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02 maio, 2026

O Maracujá

Agora que sou velho, posso enfim responder ao jovem que um dia fui - aquele rapaz inquieto, confuso diante do próprio futuro. O coração acelerado pela necessidade de tomar decisões importantes sem experiência para referendá-las.
A velhice não estava entre as minhas aflições. Era apenas a ruína inevitável dos outros.
O que é ser velho?
Hoje eu sei. Ou, ao menos, sei mais do que ele sabia.
E, ainda assim, há dias em que me surpreendo diante do espelho, quase paralisado. Olho com uma estranheza quase infantil para aquele rosto e penso, com uma sinceridade desarmada:
Não pode ser. Isso não sou eu.
Há um desencontro profundo entre o que os olhos veem e o que o peito sente. O espelho me mostra um homem gasto: a pele do pescoço frouxa, as bochechas rendidas pela gravidade, a testa sulcada - tanto no riso quanto na dor, como se um e outro estivessem sempre presentes. É um corpo que revela.
Que denuncia.
Que conta, sem pedir licença, a história que o tempo escreveu.
Mas há mudanças mais silenciosas, mais fundas - aquelas que o espelho não alcança. Descobri, por exemplo, que o choro se tornou fácil. Agora ele brota quieto, como quem já não tenta conter o que transborda.
Não consigo olhar fotografias dos meus filhos pequenos. Evito - como quem evita um lugar perigoso. Porque a saudade não chega: avança. É súbita, afiada, quase física. Dá uma vontade desmedida de voltar no tempo.
Não para refazer grandes escolhas - elas foram acertadas. Mas para o pequeno. Segurar de novo aqueles corpos leves no colo. Sentir o calor deles adormecendo sobre o peito. Beijar as testas mornas.
A velhice me alcança com força nesses instantes. Não pelo que perdi - mas pelo que foi bom demais para caber apenas na memória.
Por isso, às vezes, fecho os álbuns antes da última página. Não por esquecimento. Por excesso.
As fotografias de meu pai - morto há trinta e cinco anos - ainda sabem me encontrar. Basta um segundo a mais… e algo cede por dentro. É um choro manso. Uma dor educada, comportada, desavergonhada - que aprendeu a falar baixo.
Nos momentos importantes, penso nele. Essa ausência nunca envelheceu. Queria que estivesse aqui - nem que fosse para ver o tamborete que acabei de fazer na oficina.
Há, nisso tudo, uma ironia discreta. A velhice só pesa quando me lembro dela. No resto, sigo vivendo - às vezes até com humor. Gosto de me chamar de velho quando tropeço, quando subo escadas e as pernas reclamam, quando o corpo, com sua honestidade brutal, me lembra dos limites.
Mas, se o corpo envelhece com franqueza quase cruel, o pensamento fez o caminho inverso. Hoje penso com mais leveza. Já não me agarro às minhas certezas. Compreendo mais do que julgo. Observo mais do que reajo.
Há uma serenidade que não existia antes - não por virtude, mas por realismo. Vejo o mundo com uma clareza que a pressa da juventude não permitia. Percebo padrões. Às vezes, antevejo finais.
Você já sabia? - perguntam.
Não. Eu não sabia. Apenas aprendi que o mundo se repete.
E é assim que respondo ao jovem que fui:
Ser velho não é apenas perder.
É um deslocamento.
O corpo enruga.
Mas algo dentro - silencioso - rejuvenesce.
Talvez porque já não precise provar nada.
Ou porque o essencial, enfim, tenha se revelado.
Envelhecer é isso:
a casca se fragiliza, por dentro, a vida insiste.
E insiste com esplendor.
Exatamente como um maracujá.
Nelson José Cunha
N. do E.
A flor do maracujá (Passiflora) simboliza principalmente a Paixão de Cristo, sendo conhecida como a "flor-da-paixão". 
Quando chegaram no continente americano, missionários espanhóis do século XVI interpretaram suas estruturas como símbolos religiosos: filamentos como a coroa de espinhos, estigmas como os cravos, e anteras como as chagas de Jesus. 
A flor também representa a paz e a espiritualidade.
Paulo Gurgel

02 janeiro, 2026

Ainda não será desta vez

Nelson José Cunha
Chegou pelo correio um folheto de funerária com promoção especial para o fim de ano.
Mal o vi, pensei: será que já sabem a minha idade só porque compareci a alguns velórios por lá?
Essa inteligência artificial está em toda parte. Reconhece-nos pela fotografia, pela voz, pelo modo de andar. Sabe onde estivemos, a quem devemos, até aquela visita furtiva à loja de produtos pirateados.
Não há mais como brincar com semelhante presença.
Se tiver algo a ocultar, saia a pé e de capacete. A quem perguntar, responda com silêncio: sua voz já está arquivada na nuvem digital.
Hão de querer saber o que fazia na Rua Guaicurus, em Belo Horizonte - território das quase-belas damas noturnas. Alegar que se perdeu já não convence: uma câmera registrou sua saída constrangida de um dos prédios de lá.
Para circular despercebido, use capacete e camisa dos Correios, aquela que traz no bolso a bandeira nacional. Carteiro patriota entra em qualquer lugar. Se surgir uma passeata verde e amarela, misture-se à multidão sem receio: passará por mais um cidadão inocente.
Quanto às funerárias, os folhetos não cessam de chegar. Um deles oferecia cinquenta por cento de desconto na cremação, caso eu me desencarnasse antes da próxima Copa - desde que fornecesse a lenha.
Achei a proposta atrativa. Lenha não me falta: nossa cama de casal serviria perfeitamente. Para que a viúva haveria de querer uma cama tão grande? Espero que ela não mantenha esperanças de ocupá-la novamente. Meu ciúme também é perpétuo.
Hesitei em assinar, pelo receio de que, descumprido o acordo, não me permitissem regressar do Céu para reclamar.
Aliás, deve ser insuportável passar a eternidade inteira sobre uma nuvem, vendo meus amigos se divertirem lá embaixo.
Às vezes penso que o paraíso é aqui: todo mundo peca sem temer as consequências.
Especialmente nestes tempos em que o inferno está lotado.
Pecaram mais do que estava previsto na inauguração do mundo.
Lá não aceitam mais ninguém - sobretudo brasileiros. Bagunçaram o lugar: consumiram, no churrasco, toda a lenha destinada à queimação das almas.
Outros, de camisa vermelha, venderam as caldeiras como ferro-velho para os chineses. Para completar, os motoboys, sempre correndo como se o inferno tivesse prazo de entrega, estão chegando em bandos e gastando o estoque de fósforos para acender seus baseados.
Por ora, enquanto o inferno está fechado por excesso de lotação, vou cometendo os meus pecados aqui. A idade já limitou os da carne. Sobrou-me, por enquanto, apenas o consolo da gula.
Aproveitem o ano novo, este e os próximos, porque nunca se sabe se será o último.

