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06 março, 2025

Amigos de sempre

Carta escrita por Paulo Freire, em 31 de maio de 1968, desde Santiago, no Chile, a seu amigo Ariano Suassuna. Na correspondência, Paulo Freire agradece ao “fraterno, risonho e confiante” amigo pelo apoio “desde o primeiro momento” de perseguição política, que resultou no exílio de Freire naquele país. Esse importante documento faz parte do acervo documental de Ariano Suassuna, que foi organizado, em 2007, sob coordenação do professor Carlos Newton Júnior (Departamento de Artes, CAC/UFPE). DOI: 10.51359/2675-7354.2021.251437

Querido amigo Ariano:
Há poucos dias lhe escrevi, perguntando-lhe, inclusive, como andava minha situação. Volto agora a fazê-lo, depois de ter sido informado pela imprensa, brasileira e chilena, do resultado de meu processo e de ter recebido um telegrama amigo de Monte e Paulo Cavalcanti, confirmando a notícia.
Escrevo-lhe agora, meu velho amigo, para dizer-lhe de minha sincera gratidão pelo interesse que você teve, desde o primeiro momento, por meu caso. Nunca me esqueço de sua valentia de querer bem, quando, ao chegar ao aeroporto do Recife, vindo de Brasília, num momento em que tudo era penumbra, interrogação, desconfiança, medo, denúncia, fuga, negação; em que os “amigos”, antes e depois que o galo cantasse — não importava — diziam: “Quem é? Não conheço. Jamais vi este homem!” ou, o que era pior: “Conheço este homem, sempre desconfiei de suas intenções malvadas”, lá estava você, fraterno, risonho, confiante, ao lado de Monte, ambos abraçando-me. Abraçando-me, quando cumprimentar-me, simplesmente cumprimentar-me, era uma ameaça a quem o fizesse.Você, Monte e outros, muitos outros, foram o contrário de alguns. Entre estes, nunca me olvido também, sem rancor e sem ressentimento, do testemunho de um professor da universidade, que, ao dobrar uma esquina — a do cinema São Luiz — me divisou a uns 10 metros de distância e fez então o mais difícil: andou de lado...
Você, pelo contrário, veio sempre de frente ao meu encontro, a nosso encontro. Encarcerado, você procurava Elza, enquanto os que andavam de lado perderam nosso endereço...
Nesta carta “sencilla” nada mais lhe direi além do meu, do nosso muito obrigado.
Do amigo-sempre,
Paulo Freire
Santiago, 31.5.68


Ao postar esta foto de Ariano e Paulo em sua página no Xwitter, Mario Lago Filho perguntou:
"Precisa mais?"
Recife, década de 1990. Fotógrafo desconhecido. Acervo dos herdeiros de Ariano Suassuna.

23 julho, 2024

Dez anos da morte de Ariano Suassuna

Esta terça-feira (23) marca os 10 anos da morte de Ariano Suassuna, um dos principais nomes da literatura brasileira. Paraibano que teve sua história marcada por um assassinato político e se revelou um dos gênios da cultura nordestina.
Ariano Suassuna nasceu em 1927, na capital paraibana. Ele era filho do então deputado e ex-governador da Paraíba, João Suassuna, que foi morto por motivos políticos no Rio de Janeiro, em 1930, e de Rita de Cássia Dantas Vilar. Ariano foi o oitavo dos nove filhos do casal.
Em várias obras, Ariano refletiu suas vivências na cidade de Taperoá, no Cariri paraibano, onde morou durante a infância. E a casa onde ele viveu se tornou um museu, mantido até hoje pela família Dantas Vilar.
Neste 23 de julho, quem estiver em Taperoá, no sertão da Paraíba, terá o privilégio de participar de uma exposição itinerante sobre a obra do escritor, passando pela Casa Museu, repleta de xilogravuras, e o cortejo com músicos e artistas que levam adiante o Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna na década de 1970 com expressões artísticas baseadas na raízes da cultura popular brasileira.

