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27 outubro, 2025

JAGUAR

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (Rio de Janeiro - RJ, 1932). Caricaturista, ilustrador, desenhista, jornalista, cronista. Sua obra provocadora, hedonista e libertária é um importante exemplo da irreverência e da crítica política e social na história do jornalismo brasileiro.
Inicia a carreira em 1953, colaborando com a revista "Manchete", ao mesmo tempo que trabalha como funcionário do Banco do Brasil. Na página de humor da revista, publica suas primeiras charges em 1957. Jaguar pertence ao grupo de cartunistas que se destacam na década de 1950, influenciados pelo cartunista americano Saul Steinberg e pelo desenhista francês André François.
Em épocas diferentes, contribui com as "Revista da Semana" e "Revista Civilização Brasileira", com o semanário de humor "Pif-Paf" e os jornais cariocas "Tribuna da Imprensa" e "Última Hora". Em 1968, lança sua primeira antologia de cartuns "Átila, você é um bárbaro". 
Depois de 17 anos como escriturário, em 1971 abandona o trabalho no Banco do Brasil. No banco, conhece o também funcionário e escritor Sérgio Porto, que publica, com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, vários textos ilustrados por Jaguar.
O ilustrador faz parte da geração de artistas que, a partir de 1964, se opõem à censura imposta pelo regime militar. É um dos fundadores da famosa "Banda de Ipanema", inaugurada no primeiro carnaval pós-golpe, em 1965. O bloco é responsável por ressuscitar os blocos de rua cariocas e congregar jornalistas, escritores, cineastas, atores, músicos, artistas plásticos e cartunistas.
Em 1969, ao lado de Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Henfil, Paulo Francis, Ziraldo, entre outros, funda "O Pasquim", publicação na qual trabalha como editor de humor, cartunista, entrevistador e administrador. Conta-se que o semanário, cujo nome significa "jornal sem repercussão, sem importância, ou mal redigido", foi batizado por Jaguar, o único da equipe original a permanecer até o seu fim da publicação, em 1991. De suas mãos nasce o mascote do jornal, o ratinho Sigmund, ou Sig, uma referência ao psicólogo austríaco Sigmund Freud. Como alter-ego do cartunista, o personagem atua como mestre de cerimônias da revista: aparece na capa e na abertura das matérias que são a novidade da semana. Também de Jaguar são a tira Chopnics, criada em parceria com Ivan Lessa, a Anta de Tênis e o personagem Gastão, o Vomitador, que fazem bastante sucesso nas páginas do hebdomadário.
Por causa de uma de suas montagens satíricas, a quase totalidade da equipe do "O Pasquim" é presa por dois meses pelo regime militar, no final de 1970. A obra que serviu de estopim para a detenção reproduz o quadro de Pedro Américo, "Independência ou Morte", no qual a figura de Dom Pedro I é acompanhada da frase "Eu quero é mocotó!", extraída da música de Jorge Ben.
Em 1999 participa, ao lado de Ziraldo e de outros remanescentes de "O Pasquim", da criação da revista de humor "Bundas", uma sátiria da publicação "Caras". E seu último livro, "Confesso que bebi", de 2001, é um misto de guia de bares e restaurantes e histórias vividas ao lado de amigos, com crônicas sobre incursões gastronômicas pela cidade do Rio de Janeiro.
Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural

Em charge publicado na Folha de SP, Jaguar foi profético:

01 novembro, 2024

"Com uma mulher dessas, qualquer governo é bom"

 OS DOCES DO POETA, por Ferdy Carneiro

O protagonista desta história, publicada em "O Pasquim", foi o cronista Paulo Mendes Campos.

