Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens

23 novembro, 2025

Tenório Jr.

Francisco Cerqueira Tenório Jr., pianista e arranjador Nascido em Laranjeiras, Rio de Janeiro, em 4 de julho de 1941. Cursou (mas não concluiu) a Faculdade Nacional de Medicina, enquanto se dedicava paralelamente ao estudo do piano. Em março de 1964, gravou o LP “Embalo” de 11 faixas, dentre as quais 5 eram autorais. Tocando nas sessões do "Little Club", Tenorinho, como era conhecido na época, foi um dos nomes catapultados pelo "Beco das Garrafas" (verdadeiro laboratório de experimentações instrumentais) para se tornar, nos anos 1970, um dos profissionais mais requisitados pelos artistas brasileiros (Leny Andrade, Wanda Sá, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Gal Costa, Joyce, entre outros). Na noite de 18 de março de 1976, quando acompanhava numa turnê os artistas Vinicius de Moraes e Toquinho, o pianista desapareceu misteriosamente em Buenos Aires. Tinha sido sequestrado por agentes da repressão daquele país com o aval do Estado brasileiro (Operação Condor). Durante muitos anos, sua história foi envolta em incerteza, até que, 49 anos depois, a Polícia Técnica da Argentina relacionou suas impressões digitais com as de alguém que foi executado naquele período. Esta descoberta trouxe um alívio para os familiares de Tenório, que, finalmente, souberam o que realmente aconteceu com ele. Apesar de não ter qualquer envolvimento com movimentos políticos, confundido com outra pessoa, Tenório foi sequestrado, supliciado e morto. Ao morrer, deixou quatro filhos e a esposa Carmen Cerqueira, então grávida de oito meses. Na época, ele tinha 35 anos, e a quinta criança nasceu um mês depois. Logo após o sumiço de Tenório Jr. o cineasta Rogério Lima produziu o curta-metragem de 16 mm, "Balada para Tenório", em que relata o desaparecimento de Tenório Jr. e entrevista seus familiares e amigos. Toquinho dedicou-lhe a música “Lembranças” e Elis, em 1979, dedicou à ausência de Tenório seu LP “Essa mulher”. Em 2023, o cineasta espanhol Fernando Trueba lançou uma animação em longa-metragem intitulada “Dispararon al pianista” (Atiraram no pianista). Em 1.º de outubro de 2025, foi realizado um evento no Teatro do BNDES, que contou com apresentações de Gil, Caetano, Joyce e de músicos considerados expoentes do samba-jazz para celebrar a memória de Tenório Jr.

“A memória, quando bem guardada, não desaparece." (Ruy Castro)
Brasil247.com

10 fevereiro, 2024

Problemas de memória


Um casal, em seus noventa anos, estão ambos com problemas de memória. Durante um exame clínico, o médico diz que eles estão fisicamente bem, mas que é melhor começar a anotar o de que precisam, para ajudá-los a se lembrar mais tarde.
Naquela noite, enquanto assistem TV, o homem se levanta de sua cadeira.
"Quer alguma coisa enquanto estou na cozinha?", ele pergunta.
"Me traz uma taça de sorvete?"
"Claro."
"Você não acha melhor anotar para se lembrar de trazer?", ela pergunta.
"Não, eu me lembro".
"Bem, eu gostaria de alguns morangos em cima também. Talvez seja melhor anotar, para não esquecer?"
Ele diz: "Eu consigo me lembrar disso. Você quer uma taça de sorvete com morangos".
"Eu também gostaria de chantilly. Tenho certeza que você vai esquecer, por que não anota?", ela pergunta.
Irritado, ele diz, "Eu não preciso anotar nada, eu me lembro! Sorvete com morangos e chantilly. Eu sei disso, pelo amor de Deus!"
Ele vai à cozinha e, após 20 minutos, volta e entrega à sua esposa um prato de feijão com arroz.
Ela olha para o prato por alguns segundos e diz: "E cadê a farofa?!"

https://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=6740

08 novembro, 2021

Sadako e os 1000 grous de papel

Os mil grous de papel foram originalmente popularizadas através da história de Sadako Sasaki, uma garota japonesa que tinha dois anos quando foi exposta à radiação do bombardeio atômico de Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial. Sasaki logo desenvolveu leucemia e, aos 12 anos, após passar um tempo significativo em um hospital, começou a fazer grous de origami com o objetivo de fazer mil, inspirado na lenda do senbazuru.
 Em uma versão ficcional da história, contada no livro "Sadako and the Thousand Paper Cranes", ela dobrou apenas 644, antes de ficar muito fraca para dobrar e morrer (em 25 de outubro de 1955). Para honrar sua memória, seus colegas concordaram em dobrar os 356 grous restantes para ela.
Na versão da história contada por sua família e colegas de classe, o Museu Memorial da Paz de Hiroshima afirma que ela completou os mil grous e continuou apesar de seu desejo não se concretizar. Há uma estátua de Sadako segurando um "grou" no Parque Memorial da Paz de Hiroshima (FOTO: coisas do Japão) e, todos os anos, no dia de Obon, as pessoas deixam grous na estátua em memória dos espíritos de seus ancestrais que partiram.
De acordo com sua família e especialmente seu irmão mais velho, Masahiro Sasaki, que fala sobre a vida de sua irmã em eventos, Sadako não apenas ultrapassou as 644 aves de papel, ela excedeu sua meta de 1.000 e morreu após ter dobrado aproximadamente 1.400 delas. Em seu livro, "The Complete Story of Sadako Sasaki", coescrito com Sue DiCicco, fundadora do Peace Crane Project, Masahiro garante que Sadako excedeu seu objetivo.

WIKI
http://coisasdojapao.com/2017/03/grou-conheca-o-valor-simbolico-dessa-ave-no-japao

04 agosto, 2021

Um minuto de silêncio na telefonia

04/08 - Todos os telefones na América do Norte ficaram em silêncio por um minuto ao pôr do sol, marcando a hora em que os serviços funerários estavam ocorrendo para Alexander Graham Bell. Ele foi colocado para descansar em uma tumba escavada na rocha sólida, no pico da montanha Beinn Bhreagh, (1) com vista para o lago Bras D'Or, em sua propriedade em Nova Escócia, Canadá. Uma torre de vigia havia sido construída lá anos antes por Alexander. Seu caixão foi fabricado na própria oficina do inventor por sua equipe de laboratório. Em memória do famoso inventor, (2) todas as centrais telefônicas e estações de comutação da ATeT e do Bell System nos EUA e no Canadá suspenderam o serviço dos 13 milhões de telefones então instalados.
Bell morreu dois dias antes, em 2 de agosto de 1922.
http://pballew.blogspot.com/2020/08/on-this-day-in-math-august-4.html#links

(1) O sogro de Alexander Graham Bell, Gardiner Greene Hubbard, foi o primeiro presidente da Sociedade Geográfica Nacional e Bell foi seu segundo presidente. O genro de Bell, Gilbert Hovey Grosvenor, foi presidente da Sociedade Geográfica Nacional por muitos anos, e seu neto, Melville Bell Grosvenor , e o bisneto Gilbert Melville Grosvenor foram editores da revista National Geographic e também presidentes da Sociedade. Talvez por isso, tanto Beinn Bhreagh como Baddeck, a cidade mais próxima, sejam exibidas de forma destacada nos mapas da National Geographic da região, apesar de seu tamanho relativamente pequeno.
O pequeno porto de Beinn Bhreagh ofereceu aos Bells oportunidades de recreação e, mais tarde, uma área de abrigo para outros experimentos de Alexander. 
Wikipedia
(2) Durante décadas, Alexander Graham Bell foi celebrado por inventar o telefone, mas em 2002 o Congresso dos EUA reconheceu Antonio Meucci, um imigrante italiano empobrecido, como o verdadeiro inventor do telefone. Segundo a história, Meucci conseguiu fazer um protótipo de um telefone em funcionamento cinco anos antes de Bell, mas não podia pagar os US $ 250 necessários para uma patente definitiva para seu "telégrafo falante", então, em 1871, ele entrou com um aviso de registro iminente de patente, renovável por um ano. Três anos depois, ele não podia nem pagar os US $ 10 para renová-lo. Quando ele pediu à Western Union que o modelo e os detalhes técnicos lhe fossem devolvidos em 1874, foi informado que eles haviam sido perdidos. Dois anos depois, Bell, que dividiu um laboratório com Meucci, registrou uma patente para um telefone e se tornou uma celebridade.
http://blogdopg.blogspot.com/2018/01/quem-inventou-o-telefone.html
http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=15880

06 outubro, 2020

À memória do mestre

Vincenzo Viviani (5 de abril de 1622 - 22 de setembro de 1703), matemático italiano.
Em 1639, aos 17 anos, tornou-se secretário e assistente de Galileo Galilei (então cego), em Arcetri, até a morte deste em 1642.
Fundou a Accademia del Cimento. Como uma das primeiras sociedades científicas importantes, essa organização veio antes da Royal Society, da Inglaterra.
De 1655 a 1656, Viviani editou pela primeira vez as obras coletadas de Galileu. Uma nota de Thony Christie informa que, após a morte de Galileu, seus documentos estavam sendo usados ​​pelo açougueiro local para embrulhar carne e salsichas (até Viviani resgatar o que restava deles).

Palácio dos Cartazes
O discípulo trabalhou incansavelmente para preservar a memória de seu mestre. Em Florença, Viviani escreveu a vida e as realizações de Galileu (em latim), na fachada de seu palácio, em enormes rolos de pedra.
Ao lado, foto do "Palazzo dei Cartelloni", um palácio em estilo barroco com placas e busto dedicados por Viviani a Galileu.

07 janeiro, 2020

Georges Wolinski

Ria -- enquanto é tempo -- com Wolinski:

-- Por que prendeu meu pai?
-- Por nada! Isso não é razão suficiente?
-- O que vai fazer com ele?
-- Vai ser torturado até confessar.
-- Mas ele não tem nada para confessar.
-- Isso é problema dele.

apud @palmeriodoria

Georges Wolinski (Túnis, 28 de junho de 1934 — Paris, 7 de janeiro de 2015) foi um cartunista e escritor de HQ francês. Foi assassinado no massacre do Charlie Hebdo, um ataque terrorista ocorrido em 7 de janeiro de 2015 em Paris.
Há 5 anos.


Lembrando a irreverência de Wolinski
"Wolinski (um dos quatro cartunistas do Charlie Hebdo trucidados) dizia para a esposa que, quando morresse, queria que suas cinzas fossem atiradas no vaso sanitário. Assim, ele veria a bunda dela todos os dias. Espero que a viúva faça essa delicadeza." – Marco St.

25 abril, 2019

Museu da Resistência e Liberdade

Portugal celebra hoje os 45 anos da Revolução dos Cravos, que marcou o fim de um período de ditadura de 41 anos. Em meio às comemorações preparadas para esta quinta-feira está a inauguração do Museu da Resistência e Liberdade, o primeiro no país que tratará da preservação da memória antifascista.
O novo espaço está localizado na península de Peniche, que fica a cerca de 100 quilômetros da capital Lisboa.
Não poderia ser mais emblemático o local escolhido: a Fortaleza de Peniche, de 1557, que se transformou em uma prisão do Estado Novo do país. A ideia durante a ditadura era manter os presos em total isolamento e ali foi o coração da censura militar à liberdade de expressão, principalmente aos veículos de comunicação.
Fazendo parte do museu parcialmente inaugurado, foi construído localmente um memorial relacionando os nomes de 2.510 presos políticos (40 deles ainda estão vivos) que passaram pela fortaleza nessas quatro décadas de ditadura.

18 abril, 2019

Fome, manga e o caroço da memória

Lúcio Verçoza (*)
Nem só de manga vivem os homens e mulheres, eles também se alimentam de memória. As narrativas da história oral se misturam com o presente. Há várias décadas, em uma época na qual o centro de Maceió era margeado por sítios, uma criança atravessou a Rua Barão de Atalaia e pulou a cerca em direção às inúmeras mangueiras, cajueiros e plantações de coco. Quando estava em cima do galho do cajueiro, o menino foi surpreendido pelo estampido. Não conseguiu correr, dizem que já caiu morto. O tiro partiu da espingarda do proprietário da terra. Após a autópsia, descobriram que no estômago do garoto só havia um pouco de caju, recém-chupado.
O tempo passou, no terreno encontra-se atualmente o campus do Instituto Federal de Alagoas (antiga Escola Técnica). Na hora do recreio, vários jovens caminham pelo pátio, alguns deitam sob a sombra, talvez na mesma posição em que caiu o corpo sem vida. Ninguém sabe o nome do menino assassinado por tentar saciar a fome. Durante certo tempo, a área ficou conhecida como “Sítio do Doutor Caju”. Hoje poucos conhecem essa história. Sem a força da história oral, talvez esse fato não tivesse chegado até o presente. É como o caroço de manga, uma semente que sobrevive porque não pode ser engolida ou digerida. Uma história que foi contada de uma geração para outra com o sentido de não ser esquecida.
Retornando ao presente, a atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que a agricultura não é assunto de segurança nacional no Brasil porque “nós não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”. Como se nossas cidades fossem um imenso pomar sem cercas, muros e concreto armado. Como se fosse possível plantar sem ter acesso à terra. Como se fosse simples comer frutas na cidade sem a mediação do dinheiro. Como se qualquer quantidade de viventes com fome pudesse ser considerada pouca.
Em pesquisa rápida na internet é fácil encontrar notícias sobre mortes de jovens que buscavam frutas. Não se trata de matérias antigas, a maioria do século 21. Uma das que mais chama a atenção, de dezembro de 2016, tem o seguinte título: “Garoto é baleado e morre ao subir em muro para pegar manga”². O menino tinha 13 anos de idade e vivia no sul da Bahia.
Não é que um punhado de manga ou de caju tenha mais valor do que a vida de uma criança, mas, da perspectiva de quem efetuou o disparo, se trata do direito sagrado de defender a sua propriedade privada – e esse direito sagrado estaria acima de tudo e de todos. Com a posse de armas facilitada, é provável que a coleta de manga se torne algo ainda mais perigoso.
Mas nem só de manga e memória vivem os homens e mulheres, também se alimentam de futurar. De sonhar com mangueiras que não saciem somente o estômago. Com uma sombra que não caiba apenas quem está dentro do terreno rodeado de cerca elétrica. Um mundo em que se possa andar com seus amigos, sem ser discriminado. De atravessar o tempo mais adverso carregando o futuro germinado na semente da memória.

(*) Lúcio Verçoza é Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autor do livro “Os homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde” (Edufal-Fapesp, 2018). Este artigo foi originalmente publicado no Jornal GGN - 16/04/2019

01 junho, 2018

Os joelhos de Nara Leão

Nara Leão nasceu em Vitória, em 1942. No início da década de 60, no Rio de Janeiro, ganhou o epíteto de "a musa da Bossa Nova". Sua casa se tornou uma espécie de sede do movimento. Ela própria já era, então, uma das principais cantoras naquele estilo.
Uma importante instituição nacional eram os "joelhos de Nara Leão". A moça tímida capixaba que descendia de italianos, transitando com seus vestidos em linha A, tubinhos de Courrégès e minissaias inglesas (que deixavam seus belos joelhos à mostra), tornou-se merecedora de um profundo interesse público por seus joelhos.
Ela morreu na manhã de 7 de junho de 1989, aos 47 anos, vítima de um tumor cerebral. Ela sofria com a doença já havia 10 anos. O câncer estava numa área do cérebro que impedia qualquer cirurgia.
A pobre menina rica de Vinícius de Moraes, a musa da Bossa Nova, a moça dos joelhos mais bonitos da MPB, a voz dos desconhecidos da música, a garota da Banda, o açúcar com afeto de Chico Buarque, a mãe da Isabel e do Francisco, a mulher doce e de opinião forte. Essa foi Nara Leão, na definição de Petit Gabi.
Os joelhos de Nara Leão deixavam seus admiradores... de joelhos. Mas por mais, muito mais que isso: ela foi uma das mulheres mais marcantes na música popular brasileira.
Referências
http://tropicalia.com.br/ilumencarnados-seres/biografias/nara-leao
http://www.ascronicasdesantos.com/os-joelhos-de-nara-leao
https://www.sul21.com.br/jornal/30-anos-da-morte-de-elis-70-do-nascimento-de-nara/
http://obviousmag.org/archives/2011/04/uma_leoa_chamada_nara.html#ixzz51YWdv9qJ

31 julho, 2017

MEMÓRIA. Saint-Exupéry aterrissa, finalmente

"Seu desaparecimento gerou um fascínio agora revivido com a descoberta dos destroços de seu avião." Stacy Schiff — "The New York Times" — abril de 2004

Durante quase 60 anos, a lenda de Antoine de Saint-Exupéry, o aviador e autor de "O Pequeno Príncipe", eclipsou a vida. Coisas mais substanciais e valiosas desapareceram - Atlântida, Santo Graal, 18 minutos e meio de uma fita da Casa Branca -, mas poucas geraram o fascínio eternamente associado ao escritor que, tomando emprestado um truque de sua criação mais conhecida, simplesmente desvaneceu-se no ar.
Às 8h45 de 31 de julho de 1944, Saint-Exupéry decolou da Córsega numa missão de reconhecimento sobre a França ocupada. Devia estar de volta à 0h30. Às 3h30, foi oficialmente dado como desaparecido. Em abril de 1945, uma missa foi celebrada em sua homenagem.
Mas ele nunca exatamente morreu. Ao ler sobre seu desaparecimento, Anne Morrow Lindbergh pôs o dedo na ferida que isso causou. Há uma terrível diferença, escreveu ela, entre "desaparecido" e "morto". Há também uma receita não tão secreta do que se transforma numa lenda.
Os destroços de um avião retirado do Mediterrâneo foram identificados neste mês (abril de 2004) como da aeronave de Saint-Exupéry. Já se sabia da probabilidade de que o Lockheed P-38 estivesse a poucos quilômetros da costa de Marselha, de onde, em 1988, um pescador retirou de sua rede o bracelete de prata que identificava o piloto. Esta descoberta soluciona um mistério sobre o fim de Saint-Exupéry: ele estava onde se supunha que estivesse. As instruções que tinha naquele dia o teriam levado a voar sobre Lyon e foi na volta à Córsega que seu P-38 mergulhou no oceano.
É improvável que o motivo da queda seja resolvido pelos destroços; mas não se pode dizer que o acidente tenha sido inesperado. Saint-Exupéry era o recordista dos quase-desastres de sua esquadrilha. Tendo se empenhado numa campanha para conseguir sua volta à ativa, pilotava um avião dentro do qual não cabia e no qual não podia voar confortavelmente. Não conseguia se comunicar com a torre de controle em inglês. A operação dos freios hidráulicos eram também um desafio para ele. Costumava confundir pés com metros.
Os pilotos franceses na Córsega o conheciam como um escritor premiado e pioneiro da aviação. Já, para os americanos, era apenas um grandalhão desastrado, velho demais e mal treinado, que em apenas oito semanas com eles destroçou uma aeronave de US$ 80 mil. Por causa desse revés, foi sem cerimônia impedido de voar. Ele implorou por clemência; afirmou que estava disposto a morrer pelo seu país. "Não ligo a mínima se você vai morrer ou não pela França", informou-lhe o coronel Leo Gray, "mas não vai fazer isso num de nossos aviões". Era um caso de um tesouro nacional contra outro.
Também foi um caso no qual Saint-Exupéry conseguiu o que queria. Já passara havia muito da época em que se sentia confortável; não conseguia se imaginar em nenhum outro lugar que não fosse na cabine de uma aeronave. A vida inteira tinha sonhado em escapar, ansiado por horizontes mais amplos, e ameaçado trocar de planeta. Sentindo-se cada vez mais afastado de seus conterrâneos, cuja luta interna criticara; ferozmente antinazista, não apoiou nem De Gaulle nem os comunistas. Previu que a libertação não tiraria a França de seu infortúnio.
Das suas frustrações pessoais e da sua incapacidade para se fazer entender em suas posições políticas surgiu "O Pequeno Príncipe". Publicado em 1943, só mais tarde virou best-seller. Seu texto é interpretado sinistramente como uma morte anunciada, sua mística intensificada pela comparação entre o escritor e o assunto: arrogantes inofensivos cujas vidas consistem em partes iguais de vôo e amor fracassado, que caem na Terra, ficam pouco impressionados com o que vêem e acabam desaparecendo sem deixar rastros.
Naturalmente que é fácil prever sua própria morte se você está disposto a cometer suicídio e, para aqueles inclinados a tais interpretações, há a mística questão dos pores-do-sol. O pequeno príncipe vive num planeta tão pequeno que consegue ver o sol se pôr precisamente 44 vezes ao dia - por coincidência, a idade de Saint-Exupéry quando morreu. (Por uma razão inexplicável, o príncipe assiste a 44 pores-do-sol somente na tradução inglesa. No original, são 43). O fato de Saint-Exupéry não ter desejo de continuar vivendo era evidente, porém não estava claro que pretendia se matar.
Mas, com a descoberta da sua aeronave, essa teoria tem sido novamente trazida à tona na mídia da França. Foi para protegê-lo da indignidade de tal acusação - ou para sustentar um mito valioso - que sua família por muito tempo se opôs a todas as buscas. O destino de Saint-Exupéry permanece constante. Parece que o mito sempre será cultivado às custas do homem.
O que muda é "O Pequeno Príncipe", finalmente devolvido ao que foi na vida de seu autor: uma obra de ficção. Por muito tempo, carregou um ônus pesado, mais do que qualquer livro deve ter. Ninguém nunca esperou que P.L. Travers fosse transportado pelo vento oeste. O conto de fadas de Saint-Exupéry está novamente livre para se entrelaçar não com o enigma do autor, mas com os mistérios que tanto o aturdiram: é solitário no meio dos homens; a linguagem continua sendo uma fonte de mal-entendidos; mais do que nunca corremos afoitamente, sem saber bem o que estamos procurando. Pode ser mais difícil agora perder uma aeronave no Mediterrâneo do que era, mas alguns mistérios perduram.
Como acontece com algumas verdades sobre o fim de Saint-Exupéry. A dele foi uma morte nobre. Como observou sua viúva, a saída foi sob encomenda, uma queda meteórica no fim de uma vida perseguindo estrelas.
Também seu desaparecimento mostra todos os sinais de ter sido o fim que Saint-Exupéry queria. Na década de 1930, foi-lhe perguntado, dada sua já impressionante lista de escapadas por um triz, que tipo de morte preferiria.
Escolheu a água. "Você não sente que está morrendo. Simplesmente sente que está caindo no sono e começando a sonhar." E lá, certamente, podemos deixá-lo.

Notícia de "The New York Times", publicada em "O Estado de S. Paulo" em 20 de abril de 2004.
Via www.consciência.net

26/04/2019 - Atualizando ...
Diz a lenda popular que Horst Rippert, o piloto de caça alemão que abateu o avião do autor (em 31 de julho de 1944), desmoronou e chorou ao ouvir as notícias - Saint-Exupéry tinha sido seu autor favorito. Que forma trágica de contato, a guerra.

02 março, 2017

O Conhecimento

Para obter a licença os motoristas de táxi de Londres devem passar por um exame de memória punitivo que inclui 25.000 ruas e todos os negócios importantes com respeito a elas. "The Knowledge" (O Conhecimento) já foi chamado o teste mais difícil do que qualquer outro tipo no mundo, exigindo milhares de horas de estudo e uma série de exames orais progressivamente difíceis, que levam em média quatro anos para ser concluído.
O guia para potenciais taxistas diz:
Para atingir o padrão exigido para ser licenciada como um motorista de táxi "All London" você vai precisar de um conhecimento profundo, principalmente, da área dentro de um raio de seis milhas de Charing Cross. Você precisa saber: todas as ruas; conjuntos habitacionais; parques e espaços abertos; escritórios e departamentos governamentais; centros financeiros e comerciais; instalações diplomáticas; prefeituras; cartórios; hospitais; templos e locais de adoração; estádios de esportes e centros de lazer; escritórios de companhias aéreas; estações; hotéis; clubes; teatros; cinemas; museus; galerias de arte; escolas; faculdades e universidades; delegacias de polícia e sedes de empresas; tribunais civis, penais e cortes de apelação; prisões; e outros locais de interesse para os turistas. Na verdade, você precisa saber de qualquer lugar que um passageiro de táxi possa pedir para ser levado.
Curiosamente, os taxistas de Londres possuem um hipocampo que a nenhum motorista comum é dado possuir.

(Hugo J. Spiers, "Will Self and His Inner Seahorse", in Sebastian Groes, ed., Memory in the Twenty-First Century, 2016.)

Hipocampo: é uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano, considerada a principal sede da memória e importante componente do sistema límbico. Além disso é relacionado com a navegação espacial. Seu nome deriva de seu formato arqueado apresentado em secções coronais do cérebro humano, se assemelhando a um cavalo-marinho (do grego: hippos = cavalo, kampi = curva).

18 dezembro, 2015

O palácio da memória

A palavra mnemônica partilha a etimologia de Mnemosine, o nome da deusa que personificava a Memória na mitologia grega. A primeira referência a mnemônicas ocorre no método de loci, na obra De Oratore, de Cícero.
O palácio da memória
Também chamado método de loci (plural de locus, lugar em latim), é uma técnica mnemônica que depende de relações espaciais memorizadas para estabelecer e ordenar conteúdo. Baseia-se em criar um lugar imaginário, que pode ser construído inspirado em um lugar familiar (como a sua casa), um lugar totalmente fictício, ou a combinação de ambas as coisas.
O blog O Conhecimento, da Humantech, traz este exemplo;
Imagine que você precisa ir ao supermercado comprar lâmpadas, tomates, mel, xampu, vela...
Então, você coloca os itens dessa lista de compras em situações bizarras no seu lar: você abrindo a porta de sua casa, acendendo uma lâmpada em formato de tomate que, quando você passa por ela, a lâmpada derrama mel em seu cabelo, que começa a pegar fogo...
É meio esquisito, mas ajuda. Aliás, quanto mais esquisito, mais fácil de ser lembrado.



"Uma das formas mais elaboradas de fazer isso data de 2500 anos atrás, na Grécia antiga. Tornou-se conhecida como o palácio da memória. A história por trás de sua criação é mais ou menos assim: Havia um poeta chamado Simonides que estava em um banquete. Ele era, na verdade, a diversão contratada, porque, naquele tempo, se você queria dar uma festa do barulho, você não contratava um D.J., e sim um poeta. E ele se levantava, declamava seus poemas de memória e ia embora. E, no momento que Simonides saía, o lugar do banquete desmoronou, matando todo mundo lá dentro. E não só matou todo mundo, como também desfigurou os corpos para além do reconhecimento. Ninguém conseguia dizer quem estava lá dentro, ninguém conseguia dizer onde estavam sentados. os corpos não podiam ser enterrados adequadamente. Era uma tragédia compondo outra. Simonides, parado do lado de fora, o único sobrevivente entre os escombros, fecha os olhos e tem essa percepção, que é aquela dos olhos de sua mente. Ele podia relembrar em qual lugar cada um dos convidados estava sentado. E ele pega os parentes pela mão e os guia cada um para seus amados, entre os escombros. O que Simonides percebe naquele momento é algo que penso que todos nós sabemos intuitivamente, isto é, por pior que sejamos em lembrar nomes ou telefones, e cada palavra das instruções de nossos colegas, nós temos uma excepcional memória espacial e visual."

Quando é o Dia dos Pais? |  Nervos cranianos |  As time goes by |  Um mnemônico para a palavra mnemônico |  Uma "foto de família" completa

15 março, 2014

Tributo a Leonard Ball

1 banco de jardim com 5 descansos para braços e 1 placa que diz:


Em memória de Leonard Ball, que odiava as pessoas gordas.

N. do E.
Apesar do sobrenome em comum, Leonard não foi parente de Lucille Ball, a atriz da série de TV I love Lucy.

24 dezembro, 2013

Cubos de gelo - 2




Nostalgia do Bits and Pieces.
Fazer a gente se lembrar desse antigo modelo de bandeja para gelo. Vinha com uma espécie de alavanca que facilitava a retirada dos cubos de gelo.
Será que ainda existe?

Receita
Como preparar cubos de gelo em casa

30 outubro, 2013

O boato da Guerra dos Mundos

Há exatos 75 anos uma histeria coletiva tomou conta dos Estados Unidos. Quando o jovem Orson Welles (foto) fez uma transmissão pela CBS de uma adaptação radiofônica da "Guerra dos Mundos", a obra de ficção científica de H. G. Wells que descreve uma invasão da Terra pelos marcianos. Apesar de ter sido anunciado (quatro vezes) de que a transmissão era apenas uma dramatização, os ouvintes preferiram acreditar que estava a ocorrer uma invasão alienígena.


Há quem suspeite de que essa histeria em massa não aconteceu. As reportagens da época, portanto, não teriam passado de um exagero dos jornais. Ou, até mesmo, de esperteza deles. Em disputa acirrada com as rádios pela preferência da população norte-americana, os jornais teriam aproveitado a situação para criticar a falta de seriedade das rádios. E assim pôr as coisas nos devidos lugares.

05 agosto, 2012

Momento x Memória

Muitas vezes você não percebe o valor de UM MOMENTO... 
até que ele se torna UMA MEMÓRIA.

20 julho, 2012

Com brinco não se brinca

Deu-se o acontecimento num barzinho da moda na Aldeota. Dríncávamos eu e minha mulher, quando ela, pondo a mão em uma das orelhas, subitamente exclamou: "perdi um dos brincos". E pôs-se a percorrer com o olhar o chão do barzinho, em busca de uma pequena esfera de ouro, o brinco extraviado, secundado por mim. Que logo considerei um empreendimento difícil, tantas eram as reentrâncias do piso daquele lugar.
Pessoas das mesas vizinhas passaram a olhar com espanto o casal da vista baixa, isto é, nós. Reforçado, depois de algum tempo, pela participação do faxineiro da casa com vassoura e pazinha à mão. Mas o diabo do brinco não conseguia ser localizado para desespero de minha mulher, em virtude de ser um adereço com importância afetiva: o par de brincos pertencia à nossa filha de dois anos.
Em má hora, minha esposa o tomara "emprestado", por combinar com a roupa com que ia sair.
Procura que procura, o brinquinho acabou sendo encontrado. Pelo faxineiro que nos ajudava espontaneamente e que assim se fez merecedor de uma gorjeta. Então, minha mulher tratou logo de recolocar o brinco na orelha, quando lá deixou cair... desta vez, a rosca do brinco. Depois do diminuto, íamos agora enfrentar o infinitamente pequeno.
Fiquei de fora da nova busca. Enquanto pensava sobre o que poderia esperar de alguém que, dias atrás, perdera uma das lentes de contato. Na verdade, não a perdera, a lente apenas migrara da córnea para um dos cantos do olho, deixando a mulher "chorosa" até que o caso fosse esclarecido.
Apesar de estar perdido no mais difícil dos terrenos, a rosquinha do brinco também foi encontrada. Pelo mesmo e bom ajudante que recebeu uma gorjeta complementar (do tamanho inversamente proporcional ao do objeto localizado, a regra era essa). Quanto à esposa, esta recebeu um conselho meu. Somente usar brincos grandes, de pingente, e que repicassem ao cair.
Não é todo dia que a gente encontra por aí alguém com olhos de lince. Vai ver capaz de enxergar até micróbio de caspa.
PGCS (1992)

13 julho, 2012

Deixando a medicina

No final da década de 1930 Juscelino Kubitschek dava a impressão de haver encerrado para sempre seu namoro com a política. A medicina lhe proporcionava satisfação, prestígio e dinheiro. Formara já um razoável patrimônio: tinha comprado uma boa casa, em estilo moderno – a primeira com piscina em Belo Horizonte. Na Força Pública, promovido a tenente-coronel médico, fora nomeado chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Militar.
Estavam as coisas nesse pé quando, em fevereiro de 1940, Benedito Valadares o chama ao palácio com um convite: a prefeitura de Belo Horizonte. JK recusa, não quer afastar-se outra vez da profissão. Mas a 16 de abril a nomeação é publicada no Minas Gerais, o diário oficial do estado. Tomou posse dois dias depois.
Virou prefeito sem deixar de ser médico: operava todas as manhãs no Hospital Militar e ainda chefiava o Serviço de Urologia da Santa Casa.
A última vez que empunhou um bisturi foi no Hospital São Lucas, de Belo Horizonte, quando operou de apendicite aguda o escritor Eduardo Frieiro.
JK disse então à mulher do autor de "O cabo das tormentas": "Hoje vou dar duas altas, d. Noêmia. Uma ao Frieiro, que já está bom e pode retornar a suas atividades. E outra, a mim mesmo, pois encerro, com o caso de seu marido, minha atividade profissional".
Despediu-se e saiu. "A opção, sobre a qual eu havia hesitado durante tanto tempo, acabara de ser feita. Já não era médico. Mas político."