Sob este sugestivo título (Abrir en caso de apocalipsis), encontra-se em espanhol o livro The Knowledge: How To Rebuild Our World From Scratch, de Lewis Dartnell, astrobiólogo da Agência Espacial Britânica. Um livro que trata de responder esta pergunta:
Como deveremos proceder para recuperar a civilização, partindo do zero, em caso de uma hecatombe total?
Obviamente, em pouco mais de 300 páginas, o autor tem consciência de que não pode, de maneira alguma, dar respostas a todas as perguntas em um mundo pós-apocalíptico. Por outro lado, o texto constitui um excelente ponto de partida para a hora de recuperar a agricultura e a alimentação de subsistência, a produção têxtil, ainda que rudimentar, as substâncias químicas que nos permitiriam sintetizar produtos básicos como o sal comum, os ácidos e as bases essenciais para a indústria química. Os medicamentos também ocupam um lugar preponderante na recuperação de uma sociedade civilizada, os materiais imprescindíveis para pôr em marcha uma indústria incipiente (metais, papel, tinta, máquinas como torno, motores, moinhos, prensas, forjas, alto-fornos etc.).
Mas, talvez, o mais importante seja a comunicação dos novos conhecimentos. Porque, em um mundo com a população severamente reduzida, a recuperação deverá passar por uma rápida transmissão e difusão de conhecimentos. Como construir uma estação de rádio? Como construir um motor de combustão? O que é necessário para impulsionar um veículo em um mundo onde os combustíveis fósseis estejam esgotados, desapareceram ou são impossíveis de serem extraídos por falta de uma indústria desenvolvida e de uma tecnologia avançada, como aquelas que existiam antes do cataclismo?
Dartnell nos leva pela mão, passo a passo, pela ciência e tecnologia, física, química (há muita química no livro), biologia e medicina. Ele nos diz de uma forma agradável, clara e concisa como proceder se queremos fazer as ferramentas mais básicas necessárias na reconstrução do mundo e como preparar a terra para o plantio, adubação, coleta e processamento de grãos ou fertilizantes.
Finalmente, todos e cada um dos capítulos do livro são uma mera desculpa para explicar, dar-nos a conhecer e mostrar o mais maravilhoso da civilização humana, o que nos trouxe até aqui: a ciência. A ciência deu-nos o que somos e ciência será o que nos permitirá recuperarmos em caso de um desastre apocalíptico.
Abrir en caso de apocalipsis (reseña). In: El tercer precog (o único blog que você levaria para uma ilha deserta)
N. do E.
No começo do livro, o autor cita uma experiência artística de Thomas Thwaites, que, há alguns anos propôs construir, a partir do zero, algo (aparentemente) muito simples: uma torradeira.
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17 fevereiro, 2017
27 janeiro, 2017
Aquela meleca em seu carro
Diz o comentário editorial da Amazon sobre o livro:
THAT GUNK ON YOUR CAR (Aquela meleca em seu carro ) é um livro seriamente engraçado, preenchido com informações fascinantes sobre insetos comuns, especialmente aqueles que têm maior probabilidade de se esmagarem no para-brisa do seu carro. Os capítulos são organizados em torno dos insetos individuais (sic) – formigas, mosquitos, gafanhotos, borboletas, grilos, mosquitos – e incluem informações sobre os ciclos naturais da história e da vida de cada um e as coisas divertidas que você pode fazer com os insetos. É um livro indicado para todas as idades e todas as informações são cientificamente precisas. O autor Mark Hostetler recebeu em 1997 o Prêmio Ig Nobel de Entomologia.
Enquanto não sai uma versão do livro para o português, vá lendo a crônica PEQUENAS BORBOLETAS AMARELAS, É o que tem de mais próximo da nossa realidade. Agora, se você quer somente se divertir tem também o slideshow MATANDO MOSCAS...
