal de Drummond

"Quadrilha" é um poema muito conhecido do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, publicado pela primeira vez em sua obra de estreia, "Alguma poesia". Escrito em linguagem simples e direta, o poema é um belo representante do Modernismo brasileiro e tem como temática a imprevisibilidade da vida e os desencontros amorosos aos quais todos nós estamos sujeitos. Apesar de ter sido escrito há quase um século, "Quadrilha" permanece atual por tratar deste tema atemporal que é o amor e suas consequências. E seu título parece nos sugerir a metáfora de que o amor é uma dança em que há troca de pares, exatamente como na tradicional dança das festas juninas brasileiras. (1)
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
(2)
No sentido figurado, uma obra seminal é a que inspira ou gera novas obras. Em degraus variados, tais obras permeiam a cultura popular através de diferentes maneiras de se reproduzir. Em alguns casos, elas geram franquias quase intermináveis, com fãs ávidos por ver mais e mais episódios da trama em questão. Em outros, elas geram inspirações dentro do próprio gênero e também em outros formatos de mídia – de maneiras muito criativas, diga-se de passagem. isso não significa que obras seminais precisam ser épicas. - Cipro Pasquale (3)

No final da letra de "Flor da Idade", Chico Buarque repete a estrutura de "Quadrilha" ao utilizar-se de um encadeamento com nomes próprios de pessoas. Até certo ponto, ressalve-se aqui, pois as pessoas citadas são outras, e a última delas (Dora) "amava toda a quadrilha"
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha
Que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha.
(4)

Em 2016, publiquei no blog EntreMentes o seguinte micropoema em que os nomes das pessoas foram substituídos pelos nomes dos objetos do popular jogo "pedra-papel-tesoura":
A pedra quebrou a tesoura
que cortou o papel
que embrulhou a pedra.
E a água furou a pedra, enferrujou a tesoura e desmanchou o papel.
Foi só entrar no jogo.
(5)

Nas redes sociais, "Quadrilha" tem servido de inspiração a paródias que criticam políticos e as próprias redes sociais. Exemplos:
Micheque que amava Bolsonaro que amava Carlos que amava Leo que amava Flávio que amava Queiroz que amava Eduardo que amava toda a quadrilha. @DRUIMAINICH (6)
João dava RT em Teresa que mandava DM para Maria que stalkeava Joaquim que amava Lili que era feliz porque não usava redes sociais. @flahqueiroz (7)
Glossário: RT: retweet | DM: direct message | Stalkear: perseguir

Em sua posse na presidência da Academia Cearense de Letras (para o biênio 2023/2024), num discurso repleto de citações e referências poéticas, Tales de Sá Cavalcante também buscou inspiração em Carlos Drummond de Andrade e Chico Buarque de Holanda para se referir a seus confrades na ACL.
Transcrevo a ressalva de como se referiu a eles:
As pessoas foram citadas em sequência alfabética. Os verbos também. Mas se alterarmos todas as possíveis posições de pessoas e verbos, teremos uma enormidade de diferentes assertivas, todas verdadeiras. (8)

Referências
(1) https://comofazerumpoema.com/poema-quadrilha-carlos-drummond-de-andrade/
(2) https://www.youtube.com/shorts/7QsrJG91Ip0
(3) https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0604200607.htm
(4) https://youtu.be/198AEfa51qg
(5) https:/blogdopg.blogspot.com/2016/09/micropoemas-do-infortunio-15.html
(6) (não recuperada)
(7) (não recuperada)
(8) https://gurgel-carlos.blogspot.com/2023/06/discurso-de-posse-do-educador-tales-na.html

12 janeiro, 2024

Cultivo uma rosa branca

Cultivo uma rosa branca,
em julho como em janeiro,
para o amigo verdadeiro
que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
o coração com que vivo,
cardo, urtiga não cultivo:
cultivo uma rosa branca.

José Martí (1853–1895) — Patriota cubano, pan-americanista. Como poeta, foi precursor do modernismo, com grande influência nas letras hispano-americanas. Entendia a literatura como "expresión y forma de la vida de un pueblo", defendendo uma poesia com "raíz en la tierra, y base de hecho real".

31 dezembro, 2023

O resto vem por acréscimo

Nonato Albuquerque

Falta só uma porteira, um dia
pra gente entrar no ano novo,
do lado de lá, há de tudo:
céu com nuvens de chover,
um arco de cores no ar,
onde possa estar um pote de ouro
contendo, também, as virtudes
que mais alguém deseja
que o ano novo lhe traga.
Um pouco (muito) de tudo
o que na vida é prazer.
um muito pouco de nada
que, às vezes, nos faz sofrer.
Só quero que, aberta a porteira,
o chão sagrado deste ano seguinte
me traga saúde, paz e amor.
O resto vem por acréscimo...


