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05 junho, 2024

A língua do pica-pau

A língua de um pica-pau é tão comprida que envolve o crânio para proteger o cérebro enquanto ele está a martelar uma árvore ou outras superfícies duras. Isto, combinado com outros fatores, tais como: músculos do pescoço super-fortes, placas de osso esponjoso no crânio que funcionam como um capacete de futebol e uma quantidade muito pequena de líquido cefalorraquidiano que envolve o cérebro, ajudam a impedir que um pica-pau danifique o próprio cérebro enquanto pica com uma força superior a 1.000g.
http://mastodon.social/@RustyBertrand
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19 julho, 2023

A Constituição do Brasil na Língua Nheengatu

"Um sonho realizado. Parabéns a @JuizLanfredi pela Constituição em nheengatu. Saúdo com admiração e afeto a ministra Rosa Weber e a maravilhosa equipe de tradutores da Academia da Língua Nheengatu, protagonistas desse projeto, do qual me orgulho de ter participado."
Marco Lucchesi

Comentário
Em 2021, a Câmara Municipal de Monsenhor Tabosa, no Ceará, aprovou por unanimidade um PL que reconhece a língua nativa Tupi-nheengatu como língua cooficial do município. O texto legal foi sancionado pelo prefeito Salomão de Araújo Souza, que é descendente de povos indígenas.
https://twitter.com/EntreMentes/status/1680918197019525122

N. do E.
O nheengatu, também conhecido como língua geral, língua geral amazônica ou tupi moderno, é uma língua indígena pertencente à família tupi-guarani, sendo então derivada do tronco tupi. Esse idioma tem origem na língua geral setentrional e desenvolveu-se originalmente como língua franca em aldeamentos nos estados do Maranhão e do Pará. O nheengatu começou a se formar naturalmente por meio do contato entre os tupinambás, falantes da língua tupi antiga, e indígenas de outros idiomas e etnias, além dos missionários jesuítas, responsáveis por seus aldeamentos. Em sua evolução, sofreu diversas transformações por influência do português e de outras línguas indígenas, as quais implicaram, a título de exemplo, a perda de alguns fonemas exclusivos do tupi antigo. Essa língua geral amazônica foi inicialmente fomentada pela Coroa Portuguesa e tomada como língua oficial na Capitania no período 1689–1727, apos o que começaram as tentativas de portugalização. Uma carta régia de 1727, por exemplo, proíbe o uso da língua nas povoações e aldeias de repartição, determinando que tanto os moradores quanto os missionários organizassem o ensino do português a indígenas. Após a Guerra dos Cabanos (1835 e 1840), o processo de supressão da língua tornou-se especialmente violento: metade da população masculina do Grão-Pará (Amazônia) foi assassinada na guerra e quem era flagrado falando em nheengatu era castigado; se fosse indígena não contatado, era batizado por padres e ganhavam seus sobrenomes portugueses em certidões, uma vez que os próprios padres eram seus padrinhos. Foi também neste processo que os nomes de muitos lugares tiveram seus nomes trocados de nheengatu para nomes de lugares e cidades de Portugal, tais como Belém (antiga Tupinambá Mairi), Santarém (antiga Aldeia dos Tapajós), Aveiro (antiga Aldeia dos Mundurucus), Barcelos (antiga Missão de Mariuá), Óbidos (antiga Missão dos Pauxis), Faro (antiga Aldeia dos Jamundás) e Alenquer (antiga Surubiú). Todo esse esforço, contudo, gerou pouco efeito prático. O número de falantes de outras línguas superava imensamente os colonos portugueses na Amazônia, tanto que os próprios portugueses se adequaram a língua nativa. Para se falar ou conversar na colônia do Grão Pará tinha que usar o nheengatu, caso não o fizesse, ficaria falando sozinho uma vez que ninguém usava o português, a não ser no palácio governamental em Belém e entre os próprios portugueses. No final do século XIX, a conquista da língua portuguesa se consolidou, mas o nheengatu não desapareceu. Ficou enraizado no linguajar do amazônida, no sotaque dos ribeirinhos e nos povos indígenas do rio Negro, Baixo Amazonas, ainda que em risco de desaparecer. Fonte: WIKI