THAT GUNK ON YOUR CAR (Aquela meleca em seu carro ) é um livro seriamente engraçado, preenchido com informações fascinantes sobre insetos comuns, especialmente aqueles que têm maior probabilidade de se esmagarem no para-brisa do seu carro. Os capítulos são organizados em torno dos insetos individuais (sic) – formigas, mosquitos, gafanhotos, borboletas, grilos, mosquitos – e incluem informações sobre os ciclos naturais da história e da vida de cada um e as coisas divertidas que você pode fazer com os insetos. É um livro indicado para todas as idades e todas as informações são cientificamente precisas. O autor Mark Hostetler recebeu em 1997 o Prêmio Ig Nobel de Entomologia.
Enquanto não sai uma versão do livro para o português, vá lendo a crônica PEQUENAS BORBOLETAS AMARELAS, É o que tem de mais próximo da nossa realidade. Agora, se você quer somente se divertir tem também o slideshow MATANDO MOSCAS...
03 setembro, 2016
"O Homem que Roubou Portugal"
A história do maior golpe financeiro de todos os tempos
O Brasil parece insuperável no quesito de burlar a lei. Atualmente, podemos até suspeitar de um lado "B" da economia que tem pavor da CPMF.
Explicamos:
O livro "O Homem que Roubou Portugal" (V. resenha) conta a história de um ilustre falsificador português que, em 1924, emitiu quase 3% do PIB de Portugal e causou um impacto de grandes proporções na economia do País.
Ele contou, além de sua inteligência e habilidade, com o auxílio da sorte, de amigos e conhecidos que acreditavam no conto do "bilhete premiado" e, principalmente, com a ganância da empresa que prestava serviços de impressão do dinheiro português.
Apesar da imensa logística envolvida para entrar com o dinheiro impresso em Portugal e, consequentemente, faze-lo circular sem levantar suspeita, acabou sendo descoberto porque alguém suspeitou que a liquidez da economia estava além do normal.
Atualmente, por mais simples que seja o sistema financeiro de um País, creio que a tecnologia e os meios de controle tornam este tipo de crime quase impossível de acontecer.
Mas a moeda, em determinadas circunstâncias, pode descolar da economia real. Principalmente quando a economia subterrânea - difícil de mensurar - atinge níveis muito altos.
A economia do Patropi parece que está navegando, há muito tempo, dentro de uma bolha de liquidez difícil de controlar. Entretanto, como já foi dito, é praticamente impossível acreditar em circulação de moeda falsa, nos moldes do que fez o falsificador português.
Mas ficam diversas perguntas: de onde vem tamanha liquidez? De onde vem essa montanha de dinheiro em circulação que parece haver sempre um problema estrutural grave entre oferta e procura. Aquela, sempre insuficiente, esta, sempre acima das expectativas?
Autor: Murray Teigh Bloom
Organização e prefácio; Gustavo Franco
Jorge Zahar Editor, 2008 - 362 páginas
Em 1924, Artur Virgilio Alves Reis, um comerciante português falido, trama sozinho o maior golpe financeiro de todos os tempos. Em dois anos se tornaria o homem mais rico e poderoso de seu país. O que parecia um plano com pouca eficácia de um homem com muita imaginação, acabou causando problemas macroeconômicos. Desde o grande terremoto de 1755, Portugal não sofria abalo econômico tão profundo. O autor narra, com ares de romance policial, desde o momento da elaboração do golpe até o julgamento dos réus, em 1930. Nas audiências finais, Alves Reis contou ainda com uma presença ilustre entre os ouvintes da plateia: o poeta Fernando Pessoa, curioso em assistir a sua defesa. Traz, em anexo, a transcrição das anotações de Fernando Pessoa no último dia do julgamento.
Ver uma prévia deste livro no Google Books.
O Brasil parece insuperável no quesito de burlar a lei. Atualmente, podemos até suspeitar de um lado "B" da economia que tem pavor da CPMF.
Explicamos:
O livro "O Homem que Roubou Portugal" (V. resenha) conta a história de um ilustre falsificador português que, em 1924, emitiu quase 3% do PIB de Portugal e causou um impacto de grandes proporções na economia do País.
Ele contou, além de sua inteligência e habilidade, com o auxílio da sorte, de amigos e conhecidos que acreditavam no conto do "bilhete premiado" e, principalmente, com a ganância da empresa que prestava serviços de impressão do dinheiro português.