Uma mulher dessa ou dessas?
No português de Portugal, o pronome vai, de fato, para o plural. Consultando o "Corpus do Português", não encontrei, em escritores portugueses, nenhuma abonação da construção com o pronome no singular. Já no Brasil surgem algumas ocorrências, como se verifica também pelos exemplos que o consulente apresenta, retirados da "Gramática de Usos do Português", de Maria Helena de Moura Neves, segundo a qual «a referência com deste, desse ou daquele pospostos a um substantivo pode indicar tipificação, e, geralmente, com valor negativo».
In Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-pronome-demonstrativo-no-plural-uma-coisa-dessas-um-absurdo-desses/28009 [consultado em 20-03-2024]

15 julho, 2024

Morre Sérgio Cabral

Morreu ontem Sérgio de Oliveira Cabral Santos (Rio de Janeiro, 27 de maio de 1937 – Rio de Janeiro, 14 de julho de 2024), jornalista, escritor e pesquisador. 
Ele trabalhou em jornais como O Globo, Última Hora e Diários Associados e foi um dos fundadores do semanário O Pasquim, um dos órgãos referenciais do humor e da crítica política no país.
Conviveu com artistas como Ary Barroso, Eliseth Cardoso, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Nara Leão, Tom Jobim, entre outros importantes nomes da MPB, o que faz com que seus textos tenham um misto de história pesquisada e vivida.
No final da década de 1980, junto com Teresa Aragão, dirigiu os lendários shows do Teatro Opinião, reduto de resistência à ditadura no Rio de Janeiro. Os espetáculos, sempre às segundas, serviram de abertura para o público da Zona Sul carioca conhecer nomes geniais do samba, como Martinho da Vila (lançado por Sérgio Cabral), Nelson Cavaquinho, Cartola, Carlos Cachaça, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Rildo Hora, Dona Ivonne Lara, Marçal, Guilherme de Brito e Clementina de Jesus, entre muitos outros.
Seus livros (atualmente publicados pela Lazuli Editora) são considerados referências para todos aqueles que desejam conhecer os bastidores da cultura brasileira dos últimos 50 anos, por conta de sua linguagem acessível e direta e da intimidade que teve com algumas das maiores personalidades do período.

21 outubro, 2023

Fotofofocas e fotopotocas

São fotos descartadas (ou não) nos veículos de comunicação que ganham falas inventadas para provocar o riso. É bom lembrar que o Brasil já foi um grande consumidor desse instrumento de humor ágil e de fácil assimilação. Durante anos, elas foram uma grande atração da antológica revista "O Cruzeiro" (sob o nome de fotofocas). Na década de 1970, rebatizando-as de fotopotocas, o humorista Ziraldo publicou várias edições (acho que 12) dedicadas a esse gênero. E a mais célebre delas, inventada por Jaguar, foi a EU QUERO MOCOTÓ!, uma paródia com D. Pedro I que colocou no cárcere a redação inteira de "O Pasquim".

Segue aí uma com o Vladimir Putler:

24 fevereiro, 2023

Bar Zeppelin

Em 1972 fui frequentador do Zeppelin, no Rio de Janeiro.
Inaugurado em 1937, o bar e restaurante Zeppelin ficava na Rua Visconde de Pirajá, 499, em Ipanema. Seu dono era o austríaco Oskar Geidel, um trapezista de circo que se encantou com a Cidade Maravilhosa. E o nome do point era uma homenagem ao dirigível alemão Graf Zeppelin que fazia a rota Frankfurt-Rio.
No livro "Ela é Carioca", diz Ruy Castro, que o Zeppelin, em algum momento da II Guerra Mundial, chegou a ser depredado por estudantes da esquerda. Ainda assim, Oskar reconstruiu o bar e manteve o mesmo nome.
Nos anos 1950, era frequentado por nomes como Albino Pinheiro, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Ary Barroso e Dorival Caymmi.
Na década seguinte, ganhou a frequência de Vinicius de Moraes, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Cecil Thiré, Betty Faria, Claudio Marzo, Ferdy Carneiro (fundador da Banda de Ipanema), Nelson Motta e toda a nata do Cinema Novo.
Também no Zeppelin, em 1968, surgiu a ideia de criar um dos jornais mais críticos da ditadura militar: "O Pasquim" (fundado no ano seguinte por Ziraldo, Jaguar, Millôr e Paulo Francis).
Em setembro de 1968, Oskar decidiu pendurar as chuteiras e vendeu o bar para Ricardo Amaral. Antes de passar o restaurante adiante, deu uma festa de despedida que ficou famosa como um dos maiores porres da história de Ipanema.
Por cortesia da casa, os chopes no Zeppelin davam direito a doses da Steinhäger, uma bebida destilada alemã que o garçom trazia em minúsculos copos. A dose era para ser acrescentada ao chope, de modo a fazer uma mistura conhecida por "submarino" que, dizia-se, realçava o sabor do chope.
Quadros com "Os Chopnics" do Jaguar eram vistos em suas paredes. Um deles, com o personagem BD (Hugo Bidet, na vida real), divulgava uma célebre frase do Paulo Francis: "Intelectual não vai à praia, intelectual bebe".