27 dezembro, 2025

A sabedoria silenciosa do mangará

por Nelson José Cunha
O meu passeio é o quintal. Depois de tantos anos na cidade, vejo-me agora parado diante de uma bananeira, observando um cacho que acaba de se inclinar para o chão.
Olho minhas mãos, sujas e satisfeitas com os resíduos de terra roxa - a cor do mangará. Sei que ele já cumpriu sua missão e deve ser removido: a seiva precisa seguir apenas para as bananas que vingaram.
O que esconde essa criatura tão simples e bela?
A curiosidade me arrebata, e começo a exploração. O mangará tem camadas, como as cebolas. Uma capa, depois outra, e mais outra. Ao despir a planta, encontro logo abaixo da primeira capa uma penca de bananas pequenas e incompletas. Sigo adiante e descubro outras mais - bananinhas mal-nascidas, frágeis, todas aninhadas e protegidas.
Descubro então algo ainda mais admirável. 
Enquanto murcha, o mangará consome para si os nutrientes que iriam para essas promessas inviáveis. A bananeira parece saber, com uma sabedoria silenciosa, quantas bananas pode sustentar. Quando o terreno é fértil, ela solta mais pencas. Quando percebe que não terá condições de cuidar, interrompe e murcha.
Nada ali é desperdício, tampouco engano. O excesso é contido para que o essencial sobreviva.
Entre nós, homens, costuma ser diferente. Produzimos mais do que podemos sustentar, prometemos além do que somos capazes de cumprir, iniciamos obras que não terminam, geramos vidas, projetos e ruínas sem medir o custo de mantê-los. Desperdiçamos recursos, afetos e futuros - não por necessidade, mas por vaidade, pressa ou descuido.
Ali, encontro uma virtude que nós, tantas vezes, esquecemos. Até as bananinhas que jamais chegariam à mesa foram tratadas como filhas. Sabiam-se condenadas ao apodrecimento, mas nem por isso lhes foi negado abrigo, nem retirada a ternura. A natureza cuida até do que não dará certo - e, ainda assim, sabe quando parar.
Talvez seja por isso que o chamem também de coração da bananeira.
O homem da cidade viveu o bastante para reconhecer a nobreza escondida num simples mangará. Por esse encantamento tardio, só me resta agradecer.
A quem?

13 abril, 2025

O Grito do Silêncio

por Fernando Gurgel Filho
A arte, em qualquer de suas manifestações, nunca ficará escondida embaixo de nenhum tapete ditatorial e violento. Podem até negá-la como expressão da liberdade e da cultura. Podem confundi-la com anarquia, licenciosidade, imoralidade, marginalidade...
Não liguem, a arte nunca será marginal, mesmo que o carimbo sem dono seja-lhe esfregado na face.
Um carimbo não é nada mais que a baixa estima da vileza. Ao invés de borrar a beleza da arte e amordaçar o grito impossível, a mensagem da arte, mesmo silenciosa, sorrateira, é um desabafo de luz, som, cores, palavras...
Quando a arte bater à sua porta emocional você vai escancarar as portas de sua casa e sentá-la no lugar mais nobre de sua sala.
Não adianta sua louça de porcelana chinesa, seus cristais da Bohemia e talheres de prata de lei torcerem o nariz, fazerem caras e bocas de nojo.
Suas Swarovski vão cintilar de alegria e tilintar de emoção. Você chorará humildemente de prazer e alegria e afastará o melhor de seu pior ódio para poder apreciar a grandeza que o preconceito e a ignorância um dia afastaram de ti.
Mas o medo é a porta de aço que tira total e totalitariamente toda a liberdade. Os tiranos que querem tutelar a humanidade precisam que os seres humanos se sintam inseguros e com medo. Medo de ter prazer, de ter ideias, de ter ideais, de sentir amor e de sentir-se amado, feliz e em paz.
Por isso os loucos, os "malucos beleza", os "corações selvagens", libertos do medo, são tão importantes para a paz e o amor, para a felicidade e para a liberdade.
Belchior nos ensinou que "Viver é melhor que sonhar" e que "Para abraçar meu irmão E beijar minha menina na rua É que se fez o meu lábio O meu braço e a minha voz" adquirindo total liberdade como os "loucos", ou, como diria Jack Kerouac, "os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo..."
Ora, Jack Kerouac que, bem antes de Belchior, meteu o "Pé Na Estrada", talvez tivesse seus mesmos questionamentos, que vêm da ânsia de liberdade e de viver intensamente.
Você pergunta: "O que é que pode fazer o homem comum Neste presente instante senão sangrar? Tentar inaugurar A vida comovida Inteiramente livre e triunfante?"
Ora, "Ano passado eu morri Mas esse ano eu não morro"
Então, queria conversar com o presente, que respondeu: Aqui você não pode ficar!
Mandei uma mensagem para o futuro, que respondeu: Espere até você chegar!
Mandei outra para o passado, que respondeu: Não consigo te alcançar!
Desisti de o passado esperar; disse para o futuro: eu vou lá; e o presente, resolvi aproveitar.
E, ao mesmo tempo, "Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não Eu canto".