Apesar da imensa logística envolvida para entrar com o dinheiro impresso em Portugal e, consequentemente, faze-lo circular sem levantar suspeita, acabou sendo descoberto porque alguém suspeitou que a liquidez da economia estava além do normal.
Atualmente, por mais simples que seja o sistema financeiro de um País, creio que a tecnologia e os meios de controle tornam este tipo de crime quase impossível de acontecer.
Mas a moeda, em determinadas circunstâncias, pode descolar da economia real. Principalmente quando a economia subterrânea - difícil de mensurar - atinge níveis muito altos.
A economia do Patropi parece que está navegando, há muito tempo, dentro de uma bolha de liquidez difícil de controlar. Entretanto, como já foi dito, é praticamente impossível acreditar em circulação de moeda falsa, nos moldes do que fez o falsificador português.
Mas ficam diversas perguntas: de onde vem tamanha liquidez? De onde vem essa montanha de dinheiro em circulação que parece haver sempre um problema estrutural grave entre oferta e procura. Aquela, sempre insuficiente, esta, sempre acima das expectativas?
Fernando Gurgel Filho
Resenha
Autor: Murray Teigh BloomOrganização e prefácio; Gustavo Franco
Jorge Zahar Editor, 2008 - 362 páginas
Em 1924, Artur Virgilio Alves Reis, um comerciante português falido, trama sozinho o maior golpe financeiro de todos os tempos. Em dois anos se tornaria o homem mais rico e poderoso de seu país. O que parecia um plano com pouca eficácia de um homem com muita imaginação, acabou causando problemas macroeconômicos. Desde o grande terremoto de 1755, Portugal não sofria abalo econômico tão profundo. O autor narra, com ares de romance policial, desde o momento da elaboração do golpe até o julgamento dos réus, em 1930. Nas audiências finais, Alves Reis contou ainda com uma presença ilustre entre os ouvintes da plateia: o poeta Fernando Pessoa, curioso em assistir a sua defesa. Traz, em anexo, a transcrição das anotações de Fernando Pessoa no último dia do julgamento.
Ver uma prévia deste livro no Google Books.
21 abril, 2016
A Invenção da Ciência
Que é modernidade e quando começou?
A resposta depende muito da nacionalidade e da especialização do historiador a que você perguntar. Os italianos dão a primazia aos avanços das artes no Renascimento, a partir do século 14; os europeus do norte optam pelo período em que cidades como Amsterdam, Paris e Londres alcançaram a proeminência econômica e cultural, que vai do início do século 16 ao século 18; alguns historiadores da Alemanha situam-na tardiamente, por volta do ano de 1900. Os filósofos são suscetíveis de creditá-la a Descartes, em meados do século 17; economistas pendem para a revolução industrial, no final do século 18; historiadores políticos postergam-na para as revoluções americana e francesa.
Para além da Europa, muitos outros períodos e lugares disputam a atenção. Todo mundo tem uma sardinha para colocar nessa brasa.
A resposta de David Wootton é inequívoca: a modernidade começou com a revolução científica na Europa – de 1572 (quando o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe identificou uma nova estrela no céu) a 1704 (quando Isaac Newton publicou "Opticks"). Nesse período, segundo ele, aconteceu a transformação mais importante na história da humanidade desde a era neolítica. Eventos posteriores, como a revolução industrial, não foram mais do que consequências de uma revolução maior – a científica.
Sobre se a revolução científica é uma questão para celebrar (como achava a maioria dos pensadores iluministas) ou para se arrepender (como lamentavam alguns românticos), Wootton deixa claro: "foi uma coisa muito boa".
