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17 julho, 2026

Estratégias da imprensa brasileira para sinalizar a censura durante a ditadura militar

Durante esse período, diversos jornais brasileiros desenvolveram estratégias criativas para sinalizar a censura sem confrontá-la diretamente. Enquanto O Estado de S. Paulo publicava receitas culinárias no lugar de notícias censuradas e a Folha de S.Paulo utilizava trechos de "Os Lusíadas" e outros poemas clássicos. Foram tantas as matérias censuradas que o jornal acabaria publicando duas vezes os 8.116 versos do poema quinhentista de Luís de Camões, entre dezembro de 1969 e janeiro de 1975, quando finalmente os censores saíram da redação.
Já o Diario de Pernambuco optou por uma abordagem diferente: a publicação de narrativas ficcionais sobre eventos sobrenaturais. Fundado em 1825 e reconhecido como o jornal diário em circulação mais antigo da América Latina, o Diario de Pernambuco enfrentava dificuldades para preencher seus espaços editoriais devido ao corte sistemático de matérias pelos censores. Então, em dezembro de 1975, começou a publicar uma série de matérias relatando o suposto aparecimento de uma "perna fantasma" no bairro de Tiúma.
A criatura era descrita como uma perna humana decepada, coberta por pelos escuros e espessos, que se movia autonomamente pelas ruas da cidade, atacando transeuntes com rasteiras e chutes durante a noite. Considerada uma das lendas urbanas mais conhecidas do imaginário recifense, foi reapropriada ao longo das décadas em diversas adaptações culturais, inclusive no filme "O Agente Secreto" (2025), que a incorporou como um elemento narrativo central.
Estratégia do Pasquim 
Ao terminar a censura prévia a que estavam submetidos, os editores do semanário  O Pasquim adotaram o recurso de inserir na publicação um selo com a seguinte mensagem:

ENQUANTO VOCÊ ENCONTRAR 
ESTE SELO
O PASQUIM CONTINUA 
SEM CENSURA PRÉVIA

Era uma forma de avisar seus leitores de que estaria havendo o recrudescimento da censura.

03 janeiro, 2026

"Melhor atuação com cigarro"

Até os 72 anos, Tânia Maria nunca tinha assistido a um filme no cinema. Moradora de Santo Antônio da Cobra, um povoado com menos de mil habitantes no Rio Grande do Norte, ela passava os dias trabalhando como artesã e costureira. Hoje, atriz de 78 anos, que é um dos destaques do filme "O Agente Secreto" interpretando Dona Sebastiana, ela é citada pela imprensa internacional como uma possível candidata ao Oscar. 
Fumante por mais de 60 anos, ela decidiu abandonar o cigarro justamente depois que o reconhecimento internacional passou a exigir deslocamentos e viagens longas. Tânia chegou a recusar um convite para ir ao Festival de Cannes, na França, por não suportar as horas de voo sem fumar. "Eu fumava três carteiras por dia. Quero dizer que não tirava o cigarro da boca, né", conta. 
O jornal "The New York Times" destacou sua atuação como uma das melhores de 2025, e revistas especializadas como "Variety" e "The Hollywood Reporter" passaram a incluí-la em listas de apostas para a categoria de "Melhor Atriz Coadjuvante". A decisão de parar de fumar veio então, com um objetivo: não perder mais oportunidades. Inclusive, o Oscar. Com passaporte pronto, a atriz aguarda agora o visto americano para viajar. 
A entrada de Tânia Maria no cinema aconteceu por acaso. Em 2018, a equipe de "Bacurau", filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que estrearia no ano seguinte, estava na região do Seridó em busca de figurantes locais. A produtora de elenco Renata Roberta entrou na casa de Tânia. "Eu estava costurando e escutei umas conversas na sala de jantar. Quando chego e digo 'boa noite', ela diz 'é dela que estou precisando' e me perguntou se eu toparia ser figurante. Ganhando R$ 50 todo dia, eu achei bom demais", lembra. 
Depois do sucesso de Bacurau, vieram outros convites. Hoje, ela soma seis filmes no currículo — todos iniciados depois dos 70 anos. 
Em "O Agente Secreto", filme brasileiro recente dirigido por Kleber Mendonça Filho, a atuação de Tânia Maria ao fumar foi tão marcante que "The New York Times" a elegeu como a "melhor atuação com cigarro" de 2025. No papel de Dona Sebastiana, fumando de "uma forma magnética e poderosa", ela dirige uma pousada em que cuida de refugiados políticos durante a ditadura militar brasileira.
Descreveu "The New York Times" sua performance como "best cigarette acting" (melhor atuação com cigarro), comparando a forma como ela segura o cigarro ao uso de uma bengala por idosos, e elogiando como ela traz toda a vida que já viveu para a tela. 
Significado 
A crítica aponta que o ato de fumar de Dona Sebastiana seria uma metáfora para superar a opressão. Como se ela afirmasse: "Se eu consigo vencer esses cigarros, consigo vencer essa ditadura".