09 junho, 2023

O pente fino da vida

Piolho, pente fino e Neocid
De Sergio Degrande - 4 de junho de 2019
https://thathi.com.br/opiniao/piolho-pente-fino-e-neocid/

Quando eu morava na Rua Luís da Cunha, bem ao lado da minha casa havia um corredor estreito que levava a uma vilinha, cujas casas formavam o que se convencionou chamar de cortiço, Nele havia gente de todo lugar, notadamente mineiros e nordestinos que se aventuravam nas construções civis ou nas usinas espalhadas pela região. Pois era justamente ali que estavam os meus amigos. Ninguém era melhor do que ninguém, a não ser no futebol , bolinha de gude ou no bafo (jogo de figurinhas, que consistia em virá-las com a palma da mão batida no chão, num delicado e muitas vezes malandro balé de dedos atrevidos e ligeiros). Nem imaginávamos qualquer luta de classes nas nossas brincadeiras. Não havia ostentação, e, para nós, o futuro era logo ali, ingenuamente distribuído no fascínio do nosso mundo tão nosso e tão singelo. Eu queria ser bombeiro ou trapezista, Edinaldo, que a gente chamava de Edinho, queria ser pipoqueiro e Adilson, apesar de ser o craque da turma, queria mesmo ser guarda-civil, só para usar aquela farda azul, que nos deixava encantados com tanta belezura.

Minha mãe não gostava muito daquela convivência, não por conta da diferença social, fato esse que nunca apareceu em casa, mas pela terrível presença dos piolhos. A vilinha era infestada de piolhos e nada irritava mais a minha mãe do que nos ver coçando a cabeça sem parar. O ritual de busca do bicho era digno de um pré-enforcamento. Minha mãe colocava a cadeira no quintal, no lugar mais claro possível. Sentava-se como uma rainha e tinha no colo uma toalha branca. No chão, ao lado da cadeira, ficava uma lata de óleo de cozinha, geralmente de amendoim, que cheirava forte. Não havia qualquer tipo de indulto: eu tinha que abaixar a cabeça, enquanto ela derramava o maldito óleo e espalhava sem dó ou piedade pelo couro cabeludo. O ato seguinte era tortura pura: de posse de um pente pequeno e duro, com hastes dos dois lados, bem estreitas, denominado pente–fino, ela enfiava o artefato pela cabeça, como se fosse um arado, esticando e roçando tudo que via pela frente. O ato doía loucamente, mas não podia soltar um gemido que fosse, sob pena de ter como castigo ficar dois dias com aquele óleo no cabelo. Depois de puxados os fios, começava a inspeção em busca das lêndeas, que nada mais eram do que ovos de piolho, que grudavam nos cabelos. Se havia lêndea, havia piolho. A caçada era minuciosa. Minha mãe conhecia o terreno como uma geóloga. Quanto mais o tempo passava e nenhuma pista aparecia, mais a busca intensificava.

O pente saia da cabeça e ela o batia na toalha, certa de que um ovinho, um só, apareceria com seu olhar arrogante de piolho. Pois não é que certo dia, mais do que uma lêndea , um batalhão delas apareceu. E foram tantas que minha mãe exultante chamava todo mundo ao redor para ver. Vieram as tias, as primas, dois vizinhos, até o Sr. Rubens, alfaiate que trabalhava ao lado de casa. Todos assistiam ao espetáculo mais fabuloso da terra. O que veio depois marcou para sempre a minha vida: minha mãe mandou que eu ficasse ali, sentado, como num cárcere. Ela sumiu por alguns minutos e voltou depois com uma meia fina, de mulher, nas mãos. De posse de uma tesoura, ela cortou a meia. Não havia palavras naquilo, apenas ritual. De repente, na outra mão, não sei de onde nem como, apareceu uma lata amarela de um veneno de baratas, chamado Neocid. Sentada, com a tolha nas pernas, ela me mandou enfiar a cara naquele pano e fez chover sobre minha cabeça o veneno. O pó espalhava por cada milímetro do meu couro cabeludo. O cheiro forte me embriagava. Para garantir que aquilo não se perderia, ela colocou parte da meia cortada na minha cabeça. Pronto, eu deveria ficar com aquilo por dois dias, uma touca maldita e enjoada sobre mim, impedindo que eu pudesse brincar ou mesmo respirar.

Naquela noite fui parar na Beneficência Portuguesa. A reação da pele foi cruel. Fiquei vermelho meus pulmões se fecharam, quase impedindo que o ar entrasse. Os médicos demoraram para notar que havia uma reação alérgica ao Neocid. Precisaram raspar o meu cabelo. Fiquei com cara de galo, ganhei o apelido de pintinho. Nunca mais tive piolho, nunca mais brinquei na vilinha, perdi o Edinho e o Adilson. Acho que o Neocid mudou minha vida, além de matar os piolhos, matou a minha inocência, a minha singeleza e o meu sonho de ser bombeiro ou trapezista. Acho que virei um piolho, com medo do pente fino da vida.

18 outubro, 2021

Civilidade do esgoto (em tempos difíceis)

Nesses tempos sombrios, onde aqueles que compartilham grupos de mídias sociais ficam trocando ofensas por causas que não entendem, bem como defendendo terceiros que nem sabem que eles existem e, se soubessem, não lhes dariam a mínima importância, vale um conselho muito útil dado por meu amigo calhorda: "Parem de mandar seus desafetos à merda!!!"
Segundo ele, quem muito sabia das coisas era o companheiro Victor Hugo. No seu grande livro "Os Miseráveis", Victor Hugo faz uma profunda análise dos esgotos de Paris àquela época e conclui: "O esgoto é um cínico, ele diz tudo." "... a história passa pelo esgoto."
Mais adiante, escreve: "Para quem passou seu tempo sendo obrigado, na terra, ao espetáculo dos grandes ares que tomam a razão de Estado, a promessa, o bom senso político, a justiça humana, as probidades profissionais, as austeridades de ocasião, as togas incorruptíveis, se torna um alívio entrar num esgoto e ver a lama correta."
Creio que se poderia traduzir assim: a lama que escorre das ações humanas pode ser mais pavorosa, nociva, fétida e imunda do que a lama formada pelos excrementos humanos.
Ainda segundo Victor Hugo, os atos de bravura dos construtores de esgoto seriam "...mais úteis que as matanças idiotas do campo de batalha."
Daí meu amigo calhorda tirou sua sábia conclusão: "Ao mandar um desafeto à merda, você está elevando-o a um patamar do qual ele não tem nenhum merecimento e, pior ainda, talvez esteja ofendendo muito uma merda que está quieta em seu lugar e nunca fez mal a ninguém, muito pelo contrário."
E completou o excelente conselho: "E não adianta mandar à PQP, por que esse pessoal não tem nem mãe!"
Fernando Gurgel Filho

21 setembro, 2021

A porra da árvore

William Blake:
"Como um homem é, então ele vê a porra da árvore."
Perdão, leitores.
Parece que um ser malévolo (JMB) se interpôs neste tweet.
@EntreMentes

A porra da árvore, por Ruy Castro
(publicado na Folha de SP em 04/10/2019)
Nesta terça-feira (1º), numa tentativa de elevar sua estatura como estadista, o presidente Bolsonaro subiu numa cadeira e discursou para um grupo de garimpeiros na entrada do Palácio do Planalto. Segundo ele, a campanha estrangeira em defesa da floresta amazônica não quer saber da preservação ambiental ou da proteção aos índios. E, de acordo com sua ideia do nível de sofisticação de sua plateia, declarou: “O interesse na Amazônia não é no índio, nem na porra da árvore. É no minério!”.
A maneira de Bolsonaro se referir à árvore é injusta. A árvore não é uma porra. É verdade que contém uma seiva que, à visão desarmada, pode ser confundida com o esperma –ambos são espessos, aderentes e viscosos. Mas a semelhança acaba aí, e Bolsonaro, matuto de origem, sabe disso. Seu uso de “porra”, portanto, só pode ter se dado na forma chula, significando, segundo o Aurélio, “enfado, impaciência, desagrado”. É o que as árvores lhe provocam, donde estar dedicando seu mandato a transformar o Brasil num pasto ou numa Serra Pelada sem volta. Deve isso aos patronos da sua candidatura.
O jovem Bolsonaro certamente se aplicava em chutar árvores, desfolhar galhos ou urinar em canteiros. Mas, se cursou a escola fundamental, talvez tenha aprendido que o Brasil nasceu de uma árvore: o pau-brasil, cujo ciclo econômico durou pouco, pela exploração irresponsável que o levou à quase extinção. Bolsonaro não gosta dos índios, mas sua mentalidade tem algo em comum com a deles –também é extrativista.
Quanto à porra, expressão que usou para desmerecer a árvore, é bom lembrar que, na origem, Bolsonaro também já foi uma. Pelo menos, foi chapinhando nela que se cruzaram os genes que o formaram. Em respeito ao leitor, vou me abster de entrar em detalhes.
Basta dizer que, embora talvez Bolsonaro não acredite, o processo de sua fecundação foi o mesmo que gerou o cacique Raoni.
Via

07 maio, 2021

Alguém tem que morrer, Baby

Quando você estiver lendo isso, alguém foi assassinado. Alguém, que esperou na fila da Mal-Wart, do Best Buy ou de alguma outra loja de departamentos, foi pisoteado, morto a tiros, esfaqueado, atropelado, atropelado no estacionamento, ou talvez até morrido de permanência na fila, simplesmente para ter alguma coisa. Mais coisas. Nunca tem coisas suficientes. Sempre há o desejo de ter mais coisas. Temos que ter mais objetos em nossas casas, e talvez então, talvez, encontremos a felicidade e seremos gratos por isso.
Mas, primeiro, alguém tem que morrer.
Estamos excluindo as pessoas na estrada checando seus telefones celulares, acelerando, bebendo, chapados e alimentados por pressa, raiva e desespero (Obrigado, Aimee!). As mortes no trânsito fora dos estacionamentos deixaremos como danos colaterais. Vamos excluir também aquelas pessoas que estão enchendo suas almas com pílulas e álcool barato, além de comer demais. Eles vão morrer mais devagar, talvez até anos depois, pois estamos falando de Black Friday, Baby, e alguém tem que morrer.
Pense no mundo, não, isso é impreciso, pense nos Estados Unidos, cinquenta anos atrás. Nem todo mundo tinha televisão e quase ninguém tinha mais de um aparelho. Cada casa podia ter um telefone. A maioria das famílias tinha um carro. Nunca havia mais de dois ou três canais na televisão. E todas as lojas ficavam fechadas no dia seguinte ao Dia de Ação de Graças.
Mas agora todo mundo tem um telefone, e há duas ou três televisões em cada casa. Há dois ou três carros, e todo mundo tem que ter seu próprio som. Cada indivíduo se tornou seu próprio universo, seu próprio mundinho, com cada faixa em uma lista de reprodução específica em sua existência e cada toque no telefone exclusivamente para a pessoa que possui o dispositivo, que ninguém jamais utilizará.
Este é um sistema alimentado pelo desejo. O espaço vazio em nossas almas, onde antes havia interação entre as pessoas e, principalmente, entre as pessoas com quem nos importávamos, esse desapareceu há muito tempo. Desde que pessoas da mesma família assistem a diferentes televisões e, depois, não falam sobre o filme que acabaram de assistir, porque não estavam sintonizadas no mesmo canal.
Mais do que qualquer outra pessoa que você já conheceu, ou não, sou um produto desse sistema. Eu poderia passar semanas sem falar com outro ser humano e numa boa. Eu sou o cara que você leu sobre quem tinha todas as suas contas no pagamento automático e morreu há dez anos, mas ninguém sentiu falta dele. A menos que minha mãe me sobreviva, isso não está fora de questão. Em um céu cheio de estrelas, não importa quão próximas elas pareçam, a maioria fica a milhões de quilômetros de distância uma da outra.
A única coisa que posso lhe dizer agora é que estou me livrando das coisas. Estou doando coisas e jogando fora outras, e não importa para mim o que vai acontecer. Tudo tem que ir. Estou de volta ao Dog Rescue, ajudando com outras instituições de caridade e deixando meu telefone no caminhão com mais frequência agora. Ainda não gosto de pessoas, mas estou procurando por pessoas mais parecidas comigo e descobrindo que somos uma proporção maior da humanidade do que eu esperava.
Ele está morto, Jim. Aquela pessoa que queria mais coisas pela metade do preço foi chutada na cabeça por outra pessoa que queria coisas, e agora temos a contagem de corpos da Black Friday. É um número muito humano, com cada pessoa lá antes do amanhecer, deixando sua família para trás em mais de uma maneira - - por coisas.
Estou indo embora.
Se cuide, Mike
Friday Firesmith – Black Friday. Tradução: PGCS