"A Invenção da Ciência: Uma Nova História da Revolução Científica", por David Wootton. In: www.theguardian.com/books/2015
Tycho Brahe (Skåne, Dinamarca, 14 de dezembro de 1546 — Praga, 24 de outubro de 1601), nascido Tyge Ottesen Brahe – Foi um astrônomo observacional da era que precedeu a invenção do telescópio, e suas observações da posição das estrelas e dos planetas alcançaram uma precisão sem paralelo para a época. Após a sua morte, os seus registros dos movimentos de Marte permitiram a Johannes Kepler descobrir as leis dos movimentos dos planetas, que deram suporte à teoria heliocêntrica de Copérnico. Tycho morreu em 24 de outubro de 1601, onze dias depois de ficar doente após um banquete. Consta que ele, antes de morrer, teria dito a Kepler: "Ne frustra vixisse videar!" (Não me deixe parecer ter vivido em vão). Por muito tempo, a crença geral foi que ele teria morrido de um problema na bexiga. Ele teria evitado de sair do banquete antes do fim, por boas maneiras, o que teria estressado sua bexiga ao limite, desenvolvendo uma infecção que o matou. Essa teoria inclusive foi apoiada pelo relato de Kepler. Contudo, investigações recentes sugerem que Tycho morreu não de problemas urinários, mas de envenenamento por mercúrio: níveis extremamente tóxicos foram encontrados em seus cabelos. Tycho pode ter-se envenenado tomando medicamentos contendo impurezas de cloreto de mercúrio, ou pode ter sido envenenado por alguém. De acordo com um livro de 2005, de Joshua Gilder e Anne-Lee Gilder, há evidências substanciais de que Kepler assassinou Tycho; eles argumentam que Kepler tinha os meios, motivos e oportunidade, e roubou os dados de Tycho com sua morte. De acordo com os Gilders, seria improvável que Tycho tivesse se envenenado, uma vez que ele era um alquimista familiarizado com a toxidade dos compostos de mercúrio. WIKIPEDIA
A resposta depende muito da nacionalidade e da especialização do historiador a que você perguntar. Os italianos dão a primazia aos avanços das artes no Renascimento, a partir do século 14; os europeus do norte optam pelo período em que cidades como Amsterdam, Paris e Londres alcançaram a proeminência econômica e cultural, que vai do início do século 16 ao século 18; alguns historiadores da Alemanha situam-na tardiamente, por volta do ano de 1900. Os filósofos são suscetíveis de creditá-la a Descartes, em meados do século 17; economistas pendem para a revolução industrial, no final do século 18; historiadores políticos postergam-na para as revoluções americana e francesa.
Para além da Europa, muitos outros períodos e lugares disputam a atenção. Todo mundo tem uma sardinha para colocar nessa brasa.
A resposta de David Wootton é inequívoca: a modernidade começou com a revolução científica na Europa – de 1572 (quando o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe identificou uma nova estrela no céu) a 1704 (quando Isaac Newton publicou "Opticks"). Nesse período, segundo ele, aconteceu a transformação mais importante na história da humanidade desde a era neolítica. Eventos posteriores, como a revolução industrial, não foram mais do que consequências de uma revolução maior – a científica.
Sobre se a revolução científica é uma questão para celebrar (como achava a maioria dos pensadores iluministas) ou para se arrepender (como lamentavam alguns românticos), Wootton deixa claro: "foi uma coisa muito boa".
"A Invenção da Ciência: Uma Nova História da Revolução Científica", por David Wootton. In: www.theguardian.com/books/2015
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| Isaac Newton, por William Blake (1795) |
18 junho, 2014
Você abraçou um pilar de concreto hoje?
Neste artigo, cujo título (traduzido) é também o desta postagem, Bill Gates faz uma resenha sobre "Making the Modern World: Materials and Dematerialization", de Vaclav Smil, um livro sobre cimento, ferro, alumínio, papel e outros materiais. Com dados curiosos "que farão com que você aprecie algumas coisas da vida moderna – de um modo especial".
Microposts
Pequena versão para Star Wars, O que as escolas não ensinam e Linus x Microsoft x Apple
Have You Hugged a Concrete Pillar Today, The Blog of Bill Gates
Microposts
Pequena versão para Star Wars, O que as escolas não ensinam e Linus x Microsoft x Apple
19 abril, 2014
O caminho, a realidade e a luz
"A leitura a fundo da obra de Juan Rulfo me deu, enfim, o caminho que buscava para continuar meus livros." – Gabriel García Márquez
Disse mais Gabriel García, quando leu e releu "Pedro Páramo" em uma única noite: "Não consegui dormir enquanto não terminei a segunda leitura; nunca, desde a noite tremenda em que li "A Metamorfose", de Franz Kafka, havia eu sofrido uma comoção semelhante."
(Ambas as declarações foram extraídas da orelha do livro "Pedro Páramo", de Juan Rulfo.)
"Pedro Páramo" e "Chão em Chamas" são os dois únicos livros publicados do mexicano Juan Rulfo. Em ambos, a terra ardente, o ar sufocante e a luz do sol formam sombras onde se misturam sonhos, lembranças, sensações, sentimentos... Apesar da visão de locais desertos, são pulsantes de vidas. Vidas que se foram e outras que esperam. Numa realidade onde a magia está presente em uma troca constante de vidas que tangenciam a morte e da morte que perpassa todas as existências. E que, para aquelas vidas, nunca vinha de forma definitiva.
Disse mais Gabriel García, quando leu e releu "Pedro Páramo" em uma única noite: "Não consegui dormir enquanto não terminei a segunda leitura; nunca, desde a noite tremenda em que li "A Metamorfose", de Franz Kafka, havia eu sofrido uma comoção semelhante."
(Ambas as declarações foram extraídas da orelha do livro "Pedro Páramo", de Juan Rulfo.)
"Pedro Páramo" e "Chão em Chamas" são os dois únicos livros publicados do mexicano Juan Rulfo. Em ambos, a terra ardente, o ar sufocante e a luz do sol formam sombras onde se misturam sonhos, lembranças, sensações, sentimentos... Apesar da visão de locais desertos, são pulsantes de vidas. Vidas que se foram e outras que esperam. Numa realidade onde a magia está presente em uma troca constante de vidas que tangenciam a morte e da morte que perpassa todas as existências. E que, para aquelas vidas, nunca vinha de forma definitiva.
Fernando Gurgel
N. do E.
Por ocasião do 95º. aniversário de nascimento do escritor Juan Rulfo (1917–1986), o Google homenageou esse escritor e fotógrafo mexicano com o doodle acima reproduzido.
19 novembro, 2013
A Meia-vida dos Fatos
Mark Frauenfelder
O fatos mudam o tempo todo. Fumar deixou de ser recomendado pelo médico para ser visto como algo mortal. Nós costumávamos pensar que a Terra era o centro do universo e que Plutão era um planeta. Durante décadas, estávamos convencidos de que o brontossauro era um dinossauro real. Em suma, o que nós sabemos sobre o mundo está sempre em constante mudança.Mas acontece que há uma ordem para o estado do conhecimento, uma explicação de como sabemos o que sabemos. Samuel Arbesman é um especialista na área da "cientometria", literalmente a ciência da ciência. O conhecimento, na maioria dos campos, evolui de forma sistemática e previsível, e essa evolução se desenrola de uma forma fascinante que pode ter um forte impacto sobre nossas vidas.
Médicos com a ideia de que seu conhecimento pode expirar se mantêm em dia com as últimas pesquisas. Empresas e governos atentos às novas descobertas que se desenvolvem podem melhorar as decisões sobre a alocação de recursos. E, ligados nas alterações que surgem na linguagem, cada um de nós pode melhor preencher as lacunas geracionais na gíria e no dialeto.
Assim como sabemos que um pedaço de urânio decompõe-se em uma quantidade mensurável de tempo - sua meia-vida radioativa - de um modo semelhante a mudança num determinado campo do conhecimento pode ser medida concretamente. Podemos entender quando os fatos tornam-se obsoletos, as taxas com que os fatos novos são criados e até mesmo como os fatos se divulgam.
Arbesman transporta-nos através de uma grande variedade de campos, daqueles que mudam rapidamente, ao longo de alguns anos, aos que mudam numa extensão de séculos. Ele mostra que muito do que sabemos consiste em "mesofatos" - fatos em que a mudança acontece em uma escala de tempo médio, muitas vezes ao longo de uma única vida humana. [...] The Half-life of Facts (A Meia-vida dos Fatos) é uma viagem fascinante à fábrica do conhecimento. Ele pode nos ajudar a encontrar novas maneiras de medir o mundo e de aceitar os limites do quanto podemos saber com certeza.