Em 1972, o Zeppelin cerrou as portas definitivamente e "ficou como uma lenda na noite etílica de Ipanema".
Fontes:
http://bafafa.com.br/turismo/historias-do-rio/bar-zeppelin-aberto-em-1937-encantou-varias-geracoes-em-ipanema
http://almanaquedomalu.blogspot.com/2012/07/chopnics.html
http://blogdopg.blogspot.com/2020/07/feijoada-no-bide.html
http://historietologo.blogspot.com/2013/06/jaguar.html

31 julho, 2020

"A Gripe do Pasquim"

A famosa "Gripe" que assolou o Pasquim aconteceu de 1.º de novembro a 31 de dezembro de 1970. Nesse período, nove jornalistas do semanário estiveram encarcerados. Era a época do governo Médici, o período mais duro do regime militar (em que tudo podia acontecer aos presos políticos, inclusive o desaparecimento físico).
Foram presos Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez, Flavio Rangel, Sérgio Cabral, Tarso de Castro e Fortuna.
Durante o período em que estiveram de cana, o jornal manteve-se em circulação editado por Millôr Fernandes, Henfil e Martha Alencar. E colaboraram com "O Pasquim", entre outros, Chico Buarque, Antônio Callado, Odete Lara, Jô Soares e Glauber Rocha.
A prisão ficou conhecida como "A Gripe", pois era com esta ironia que justificavam no jornal a ausência da maior parte da equipe. Além de fazer seus desenhos, Henfil também fez cartuns imitando o estilo de cartunistas presos, o que deixava os militares intrigados. "Pô!", diziam, "saiu um desenho do Fortuna. Mas o Fortuna não está aqui preso?".
Essa cana foi motivada por uma paródia do quadro "Independência do Brasil", que foi considerada "extremamente desrespeitosa" pela repressão. O cartunista Jaguar reproduziu o quadro de Pedro Américo no Pasquim, apresentando D. Pedro, com a espada erguida, gritando: — Eu quero mocotó!
Vejam…..


Fonte: http://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/memorias/

http://blogdopg.blogspot.com/2019/12/girias-do-pasquim.html
http://blogdopg.blogspot.com/2019/12/a-censura-previa-no-pasquim.html
http://blogdopg.blogspot.com/2019/04/eu-quero-mocoto.html
http://blogdopg.blogspot.com/2017/11/falou-e-disse.html
http://blogdopg.blogspot.com/2008/09/o-pasquim-e-mpb.html
http://blogdopg.blogspot.com/2007/10/geek-geek-net-net.html

22 julho, 2020

Feijoada no bidê

Hugo Leão de Castro (1934-1977) era artista plástico, atuava em teatro, cinema  e escrevia roteiros para a televisão. Foi colaborador do Pasquim e andava sempre na companhia de um ratinho branco (que serviu de inspiração para o Sig). E foi, ele mesmo, a inspiração para o cartunista Jaguar criar o personagem Capitão BD que, ao pronunciar uma palavra mágica (a da marca de uma cerveja), ganhava superpoderes. Mas só dentro dos limites do bairro de Ipanema.
Fundou a feira hippie da praça General Osório e sua maior alegria era participar dos desfiles da Banda de Ipanema em que fingia estar tocando um trombone de verdade.
O apelido surgiu após promover uma feijoada para amigos em seu apartamento. Na falta de panelas, colocou os ingredientes da feijoada em um bidê que acabara de comprar. Virou o Hugo Bidet. De tão popular, o novo "sobrenome", diz Simão Pessoa, passou a ser impresso até em seus talões de cheque.
Em 1977, após escrever uma carta em que dizia estar "louco, irremediavelmente louco", deu um tiro no céu da boca.
Não morreu.
Pediu ajuda ao vizinho, foi tranquilamente de táxi ao hospital e ainda brincou com conhecidos pelo caminho.
Mas, nove dias depois, Ipanema perdia um dos ícones do tempo em que o bairro "era só felicidade".