08 janeiro, 2021

Ingratidão, por Raul de Leôni

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

Raul de Leôni (Petrópolis, RJ, 1895 - Itaipava, RJ, 1926), com "Luz mediterrânea", seu único livro, é considerado nosso último paranasiano de relevo.

A gratidão do cajueiro, por Rogaciano Leite LINK
Diferente da ingrata amendoeira de Raul de Leoni, que "pendeu os ramos sobre um muro em frente e foi frutificar na vizinhança", o cajueiro plantado pela então garotinha de Aracati, soube reservar todas as suas energias criadoras para fazer com que a hoje velhinha que o plantou recebesse do sr. Ministro da Agricultura um prêmio de dois mil e quinhentos cruzeiros pelo maior caju produzido naquela cidade, por ocasião da festa que o dinâmico deputado Ernesto Gurgel Valente organizou e dirigiu.

Ingratidão é...
A pessoa receber o favor e não voltar para pedir outro. PGCS

09 setembro, 2020

Adeus a Sete Quedas

Foi a maior cachoeira do mundo em volume de água.  Para se ter uma ideia de sua grandeza basta compararmos a taxa média de fluxo anual dela com as Cataratas do Niágara (a maior em volume de água atualmente), a Sete Quedas tinha um fluxo de 13.300 m³/s enquanto as Cataratas do Niágara tem hoje 2.407 m³/s. Ela se localizava na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, e fazia parte do Rio Paraná, hoje ela está localizada no fundo do lago artificial de Itaipu.
Sete Quedas (foto) podiam ser consideradas uma das maiores maravilhas naturais. Era constituída por 19 cachoeiras principais divididas em 7 grupos de quedas. A cidade de Guaíra foi construída em 1940 para aproveitar a potência turística da região, e foi nessa época que o Brasil e o Mundo começaram a conhecer o Salto Guaíra (outro nome dado ao Salto de Sete Quedas).
Em 1979, foi decretado o fim do Salto de Sete Quedas, com a previsão da construção da Usina de Itaipu. Em 13 de outubro de 1982, as comportas da recém-construída barragem Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas. E deu-se início à formação da represa de Itaipu que fez desaparecer as quedas d’água.


Em 1982, às vésperas de seus 80 anos, Carlos Drummond de Andrade expressou sua inconformidade com a destruição do Salto de Sete Quedas.
Na edição de 9 de setembro do Jornal do Brasil, quando afinal se anunciava o fechamento das comportas para a criação do lago da hidrelétrica de Itaipu, Drummond publicou este poema. Em letras grandes, os versos ocuparam uma página inteira — a capa do Caderno B.
O sentimento ecológico do poeta reverberou em todo o país. Um mês depois, ele voltaria à carga, com a crônica "Sete Quedas poderia ser salva" (JB, 07/10/1982). Nesse texto, Drummond transcreve una carta do engenheiro Octavio Marcondes Ferraz — o projetista da hidrelétrica de Paulo Afonso. A carta fora enviada ao poeta exatamente a propósito do poema "Adeus a Sete Quedas".
Ferraz revela que em 1963 apresentara projeto intitulado "Aproveitamento do Potencial do Salto de Sete Quedas". A idéia do engenheiro era preservacionista. "Em Paulo Afonso", diz ele, "projetei a usina preservando a catarata que Deus nos deu."
"Aproveitamento, em vez de imolação", destacava Drummond. O argumento do governo militar para a destruição é que seria necessário considerar uma "solução simétrica" em relação ao Paraguai.
No final, diz Drummond, os paraguaios não ficaram tão satisfeitos e Sete Quedas vai passar às novas gerações apenas como uma pálida notícia, um cartão postal de longínquo passado.
"Sete quedas por nós passaram,/ e não soubemos, ah, não soubemos amá-las".
http://pt.quora.com/Quais-pontos-tur%C3%ADsticos-no-Brasil-deixaram-de-existir
http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond30.htm

24 janeiro, 2020

A caixa de gelo

Uma de minhas lembranças mais antigas é de quando eu era jovem e morávamos em um apartamento de três cômodos no segundo andar de um condomínio de apartamentos. Nós éramos pobres, ou com certeza uma família de baixa renda, mas meu irmão e eu não sabíamos disso. Vivíamos da renda de nosso pai como operário de uma fábrica que produzia telhas de amianto.
Nós não tínhamos uma geladeira, mas tínhamos uma caixa de gelo.
A caixa de gelo, se bem me lembro, era um armário em sua maior parte de madeira, que tinha algumas prateleiras de metal e o interior de latão em que nós mantínhamos o leite e alguma outra comida perecível.
A nossa não era tão boa quanto a que está sendo mostrada aqui. Mas tinha o espaço suficiente para alojar um grande bloco de gelo. Um par de vezes por semana, o homem de gelo vinha e reabastecia nossa caixa com um novo bloco de 25 libras de gelo.
Minha lembrança mais vívida é a do homem do gelo tendo no ombro um pedaço de aniagem, do tipo que se vê em sacos de batatas, utilizando-se de umas pinças gigantes para pegar o bloco de gelo, que era depois colocado no ombro. Ele então subia as escadas até o nosso pequeno apartamento no segundo andar. Lembro-me muito bem de estar sentado nas escadas em que o homem de gelo tinha de pisar enquanto subia os íngremes degraus. E lembro-me de ver aquelas gotas d'água pingando do bloco de gelo que ele carregava sobre o ombro. Eu corria meus dedos pelas gotas e podia sentir toda a frieza da água.
O homem do gelo cobrava uma pequena taxa, retomava o caminho da sua lista de entregas para retornar poucos dias depois. Eu nunca me lembro de ele ter dito algo para mim, nem de como ele exatamente era, mas acho que sempre vou me lembrar daquelas gotas frias do gelo derretido em seus passos dados até o nosso apartamento.