Um excerto de The Half-life of Facts: Why Everything We Know Has an Expiration Date, por Sam Arbesman, Boing Boing
10 agosto, 2013
O outro lado
A América que brinca de Democracia
"As Vinhas da Ira", de John Steinbeck, é um dos livros que temos que ler com atenção.
O autor é americano, sabe o que está narrando, não é considerado comunista, nem batista, islamita, subversivo, ou algo que repudie as mentes mais ortodoxas. Certamente não dará sono.
Apesar do enredo dar-se na Grande Depressão de 1929/30, pode-se muito bem transplantá-lo para toda a história da grande democracia americana. Sem medo de errar.
O livro mostra claramente o que é a democracia centrada em um Estado que é obrigado a atender interesses dos bancos, da indústria e dos grandes latifundiários. Democracia que mata e suprime liberdades como qualquer ditadura ao redor do globo, seja comunista, religiosa, de centro, de direita etc.
O capitalismo, disfarçado de liberalismo dentro de uma pseudo-democracia, tem uma grande vantagem: mata sem que se possa apontar os assassinos.
Quando não mata diretamente, como qualquer Stalin ou Pol Pot, mata de fome, de miséria, de subemprego.
É uma da piores ditaduras de que se tem notícia na história da humanidade pois, sob esse tipo de organização da produção, é possível disfarçar o Estado sob um manto onde se vislumbram contornos de democracia. E os donos do poder podem agir livremente, quase sempre com o argumento de que estão agindo a bem da liberdade, da defesa da democracia, da manutenção da paz social. Aí a coisa pega e não adianta dizer que é muito diferente de qualquer ditadura de que se tem notícia na história da humanidade.
Salvo engano, a única forma de evitar ditaduras de qualquer linha ideológica seria a pulverização do poder e, até hoje, não existe nenhum sistema de organização da produção, seja de esquerda, centro ou direita, que evite a concentração de poder. E, todos sabemos, concentração de poder gera ditadura, e esta gera aquilo que todos conhecemos de uma ditadura: injustiças, impunidades, corrupção, destruição do tecido social etc. etc. etc.
Esta concentração foi o grande cancro que matou o socialismo e que mata qualquer democracia. Foi - é ainda - a concentração de poder que matou/mata incontáveis seres humanos sob a hegemonia da religião, do comunismo e do capitalismo.
E o grande modelo de democracia americana - que nunca existiu, diga-se de passagem - vive hoje, mais uma vez às escâncaras, sob um perigoso regime de supressão de liberdades e de tentativa de afirmação de uma hegemonia mundial.
Nada que já não tivesse acontecido antes. O capitalismo norte-americano, disfarçado em democracia, trucidou muito trabalhador ao longo de sua história. História feita de sangue por quem detinha o poder, não por quem precisa da proteção do Estado.
"As Vinhas da Ira", de John Steinbeck, é um dos livros que temos que ler com atenção.O autor é americano, sabe o que está narrando, não é considerado comunista, nem batista, islamita, subversivo, ou algo que repudie as mentes mais ortodoxas. Certamente não dará sono.
Apesar do enredo dar-se na Grande Depressão de 1929/30, pode-se muito bem transplantá-lo para toda a história da grande democracia americana. Sem medo de errar.
O livro mostra claramente o que é a democracia centrada em um Estado que é obrigado a atender interesses dos bancos, da indústria e dos grandes latifundiários. Democracia que mata e suprime liberdades como qualquer ditadura ao redor do globo, seja comunista, religiosa, de centro, de direita etc.
O capitalismo, disfarçado de liberalismo dentro de uma pseudo-democracia, tem uma grande vantagem: mata sem que se possa apontar os assassinos.
Quando não mata diretamente, como qualquer Stalin ou Pol Pot, mata de fome, de miséria, de subemprego.
É uma da piores ditaduras de que se tem notícia na história da humanidade pois, sob esse tipo de organização da produção, é possível disfarçar o Estado sob um manto onde se vislumbram contornos de democracia. E os donos do poder podem agir livremente, quase sempre com o argumento de que estão agindo a bem da liberdade, da defesa da democracia, da manutenção da paz social. Aí a coisa pega e não adianta dizer que é muito diferente de qualquer ditadura de que se tem notícia na história da humanidade.