16 maio, 2020

A história por trás da mais conhecida imagem de Einstein


Esta fotografia, que se tornou uma das mais famosas de Albert Einstein, foi tirada em 14 de março de 1951, enquanto o físico ganhador do Prêmio Nobel estava saindo de um evento em homenagem a seu aniversário de 72 anos em Princeton, Nova Jersey. Alguns repórteres seguiram Einstein na saída, tentando tirar uma boa foto. Artur Sasse, o homem por trás da famosa imagem, esperou até a maioria deles se dispersar, depois caminhou até o carro esperando o cientista e sua equipe e disse: "Sim, professor, sorria para sua foto de aniversário, Ya?". Em vez de sorrir, Einstein estendeu a língua. Ele não achava que Sasse seria rápido o suficiente para capturar o momento.
Alguns dos editores relutaram em publicar a foto, mas ela acabou sendo aprovada e passou a fazer história. Einstein já tinha reputação de ser um pouco bizarro, e a imagem divertida estabeleceu ainda mais na opinião pública como um professor aloprado e encantador. O próprio Einstein gostou tanto da imagem que solicitou à UPI que lhe enviasse 9 cópias para uso pessoal, uma das quais assinou para um repórter. Em 2009, a cópia original assinada foi vendida em leilão por US $ 74.324.

TudoPorEmail

Ver também: Einstones

30 setembro, 2019

Deles e delas

Em Ubang, uma comunidade agrícola no sul da Nigéria, homens e mulheres falam línguas diferentes.
Eles se entendem perfeitamente, mas "é quase como utilizassem dois léxicos diferentes", diz o antropólogo Chi Chi Undie. "Há palavras que homens e mulheres têm em comum, e outras que são totalmente diferentes, dependendo do sexo. Elas não soam parecidas nem têm as mesmas letras".


Criados por suas mães e outras mulheres, os meninos crescem falando a língua feminina, mas aos 10 anos espera-se que mudem, espontaneamente, para a língua masculina. "Há um estágio que o macho alcança e então descobre que não está usando a linguagem correta", diz o chefe Oliver Ibang. "Ninguém vai dizer a ele que ele deveria mudar para a língua masculina. … Quando ele começa a falar a língua dos homens, você sabe que ele está entrando na maturidade."

Nováfrica

27 julho, 2019

A língua do assobio

No mundo todo, são cerca de 70 as populações até agora identificadas que se exprimem através de assobios, conferindo a essa forma de comunicação a complexidade de uma língua perfeitamente definida e acabada.
Julien Meyer, linguista da Universidade de Grenoble, dedicou muitos anos à tarefa de encontrá-las e estudá-las in loco. Um trabalho que revela muito sobre como o cérebro interpreta sons e palavras, e que poderia inclusive explicar como os seres humanos se comunicavam originalmente.
Os assobios chegam a distâncias bem mais longas do que os sons da língua falada, mesmo quando gritada. Em um ambiente aberto, os assobios podem ser ouvidos e entendidos a 8 quilômetros de distância. Esta é a razão pela qual a linguagem dos assobios com frequência é utilizada por comunidades isoladas de pastores de montanhas. Ela constitui o método perfeito para transmitir informações do começo ao fim dos vales.
Em La Gomera, uma das ilhas Canárias, existe uma população de "assobiadores" (foto) muito estudada que, com os assobios, elabora frases que possuem complexas regras de sintaxe. A língua se chama Silbo Gomero e é tão semelhante aos cantos dos pássaros, que os melros da ilha aprenderam a imitá-la.
Charles Darwin falava de uma protolinguagem musical. Com base nessa teoria, o ser humano teria começado a cantar antes de falar, talvez com vocalizações destinadas a cortejar os parceiros. Como fazem até hoje um grande número de espécies animais, com essa prática o homem primitivo assustava e intimidava os rivais, ressaltava a sua própria pessoa no seio da comunidade e consolidava os seus laços sociais.
Se essa teoria for válida, a linguagem dos assobios poderá ser considerada uma forma de protolinguagem.

Extraído de: A língua do assobio. Forma primitiva de comunicação ainda sobrevive. Equipe Oásis

A La Gomera me voy, Blog EM

LOUVOR AO ASSOVIO, Preblog

21 maio, 2018

Centro Nacional de Escutas

Fernando Gurgel Filho

Nós, brasileiros, falamos a Língua Portuguesa. Mas existem diferenças significativas no significado de algumas palavras, e isto, para alguns desavisados como eu, às vezes provoca algum constrangimento, mas que, quase sempre, nos levam depois a boas gargalhadas.
Lembro-me bem da primeira viagem que fizemos a Lisboa. Uma excursão. No restaurante, a colega na nossa mesa chamou a garçonete - por sinal, uma brasileira - e tascou a pergunta, apontando para o cardápio:
- Por favor, esses "gambás" são servidos como?
A garçonete olhou, soltou a risada e explicou:
- São "gambas". É o tradicional e saboroso "camarão", como chamamos no Brasil. Servimos fritos, etc, etc...
Silêncio geral na mesa.
Pois é. Agora, em maio/2018, fomos à Serra da Estrela, em Portugal. Um lugar belíssimo.
Um dia, resolvemos descer do hotel onde estávamos, a 1.200 metros de altura, até a cidade de Covilhã, cerca de 450 metros de altitude.
Foi uma das caminhadas mais bonitas que já fizemos. E a mais dolorida.
No meio do caminho há um local para piquenique e descanso dos caminhantes. Tirando fotos, notei uma placa do outro lado da estrada onde se lia: "Centro Escutista Serra da Estrela" e, logo abaixo, "Centro Nacional de Escutas Agrupamento nº 20 Covilhã".
Como se tratava de uma serra, pensei tratar-se de algum local para monitoramento de atividades sísmicas. Ou coisa parecida.
Quase em frente ao local havia um senhor colocando água em um tambor. Curioso, fui até ele:
- Bom dia, por favor, o senhor conhece este local?
- Bom dia, conheço um pouquinho, pois nasci aqui. Precisa de ajuda?
- O que é que se escuta neste "Centro de Escutas"?
- Desculpe, não percebi. (Tradução: "Desculpe, não entendi")
- Ali na placa diz tratar-se do "Centro Nacional de Escutas". Eles escutam o quê? Atividades sísmicas?
Juro que o senhor - português com certeza - não soltou a risada. Respondeu muito sério:
- Ah, ali? É de "escuteiros".
- Agora, quem não percebeu fui eu, falei na gozação.
- Escoteiros como chamam no Brasil.
- Ahhhh. Entendi. Obrigado. Tchau.
E levei meu constrangimento para o outro lado da estrada.

Fernando,
Aditei foto. No Brasil e em Portugal, quem mata a cobra mostra o pau. PGCS

18 maio, 2018

Belli e Mattoso: paralelos

Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, (São Paulo, 29 de junho de 1951) é um escritor brasileiro. Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes
Glauco Mattoso em fevereiro de 2008 completou 2.300 sonetos de uma série iniciada em 1999, superando a histórica marca do italiano Giuseppe Belli (1791-1863), que, em 1849, teria composto, segundo consta, seu soneto de número 2.279 numa obra produzida mormente entre 1830 e 1839. Mattoso tem com Belli outra afinidade, além da copiosa produção: a sátira fescenina, que abusa da pornografia e da escatologia. Também no aspecto linguístico há paralelos: Belli versejava no dialeto romanesco, falado na periferia da capital italiana, enquanto Mattoso incorpora ao português brasileiro as gírias suburbanas e os neologismos contraculturais da segunda metade do século XX, de mistura com o vernáculo castiço e com o rigor formal, típicos do soneto clássico, composto em decassílabos predominantemente heroicos. A diferença entre ambos os "malditos" está na postura: Belli cedeu às pressões moralistas e aderiu à autoridade católica, renegando o anticlericalismo que caracterizara sua temática; Mattoso se mantém anarquicamente independente de quaisquer ideologias ou fisiologias, fiel unicamente à sua biografia de cego sadomasoquista e fetichista. Belli, mundialmente reconhecido, foi traduzido também para o inglês; Mattoso, que tem sido objeto de estudos acadêmicos na América Latina e nos Estados Unidos, alcança agora as universidades europeias. *Wiki
Glauco Mattoso é citado por Caetano Veloso em sua canção Língua (2:03).



GM no blog EM
Que é a poesia?Rifoneiro e Soneto futebolístico

14 maio, 2017

Elegia

Eulogy, um poema de Sherman Alexie
Versão para o português: PGCS
Minha mãe era um dicionário.
Ela foi um dos últimos falantes fluentes de nossa linguagem tribal.
Conhecia dezenas de palavras que ninguém mais conhecia.
Quando ela morreu, nós enterramos todas essas palavras com ela.
Minha mãe era um dicionário.
Ela conhecia palavras que haviam sido ditas por milhares de anos.
Ela sabia palavras que nunca mais serão ditas.
Ela conhecia canções que nunca mais seriam cantadas.
Ela conhecia histórias que nunca mais seriam contadas.
Minha mãe era um dicionário.
Minha mãe era um tesauro,
Minha mãe era uma enciclopédia.
Minha mãe nunca ensinou a seus filhos a língua tribal.
Oh, ela nos ensinou a contar até dez.
Oh, ela nos ensinou como dizer "eu te amo".
Oh, ela nos ensinou como dizer "ouça-me."
E, é claro, ela nos ensinou como maldizer.
Minha mãe era um dicionário.
Ela foi uma das quatro últimas oradoras da língua tribal.
Em poucos anos, os últimos falantes sobreviventes, todos idosos, também terão desaparecidos.
Há índios mais novos que falam uma versão nova da língua tribal.
Mas os últimos oradores antigos desaparecerão.
Minha mãe era um dicionário.
Mas ela nunca me ensinou a língua tribal.
E eu nunca pedi para aprender.
Minha mãe sempre me dizia: "O inglês será sua melhor arma".
Ela estava certa, ela estava certa, ela estava certa.
Minha mãe era um dicionário.
Quando ela morreu, seus filhos a prantearam em inglês.
Minha mãe sabia palavras que haviam sido ditas por milhares de anos.
Às vezes, à noite, cantava uma das canções antigas.
Ela nos ninava com canções antigas.
Nós éramos ninados por nossos antepassados.
Minha mãe era um dicionário.
Tenho uma fita cassete gravada em 1974.
Naquela cassete, minha mãe fala a língua tribal.
Está falando a língua tribal com sua mãe, Big Mom.
E então elas cantam uma canção antiga.
Eu não ouvi essa fita cassete por duas décadas.
Eu não quero correr o risco de destruir a fita em algum velho tocador de cassetes.
Nem o risco de alguém transferir essa fita para digital.
A conversa da minha mãe e da minha avó não é para estar na nuvem.
Essa antiga canção é muito sagrada para a Internet.
E como a fita cassete se deteriora, eu sei que em breve estará imprestável.
Talvez eu a enterre perto do túmulo da minha mãe.
Talvez eu vá enterrá-la no túmulo que ela compartilha com meu pai.
Claro, eu estou mentindo.
Eu nunca a enterraria onde alguém poderia encontrá-la.
Fiquem longe, arqueólogos! Desapareçam, desapareçam!
Minha mãe era um dicionário.
Ela sabia palavras que eram ditas há milhares de anos.
Ela sabia palavras que nunca mais serão ditas.
Gostaria de poder construir túmulos para cada uma dessas palavras.
Talvez este poema seja uma lápide.
Minha mãe era um dicionário.
Ela falava a velha língua.
Mas ela nunca me ensinou como dizer aquelas palavras antigas.
Ela sempre me dizia: "O inglês será sua melhor arma".
Ela estava certa, ela estava certa, ela estava certa.

Poeta e cineasta vencedor de prêmios do "National Book", Sherman Alexie é considerado um dos melhores jovens romancistas americanos de "Granta" e foi louvado por "The Boston Globe" como "uma voz importante na literatura americana". Ele é um dos mais conhecidos e aclamados escritores de sua geração, com obras como "The Long Ranger e Tonto Fistfight in Heaven" e "Reservoir Blues" e recebeu inúmeros prêmios e citações, incluindo o Prêmio PEN / Malamud para Ficção e o Prêmio Lila Wallace-Reader's Digest.

Línguas faladas no mundo

11 setembro, 2015

Um coelho, muitas cajadadas

por Marcos Bagno (*)
Certa vez, um editor português pediu à escritora brasileira Raquel de Queirós permissão para fazer mudanças em seu texto a fim de que pudesse ser publicado em Portugal.
Raquel negou e ainda escreveu:
"Acontece que esse caçanje, esses pronomes mal postos, essa língua que lhes revolta o ouvido é o nosso modo normal de expressão e – ouso dizer – a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal seria, para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula."
Ler este texto na íntegra em Jornal do Romário.
(lembrado por Fernando Gurgel)

Outras notas no blog EM
... em que Raquel de Queirós é citada: O centenário de Raquel de Queirós e Doutor em MPB
... em que Marcos Bagno é citado: Língua x Dialeto e A língua muda a nossa maneira de ver e recordar o mundo?

¯\_(' ! ')_/¯

Apesar da gravidade da situação, não posso deixar de rir, ao lembrar a piada de um português que fazia vôos turísticos no Rio de Janeiro em um helicóptero.
Um dia, foi vítima de um terrível acidente em que somente ele se salvou.
Morreram o copiloto e um jovem casal.
Ao depor contou: "Ai, meu Deus, tenho que contar tudo aquilo??. Raios... Olha seu doutor, domingo de manhã, eu o Manuel, meu copiloto, pegamos um casal em lua-de-mel e fomos fazer o nosso roteiro turístico. Eu mostrava a paisagem: - Ali à direita temos uma bela vista do Pão de Açúcar, à esquerda os senhores podem ver... Acontece que o casal, sentado no banco de trás, ao invés de olhar a paisagem, estava a agarrar-se. Do retrovisor eu via tudo. O gajo botou os peitinhos dela pra fora e ficou beijando. Ela logo, agarrou o trabuco do gajo e ficou balançando pra lá e pra cá. De vez em quando a coisa mirava em mim. Eu estava cada vez mais preocupado, mas, fazer o quê, não posso espantar a freguesia. De repente, o copiloto deu um grito alucinado: - OLHA O JACTO!!!. Me abaixei com uma rapidez que o senhor não acredita. Pensei que era o jacto da porra era a porra do jacto." (FGF)

20 novembro, 2014

Por que você escreve em iídiche?

As pessoas me perguntam com frequência,
"Por que você escreve em uma língua moribunda?"
Quero explicá-lo em poucas palavras.
Primeiramente, gosto de escrever histórias de fantasmas e nada se encaixa melhor num fantasma do que uma língua morta. Quanto mais morta é a língua, mais vivo é o fantasma. Fantasmas amam o iídiche e, até onde eu saiba, todos o dominam.
Em segundo lugar, não apenas creio em fantasmas como também creio na ressurreição. Estou certo de que, quando o Messias regressar, milhões de cadáveres fluentes em iídiche se levantarão de seus túmulos e a primeira pergunta que farão será: "Há algum novo livro em iídiche para ler?" Para eles, o iídiche não será uma língua morta.
Terceiro: por 2000 anos o hebraico foi considerado uma língua morta. Subitamente, ele se tornou estranhamente vivo. O que aconteceu ao hebraico pode também ocorrer ao iídiche um dia (embora eu não tenha a mínima ideia de como isso poderia se passar).
Há ainda uma quarta razão secundária para não renunciar ao iídiche e esta é: o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem. O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta. VÍDEO

Trecho do discurso pronunciado por Isaac Singer, Nobel de Literatura de 1978, no banquete de gala do Prêmio Nobel em Estocolmo, Suécia. Traduzido por Yuri Vieira – Digestivo Cultural.

20 março, 2014

A eletrogustação

Foi por volta de 1752 que Johann Georg Sulzer decidiu (por razões mais bem conhecidas por ele mesmo) colocar a ponta da língua entre duas placas de metais diferentes cujas bordas estavam em contato. Os resultados foram, literalmente, chocantes. Ele, inadvertidamente, se deparara com uma das primeiras baterias eletrolíticas do mundo, a qual havia completado um circuito através de sua língua. Como se isso não bastasse, ao mesmo tempo, ele também participara do que foi, muito provavelmente, a primeira experiência de eletrogustação (a percepção eletricamente induzida de um sabor fantasma).
Foi sua suposta observação:
"A sensação pungente, me lembrou o sabor de vitríolo verde quando eu coloquei minha língua entre estes metais."

03 março, 2014

Solo de guitarra com a língua


Existe uma certa associação entre a língua e o rock'n roll. Daí a banda inglesa "The Rolling Sones", ainda na década de 1970, ter adotado o desenho de uma língua em seu logo e merchandising (►).
Para reforçar essa tese, apareceu agora um roqueiro que toca a guitarra com a língua (vídeo).
A performance, porém, não é auto-evidente. Conforme um estudo a respeito, ela depende da competência musical (músicos x não músicos) de seus avaliadores, o que obviamente não é uma conclusão surpreendente.



Fernando Gurgel disse...
Jimi Hendrix, em "Hey Joe":

(solo com a língua: 1:38 – 1:53)

08 novembro, 2013

Língua x Dialeto

Eis uma definição - anedótica - para se distinguir uma língua de um dialeto:
"Uma língua é um dialeto com exército e marinha."
Leva em consideração as influências sociais e políticas sobre um povo ou comunidade para conferir o estatuto de língua ou de dialeto.
Foi popularizada por um estudioso do iídiche, Max Weinreich (foto), que, por sua vez, a escutou de um ouvinte em uma de suas palestras.
No original:
אַ שפּראַך איז אַ דיאַלעקט מיט אַן אַרמיי און פֿלאָט

Leitura recomendada: Preconceito que cala, língua que discrimina, por Marcos Bagno

03 junho, 2013

Origem da língua italiana

A Europa era uma confusão de inúmeros dialetos derivados do latim que, aos poucos, ao longo dos séculos, se transformaram em alguns idiomas distintos – francês, português, espanhol, italiano.
O que aconteceu na França, em Portugal e na Espanha foi uma evolução orgânica: o dialeto da cidade mais proeminente se tornou, aos poucos, a língua oficial da região toda.
Portanto, o que hoje chamamos de francês é na verdade uma versão do parisiense medieval. O português é na verdade o lisboeta. O espanhol é essencialmente o madrilenho. Essas são vitórias capitalistas; a cidade mais forte acabou determinando o idioma do país inteiro.
Na Itália foi diferente. Uma diferença importante foi que, durante muito tempo, a Itália sequer foi um país. Ela só se unificou bem tarde (1861) e, até então, era uma península de cidades-Estado em guerra entre si, dominadas por orgulhosos príncipes locais ou por outras potências europeias. Partes da Itália pertenciam à França, partes à Espanha, partes à Igreja, e partes a quem quer que conseguisse conquistar a fortaleza ou o palácio local.
O povo italiano se mostrava alternativamente humilhado e conformado com toda essa dominação. A maioria não gostava muito de ser colonizada por seus co-cidadãos europeus, mas sempre havia aquele bando apático que dizia: “Franza o Spagna, purchè se magna” que, em dialeto, significa: “França ou Espanha, contanto que eu possa comer”.
Toda essa divisão interna significa que a Itália nunca se unificou adequadamente, e o mesmo aconteceu com a língua italiana. Assim, não é de espantar que, durante séculos, os italianos tenham escrito e falado dialetos locais incompreensíveis para quem era de outra região.
Um cientista florentino mal conseguia se comunicar com um poeta siciliano ou com um comerciante veneziano (exceto em latim, que não chegava a ser considerada a língua nacional).
No século XVI, alguns intelectuais italianos se juntaram e decidiram que isso era um absurdo. A península italiana precisava de um idioma italiano, pelo menos na forma escrita, que fosse comum a todos. Então esse grupo de intelectuais fez uma coisa inédita na história da Europa; escolheu a dedo o mais bonito dos dialetos locais e o batizou de italiano.
Para encontrar o dialeto mais bonito, eles precisaram recuar duzentos anos, até a Florença do século XIV. O que esse grupo decidiu que a partir dali seria considerada a língua italiana correta foi a linguagem pessoal do grande poeta florentino Dante Alighieri.
Ao publicar sua “Divina Comédia”, em 1321, descrevendo em detalhes uma jornada visionária pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, Dante havia chocado o mundo letrado ao não escrever em latim. Considerava o latim um idioma corrupto, elitista, e achava que o seu uso na prosa respeitável havia “prostituído a literatura”, transformando a narrativa universal em algo que só podia ser comprado com dinheiro, por meio dos privilégios de uma educação aristocrática. Em vez disso, Dante foi buscar nas ruas o verdadeiro idioma florentino falado pelos moradores da cidade (o que incluía ilustres contemporâneos seus, como Boccaccio e Petrarca), e usou esse idioma para contar sua história.
Ele escreveu sua obra-prima no que chamava de "dolce stil nuovo" , o “doce estilo novo” do vernáculo, e moldou esse vernáculo ao mesmo tempo que escrevia, atribuindo-lhe uma personalidade de uma forma tão pessoal quanto Shakespeare um dia faria com o inglês elizabetano.
O fato de um grupo de intelectuais nacionalistas se reunir muito mais tarde e decidir que o italiano de Dante seria, a partir dali, a língua oficial da Itália, seria mais ou menos como se um grupo de acadêmicos de Oxford houvesse se reunido um dia no século XIX e decidido que – daquele ponto em diante – todo mundo na Inglaterra iria falar o puro idioma de Shakespeare. E a manobra realmente funcionou.
O italiano que falamos hoje, portanto, não é o romano ou o veneziano (embora essas cidades fossem poderosas do ponto de vista militar e comercial), e sequer é inteiramente florentino. O idioma é fundamentalmente dantesco.
Nenhum outro idioma europeu tem uma linhagem tão artística. E, talvez, nenhum outro idioma jamais tenha sido tão perfeitamente ordenado para expressar os sentimentos humanos quanto esse italiano florentino do século XIV, embelezado por um dos maiores poetas da civilização ocidental.
Dante escreveu sua “Divina Comédia” em terza rima, terça rima, uma cadeia de versos em que cada rima se repete três vezes a cada cinco linhas, o que dá a esse belo vernáculo florentino o que os estudiosos chamam de “ritmo em cascata” - ritmo esse que sobrevive até hoje no falar cadenciado e poético dos taxistas, açougueiros e funcionários públicos italianos.
A última linha da “Divina Comédia”, em que Dante se depara com a visão de Deus em pessoa, é um sentimento que ainda pode ser facilmente compreendido por qualquer um que conheça o chamado italiano moderno.
Dante escreve que Deus não é apenas uma imagem ofuscante de luz gloriosa, mas que Ele é, acima de tudo, "l’amor che move il sole e l’altre stelle..." “O amor que move o sol e as outras estrelas...”

Autora: Elizabeth Gilbert (texto enviado por Martinho Rodrigues)

Modo italiano de falar
Uma vez que você gesticule, você já pode falar italiano... não importa o quê.

17 novembro, 2012

Verdade, beleza e Volapük

Johann Schleyer foi um padre alemão cuja irracional paixão por tremas pode ter sido sua ruína. Durante uma noite sem dormir, em 1879, sentiu uma presença divina que lhe dizia para criar uma linguagem universal.
O resultado foi o Volapük. Ele foi projetado para ser fácil de aprender, com um sistema de raízes simples, derivadas de línguas europeias, e de afixos regulares que eram ligados às raízes para fazer novas palavras. Volapük foi a primeira língua inventada a obter sucesso generalizado. Até o final da década de 1880, havia mais de 200 sociedades e clubes Volapük ao redor do mundo e 25 revistas que saíam nesse idioma.
"Uma língua sem trema", escreveu ele, "parece monótona, dura e chata."
Embora muitos membros da crescente comunidade Volapük possam ter concordado com o seu julgamento estético, muitos outros pensaram que, para o Volapük ter uma chance séria de ser uma língua mundial, os tremas tinha que ir. De fato, especialmente nos Estados Unidos, os tremas somente acrescentaram ao Volapük um ar ameaçador, ridículo e de estranheza.
Em 1890, o movimento Volapük estava desmoronando devido às discussões sobre os tremas e outras reformas.

Foto: Johann Schleyer, aos 50 anos, com uma harpa dada a ele como presente de aniversário por seus colegas da Sionsharfe, uma revista dedicada à poesia católica, que Schleyer editou pela primeira vez em Volapük, em 1879.

TRÜTH, BEAÜTY, AND VOLAPÜK, The Public Domain Review

POEMA DA NECESSIDADE
Carlos Drummond de Andrade. In: "Sentimento do mundo"
É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

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21 setembro, 2012

É a língua imexível?

Paulo Gurgel
Nos últimos tempos, nossos políticos e tecnocratas têm andado às voltas com a tarefa de criar novas palavras para a língua falada no Brasil. Que, dizem uns, se tratar de português, e outros, de brasileiro mesmo. Não entrando no mérito de tal discussão, já que não tenho uma opinião formada sobre o assunto, uma coisa, porém, eu afirmo. A língua que Arraes chorou no exílio está sendo, como nunca, invadida por neologismos.
Resta ver com qual finalidade. Muitas vezes, os neologismos são criados para preencher necessidades da comunicação, concordo. E o idioma precisa deles para o seu rejuvenescimento, assim como se descarta de outras vocábulos que vão virar arcaísmos. Feito uma árvore que todo dia estreia novas folhas, desfazendo-se de outras já sem viço. E, queiram ou não, a mais corriqueira das palavras um dia já foi neologismo.
O insuperável Guimarães Rosa a três por quatro inventava palavras. Novos modos de arrumá-las, concatená-las, tal e coisa. São exemplos de composições tipicamente rosianas: "maquiavelhaco" (maquiavélico+velhaco), "enormonho" (enorme+medonho). No conto "Uns Inhos Engenheiros", em que ele descreve a construção de um ninho por um casal de passarinhos, há um brotar tamanho de palavras que o espetáculo apresenta um frescor, um encanto nunca vistos. Como se fosse a vez primeira em que isso acontecesse na Natureza e, ao ocorrer lá estivesse o olhar divertido de um homem que, paralelamente, criasse uma linguagem só para lhes celebrar a façanha.
O gênio de Cordisburgo, no dizer da scholar norte-americana Mary L. Daniel, parecia querer a língua que se falava antes de Babel. E, por isso, ele amalgamava, forçava, torcia e a submetia a experiências as mais audazes. Muitas vezes encontrando inéditos sentidos para as frases e palavras, mas... estou a falar de um artista no ato da criação. Nossos homens públicos, ao que se sabe, não chegam a tanto.

É uma crônica das antigas. Siga lendo no Preblog.

05 março, 2012

Cigano

[...]
"Pois não é que esta semana o Brasil inteligente ficou sabendo, estarrecido, que um procurador da República em Minas Gerais quer obrigar o Instituto Antônio Houaiss (V. comunicado) a retirar de circulação todas as edições do dicionário Houaiss, que contêm, segundo a excelentíssima sumidade, "expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos"? Confesso que há muito eu não ouvia tamanho disparate, e fiquei tão chocado com a notícia que, a princípio — imaginando que fosse mais um desses boatos propagados pelas ondas do mar da internet —, pus minha mão no fogo pelo procurador: "Um membro do Ministério Público não vai cometer o erro primário de confundir o texto de um dicionário com o de uma enciclopédia", sentenciei — mas, ai de mim, logo me convenci de que teria feito melhor se tivesse deixado a mão no bolso: era tudo verdade!
Ocorre que este dicionário — de longe, o melhor que já tivemos em língua portuguesa — não faz mais do que a obrigação ao registrar que o termo cigano tem oito acepções, entre elas duas que Houaiss expressamente rotula como "pejorativas": "aquele que trapaceia; velhaco, burlador" e "aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina". Afinal, este é, como vimos, o compromisso tácito que todo lexicógrafo que se preze assume conosco: apresentar o repertório de significados atribuídos a cada palavra e indicar as particularidades de seu uso ("informal", "antiquado", "chulo", "regional", etc.). Nosso douto procurador deveria ter percebido que as informações apresentadas pelo Houaiss — que, desculpem lembrar a obviedade, não é uma enciclopédia — se referem ao termo, e não ao povo cigano. No dia em que registrar os valores depreciativos que certos vocábulos assumiram ao longo do tempo for considerado um crime, nossa língua — ou melhor, nossa civilização terá embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmemória."
por Claudio Moreno, Sua Língua

02 março, 2012

Com o sentido oposto

Há locuções que apresentam o sentido oposto ao que teriam se fossem rigorosamente tomadas ao pé da letra. Observa-se isso, por exemplo, quando alguém diz "vou chegando" para anunciar que vai sair. Ou, então, exclama: "É o novo!" para se referir a coisas muito antigas.


O escritor José de Alencar usou, algumas vezes, a expressão "estar bem aviado" com o significado de estar mal-aviado, isto é, mal preparado, mal-aparelhado, sem o que é mais necessário. Exemplifique-se com esta passagem de "Guerra dos Mascates":
- Fique você descansado, que o ponho sob a minha guarda - tornou o mascatinho, em tom de importância.
- Estava eu bem aviado! - respondeu o poeta, sorrindo.
São exemplos de um idiotismo (sinônimo: construção particular) da língua portuguesa.

25 junho, 2011

Dize-me com quem andas...

"A polêmica sobre o "livro do MEC" mostrou algumas coisas, entre elas quem estava de qual lado. Foi bom saber que (sem necessariamente apoiar o livro, e até fazendo-lhe objeções) deixaram claro que o livro não pode ser acusado de "ensinar errado" Affonso Romano de Sant'Ana, José Miguel Wisnik, José de Souza Martins, Sérgio Fausto e Silviano Santiago, Ricardo Semler. Convenhamos, é um time respeitável. Além deles, Thaís Nicoletti, Pasquale Cipro Netto e Hélio Schwarstman, ligados à Folha de S. Paulo. A coluna de João Ubaldo no Estadão de 29/05 pode ser posta na mesma contabilidade. Não cito nenhum linguista por razões óbvias.
Do outro lado estiveram Augusto Nunes, Arnaldo Jabor, Deonísio da Silva, Sérgio Duarte Nogueira, Sardenberg, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, o ínclito José Sarney, algumas funcionárias da VEJA (nenhum tem a ver com a coisa!) e Evanildo Bechara. Também não há nenhum linguista na tropa (nem poderia, também por razões óbvias) e nenhum representante de relevo nem sua área (de relevo análogo ao dos que estiveram do outro lado, quero dizer) - exceto Bechara. Dou-lhes o benefício da dúvida: eles podem não ter lido o livro. Foi só fofoca, conversa de compadre. E talvez alguma causa escusa.
Ferreira Gullar também esteve com eles. Falou de um livro que não existe (mas sem a classe de Borges) e invocou suas aulas de gramática, como sempre. Por esse critério, não se deveria considerar que Poema Sujo é poesia, pois não tem rimas. E o Poema enterrado? O que é aquilo? Segundo uma tese dele, talvez a melhor de todas, pode-se dizer que é uma boa idéia. Mas não é arte. Se, pelo menos, naquele último cubinho estivesse escrito "envelheça"!
As declarações de Cristóvão Buarque sobre a questão mostraram que Lula podia não saber por que demitia o então Ministro da Educação, mas o ministro devia saber muito bem por que estava sendo demitido.

Extraído do artigo Duas experiências e um livro, de Sirio Possenti.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de:
Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.