14 novembro, 2025

O Agente Secreto

Filme brasileiro de 2025 (realizado com o apoio da Ancine e de instituições financeiras da França, Holanda e Alemanha)
Mescla de gêneros (suspense, espionagem, terror)
Duração: 2 h 41 min
Roteiro e direção: Kleber Mendonça Filho (diretor de AQUARIUS e BACURAU)
Sinopse: Ambientado no Recife em 1977, durante o período da ditadura civil-militar no Brasil, "O Agente Secreto" acompanha a trajetória de Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário e especialista em tecnologia que retorna à sua cidade natal, após anos de afastamento e fugindo de um passado misterioso e violento em São Paulo, possivelmente ligado a um conflito com um poderoso industrial e a uma patente ou invenção.
Com a vida em perigo e sob constante ameaça e vigilância, Marcelo busca encontrar um pouco de paz, proteger seu filho pequeno, Fernando, que vive com os avós maternos (o avô é projecionista no icônico Cinema São Luiz, de Recife), e, eventualmente, deixar o país com o filho (também interpretado na vida adulta por Wagner Moura). Para seus planos, ele encontra refúgio em uma casa segura com outros dissidentes e figuras marginalizadas, além da figura maternal de Dona Sebastiana (Tânia Maria).
Ao tentar se reaproximar da família e do cotidiano, ele percebe que a cidade está sob intensa vigilância e a corrupção do regime militar que ainda controla e persegue opositores. E Marcelo acaba envolvido em uma rede de espionagem e conspirações, enfrentando dilemas morais e pessoais enquanto luta para proteger a si, aqueles que ama e desvendar o próprio passado.
A narrativa explora temas como repressão política, corrupção policial, memórias interrompidas, poder empresarial, identidade, manipulação da verdade e resistência. O filme traça um retrato crítico e sensível da sociedade brasileira durante uma de suas fases mais difíceis, misturando suspense, drama e elementos de thriller, conduzidos pela direção criativa de Kleber Mendonça Filho, que reforça seu estilo de crítica social e política, com toques do imaginário popular (lenda da "perna cabeluda") e referências cinematográficas ("Tubarão", de Spielberg).

03 março, 2025

Oscar de filme internacional para "Ainda estou aqui"

Em seu discurso de agradecimento, o cineasta brasileiro Walter Salles (na foto, com Fernanda Torres) dedicou o prêmio do filme à Eunice Paiva, afirmando "que ela, durante uma perda sofrida em um regime autoritário, decidiu a não se curvar e resistir".
Também agradeceu às atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres (mãe e filha na vida real), que representaram a personagem principal de "Ainda estou aqui" em períodos diferentes de sua existência.
A luta de Eunice Paiva após seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, ser detido e morto pela ditadura militar no Brasil (1964 - 1985), é uma evocação ao mundo do que acontece na vida cotidiana das pessoas, quando golpes de Estado obtêm sucesso.
Que a merecida premiação lembre a todos que esquecê-los não é uma boa ideia. Anistiá-los, muito menos.


Lamentável que o nome do cineasta e escritor Cacá Diegues, falecido em 14/02/2025, não tenha sido lembrado por ocasião do IN MEMORIAM da cerimônia do OSCAR 2025. Um dos fundadores do Cinema Novo, ao longo de sua carreira, Cacá Dieges fez mais de 20 filmes de longa-metragem e publicou livros sobre o cinema no Brasil.

21 novembro, 2024

"Ainda Estou Aqui"

É uma adaptação cinematográfica do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que narra a trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Ambientada em 1970, a história retrata como a vida de uma mulher comum, casada com o político e engenheiro civil Rubens Beyrodt Paiva, muda drasticamente após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar. Forçada a abandonar sua rotina de dona de casa, Eunice (Fernanda Torres/Fernanda Montenegro) se transforma em uma ativista dos direitos humanos, lutando pela verdade sobre o paradeiro de seu marido Rubens Paiva (Selton Mello), e enfrentando as consequências brutais da repressão. O filme explora não apenas o drama pessoal de Eunice, mas também o impacto do regime militar na vida de muitas famílias brasileiras, destacando o papel das mulheres na resistência. Com uma narrativa profunda e sensível, o filme traz à tona questões de perda, coragem e resiliência, enquanto revisita um dos períodos sombrios da história do Brasil.
Dirigido por Walter Salles, este filme foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025. Sucesso imediato de público, "Ainda Estou Aqui", com 11 dias de exibição no Brasil, já foi assistido por 1.050 milhão de espectadores.

31 março, 2024

A ditadura brasileira (1964-1985)

1/12 A perseguição de adversários se concentrou nos meses após o golpe de 1964 e entre o final da década de 60 e o início dos anos 70. Mais de 5 mil pessoas foram alvos de punições como demissões, cassações e suspensão de direitos poíticos. Ao todo 166 deputados foram cassados. O regime também perseguiu membros em suas fileiras. Pelo menos 6.951 militares foram presos e desligados.

2/12 Assim como a perseguição política, os assassinatos de opositores promovidos pelo regime se concentraram em algumas fases da ditadura. Mas todos os generais-presidentes foram tolerantes com a prática. a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontou a responsabilidadee do regime militar pela morte de 224 pessoas e pelo desaparecimento de 210 - 228 delas.

3/12 Na ditadura, a tortura virou uma prática de Estado. Já no governo Castelo Branco (1964-1967) foram apresentadas 363 denúncias de tortura. Na fase de Médici (1969-1974), seriam mais de 3.500. O relatório "Brasil: Nunca Mais" lista 283 formas de tortura aplicadas pelo regime, como afogamentos, choques elétricos e o pau de arara. Ao longo de 21 anos, houve mais de 6 mil denúncias de tortura.

4/12 Ao dar o golpe, os militares citaram a corrupção e o esquerdismo do governo Jango. A luta armada, às vezes apontadas como razão de ser da ditadura, nem foi mencionada. Só em 1966 ocorreram as primeiras ações relevantes de grupos de esquerda, que cometeriam atentados e assaltos com o objetivo de promover uma revolução. Em 1974, todos já haviam sido aniquilados, mas a ditadura duraria mais uma década.

5/12 O regime militar recorreu a uma série de decretos chamados atos institucionais para manter seu poder. Entre 1964 e 1969 foram promulgados 17 atos, que estavam até acima da Constituição. Alguns promoveram a cassação de adversários (AI-1) e a extinção de partidos políticos (AI-2). O mais duro deles, o AI-5, instituiu em 1968 a censura prévia na imprensa e a suspensão do habeas corpus.

6/12 Boa parte da imprensa apoiou o golpe, mas vários jornais passaram a criticar o regime, alguns mais cedo, outros mais tarde. Com o AI-5, passou a vigorar uma censura prévia em vários meios de comunicação. O regime censurava até más notícias, promovendo uma imagem fictícia da realidade do país. Epidemias, desastres e atentados eram temas vetados. Músicas, filmes e novelas também foram censurados.

7/12 Junto com os regimes da Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, a ditadura brasileira integrou a Operação Condor, uma aliança para perseguir opositores no Cone Sul. O regime também ajudou a treinar oficiais chilenos em técnicas de tortura. Um dos casos mais notórios de colaboração foi o sequestro em 1978 de dois ativistas uruguaios em Porto Alegre, que foram entregues ao país vizinho.

8/12 Após três anos de ajustes, os militares promoveram a partir de 1967 investimentos e ofertas de crédito. A fórmula deu resultados. Entre 1967 e 1973, a expansão do PIB brasileiro foi de 10% ao ano. O país passou a ser a décima economia do mundo. O cresciento aumentou a popularidade do regime durante a fase mais repressiva da ditadura. Mas o "milagre brasileiro" duraria pouco.

9/12 A conta do "milagre" chegou após os dois choques do petróleo e uma série de decisões desastradas para manter a economia aquecida. Ao fim da ditadura, o país acumulava dívida externa 30 vezes maior que a de 1964 e ainflação de 226% ao ano. Quase 50% da população estava abaixo da linha de pobreza. Os militares pegaram um país com graves problemas econômicos e entregaram um quebrado.

10/12 A censura e a falta de transparência favoreceram a corrupção. O período foi marcado por vários casos, como o Coroa-Brastel, Delfin, Lutfalla e Antonio Carlos Magalhães, que já nos anos 70 eram suspeitos em casos de corrupção. Também abafou casos, como a compra superfaturada de fragatas do Reino Unido nos anos 70.

11/12 A ditadura promoveu obras faraônicas, divulgadas com propaganda ufanista, como Itaipu e a ponte Rio-Niterói. Algumas foram marcadas por desperdícios e erros como a Transamazônica e as usinas de Angra. em 1969, o regime criou uma reserva de mercado para as empreiteiras nacionais ao proibir a atuação das estrnageiras. É nessa época que empresas como a Odebrecht passam a dominar as obras no país.

12/12 Em 1979, seis anos antes do fim da ditadura, foi promulgada a Lei da Anistia, perdoando crimes cometidos com motivação política. Mas ela tinha mão dupla: garantiu também a impunidade para agentes responsáveis por mortes e torturas. No Chile e na Argentina, dezenas de agentes foram condenados por violações de direitos humanos após a volta da democracia. No Brasil, ninguém foi punido.

Fonte: dw.com/pt-br (c/ fotos do Arquivo Nacional)

12 abril, 2022

Dalmo Dallari (31/12/1931 - 08/04/2022)

Natural de Serra Negra, no interior de São Paulo, Dalmo de Abreu Dallari (foto) se formou em Direito pela Universidade de São Paulo em 1957. Professor emérito da instituição pela qual se formou e da qual foi diretor, foi um prolífico escritor na área do Direito. Entre suas obras, destacam-se: "Elementos de Teoria Geral do Estado" e "O Futuro do Estado", em que trata do conceito de Estado mundial, do mundo sem Estados, dos chamados Super-Estados e dos múltiplos Estados do Bem-Estar. Em 1996, tornou-se professor catedrático da UNESCO na cadeira de Educação para a Paz, Direitos Humanos e Democracia e Tolerância. Conhecido por sua atuação em oposição ao regime militar, Dallari ajudou a organizar a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de SP. A organização foi intensamente buscada por perseguidos políticos e seus familiares, e teve papel importante na proteção de oposicionistas da ditadura. Dallari morreu aos 90 anos, na capital paulista, devido a um AVC.

A DITADURA ESPANCOU DALLARI
"Quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil, em 1980, o jurista Dalmo Dallari, prof. titular da USP, foi designado para fazer uma leitura na primeira agenda do sumo-pontífice em São Paulo: uma missa no Campo de Marte.
Dallari representaria a Comissão Justiça e Paz (CJP), braço da cúria metropolitana voltado para a defesa dos direitos humanos, dos presos políticos e de seus familiares, que o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns havia criado em 1972.
Dallari havia sido seu 1.º presidente e, naquele momento, ainda era seu membro mais conhecido. Na véspera, Dallari foi ao Campo de Marte se inteirar dos preparativos e da liturgia do ato. Quis se certificar qtos minutos teria para fazer os últimos ajustes no texto, já escrito.
Informações reunidas, foi embora para casa, no comecinho da noite. Ao chegar, em frente ao portão, levou uma coronhada e foi enfiado dentro de um carro. O grupo de agressores o levou a um terreno baldio na Av. J. Kubitschek e o espancou até deixá-lo caído, só e ensanguentado.
A muito custo, Dallari se levantou e andou até a avenida. Demorou para que um motorista parasse e aceitasse levá-lo, machucado, de volta à casa. Foi a esposa quem o levou ao pronto-socorro. Durante o trajeto e no atendimento médico, a maior preocupação de Dallari era com a missa.
Ele precisava estar a postos para ler seu texto, uma agenda importantíssima, de alcance internacional, que agora talvez repercutisse ainda mais. No dia seguinte, de cadeira de rodas, foi impedido de subir ao palco pelo acesso normal, nos fundos, por um militar.
Amigos ergueram a cadeira de rodas nos braços e ele conseguiu chegar à tribuna. Levantou-se, amparado pelos colegas José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach, ambos da CJP.
O Papa se assustou com os machucados, curativos e ferimentos e perguntou o que havia acontecido.
Foi Dom Paulo quem respondeu, atribuindo o atentado a grupos de extermínio ligados à ditadura. "Fizeram isso com ele porque não tiveram coragem de fazer comigo, mas é um recado para mim", acrescentou o arcebispo.
Dallari, presente. Hoje e sempre!"
(Texto de Camilo Vannuchi)

31 agosto, 2020

Não deixe que prendam Nara Leão

Cacá Medeiros Filho

O ano era 1966. Castelo Branco, o primeiro Presidente da ditadura, estava terminando o mandato. O regime ia promover uma "eleição indireta" para escolher o novo Presidente, sendo o General Costa e Silva o imbatível candidato oficial. Nara Leão comentou, em uma entrevista a um matutino carioca, que achava certa a escolha de um civil para a Presidência da República e afirmou, ainda, que considerava os exércitos desnecessários e prepotentes.
As declarações da musa da bossa nova chocaram a cúpula militar. Quase imediatamente, o gabinete do Ministro da Guerra enviou ao Ministério da Justiça uma representação contra Nara Leão, responsabilizando-a criminalmente, com pena que poderia atingir de um a cinco anos de cadeia, de acordo com o artigo 14 da Lei de Segurança Nacional.
Na opinião de vários militares, a entrevista, dentro de um plano de agitação que a cantora estaria participando, poderia ter algum dos seguintes objetivos: colocar o povo contra a eleição no Congresso do futuro Presidente; fortalecer o MDB para o lançamento de um candidato civil ou promoção pessoal numa tentativa de desmoralizar a "Revolução de março".
O documento enviado à Justiça continha uma análise digna de figurar nos anais do FEBEAPÁ: "a cantora preconiza a escolha de um Presidente civil, que governaria o país nos moldes estatais, guiado por uma política nacionalista que nada difere da linha nitidamente comunista". É bom lembrar que esse fato ocorria antes do período mais negro da ditadura, iniciado após a promulgação do AI-5, em dezembro de 1968.


Nara Leão rebateu a acusação, classificando de "cômico o papel de alguns militares, quando declaram que participo de uma conspiração. Quem sou eu para conspirar? A comicidade desses homens que consideram o regime ameaçado por conta de uma opinião pessoal de uma cantora, demonstra como o Brasil está afetado na sua liberdade".
A solidariedade à Nara foi ampla, abrangendo a população em geral, seus inúmeros fãs, artistas e intelectuais. Um admirável exemplo foi o poema, singelo e irônico, que Carlos Drummond dedicou ao tema e que transcrevo a seguir.


(texto sugerido por Jaime Nogueira)

O dia em que a ditadura matou Mané Garrincha

10 maio, 2020

Dona Elzita

Uma saga de 45 anos que envolve pistas falsas no Brasil e no exterior, visitas a quartéis, cemitérios e manicômio judicial, interpelações a torturadores, súplicas a autoridades da República e pedidos de ajuda a organizações internacionais.
A história de Elzita Ramos de Oliveira Santa Cruz, que carregou como bandeira e razão de vida uma pergunta sem resposta, que repetiu enquanto teve voz, sobre o paradeiro do seu filho Fernando.
Ela morreu no ano passado, aos 105 anos, sem conseguir enterrar Fernando Santa Cruz, desaparecido em fevereiro de 1974, após ser preso por órgãos de repressão da ditadura militar, em uma esquina de Copacana, no Rio de Janeiro.
Fernando foi vítima de "morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro".
Dona Elzita costumava recitar uma poesia que, dizia ela, aprendeu quando criança. Familiares, no entanto, confirmam ser de sua autoria:
"Passam-se os anos, e o véu do esquecimento / Baixando sobre as coisas, tudo se apaga / Menos da mãe, no triste isolamento, / a saudade que o coração lhe esmaga."

06 dezembro, 2019

A censura prévia no Pasquim

Nascido em junho de 1969, o jornal satírico O Pasquim esteve sob censura até 1975.
A primeira manifestação concreta da censura ocorreu em 1970, ao ser publicada no semanário uma reprodução de uma pintura de Pedro Américo ,"Independência ou Morte", realizada em 1888. O caricaturista e jornalista Jaguar, um dos criadores do Pasquim, usou uma reprodução do quadro que consagrou "a participação de Pedro Américo na montagem de um imaginário particularmente importante na construção simbólica do regime político, sobretudo em momentos de redefinição da identidade nacional". Jaguar transformou a imagem inicial e fez Dom Pedro I  dizer "Eu quero mocotó", referindo-se a uma canção de Erlon Chaves e Jorge BenJor, de 1970.
Após esse evento, o jornal contou com a presença física de censores dentro da redação, ao lado dos jornalistas, para vigiar e cortar as matérias antes mesmo da edição. A partir de 1974, a sede da censura mudou para Brasília, aonde o jornal tinha que mandar as matérias para a censura prévia, o que ocasionava inúmeros problemas técnicos e financeiros para a redação.
Alvos da censura, os desenhistas da redação do Pasquim rapidamente passaram a criticá-la, de
forma humorística, poética, irônica ou cínica. Uma charge, do Millôr Fernandes, representava a ação dos censores, os protagonistas de muitos desenhos e muitas críticas, pois a presença deles impactava de forma direta e concreta no trabalho cotidiano dos jornalistas. Aqui, sob o lápis irônico do Millôr, os responsáveis pela verificação dos conteúdos se empurram para poder ver as matérias, como se fosse um espetáculo. Uma inversão, portanto, opera-se na atitude dos censores, que manifestam um forte interesse pelas produções que teriam de criticar, denunciar e cortar.
Em 1977, Millôr Fernandes, ao comentar os anos de trabalho marcados pela censura nessa publicação, disse:
"Foram 300 semanas de um jornalismo aventuroso, com alguns momentos de extrema euforia e a maior parte de depressão e angústia diante da perseguição violenta e constante. Pois, dos seis anos quase completos que eu trabalhei no Pasquim, mais de cinco foram sob a bengala branca da censura mais cega que já existiu neste país – e eu sei bem do que falo."
Ao terminar a censura prévia a que estavam submetidos, os editores de O PASQUIM adotaram o recurso de inserir na publicação um selo com a seguinte mensagem:
ENQUANTO VOCÊ ENCONTRAR ESTE SELO
O PASQUIM CONTINUA SEM CENSURA PRÉVIA.
Era uma forma de avisar seus leitores de que estaria havendo recrudescimento da censura.
Webgrafia
Mélanie Toulhoat. Usos políticos do humor gráfico nas páginas do jornal Pasquim sob censura (1969-1975). FAFICH. II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS, Jun 2013, Belo Horizonte, Brazil. 2013, Anais Eletrônicos do II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS.
Censura Lendo o Material do Pasquim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Acesso em: 19 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Blog EM. https://blogdopg.blogspot.com/2019/04/eu-quero-mocoto.html

Ler também: O Pasquim e a MPB

09 agosto, 2019

Linhas torturantes

"A tortura é o meio mais efetivo de absolver os criminosos robustos e condenar os fracos inocentes." ~ Cesare Beccaria

E os níveis assombrosos de apoio à tortura por cristãos meramente revela que poucos deles são cristãos de fato. A tortura não é uma área cinzenta para os cristãos. É a mancha mais escura que existe.
~ https://blogdopg.blogspot.com/2015/06/torturas-cia.html

Meu tio foi assassinado pelo ídolo de Bolsonaro, The Intercept
~ Tatiana Merlino, jornalista

Chefe do DOI-Codi de São Paulo, no período de setembro de 1970 a janeiro de 1974, o coronel Ustra comandava as torturas que aconteciam a presos políticos no citado órgão da repressão. Mas é elogiado e homenageado pelo rei da Bozolândia, com repetidas afrontas à Carta Magna, no artigo 5, inciso III, que diz:
Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante.

Quino fez este retrato falado do admirador confesso do coronel Ustra:

Charge do Quino

25 abril, 2019

Museu da Resistência e Liberdade

Portugal celebra hoje os 45 anos da Revolução dos Cravos, que marcou o fim de um período de ditadura de 41 anos. Em meio às comemorações preparadas para esta quinta-feira está a inauguração do Museu da Resistência e Liberdade, o primeiro no país que tratará da preservação da memória antifascista.
O novo espaço está localizado na península de Peniche, que fica a cerca de 100 quilômetros da capital Lisboa.
Não poderia ser mais emblemático o local escolhido: a Fortaleza de Peniche, de 1557, que se transformou em uma prisão do Estado Novo do país. A ideia durante a ditadura era manter os presos em total isolamento e ali foi o coração da censura militar à liberdade de expressão, principalmente aos veículos de comunicação.
Fazendo parte do museu parcialmente inaugurado, foi construído localmente um memorial relacionando os nomes de 2.510 presos políticos (40 deles ainda estão vivos) que passaram pela fortaleza nessas quatro décadas de ditadura.

05 dezembro, 2018

A remontagem de "Roda Viva"

Em 1967, Chico Buarque fazia sua primeira incursão no teatro. Sua peça, "Roda Viva", estreou no Rio de Janeiro, em encenação dirigida por Zé Celso Martinez e estrelada por nomes como Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro.
O trabalho foi, antes de tudo, um marco na linguagem do teatro brasileiro. Por fazer, por exemplo, um retorno ao coro grego, incorporando-o diretamente na trama do personagem Benedito Silva, músico de sucesso inventado e fabricado pela mídia.
A repressão que sofreu em apresentações posteriores, em São Paulo e Porto Alegre, fez do espetáculo um marco na resistência à ditadura militar.

CHICO BUARQUE NO ENSAIO DE RODA VIVA (1967). ACERVO TEATRO OFICINA

Agora, meio século depois, dirigida pelo mesmo Zé Celso e com a montagem atualizada para alguns aspectos, a peça "Roda Viva" encontra-se em cartaz no Sesc Pompeia, de onde seguirá para uma temporada de apresentações no Teatro Oficina (www.teatroficina.com.br).

13 setembro, 2015

Comissão da Verdade elucida atentado terrorista que matou Lyda Monteiro

Isabela Vieira, repórter do Portal EBC
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) recorrerá ao Ministério Público Federal para denunciar os agentes do Exército envolvidos na morte da secretária Lyda Monteiro. Ela foi assassinada em 27 de agosto de 1980, ao abrir uma carta-bomba endereçada ao então presidente da entidade, seu chefe, Eduardo Seabra Fagundes, e entregue na sede da entidade, no Rio, por militares do Centro de Informação do Exército (CIE). O desfecho do caso veio a público sexta-feira (11), após investigações da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.


De acordo com a Comissão da Verdade, a bomba que matou Lyda Monteiro foi confeccionada pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e entregue na OAB pelo sargento Magno Cantarino Mota, o Guarany, a mando do coronel Freddie Perdigão Pereira, à época, comandante do Centro de Informação do Exército (CIE). Eles estavam também envolvidos no fracassado atentado do Riocentro, em 1981, quando planejavam colocar uma bomba no pavilhão onde ocorria um show comemorativo do Dia do Trabalho, mas explodiu no colo do sargento Rosário, quando manipulava o artefato dentro do carro no estacionamento do centro de exposição, na zona oeste da capital fluminense. O sargento morreu no local.
A elucidação do atentado que matou Lyda Monteiro foi possível após depoimentos de uma testemunha-chave, à época funcionária da OAB, que viu o sargento Guarany – único dos envolvidos ainda vivo, morando no Rio – deixar a carta na sede da entidade. Ela reconheceu o militar após analisar fotos em que ele aparece socorrendo colegas no atentado do Riocentro. Para proteger a testemunha de qualquer represália, a Comissão da Verdade não divulgou o seu nome.
O presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, disse que a Lei de Anistia, aprovada em 1979, não perdoa os crimes cometidos por agentes do Estado após a sua promulgação. O atentado que matou Lyda Monteiro aconteceu em agosto de 1980. "A Lei da Anistia diz respeito aos fatos ocorridos previamente. Ela não pode anistiar fatos que irão acontecer", disse o presidente da entidade após participar do evento que anunciou o desfecho do caso.
A presidenta da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, a advogada Rosa Cardoso, que integrou a Comissão Nacional da Verdade, disse que o sargento Guarany vem sendo convidado a esclarecer o ocorrido desde 2014, mas se recusa a falar sobre o assunto. Segundo Rosa, o esclarecimento do atentado na OAB ajuda a reafirmar a democracia, em um momento que pessoas saem às ruas pedindo a volta do regime militar.

30 abril, 2015

O atentado do Riocentro

Aconteceu a 30 de abril de 1981 o frustrado atentado do Riocentro. A bomba, planejada pelo SNI e armada pelo DOI-CODI carioca, explodiu minutos antes, ainda no estacionamento do Riocentro, dentro do Puma onde estavam dois agentes do DOI do I Exército. Ao explodir, a bomba matou o sargento do DOI Guilherme Pereira Rosário, que a levava no colo, e feriu gravemente o motorista a seu lado, o capitão do DOI Wilson Machado.
O desastrado atentado do Riocentro, que o Exército nunca assumiu "nem como desvio de conduta", só não se transformou em uma tragédia nacional por conta da incompetência dos terroristas.
No site da Comissão Nacional da Verdade (CNV), com todas as letras, os comissários concluem que o atentado foi “um minucioso e planejado trabalho de equipe realizado por militares do I Exército e do Serviço Nacional de Informações (SNI) e o que o primeiro inquérito policial militar (IPM) sobre o caso, aberto em 1981, foi manipulado para posicionar os autores diretos da explosão apenas como vítimas”. Para o coordenador da CNV, Pedro Dallari, o caso Riocentro foi o último de uma série de 40 atentados, ocorridos entre janeiro de 1980 e abril de 1981, “que visavam dificultar a abertura política iniciada em 1979 e dar uma sobrevida ao regime militar”.
O almirante Júlio de Sá Bierrenbach, que depôs na CNV sobre o caso, era ministro do Superior Tribunal Militar (STM) quando o inquérito policial militar sobre o Riocentro chegou ao tribunal para ser julgado. O caso já veio arquivado da auditoria militar onde tramitou e o militar da Marinha foi o único a votar contra o arquivamento do processo e pedir que o capitão Machado continuasse como investigado e a apuração, retomada.
Para Bierrenbach, “o IPM (do Riocentro) foi uma vergonha e isso é facilmente demonstrável”. Ele afirmou considerar absurdas a absolvição e a promoção até coronel que Wilson Machado, co-autor do atentado, recebeu na carreira. “Vítimas, uma ova! Eles fizeram o atentado. O capitão vai ao Riocentro com uma bomba, a bomba explode. O colega morre. E ele é promovido. Isso é um absurdo!”, torpedeou o almirante. Ao contrário do que seria previsível num país sério, a explosão não implodiu a carreira do militar sobrevivente. O capitão terrorista do Riocentro, apesar de seu estrondoso fracasso, é hoje general reformado do Exército.
Segundo o relatório da CNV, apresentado pelo gerente de projetos Daniel Lerner, cerca de 20 mil pessoas estavam no Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, para assistir a um show organizado por Chico Buarque de Hollanda para o Dia do Trabalhador. O grupo que planejou o atentado conseguiu até que a Polícia Militar recebesse uma ordem para não realizar policiamento dentro do espaço onde ocorria o show.
Os dois militares terroristas do DOI-CODI — o sargento morto e o capitão socorrido com as vísceras de fora — não foram as únicas baixas da ditadura. A evisceração do regime foi ainda mais notável nos meses seguinte. O general João Figueiredo infartou na presidência, o general Golbery do Couto e Silva demitiu-se da Casa Civil, o general Octávio Aguiar de Medeiros (chefe do SNI) implodiu como virtual candidato a uma sexta presidência fardada e o regime militar definhou até morrer, sem choro nem vela, no remanso do Colégio Eleitoral que sagrou Tancredo Neves como primeiro presidente civil desde 1964.
Naquela noite, data do maior "acidente de trabalho" da escalada terrorista do DOI-CODI do Exército, o número de mortos e feridos do atentado poderia ser muito maior. Além da bomba que explodiu no estacionamento, outro artefato explodiu na casa de força do Riocentro. O objetivo era o corte de energia que impedisse o show e causasse tumulto, mas o artefato não causou o efeito desejado. Depoimentos apontam que duas bombas sob o palco foram retiradas do local antes de serem detonadas e testemunhas afirmam que havia outras duas bombas no Puma do DOI-CODI, que foram retiradas da cena do crime.
O tumulto previsível de explosões coordenadas em recinto fechado, com as portas de saída criminosamente trancadas com cadeados, certamente provocaria uma tragédia amplificada na plateia de 20 mil pessoas. E as bombas sob o palco, detonadas no momento esperado do encerramento, quando todos os artistas se reúnem para a apoteose final do show, produziriam uma hecatombe na Música Popular Brasileira. Junto com Chico Buarque, lá estavam 30 dos mais famosos e carismáticos astros da MPB. Entre eles, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga e o filho Gonzaguinha, Cauby Peixoto, Clara Nunes, Gal Costa, Ivan Lins, João Bosco, Alceu Valença, Elba Ramalho, Djavan, Fagner, Moraes Moreira, Ângela Ro-Ro, Simone, Zizi Possi, MPB-4 e Beth Carvalho.
(extraído deste artigo do jornalista Luiz Claudio Cunha para o Jornal JÁ, via site QTMD?)

31 março, 2015

Freud explica, mas não justifica

por Fernando Gurgel Filho
Hannah Arendt, ao fazer uma reportagem sobre um dos carrascos nazistas que iria ser julgado por seus crimes contra a humanidade, esperava encontrar um monstro, não um ser humano.
Foi surpreendida. Encontrou apenas um ser humano comum. Muito comum até. Banal.
Talvez a psiquiatria explique. Ou não. Porque há pessoas portadoras de problemas mentais, alguns muito graves e perigosos para a sociedade, não os aparentem. São pessoas comuns. Muito comuns até.
Assim, transitam entre nós pessoas com as mais diversas taras e problemas mentais. Pedófilos, masoquistas, sádicos, suicidas e toda uma gama de desajustados socialmente que é praticamente impossível catalogá-los todos.
Então, dentre esses comprovadamente desajustados, é de se compreender perfeitamente que alguns tenham verdadeira adoração por Hitler, Stalin, Gengis Khan, Mao, Médici, Pinochet... Como outras pessoas teriam por Ghandi, Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones.
Afinal de contas, ditadores têm tudo que essas pessoas desejam. Torturam, matam, exilam... São especialistas em "banalizar o mal", o sofrimento... Provocam toda espécie de sofrimento aos seres humanos. (Para masoquistas e sádicos, um prato cheio e extremamente saboroso.)
Então, não me causa espanto, apesar da aparência "normal" de alguns amigos, que estes defendam uma ditadura militar.
Creio que estão sendo sinceros. Pena que não procurem ajuda médica.
N. do E.
Em 1963, Arendt lançou "Eichmann em Jerusalém", reunindo os cinco artigos que ela escreveu sobre o julgamento de Eichmann, que cobriu para a The New Yorker. Nesse livro, Eichmann não é retratado como um demônio (como o descreviam os ativistas judeus) mas alguém terrível e horrivelmente normal. Um típico burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, por amor ao dever, sem considerações acerca do bem e do mal.

29 março, 2015

O mores!

Ontem
O delegado Sérgio Fleury cristalizou-se na história recente do Brasil como a principal estrela dos grupos que torturavam nos porões da ditadura civil-militar. Guerrilheiros capturados eram barbarizados para revelar pontos de encontros com seus companheiros. Outras vezes eram devastados fisicamente por puro sadismo. No governo do presidente Ernesto Geisel, da ala moderada, a cúpula militar teve de refreá-lo, pois, como alguns militares, estava fora de controle — como se tivesse licença para matar, ao estilo de James Bond, mas sem a elegância deste. Entretanto, antes de Geisel, o formulador da política da distensão (abertura), Fleury, que viajava de Sul a Norte do país em busca de torturáveis, era protegido pelo governo. As gestões de Costa e Silva e Emilio Garrastazu Medici o protegeram e o financiaram — quando morreu afogado (suspeita-se de "queima de arquivo", porque sabia e falava demais), tinha um alto padrão de vida — durante anos. Era delegado mas comportava-se como um "coronel sem farda". Era temido até por policiais civis e militares. Por conta de seu envolvimento numa execução articulada pelo Esquadrão da Morte, a Justiça decretou sua prisão preventiva em 1973. Imediatamente, o governo Medici  pressionou o Congresso Nacional para aprovar a Lei nº 5.941. A Lei Fleury, como ficou conhecida, "permitia a todos os réus primários e de bons antecedentes responder ao julgamento em liberdade, inclusive se fossem condenados em primeira instância ou se seus processos não tivessem sido julgados em instância superior". Com base nessa lei, Fleury foi absolvido, de modo unânime, pelo 2º Tribunal do Júri de São Paulo, em 1974. Como prêmio pelos serviços prestados à ditadura, o Torquemada dos trópicos "foi condecorado como o policial do ano".
Nota extraída da edição 1914 do Jornal Opção para reavivar a memória dos antigos e novíssimos simpatizantes de uma "ditadura constitucional" no Brasil.
Hoje
O juiz Sérgio Moro propõe prisões antes do trânsito em julgado.

18 março, 2015

Paulo Freire – para os que dispensam seus ensinamentos

Em meio a uma coleção de faixas estapafúrdias que ilustraram os protestos contra a presidente Dilma Rousseff (PT), no último domingo (15), uma chamou a atenção:
CHEGA DE DOUTRINAÇÃO MARXISTA. BASTA DE PAULO FREIRE
Para quem não sabe, o pernambucano Paulo Freire foi um educador e filósofo brasileiro de grande influência na área da educação, não só no Brasil mas em todo o mundo, tendo sido homenageado em vida por instituições como Harvard, Cambridge e Oxford. Desde 2012, ele é considerado o Patrono da Educação Brasileira.
Conhecido por sua "Pedagogia da Libertação", a qual estava relacionada a uma visão marxista do Terceiro Mundo, Freire foi preso durante a ditadura militar no Brasil (1964–1985) e teve a publicação de algumas de suas obras barrada pela censura do regime ditatorial.

Esculturas em Estocolmo, Suécia.
A segunda, da esquerda para direita, retrata Paulo Freire. 
Alguns pensamentos de Freire
"Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo."
"Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvam uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças de forma crítica."
"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor."
"Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda.''
"A través de la manipulación, las élites dominadoras intentan conformar progresivamente las masas a sus objetivos."
"La humildad nos ayuda a reconocer esto: nadie lo sabe todo, nadie lo ignora todo. Todos sabemos algo, todos ignoramos algo."
"No hay palabra verdadera que no sea unión inquebrantable entre acción y reflexión."
"Aprender no es el acto de consumir ideas, sino de crearlas y recrearlas."

10 março, 2014

Delito de opinião

por Fernando Gurgel Filho
A Revista Civilização Brasileira, dirigida pelo jornalista Ênio Silveira, talvez tenha sido a primeira e mais importante voz a se levantar contra a Ditadura Militar.
Há uns dez anos, mais ou menos, achei em um sebo de Brasília, um belo exemplar do Ano 1, nº 3, de julho de 1965, dessa publicação.
Folheando-a neste fim de semana, encontro o texto de abertura que se chama "EPÍSTOLAS AO MARECHAL - Primeira Epístola: SOBRE O DELITO DE OPINIÃO".
Achei muito interessante pela atualidade da argumentação, passado quase meio século. Exatos quarenta e oito anos e seis meses.
O texto foi escrito depois de o autor, conforme relata, a) ter seus direitos políticos cassados; b) ter sido submetido a cinco IPMs; c) ter sido alvo de um processo criminal, acusado de "crime de subversão"; d) ter sido preso preso pelo acusação do mesmo "crime de subversão"; e) ver seus livros e da editora Civilização Brasileira apreendidos.
Ao final, o autor resume a pergunta recorrente em todos os interrogatórios a que foi submetido: "A Editora Civilização Brasileira é subvencionada pelo ouro de Moscou?", ressaltando que esta "não parece ser outra a preocupação de vários oficiais de seu Exército, Senhor Marechal. E o que nos mostra tal preocupação? Que esses oficiais são dominados, como quase todo o seu governo, por um preconceito geopolítico: qualquer pessoa que, na defesa de posições nacionalistas, fira direta ou indiretamente os interesses norte-americanos está a serviço dos interesses soviéticos."
E conclui: "É, evidentemente, uma conclusão falsa e tendenciosa, muito útil e elástica. O chamado "delito de opinião" é o crime que devemos todos praticar diariamente, sejam quais forem os riscos. Se deixarmos de ser "criminosos" nesse campo, seremos inocentes... e carneiros."
Pois é, quase cinquenta anos se passaram e o discurso da direita - coisa que nem eles mesmos sabem definir, pois continuam apenas raivosos e preconceituosos - não muda absolutamente nada. Nem a criminalização de quem comete o único delito de acreditar no País, não importa se isto fira interesses da potência A, B ou C.
Para essa turma da direita raivosa, emitir opiniões a favor do Brasil, de suas políticas públicas que resultem em melhorias sociais, só pode ser coisa de comunista – coisa que, também, nem eles mesmos sabem definir, pois continuam apenas raivosos e preconceituosos. E continuam torcendo contra o País, como se isso melhorasse suas condições pessoais. Mesmo que seja em detrimento da Nação inteira.

10 agosto, 2013

O outro lado

A América que brinca de Democracia
"As Vinhas da Ira", de John Steinbeck, é um dos livros que temos que ler com atenção.
O autor é americano, sabe o que está narrando, não é considerado comunista, nem batista, islamita, subversivo, ou algo que repudie as mentes mais ortodoxas. Certamente não dará sono.
Apesar do enredo dar-se na Grande Depressão de 1929/30, pode-se muito bem transplantá-lo para toda a história da grande democracia americana. Sem medo de errar.
O livro mostra claramente o que é a democracia centrada em um Estado que é obrigado a atender interesses dos bancos, da indústria e dos grandes latifundiários. Democracia que mata e suprime liberdades como qualquer ditadura ao redor do globo, seja comunista, religiosa, de centro, de direita etc.
O capitalismo, disfarçado de liberalismo dentro de uma pseudo-democracia, tem uma grande vantagem: mata sem que se possa apontar os assassinos.
Quando não mata diretamente, como qualquer Stalin ou Pol Pot, mata de fome, de miséria, de subemprego.
É uma da piores ditaduras de que se tem notícia na história da humanidade pois, sob esse tipo de organização da produção, é possível disfarçar o Estado sob um manto onde se vislumbram contornos de democracia. E os donos do poder podem agir livremente, quase sempre com o argumento de que estão agindo a bem da liberdade, da defesa da democracia, da manutenção da paz social. Aí a coisa pega e não adianta dizer que é muito diferente de qualquer ditadura de que se tem notícia na história da humanidade.
Salvo engano, a única forma de evitar ditaduras de qualquer linha ideológica seria a pulverização do poder e, até hoje, não existe nenhum sistema de organização da produção, seja de esquerda, centro ou direita, que evite a concentração de poder. E, todos sabemos, concentração de poder gera ditadura, e esta gera aquilo que todos conhecemos de uma ditadura: injustiças, impunidades, corrupção, destruição do tecido social etc. etc. etc.
Esta concentração foi o grande cancro que matou o socialismo e que mata qualquer democracia. Foi - é ainda - a concentração de poder que matou/mata incontáveis seres humanos sob a hegemonia da religião, do comunismo e do capitalismo.
E o grande modelo de democracia americana - que nunca existiu, diga-se de passagem - vive hoje, mais uma vez às escâncaras, sob um perigoso regime de supressão de liberdades e de tentativa de afirmação de uma hegemonia mundial.
Nada que já não tivesse acontecido antes. O capitalismo norte-americano, disfarçado em democracia, trucidou muito trabalhador ao longo de sua história. História feita de sangue por quem detinha o poder, não por quem precisa da proteção do Estado.
Fernando Gurgel Filho