Jonco’s True Bits
[http://bitsandpieces.us/2019/08/10/joncos-true-bits-the-iceman-cometh/]

Jonco, sua família

15 setembro, 2019

De fininho

Fernando Gurgel Filho
Aqui no Patropi, adotamos a expressão "sair à francesa" quando queremos sair de um evento sem longas despedidas. Normalmente, em eventos com muita gente conhecida — para não atrapalhar —, como em aniversários, batizados, casamentos etc.
Na realidade, segundo os entendidos, a expressão surgiu na França quando os franceses adotaram o hábito inglês de sair das festas sem se despedir de ninguém. Apesar de ficarem horrorizados com aquele costume inglês — mau costume, diziam —, sempre que queriam sair sem serem notados, diziam
eles lá que iam "sair à inglesa".
Mas o tempo passa e as expressões mudam quando um evento muito marcante acontece. Principalmente um evento traumático, acontecido com gente importante em cidade muito importante. Muito importante pra gente do lugar, claro. Foi o que aconteceu em uma bela cidade do interior aqui de Goiás, próxima ao Distrito Federal.
O Bio, nascido Severino em Pernambuco e ninguém sabe como foi parar lá naquela cidade, era um dos mais conhecidos frequentadores das casas das luzes vermelhas. Daquelas casas mais frequentadas pelos honrados pais de família da cidade.
👫 De repente, quase sumiu da boemia, dos bares e das casas das "primas". Saía de casa muito raramente. Tinha encontrado a mulher de sua vida. Assim, meio por acaso. Madrugava quando ia voltando pra casa e se deparou com uma bela morena descendo de um caminhão, com uma trouxa pesada nas mãos. Ofereceu ajuda. Papo vai, papo vem, a morena chamada Tereza disse que estava ali pra trabalhar e procurava um lugar onde ficar, mas acabou tomando umas saideiras com o Bio e aceitou o convite de dormir na casa dele. Nunca mais saiu dali e viveram felizes para sempre.
Até que um dia, como dizia o poeta, o "pra sempre sempre acaba" e Tereza simplesmente sumiu. Dizem as más línguas que fugiu, de madrugada, em um caminhão. Acabrunhado, Bio voltou a frequentar a boemia assiduamente e, claro, todos os amigos perguntavam o que tinha acontecido. E chegavam à pergunta fatal:
— E aí, cumpadre, cadê Tereza?
O Bio, os olhos cheios d'água, voz embargada, baixava a cabeça e sempre respondia:
— Tereza foi embora, não deixou nem um adeus!
Daí em diante, naquela próspera cidade goiana, quando alguém quer sair de uma festa sem se despedir, diz apenas:
— Olha, não repara, não. Vou sair igual Tereza.

Bônus: A beleza em Tereza
"Todo mundo se admira / da mancada que a Terezinha deu / que deu no pira / e ficou sem nada ter de seu. / Ela não quis levar fé / Na virada da maré." ~ Baden Powell e Paulo César Pinheiro

22 fevereiro, 2019

A arqueologia de uma bolsa

Tradução: PGCS

Da bolsa
Luís Fernando Veríssimo

Por dentro, mulher não é muito diferente de homem. Fora nas partes óbvias, em que somos convexos e elas são côncavas, e em um ou outro detalhe, somos iguais. Anatomicamente, portanto, a mulher não tem mistério para o homem. Ali fica o coração, ali o fígado, ali (onde mesmo?) o pâncreas... Igualzinho a nós. Não é verdade que elas têm glândulas secretas que a medicina ainda não se animou a examinar a fundo, como as que determinam o seu comportamento na direção de veículos automotores e no shopping. Temos (mais ou menos) as mesmas glândulas.
Só duas partes da mulher continuam a desafiar a compreensão dos homens: sua mente e sua bolsa. Sabemos muito pouco do conteúdo de ambas e estamos constantemente nos surpreendendo com o que sai lá de dentro. E quando pedimos explicações, elas despistam.
O cérebro feminino não é biologicamente diferente, que eu saiba, do cérebro masculino e uma bolsa de mulher não deveria ser diferente de qualquer outro meio de guardar e transportar coisas, mas as surpresas se repetem. Tanto a mente quanto a bolsa femininas parecem ter acessos a mundos, mananciais, veios, supridores inacessíveis ao pensamento ou à mão do homem. De onde é que elas tiram aquilo tudo?!
É uma pergunta que nos atormenta desde aquele momento em que a Eva não só teve a idéia de comer a fruta proibida como produziu - de onde, meu Deus? - o canivete para descascá-la e uma toalha para estender na grama, e nunca mais fomos os mesmos.[...]