http://simaopessoa.blogspot.com/2010/10/causos-de-bambas-hugo-bidet.html
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,jaguar-conta-com-humor-historias-de-ipanema,20010112p3945

24 janeiro, 2020

Reciclagem de calendários (2)

Charge do Claudius/64
A cada 28 anos os calendários se repetem.
1964, 1992, 2020...
Nós, os que fomos do tempo do Pasquim diríamos: "Quiuspa!".

http://blogdopg.blogspot.com/2019/12/girias-do-pasquim.html

27 dezembro, 2019

Gírias do Pasquim

para o jornalista JB Serra e Gurgel
autor de DICIONÁRIO DE GÍRIA
Famoso por seus textos debochados, irônicos e irreverentes, o Pasquim inventou modismos como "pô", "paca", "sifu", "duca", "putsgrila", "quiuspa", "podiscrer" e "cacilda". Levou as gírias ipanemenses para as páginas do tabloide e tirou o "paletó e a gravata do jornalismo", deixando os textos mais próximos da linguagem coloquial.
[https://blogdopg.blogspot.com/2017/11/falou-e-disse.html]

Anta, pessoa lerda, pesada. Neste período: Eu sou uma anta.Tenho DOIS pares de tênis. Dizem os "pasquinófilos" que a frase era uma alusão aos basbaques da época. Quando possuir UM par de tênis era coisa de rico, e eles estufavam o peito para proclamar:– EU tenho DOIS pares de tênis!
[https://blogdopg.blogspot.com/2019/01/a-anta-de-tenis-e-o-cidadao-de-bem.html]
Barato, momento, coisa ou pessoa capaz de inspirar prazer ou simpatia.
Bicha, pederasta.
Bicho, amigo, cara, um interlocutor do sexo masculino.
Bicho grilo, pessoa de aparência extravagante.
Bilouca, contração de "bicha louca".
Cacilda, variante de "caceta". Indica espanto.
Coisa de veado, moda ou comportamento de homossexual.
[https://blogdopg.blogspot.com/2009/05/coisa-de-veado.html]
Duca, contração de "do caralho", muito bom.
Falou e disse, concordo.
Hebdô, abreviatura de hebdomadário, uma publicação semanal.
Jáco, já comi.
Mocotó. Nesta frase: Eu quero mocotó!
[https://blogdopg.blogspot.com/2019/04/eu-quero-mocoto.html]
O Pasca, O Pasquim. Nem mesmo o jornal escapou de sua terminologia.
O virundum. Inspirado no primeiro verso (O VIRUNDUM Ipiranga) do Hino Nacional, cuja letra é hors-concours em matéria de "virunduns" (do que terra MARGARIDA, verás que um FILISTEU não foge à luta etc). Dizem que foi criado pelo jornalista Paulo Francis.
[https://blogdopg.blogspot.com/2008/09/o-virundum.html]
Paca, contração de "pra caralho", muito, demais.
Patota, turma.
Pô, abreviação de "porra".
Podiscrer, pode acreditar, usado para introduzir qualquer afirmação.
Putzgrila (ou putsgrila) é uma abreviação de "puta que pariu, isso grila". Muito usado pela juventude, nas décadas de 1960 e 70, para expressar susto ou admiração quando um assunto complexo era comentado numa roda.
[https://blogdopg.blogspot.com/2018/01/do-prefacio-ao-posfacio.html]
Quiuspa, abreviação de "puta que os pariu".
Sarro, gozação, "casquinha". Nesta expressão: Tirar um sarro.
Sifu, contração de "se fodeu", se deu mal. Havia as variações "mifu", "tifu" e "nosfu".
Vôco, vou comer.
Um órgão disseminador do humor e do estilo de vida cariocas, essencialmente provindos da elite intelectual do bairro de Ipanema, O Pasquim modificou a linguagem jornalística. Nele escrevia-se como se falava.