365 de 365. O jornalista e apresentador de TV Nonato Albuquerque escreveu esse poema com suas expectativas para o ano de 2023, e eu, do Blog EntreMentes, o subscrevo (republico) enquanto espero abrir-se a porteira de 2024.

20 dezembro, 2023

Sob a Lua da Colheita

UNDER THE HARVERST MOON, por Carl Sandburg

Sob a lua da colheita,
Quando a prata suave
Pinga cintilante
Sobre as noites do jardim,
A morte, o zombador cinza,
Vem e sussurra para ti
Como um velho amigo
Te lembraria.

Sob as rosas do verão
Quando o carmesim flagrante
Espreita no crepúsculo
Das folhas vermelhas selvagens,
O amor, com mãozinhas,
Vem e te toca com mil memórias,
E te faz
Perguntas lindas e sem resposta.

(Este poema é de domínio público.)
https://www.yourdailypoem.com/listpoem.jsp?poem_id=3115


Harverst Moon (Lua da Colheita)
A lua cheia mais próxima do equinócio de outono (cerca de 23 de setembro). Perto da época do equinócio de outono, o ângulo da órbita da Lua em relação ao horizonte da Terra é mínimo, fazendo com que a lua cheia suba acima do horizonte muito mais rápido do que o normal. Como a diferença do horário de nascer da lua em noites sucessivas mal varia, a lua parece nascer quase na mesma hora por várias noites consecutivas. A lua da colheita, como qualquer lua cheia, deve surgir perto da hora do pôr do sol, os trabalhadores da colheita no Hemisfério Norte podem ser auxiliados pelo luar brilhante após o pôr do sol em várias noites sucessivas. Um efeito semelhante é observado nas latitudes correspondentes do sul por volta de 21 de março.
https://www.britannica.com/topic/harvest-moon-full-moon

10 junho, 2023

23 abril, 2023

De Vinicius para Mr. Buster (2)

"Está muito certo que em seu apartamento em Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia."

É verossímil que Mr. Buster tivesse em seu apartamento em Park Avenue um caco do friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood um poço de petróleo? O poço de petróleo, não. Ninguém consegue coabitar com um troço desses, mesmo que seja para endinheirar-se. Aqui vemos o poetinha descrevendo a riqueza de Mr. Buster de uma forma um tanto exagerada, como fazem os poetões. Já o tal caco de friso do edifício mais conhecido da Grécia, ao considerarmos que, desde o século 17, muitos pedaços do Partenon tenham virado souvenirs pelo mundo afora, é possível que Mr. Buster tenha o seu quinhão. Afinal, não é um friso de encher os olhos (como os que estão no Museu Britânico, Louvre e Vaticano), trata-se apenas de um caco.

De Vinicius para Mr. Buster (1)

20 janeiro, 2023

Vamos morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos,

e à noite, debaixo da cama,

deixamos, simétricos e exatos,

o medo e os sapatos.

(Pedro Mexia, in "Senhor Fantasma", Oceanos, 2007)

Escolheu ser Pedro Mexia, o sobrenome da mãe, uma professora universitária. Não quis ser Pedro Chorão, filho do escritor e ex-diretor da editora Verbo, João Bigotte Chorão.

06 janeiro, 2023

O fazedor de amanhecer

Este livro é o registro da união de dois artistas, dois gênios, dois grandes homens que nunca deixaram de ser crianças. Ziraldo, o poeta da cor e da forma, e Manoel de Barros, o poeta da palavra, que pega infinito em antena de mosca, colhe flor lascada na pedra, entorta paisagens só para o amor caber nelas. Os poemas de Manoel de Barros - ele já disse mais de uma vez - não são para ninguém entender. São para a gente esfregar nos olhos, espreguiçar e acordar mais feliz. E quando Manoel escreve e Ziraldo ilustra, a poesia acorda toda arrepiada de Sol... e quem amanhece é o leitor.


Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

09 novembro, 2022

Sandburg e o incognoscível

A humanidade tem um orgulho arrogante do conhecimento que acumulou ao longo dos séculos. No entanto, esse conhecimento é uma quantidade irrisória quando comparada aos vastos tesouros que permanecem desconhecidos nas regiões ignoradas do tempo e do espaço.
Há uma citação (em tradução reduzida) do poeta Carl Sandburg sobre este tema que enfatizava a humildade:
"O molusco caolho no fundo do mar é igual a mim naquilo que ambos sabemos sobre os aglomerados de estrelas ainda não encontrados."

21 agosto, 2022

De Vinicius para Mr. Buster

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia.
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas, me diga uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?



Segundo afirmou Pixinguinha em seu depoimento ao MIS-RJ, "Solon era sargento e dentista do exército. Tratou dos meus dentes e eu fiz Proezas de Solon".