28 maio, 2018

Baile da Ilha Fiscal - Dois ponto Zero Dezoito


CRÔNICA SOCIAL DOS ÚLTIMOS DIAS - A PROFECIA (?)
Versão modernosa e cafona do Baile da Ilha Fiscal em Brasilia 24/05/2018. Observem a descontração, elegância e alegria dos convivas em que, para embalar o réquiem, faltou um embatinado Barnabé (terceirizado e certamente superfaturado). O falso ar de seriedade e serenidade do Vampiro, poderia ser explicado por sua preocupação com eventual extravasamento de seu penico portátil. O Gatinho Angorá não muda, a elegância de sempre com seu look de Piloto de Provas de Fábrica de Supositórios e seu antípoda, o Marum, aquele que meu sogro, um gauchão nascido na Prussia Oriental (Anklam), facilmente o identificaria como aquele Baita Grosso de Bagé [https://www.youtube.com/watch?v=AXyws7QTWog]. Solene, aquele Ministro com sobrenome de Terrorista Basco - cara assustadora...
Desculpem-me o mau-humor.
Jaime Nogueira

Uma banda, instalada a bordo do "Almirante Cochrane", o navio homenageado, tocou valsas e polcas madrugada adentro
Dançou-se muito n'O Último Baile do Império, mas o que os convidados não imaginavam, nem o imperador D. Pedro II, é que se dançava sobre um vulcão. À mesma hora em que se acendiam as luzes do palacete para receber os milhares de convidados engalanados, os republicanos reuniam-se no Clube Militar, presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para maquinar a queda do Império. "Mais do que nunca, preciso sejam-me dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e sua dignidade", discursou Constant na ocasião, tendo como alvo justamente o Visconde de Ouro Preto.
Longe dali, ao lado da família imperial, o visconde desmanchava-se em sorrisos ao comandar seu suntuoso festim. A família imperial chegou ao cais pouco antes das 10 horas. D. Pedro II, fardado de almirante, a imperatriz Teresa Cristina e o príncipe D. Pedro Augusto embarcaram primeiro. Quinze minutos depois foi a vez da princesa Isabel e do conde D’Eu. Uma vez no palácio, foram conduzidos a um salão em separado, onde já se achavam reunidos membros do corpo diplomático estrangeiro oficiais e alguns eleitos da sociedade carioca. O guarda-roupa da imperatriz não chegou a causar impressão especial entre os convidados - um vestido de renda de chantilly preta, guarnecido de vidrilhos. A toalete da princesa Isabel, no entanto, causou exclamações de admiração pelo luxo e pela beleza. Ela portava uma roupa de moiré preta listrada, tendo na frente um corpinho alto bordado a ouro. Nos cabelos, carregava um diadema de brilhantes."
Um fato irônico, até hoje não confirmado, ocorreu logo após a chegada da família real, às 10 horas da noite: conta-se que D. Pedro II, ao entrar no salão do baile, desequilibrou-se e levou um tombo. Foi amparado por dois jornalistas. Ao recompor-se, exclamou: "O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu!". Apesar do sucesso do baile, o imperador pouco se divertiu. Ficou sentado, visto que já estava em idade avançada, o tempo todo e foi embora à 1h da manhã, sem jantar.

Páginas do cardápio do último Baile da Ilha Fiscal, 1889. Arquivo Nacional.
Outro acontecimento curioso ocorreu no término da festa. Às 5 horas da manhã, após a saída dos convidados, os trabalhos de limpeza revelaram alguns artigos inusitados espalhados pelo chão: além de copos quebrados e garrafas espalhadas, foram recolhidas condecorações perdidas e até peças de roupas íntimas femininas. O fato pode, entretanto, ser fictício, uma vez que foi relatado na coluna humorística Foguetes, do periódico carioca "O Paiz", no dia 12 de novembro, nestes termos:
"Houve quem perdesse dragonas, chapéos de sol, chapéos de cabeça, lenços, e até - parece incrivel, mas é rigorosamente verdadeiro - uma senhora deixou lá ficar o espartilho!!!"
Repercussão
A distribuição dos 5.000 convites começou no dia 4 de novembro. As roupas finas das lojas do Rio de Janeiro se esgotaram. Setenta e duas horas antes do baile já não havia vagas nos cabeleireiros. As senhoras lotavam as lojas de roupas finas e os cavalheiros recorriam aos alfaiates, para ajustar suas casacas e às barbearias, para cortar o cabelo ou aparar os bigodes e barbas. Muitas senhoras chegavam às 9 h da manhã, para fazer os cabelos
Duas bandas militares tocaram quadrilhas, valsas, polcas e mazurcas para os convidados, que dançaram em seis salões do castelo. A princesa Isabel foi uma das pés-de-valsa mais animadas. Depois da festança, às 6h da manhã, o pessoal da limpeza achou: 37 lenços, 24 cartolas e chapéus, 8 raminhos de corpete, 3 coletes de senhoras e 17 cintas-liga. De acordo com o historiador Milton Teixeira todas as fotos feitas na festa desapareceram.
O Baile foi comentado pela mídia por alguns dias, o que trouxe uma falsa imagem de solidez da coroa.

21 maio, 2018

Centro Nacional de Escutas

Fernando Gurgel Filho

Nós, brasileiros, falamos a Língua Portuguesa. Mas existem diferenças significativas no significado de algumas palavras, e isto, para alguns desavisados como eu, às vezes provoca algum constrangimento, mas que, quase sempre, nos levam depois a boas gargalhadas.
Lembro-me bem da primeira viagem que fizemos a Lisboa. Uma excursão. No restaurante, a colega na nossa mesa chamou a garçonete - por sinal, uma brasileira - e tascou a pergunta, apontando para o cardápio:
- Por favor, esses "gambás" são servidos como?
A garçonete olhou, soltou a risada e explicou:
- São "gambas". É o tradicional e saboroso "camarão", como chamamos no Brasil. Servimos fritos, etc, etc...
Silêncio geral na mesa.
Pois é. Agora, em maio/2018, fomos à Serra da Estrela, em Portugal. Um lugar belíssimo.
Um dia, resolvemos descer do hotel onde estávamos, a 1.200 metros de altura, até a cidade de Covilhã, cerca de 450 metros de altitude.
Foi uma das caminhadas mais bonitas que já fizemos. E a mais dolorida.
No meio do caminho há um local para piquenique e descanso dos caminhantes. Tirando fotos, notei uma placa do outro lado da estrada onde se lia: "Centro Escutista Serra da Estrela" e, logo abaixo, "Centro Nacional de Escutas Agrupamento nº 20 Covilhã".
Como se tratava de uma serra, pensei tratar-se de algum local para monitoramento de atividades sísmicas. Ou coisa parecida.
Quase em frente ao local havia um senhor colocando água em um tambor. Curioso, fui até ele:
- Bom dia, por favor, o senhor conhece este local?
- Bom dia, conheço um pouquinho, pois nasci aqui. Precisa de ajuda?
- O que é que se escuta neste "Centro de Escutas"?
- Desculpe, não percebi. (Tradução: "Desculpe, não entendi")
- Ali na placa diz tratar-se do "Centro Nacional de Escutas". Eles escutam o quê? Atividades sísmicas?
Juro que o senhor - português com certeza - não soltou a risada. Respondeu muito sério:
- Ah, ali? É de "escuteiros".
- Agora, quem não percebeu fui eu, falei na gozação.
- Escoteiros como chamam no Brasil.
- Ahhhh. Entendi. Obrigado. Tchau.
E levei meu constrangimento para o outro lado da estrada.

Fernando,
Aditei foto. No Brasil e em Portugal, quem mata a cobra mostra o pau. PGCS

17 abril, 2018

A arte de ser avó

para Elba, avó de Matheus
"Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…"
Rachel de Queiroz

31 dezembro, 2017

Retornemos ao tempo da delicadeza

por Maria Inês Nassif
🙌
Eu não sonho com um Ano Novo. Sonho com um mundo novo, delicado. Com pessoas novas, delicadas.
Que a delicadeza invada as suas vidas e as tornem humanas. Que a humanidade dentro delas exploda em direção ao mundo e o transforme em um mundo delicado.
E o mundo delicado trate com delicadeza todos os contemporâneos dessa era insana, que acreditam que eliminar pessoas pela guerra, pela fome e pelo preconceito faz parte de uma torpe lei natural, que consiste em eliminar os mais fracos para que os mais fortes prosperem.
Desejo um mundo melhor do que isso, feito por pessoas melhores do que essas que invadiram nossas vidas e nossas casas com o discurso de ódio e contra o direito do outro.
Nós os expulsaremos com a delicadeza dos que sabem que só a igualdade é justa.
http://jornalggn.com.br/noticia/retornemos-ao-tempo-da-delicadeza-por-maria-ines-nassif

Vídeo: Todo o sentimento (Cristóvão Bastos c/ Chico Buarque)

01 outubro, 2017

Somos queijo gorgonzola

Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia.
O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique. Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada.
Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola.
Maitê Proença
O Dia do Idoso
É comemorado no Brasil em 1º de outubro. Essa data faz referência ao dia da aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003. Com a criação do Estatuto do Idoso, o Brasil começou a incorporar à sua jurisprudência as resoluções de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde.

01/10/2017 - Outubro chegou e eu ...
Estou vivendo o primeiro mês do resto de minha vida. Enquanto Nordécio quer acertar a vida dele: exatamente em 3 pontos.

14 outubro, 2016

Notas sobre "A banda"

por Carlos Drummond de Andrade
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.
A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.
Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.
Esta crônica foi publicada no Correio da Manhã, em sua edição de 14/10/1966. Há EXATOS 50 ANOS, portanto. E que, como disse Carlos Drummond de Andrade, nunca mais "uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente".


17 agosto, 2016

A Escola Sem Partido

por PAULO GURGEL
A Escola Sem Partido é um projeto defendido por pensadores brasileiros de escol, como o assessor especial para assuntos ejaculatórios do Ministério da Educação, o Alexandre Frota, e o patrocinado grupo Revoltados Online.
Este novo modelo de ensino tem a finalidade de evitar que os professores comam os cérebros das criancinhas.
Para isso, é preciso que algumas palavras e expressões de forte carga ideológica sejam desde já substituídas no vocabulário escolar por outras mais amenas.
Exemplos:
  • Golpe de 64: por Troca de Guarda Civil-Militar
  • Escravidão no Brasil: por Trabalho Compulsório e Gratuito de Africanos e seus Descendentes em Solo Brasileiro
  • Tortura: por Obtenção de Confissões de Insurgentes mediante Ações de Desconforto Corporal
  • Delação Premiada: por Depoimento Absolvitório com Emulação
  • Voto Feminino: por Opção das Vadias no Processo Eleitoral
Assim por diante. Até chegarmos à inominável palavra onde o problema todo começou: "presidenta". Foi uma afronta deixarmos que esta palavra tomasse, mesmo que fosse por um simples lustro, o lugar de um substantivo comum de dois gêneros que, de Deodoro a Temer, esteve prestigiando (com seu "e" final) o ato de diplomação dos supostamente grandes Catões da República.
"Presidenta", apesar de constar do VOLP, o "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa", e dos dicionários do Aurélio e do Houaiss, do Michaelis e até mesmo do "Novo Dicionário da Língua Portuguesa" (de 1899, redigido em harmonia com os modernos princípios da ciência da linguagem etc), de autoria do filólogo português Cândido de Figueiredo, e de ter sido também utilizada por Machado de Assis, Érico Veríssimo e Carlos Drummond de Andrade, em alguns textos autorais, esta palavra foi firmemente repudiada por aquela que se diz "amante da língua portuguesa", a ministra Cármen Lúcia. A futura presidente do STF já declarou que é assim que deseja ser tratada enquanto estiver na presidência da egrégia Corte.
Judex dixit, e isto cria vínculo.
Ascendam os presidentes ao Poder por voto popular, renúncia ou morte do titular, quartelada, conchavo ou golpe paraguaio (o caso brasileiro), tanto faz: é "presidente" para todos.
Também aceito (para mostrar que não sou intransigente) a impronunciável forma "presidentx", que foi uma sugestão do Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos.

04/09/2016 - Para ler no LN Online
Ignorância de Cármen Lúcia é linguistica e social, por Weden