Salvo engano, a única forma de evitar ditaduras de qualquer linha ideológica seria a pulverização do poder e, até hoje, não existe nenhum sistema de organização da produção, seja de esquerda, centro ou direita, que evite a concentração de poder. E, todos sabemos, concentração de poder gera ditadura, e esta gera aquilo que todos conhecemos de uma ditadura: injustiças, impunidades, corrupção, destruição do tecido social etc. etc. etc.
Esta concentração foi o grande cancro que matou o socialismo e que mata qualquer democracia. Foi - é ainda - a concentração de poder que matou/mata incontáveis seres humanos sob a hegemonia da religião, do comunismo e do capitalismo.
E o grande modelo de democracia americana - que nunca existiu, diga-se de passagem - vive hoje, mais uma vez às escâncaras, sob um perigoso regime de supressão de liberdades e de tentativa de afirmação de uma hegemonia mundial.
Nada que já não tivesse acontecido antes. O capitalismo norte-americano, disfarçado em democracia, trucidou muito trabalhador ao longo de sua história. História feita de sangue por quem detinha o poder, não por quem precisa da proteção do Estado.
Fernando Gurgel Filho
02 julho, 2012
Antônio Vieira e o doce inferno dos negros
Por Emiliano José
Nasceu (Antônio Vieira) em Lisboa em 1608. Morreu em Salvador, em 1697. Com seus sermões, tornou-se uma referência, tanto pela maestria e beleza com que esgrimia ao valer-se da língua portuguesa quanto pelas ideias que defendia, enfrentando preconceitos de então, justificando outros. Combateu a escravidão indígena no Brasil, enfrentou a feroz Inquisição portuguesa por quem foi implacavelmente perseguido, defendeu os judeus e o que considerava dinamismo do capital que eles podiam aportar em Portugal. Gostava da Corte, envolveu-se na política e na diplomacia, foi intransigente defensor da escravidão dos negros, contra qualquer negociação com o Quilombo dos Palmares, propôs que a Coroa portuguesa entregasse Pernambuco aos holandeses e chegou a enveredar pelos caminhos da profecia, um dos motivos pelos quais foi perseguido pela Inquisição.Essas impressões foram recolhidas do livro "Antônio Vieira: Jesuíta do Rei" (Companhia das Letras, 352 págs., R$ 44,00), de autoria do professor titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense Ronaldo Vainfas.[...]
A base teológica que justificava a escravidão negra
![]() |
| Escravidão no Brasil. Quadro de Jean-Baptiste Debret (reprodução) |
Como diz o autor, no caso dos índios, escravidão e catequese se opunham. No caso dos africanos, complementavam-se. Embora fosse uma contradição insolúvel do ponto de vista moral, contornava-se o problema com uma sólida base teológica. A escravidão era má, porém justa e necessária para a ordem do mundo. Para os índios, buscar a salvação e não permitir a escravidão deles. Para os negros, cativeiro. A Igreja vai buscar referências em São Tomás de Aquino, desde, portanto, o século XIII. No decorrer do século XV, construiu-se a ideia de que os africanos em particular eram os mais vocacionados para a escravidão por descenderem de Cam, o filho maldito de Noé, cuja linhagem fora condenada ao cativeiro. Cam teria sido o povoador do continente africano. Os índios, que nada tinham a ver com Cam, deviam ser preservados do cativeiro, como lembra o autor. “Contradição moral e ideológica. Coerência teológica.”
[...]
Link para o ensaio completo, publicado em CartaCapital em 23/06/12 e acessado em 25/06/12.
06 abril, 2012
O livro dos esnobes
Gabando-se de "ter um olho clínico para os esnobes", William Makepeace Thackeray (1811-1864) dilacera a Inglaterra de sua época, cumprindo a promessa de "mergulhar a pena na sociedade e garimpar ricos veios de minério-de-esnobe". Ao fazê-lo, ninguém é poupado, por mais poderoso que seja. O rei George IV (o Esnobe Real), anfitriãs de banquetes, arrogantes turistas britânicos, clérigos emproados e vistosos rapazes... todos caem sob seu olhar crítico, para emergirem batidos e amedrontados.
Na época em que foram publicados na revista Punch, de Londres, esses artigos fizeram enorme sucesso, mesmo entre as pessoas atingidas pelas estocadas de Thackeray.
Hoje, passado mais de um século, temos o retrato arguto e bem-humorado da Inglaterra vitoriana construído por um de seus maiores escritores. Um livro que delicia pela ironia engraçada e pela refinada elegância com que Thackeray destrói desafetos e descreve um mundo aristocrático pleno de arrivistas e aventureiros.
Thackeray, W.M. O livro dos esnobes: escrito por um deles. Tradução de Reinaldo Guarany - Porto Alegre, RS: L&PM, 2010. 256p. il.
ISBN: 978.85.254.2193-7
20 janeiro, 2011
A construção de um personagem
-
PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN, de Lionel Shriver
Assassinatos em série em escolas americanas são recorrentes. Explicações, idem. Mas o livro “Precisamos falar sobre o Kevin”, de Lionel Shriver, apenas expõe as dificuldades e perplexidades no seio de uma família onde o rumo parece ser ditado pelas ambições individuais. E onde o indivíduo parece ditar o rumo que não se sabe qual é.
O que fazer para castigar uma criança que não tem apego a nada? Se nada a atinge? Proíbi-la de ver televisão? Indiferente! De passear? Indiferente! De jogar? Indiferente! Ou proibi-la de sair com amigos que não tem?
O que fazer quando escondemos de um adolescente cenas de terror e de violência na televisão se, para este adolescente, tanto faz assistir uma cena de amor, de sexo, de assassinato, de culinária ou de um evento cultural?
Um dia ele terá alguma inclinação por algo? O que será?
Não creio que a autora deu alguma resposta, mas o choque de uma narrativa fria e crua nos faz sentir calafrios e procurar nossas próprias respostas ou, ao menos, obriga-nos a utilizar o pouco conhecimento que temos do assunto, bem como nossas melhores emoções, para tentar evitar que os nossos filhos tomem caminhos sem volta.
Apesar de ficção, a construção do personagem fez-se a partir das chacinas reais analisadas pela autora. Daí o pavor que o livro provoca, pois existe uma realidade retratada no cotidiano de qualquer família e que, sem motivo e sem culpados, simplesmente explode em um adolescente indecifrável. E cruel ao extremo.
(*) O autor publicou esta resenha originalmente em Sabor de literatura, blog de Gilmar Bossle.
PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN, de Lionel Shriver
Por Fernando Gurgel Filho (*)
Assassinatos em série em escolas americanas são recorrentes. Explicações, idem. Mas o livro “Precisamos falar sobre o Kevin”, de Lionel Shriver, apenas expõe as dificuldades e perplexidades no seio de uma família onde o rumo parece ser ditado pelas ambições individuais. E onde o indivíduo parece ditar o rumo que não se sabe qual é.
O que fazer para castigar uma criança que não tem apego a nada? Se nada a atinge? Proíbi-la de ver televisão? Indiferente! De passear? Indiferente! De jogar? Indiferente! Ou proibi-la de sair com amigos que não tem?
O que fazer quando escondemos de um adolescente cenas de terror e de violência na televisão se, para este adolescente, tanto faz assistir uma cena de amor, de sexo, de assassinato, de culinária ou de um evento cultural?
Um dia ele terá alguma inclinação por algo? O que será?
Não creio que a autora deu alguma resposta, mas o choque de uma narrativa fria e crua nos faz sentir calafrios e procurar nossas próprias respostas ou, ao menos, obriga-nos a utilizar o pouco conhecimento que temos do assunto, bem como nossas melhores emoções, para tentar evitar que os nossos filhos tomem caminhos sem volta.
Apesar de ficção, a construção do personagem fez-se a partir das chacinas reais analisadas pela autora. Daí o pavor que o livro provoca, pois existe uma realidade retratada no cotidiano de qualquer família e que, sem motivo e sem culpados, simplesmente explode em um adolescente indecifrável. E cruel ao extremo.
(*) O autor publicou esta resenha originalmente em Sabor de literatura, blog de Gilmar Bossle.
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