Artigos recomendados:
A breve história e a caracterização d'O Pasquim, por Bruno Brasil
O pingente que deu certo, por Sergio Augusto

06 dezembro, 2019

A censura prévia no Pasquim

Nascido em junho de 1969, o jornal satírico O Pasquim esteve sob censura até 1975.
A primeira manifestação concreta da censura ocorreu em 1970, ao ser publicada no semanário uma reprodução de uma pintura de Pedro Américo ,"Independência ou Morte", realizada em 1888. O caricaturista e jornalista Jaguar, um dos criadores do Pasquim, usou uma reprodução do quadro que consagrou "a participação de Pedro Américo na montagem de um imaginário particularmente importante na construção simbólica do regime político, sobretudo em momentos de redefinição da identidade nacional". Jaguar transformou a imagem inicial e fez Dom Pedro I  dizer "Eu quero mocotó", referindo-se a uma canção de Erlon Chaves e Jorge BenJor, de 1970.
Após esse evento, o jornal contou com a presença física de censores dentro da redação, ao lado dos jornalistas, para vigiar e cortar as matérias antes mesmo da edição. A partir de 1974, a sede da censura mudou para Brasília, aonde o jornal tinha que mandar as matérias para a censura prévia, o que ocasionava inúmeros problemas técnicos e financeiros para a redação.
Alvos da censura, os desenhistas da redação do Pasquim rapidamente passaram a criticá-la, de
forma humorística, poética, irônica ou cínica. Uma charge, do Millôr Fernandes, representava a ação dos censores, os protagonistas de muitos desenhos e muitas críticas, pois a presença deles impactava de forma direta e concreta no trabalho cotidiano dos jornalistas. Aqui, sob o lápis irônico do Millôr, os responsáveis pela verificação dos conteúdos se empurram para poder ver as matérias, como se fosse um espetáculo. Uma inversão, portanto, opera-se na atitude dos censores, que manifestam um forte interesse pelas produções que teriam de criticar, denunciar e cortar.
Em 1977, Millôr Fernandes, ao comentar os anos de trabalho marcados pela censura nessa publicação, disse:
"Foram 300 semanas de um jornalismo aventuroso, com alguns momentos de extrema euforia e a maior parte de depressão e angústia diante da perseguição violenta e constante. Pois, dos seis anos quase completos que eu trabalhei no Pasquim, mais de cinco foram sob a bengala branca da censura mais cega que já existiu neste país – e eu sei bem do que falo."
Ao terminar a censura prévia a que estavam submetidos, os editores de O PASQUIM adotaram o recurso de inserir na publicação um selo com a seguinte mensagem:
ENQUANTO VOCÊ ENCONTRAR ESTE SELO
O PASQUIM CONTINUA SEM CENSURA PRÉVIA.
Era uma forma de avisar seus leitores de que estaria havendo recrudescimento da censura.
Webgrafia
Mélanie Toulhoat. Usos políticos do humor gráfico nas páginas do jornal Pasquim sob censura (1969-1975). FAFICH. II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS, Jun 2013, Belo Horizonte, Brazil. 2013, Anais Eletrônicos do II Encontro de Pesquisa em História da UFMG – II EPHIS.
Censura Lendo o Material do Pasquim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Acesso em: 19 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Blog EM. https://blogdopg.blogspot.com/2019/04/eu-quero-mocoto.html

Ler também: O Pasquim e a MPB

20 abril, 2019

Eu quero mocotó!


Em novembro de 1970, a maior parte da redação de "O Pasquim" foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga (de autoria de Pedro Américo). Os militares esperavam que o semanário saísse de circulação pela subsequente perda do interesse de seus leitores.
Mas, durante todo o período em que a equipe esteve encarcerada — até fevereiro de 1971 — "O Pasquim" foi mantido sob a editoria de Millôr Fernandes (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e outros intelectuais.
As prisões continuariam nos anos seguintes. E o hebdomadário havia sido, acrescente-se aqui, alvo de dois atentados a bomba, uma em março de 1970, a outra em maio. Na década de 1980, as bancas que vendiam jornais alternativos como "O Pasquim", "Opinião" e "Movimento" passaram também a ser alvos de atentados a bomba.
Aproximadamente metade dos pontos de venda decidiu não mais repassar a publicação, temendo ameaças. Era o início do fim para o Pasquim. [WIKI]
Abaixo, a história da canção de Jorge Ben que, por ter o refrão mencionado no balão de fala de Dom Pedro, causou a prisão da maior parte da redação de "O Pasquim". "Uma coisa é certa: lá dentro deve estar muito mais engraçado do que aqui fora”, que foi como alguém comentou numa edição remanescente do semanário.


17 janeiro, 2019

A Anta de Tênis e o Cidadão de Bem

A Anta de Tênis foi uma criação do Jaguar, um dos fundadores de "O Pasquim".
No início, ela apenas falava a língua geral dos porcos: oinc, oinc, oinc. Foi Ivan Lessa que lhe ampliou as fronteiras linguísticas.
"Eu sou uma anta.Tenho DOIS pares de tênis."
Dizem os "pasquinófilos" que a frase era uma alusão aos basbaques da época. Quando possuir UM par de tênis era coisa de rico, e eles estufavam o peito para proclamar:
– EU tenho DOIS pares de tênis!
Apesar da representante monocórdica, o melhor do Brasil era a anta-brasileira.

O Cidadão de Bem eclodiu de um armário em tempos mais recentes.
Empoderado, ele agora se prepara para assaltar (como se fosse uma Black Friday) as lojas de armas e munições. Em seguida, planeja entrar pela porta (blindada) da frente do seu clube de tiro favorito. Seu líder e guru acaba de assinar a bula que facilita a posse das armas de fogo.
Ao assiná-la, o guru pontificou: "O Cidadão de Bem, com toda certeza, poderá fazer uso dessas armas".
A tal bula estabelece QUATRO armas por pessoa, mas o limite pode ser excedido.
Não importa quantas sejam, em casa deverá manter todas as armas fora do alcance das crianças. Já não basta o perigo que os liquidificadores representam para elas?

Segredos de liquidificador

26 janeiro, 2018

Do prefácio ao posfácio

"Prefácio é aquilo que se escreve depois, se imprime primeiro, e não se lê nem antes nem depois." ~ Dino Segrè

- Putzgrila, Pitigrilli!
Putzgrila (ou putsgrila) é uma abreviação de "puta que pariu, isso grila". Muito usado pela juventude, nas décadas de 1960 e 70, para expressar susto ou admiração quando um assunto complexo era comentado numa roda.
Esta palavra foi provavelmente inventada por algum colaborador de "O Pasquim".
Já Dino Segrè, também conhecido pelo pseudônimo Pitigrilli, foi um jornalista e escritor italiano. Ele trabalhou nos principais jornais de sua época, tecendo comentários ácidos e humorísticos sobre a sociedade e os costumes. Exemplos:
  • Agradecidos são aqueles que ainda têm algo a pedir.
  • Para compreender os paradoxos é preciso ser inteligente, mas para segui-los é preciso ser estúpido.
  • Tudo deve ser discutido. Sobre isso não há discussão.
Ele afirmava que adotou este pseudônimo porque gostava de "colocar os pingos nos ii".

Sem crise. Isto aqui é um posfácio.

14 novembro, 2017

Falou e disse

Famoso por seus textos debochados, irônicos e irreverentes, o Pasquim inventou modismos como "pô", "paca", "sifu", "duca", "putsgrila", "quiuspa", "podiscrer" e "cacilda". Levou as gírias ipanemense para as páginas do tabloide e tirou o "paletó e a gravata do jornalismo", deixando os textos mais próximos da linguagem coloquial.
Seus editores e colaboradores escreviam do jeito como falavam. Assim era "O Pasquim", digo, "o pasca".
Na ilustração: Sig (abreviatura de Sigmund, em honra a Sigmund Freud), o rato símbolo do hebdomadário.
Fontes
http://seretecer.blogspot.com.br/2007/06/chega-s-livrarias-segunda-antologia-do.html
http://balsamohistoria.blogspot.com.br/2014/10/girias-dos-anos-6070.html