Letreiro com fôrma armorial, de Ariano Suassuna, estampa a fachada de casa em que ele viveu na Paraíba — Foto: Beto Silva/TV Paraíba — G1

Calendário Ariano (notas sobre ele no Blog EntreMentes): 
2007 Ariano e os computadores. 2013 Por causa de uma gravata... 2014 Ariano Suassuna, o homem da esperança. 2015 O episódio de "La Cumparsita". 2015 Para que serve o secretário de um poeta? 2017 Asas à imaginação. 2018 A chegada de Suassuna ao Céu. 2018 O corretor automático de texto. 2019 O carrinho de mão virado. 2020 Uma precária compensação. 2020 Funk do Suassuna. 2021 O fator frio. 2022 Você já foi à Disney? 2022 Matias Aires. 2023 O poeta e o repentista.

07 abril, 2023

O poeta e o repentista

Quando começou a escrever sonetos, Ariano Suassuna já tinha uma grande admiração por Dimas Batista, repentista de São José do Egito, município do sertão de Pernambuco. Certa vez, ao encontrá-lo em uma cantoria, falou: "Dimas estou escrevendo um soneto".
Batista, respondeu: "Muito bem, Ariano".
Três meses depois, em novo encontro, Ariano diz: "Dimas, estou em tal linha daquele soneto".
Aí, três ou quatro meses depois, Suassuna encontrou Dimas em outra cantoria e falou: "Dimas, terminei um quarteto".
E assim o tempo foi passando...
Dois anos depois, Ariano se encontrou mais uma vez com Dimas e disse: "Terminei o soneto". E apresentou ao repentista a obra concluída.
Foi quando Batista  respondeu, de improviso, com estes gloriosos undecassílabos:

Eu muito admiro o poeta da praça
Que passa dois anos fazendo um soneto.
Depois de três meses termina um quarteto,
Com todo esse tempo, ainda fica sem graça.
Com tinta e papel, o esboço ele traça
Contando nos dedos pra metrificar.
Que noites de sono ele perde a estudar
A fim de mostrar tão minguado produto,
Pois desses eu faço dois, três num minuto
Cantando galope na beira do mar.

17 julho, 2022

Você já foi à Disney?


Transcrição de um comentário:
(Em 4:16) Ariano Suassuna estava falando do antigo e já em desuso aparelho de videocassete. Sou dessa época. Como quase tudo na nossa língua, a gente tem tendência a abreviar. A gente chamava, simplesmente, vídeo.
O aparelho de videocassete reinou no Brasil de 1985 a 1994-1995, quando foi substituído pelo DVD Player. Ariano tomou posse na ABL em agosto de 1990, no auge do videocassete.
Havia os nacionais e os importados e, até hoje, sempre se dá valor ao que é importado (a maioria dos casos trata-se de complexo de vira-lata).
Havia modelos mais sofisticados (quatro cabeças, four heads, em inglês, e os de quatro canais, four channels).
Ele usou a expressão "video sound board four channels" (vídeo placa de som quatro canais), com uma dicção à brasileira.

04 abril, 2022

Matias Aires

"O maior filósofo de língua portuguesa do século 18, o século de Kant, era Matias Aires. Quem já ouviu falar dele, aqui na universidade? Somente um estudante levantou a mão. Eu disse: vocês estão vendo... O maior pensador de língua portuguesa do século 18 era brasileiro e paulista e vocês todos já ouviram falar em Kant; em Matias Aires... só aquele companheiro ali. Eu virei pra ele e disse: me diga uma coisa, você leu algum livro de Matias Aires ou ouviu falar dele numa aula? Ele disse: 'Não senhor, é que eu moro numa rua que tem o nome dele!' A gente ri, mas o que tá por trás disso é uma coisa ruim demais. Além de pensador, Matias Aires era um escritor extraordinário."
~ Ariano Suassuna

25 julho, 2020

Uma precária compensação

Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que ele deixou.
— Ariano Suassuna, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 9 de agosto de 1990

Calendário Ariano
2007 Ariano e os computadores
2013 Por causa de uma gravata...
2014 Ariano Suassuna, o homem da esperança
2015 O episódio de "La Cumparsita"
2018 A chegada de Suassuna ao Céu
2019 O carrinho de mão virado

No dia 25 de julho comemora-se o Dia Nacional do Escritor, data instituída em 1960 pelo então presidente da União Brasileira de Escritores, João Peregrino Júnior, e por seu vice-presidente, o célebre escritor Jorge Amado.

15 janeiro, 2020

Funk do Suassuna

Ariano Suassuna, antes de cumprir sua sentença, (*) tomou conhecimento de ter sido o protagonista deste clipe. E chegou a se utilizar dele em suas aulas-espetáculos.



(*) "Encontrar-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre."