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10 abril, 2026

A geração mimeógrafo

O mimeógrafo tornou-se o símbolo da nova geração literária. Um equipamento simples e acessível que possibilitava imprimir poemas em pequenos livretos artesanais, cujas edições tinham um acabamento simples, propositalmente improvisado. E que eram vendidas diretamente pelos autores, nas ruas, praças, bares e universidades, assim permitindo uma maior flexibilidade na divulgação de suas obras.
Autores que se destacaram nesse cenário marginal:
Cacaso, nome artístico de Antônio Carlos de Brito, que ganhou publicidade com a antologia "26 poetas hoje"; Chacal, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, autor de "Preço da Passagem", livro que foi vendido para que ele pudesse conhecer de perto a contracultura na Inglaterra; Paulo Leminski, que preferia fazer poemas breves, trocadilhos, haicais e brincar com ditados populares; Waly Salomão, autor do livro "Me segura qu'eu vou dar um troço"; e o compositor Torquato Neto, um dos participantes do movimento tropicalista.

05 dezembro, 2025

Não é defeito beber

Décimas de autoria de um poeta popular desconhecido:

Bebe o chefe de polícia,
Particular, escondido,
Algum padre, por sabido
Bebe oculto a tal patrícia.
Também já tive notícia,
Ou por outra, ouvi dizer
(Foi tanto que pude crer
Um dito de certa gente)
Que bebe algum presidente.
Não é defeito beber.

No sítio bebe o major
Bebe em casa o coronel
O sargento e o furriel
Bebem no Estado Maior.
Quem quiser beber melhor
Vá na venda e mande encher,
Tome o que lhe parecer
Até matar o desejo.
Segundo o gosto que vejo,
Não é defeito beber.

Bebem os homens de estudo
Bebe o branco, o rico, o nobre
Bebe o negro, o cabra, o pobre
Bebe o cego, o mouco, o mudo
Os músicos bebem de tudo,
Sem em si nada temer:
De modo que pode haver
Alguém que não tenha falta:
Tudo sai nas rodas altas.
Não é defeito beber.

In: "Dicionário Folclórico da Cachaça"

22 outubro, 2025

Café

Ribeiro Couto (*)

Sabor de antigamente, sabor de família.
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão de casa, com lenha do mato de casa.

Café para as visitas de cerimônia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada,
para toda gente.

Café para de manhã, para de tardinha, para de noite,
Café para todas as horas do riso ou da pena,
Café para as mãos leais e os corações abertos.
Café da franqueza inefável,
Riqueza de todos os lares pobres,
Na luz hospitaleira do Brasil.

(*) Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

Título desta imagem de autoria de Tini Malina: Bruxas do café.

07 março, 2025

A paciência das coisas comuns



Tenho pensado como Pat Schneider pensa
sobre a paciência das coisas comuns.
(E o que é mais generoso do que uma janela?)
Pois havia em minha casa basculantes
que eram como a gente tratava na intimidade
uma janela de vidros basculantes.

27 outubro, 2024

Antonio Cícero (1945 - 2024)

"Espero ter vivido com dignidade e espero ter morrido com dignidade."
Antonio Cícero
Morreu na quarta-feira (23), aos 79 anos, o poeta Antonio Cícero Correia Lima, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nascido no Rio de Janeiro e filho de piauienses, era filósofo, escritor e letrista de muitas das canções que o Brasil canta. Com a cantora Marina Lima, sua irmã, compôs "Fullgás", "Acontecimentos" e "À Francesa", entre outros sucessos. A partir das composições em família, ele colecionou parceiros musicais como Lulu Santos e Sergio de Souza, com os quais compôs em 1984 o hit "O último romântico" (no vídeo abaixo, com Caetano Veloso e Jaques Morelenbaum).


Como compositor tinha mais de 300 canções registradas. Antonio Cícero era também crítico literário e entrou para a ABL (V. biografia), em agosto de 2017. Seu poema "Guardar" foi incluído na antologia "Os cem melhores poemas brasileiros do século", organizada por Ítalo Moriconi:
"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la
isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado." (trecho)
Ele sofria de Alzheimer e se submeteu a um procedimento de morte assistida na Suíça (onde esse tipo de procedimento é permitido por lei). Aos amigos, Antonio Cícero deixou sua carta de despedida. 

29 março, 2024

A música de Mario Lago Filho

Que tal vocês tirarem o dia pra ouvir meus sambas e depois me dizer o que achou?

@mariozinholago

Com Mariozinho Lago e os Cocorocas

Álbum: ... De Samba e Poesia (playlist)

Faixa: Mários e Ataulfos (um samba pra lá de popular)

"E os que virão depois de nós / Terão a mesma voz / Que assim  / Como corda e caçamba / Procurando samba / Em cada botequim."

13 outubro, 2023

A poesia obscena de Laurindo Rabelo

Pouquíssimas pessoas já ouviram falar em Laurindo Rabelo, mas é provável que muitas conheçam os versos: "No cume da minha serra/ Eu plantei uma roseira,/ Quanto mais as rosas brotam/ Tanto mais o cume cheira". Essa singela quadrinha abre o famoso poema escatológico "As rosas do cume" (com nove estrofes), que fez sucesso nos saraus literários do século XIX e é atribuído ao poeta fluminense Laurindo José da Silva Rabelo (1826-1864). Falcão, rei da música brega contemporânea, gravou uma versão (com quatro estrofes) do poema no álbum "Do penico à bomba atômica" (2000), com o título "No cume", cuja autoria é atribuída ao próprio intérprete e a Plautus Cunha.
Personalidade polêmica, o médico e professor Laurindo se celebrizou com sua poesia de tendência ultrarromântica e com os desafetos que colecionou na sociedade da época. À parte as lendas biográficas, na maioria das vezes exageros de críticos impressionistas, Laurindo escreveu poemas com dicções variadas, desde o soneto metricamente perfeito – que levou o parnasiano Alberto de Oliveira a incluí-lo entre os autores d’Os cem melhores sonetos brasileiros – à trova escabrosa, de temática e linguagem obscenas.
"As rosas do cume" e outros poemas obscenos de Laurindo foram publicados em "Poesias livres" (1882), opúsculo de encadernação e papel baratos que se tornou raridade. Atualmente, conheço apenas quatro acervos que possuem exemplares desse livro: a Biblioteca José de Alencar, da Faculdade de Letras (UFRJ); as coleções particulares de Antonio Carlos Secchin – poeta, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) – e de Israel Souza Lima, biógrafo dos patronos da ABL; e o acervo José Ramos Tinhorão, do Instituto Moreira Salles.
Extraído de: https://jornalggn.com.br/noticia/a-poesia-obscena-de-laurindo-rabelo, artigo de Fabio Frohwein de Salles Moniz, que é pesquisador na área de Literatura do Instituto Moreira Salles.

05 maio, 2023

Língua Portuguesa

Camões, Os Lusíadas
As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia Lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana / Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana / E entre gente remota edificaram / Novo reino, que tanto sublimaram.
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60711413 [a certidão de nascimento da língua]
https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/linguista-garante-que-camoes-nao-criou-uma-lingua-portuguesa-67062/ [o contraditório]

Bilac, Língua Portuguesa
Última flor do lácio, inculta e bela / És, a um tempo, esplendor e sepultura / Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela / Amo-te assim, desconhecida e obscura / Tuba de alto clangor, lira singela / Que tens o tom e o silvo da procela / E o arrolo da saudade e da ternura / Amo o teu viço agreste e o teu aroma / De virgens selvas e de oceano largo / Amo-te, ó rude e doloroso idioma / Em que da voz materna ouvi: Meu filho / E em que Camões chorou, no exílio amargo / O gênio sem ventura e o amor sem brilho.
https://www.letras.mus.br/olavo-bilac/lingua-portuguesa/

Pessoa, A minha pátria é a língua portuguesa
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.
https://pt.wikisource.org/wiki/

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente. Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos." ~ Eduardo Affonso

25 dezembro, 2022

À medida que envelhecemos

O que diz a física
Adrian Bejan, cientista da Duke University, nos Estados Unidos, afirma ter descoberto a razão pela qual o tempo na infância e juventude parece durar mais do que na idade adulta.

"O TEMPO VOA"
De acordo com a pesquisa, publicada na revista European Review, isso ocorre porque com o passar dos anos a velocidade com que processamos as imagens diminui. Segundo o especialista, a física está por trás desse fenômeno de percepção do tempo, e assim o explica:
"As pessoas costumam se surpreender com o quanto se lembram dos dias que pareciam durar para sempre durante a juventude. E não é que suas experiências fossem mais profundas ou mais importantes, mas que naquele momento elas foram processadas mais rapidamente."
Dr. Bejan enfatiza que as transformações físicas experimentadas pelos nervos e neurônios à medida que as pessoas envelhecem desempenham um papel fundamental na percepção do tempo.
Essas redes de nervos e neurônios se desenvolvem, crescendo e se tornando mais complexas, de modo que os sinais devem percorrer caminhos cada vez mais longos para chegar ao cérebro. Além disso, quando esses canais começam a envelhecer e entram em processo de degradação, o fluxo de sinais elétricos adquire maior resistência.
Com o envelhecimento, a velocidade de processamento das imagens na mente é reduzida, diz o cientista. O movimento dos olhos das crianças é mais frequente que o dos adultos, por isso elas adquirem mais informações e processam imagens mais rapidamente. Por outro lado, os adultos percebem que o tempo passa mais rápido porque veem menos imagens novas em períodos iguais. O autor resume com a seguinte frase:
"Na juventude os dias pareciam durar mais, pois a mente jovem recebe mais imagens durante um dia do que a mesma mente na maturidade."
25/12/2016 - O tempo voa [cada vez mais], Blog EM

O que diz a poesia
"Aquí no hay viejos, sólo nos llegó la tarde", por María Cristina Camilo (VÍDEO)

22 setembro, 2022

Troncos cortados

Com a poesia do grande Miguel Torga, em "Penas do Purgatório":

"Continua a lembrança dolorosa nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais.
E permanecem verdes, vegetais.
No silêncio profundo das raízes."

Comparada com um majestoso cedro-do-líbano, uma oliveira, com seu tronco retorcido cheio de nós, talvez não seja nem um pouco impressionante. Mas as oliveiras têm uma capacidade incrível de resistir às mais variadas condições climáticas. O amplo sistema de raízes da oliveira possibilita que ela se recupere mesmo quando o tronco foi destruído. E, desde que suas raízes continuem vivas, ela brota de novo.

11 setembro, 2021

A vantagem da solidão

De acordo com o cronista e compositor Antonio Maria:
"A única vantagem da solidão é... poder entrar no banheiro e deixar a porta aberta."
O autor de "Benditas sejam as moças" legou-nos também a matriz destes versos:
"Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De Baudelaire."
Foto: Maria e seu quarto de hotel, 1959

21 junho, 2021

Das técnicas aprimoradas de interrogatório

A poesia vogon é uma variedade de poesia, frequentemente considerada uma das piores. Às vezes, é usada pelos vogons como método de tortura, pois causa dor física ao ouvinte. Um exemplo notável disso foi quando eles torturaram Ford Prefect e Arthur Dent, depois que os Dentrassis os deixaram pegar carona no navio.
De acordo com o Guia do Mochileiro das Galáxias, a poesia vogon é a terceira pior do Universo . A segundo pior é a dos Azgoths de Kria, e a pior é o de Paula Nancy Millstone Jennings de Sussex, que morreu junto com sua poesia durante a destruição da Terra, ironicamente causada pelos próprios vogons. A poesia vogon é considerada branda em comparação.
Esqueça a poesia vogon. Se você quiser ler algumas linhas realmente horríveis, posso desenterrar o verso livre insípido e egocêntrico que escrevi na faculdade. Mas usá-lo assim, como sugere a cartunista Madeline Horwarth, provavelmente seria um crime.
(http://www.neatorama.com/2020/09/20/Enhanced-Interrogation-Techniques-2/)

27 maio, 2021

Indez

É o ovo que se coloca no lugar em que se quer que a ave faça a postura. Pode ser ovo natural ou artificial. Coloca-se o indez para galinhas, capotes, canários e outras aves.


Segundo o Dicuonário Preliberam, "indez" tem como sinônimos "isca" e "chamariz".

No mercado pet, encontram-se os ovos indezes artificiais – comumente fabricados à base de plástico. Ovos indezes, são utilizados com o principal objetivo de fazer eclodir ao mesmo tempo todos os ovos naturais de uma matriz (fêmea responsável pela reprodução). Para utilizá-los é bem simples. Quando a ave botar o primeiro ovo, você o substitui no ninho pelo ovo indez, guardando o ovo fértil em um local apropriado. Na segunda postura, você substitui o segundo ovo fértil pelo segundo ovo indez, e assim sucessivamente. Quando acabar a postura, você deve retirar todos os ovos indezes do ninho, e colocar de volta  todos os ovos férteis. Dessa maneira, todos os ovos serão chocados simultaneamente, culminando com o nascimento dos filhotes na mesma data.
[http://blog.cobasi.com.br/reproducao/]

Eu não sei se vi, se ouvi ou se morei lá...
Comentando o "Indez", de Bartolomeu Campos de Queirós, alguém escreveu: "É realmente um ovo deixado no ninho para que a criação continue. Fazendo viva a poesia em um passeio mato adentro, com o coração em reza: São Bento da água benta! / Jesus Cristo no altar! / Arreda cobra, arreda bicho / Deixem o poeta passar".

28 março, 2021

Sinos

"Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra;
se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti."
- John Donne
"Sino,
(...) esse relógio do passado que marca as horas do presente."
- Henriqueta Lisboa
"Sino, coração da aldeia,
coração, sino da gente.
Um a sentir quando bate,
outro a bater quando sente."
- Antonio Correia de Oliveira
"Eis a sentença! Aquele que acordar mais cedo, é esse que tange o sino."
- Don Juan Manuel
"Quem toca sino não acompanha procissão."
- Anônimo
"Hoje eu faria um poema tão fino
batendo no sino
que achei num tesouro."
- Alceu Valença, em "Sino de ouro", c/ Orquestra Ouro Preto (vídeo)

Toda vez que Pavlov ouvia o sino tocar ele se lembrava de que tinha de alimentar os cães.

11 janeiro, 2021

Anos de Meteoros (1859-60)

Um evento astronômico notável ocorreu no nordeste dos Estados Unidos, na noite de 20 de julho, conhecido como a Grande Procissão de Meteoros de 1860. E com ele surgiu um mistério de poesia, arte e astronomia que só foi resolvido recentemente (em 2010).

Frederic Church
Uma procissão de meteoros ocorre quando um meteoro se quebra ao entrar em nossa atmosfera em um ângulo oblíquo. O resultado pode ser uma exibição espetacular, deixando um rastro brilhante. Ao contrário dos meteoros da manhã, que são mais frequentes e se chocam de frente com a Terra em sua órbita, os meteoros da noite são mais raros e precisam se aproximar da Terra por trás. Por outro lado, eles costumam deixar rastros lentos e imponentes enquanto se movem pelo céu noturno, lutando para acompanhar a Terra.

A Grande Procissão de meteoros de 1860 também se tornou a chave para desbloquear um quebra-cabeça século 19. Em 2010, pesquisadores da Universidade do Texas, San Marcos, vincularam o evento aos escritos de um dos maiores poetas americanos da época.
Walt Whitman descreveu uma "estranha e enorme procissão de meteoros" em um poema intitulado "Year of Meteors (1859-60)", publicado em seu histórico "Leaves of Grass" (Folhas de Relva).
A professora de inglês Marilynn S. Olson e a estudante Ava G. Pope se uniram aos professores de física do estado do Texas Russell Doescher e Donald Olsen para publicar suas descobertas na edição de julho de 2010 da "Sky and Telescope ".
Como observador experiente, Whitman já havia abordado o astronômico em escritos anteriores.
Um momento de sorte veio para os pesquisadores através da descoberta de uma pintura de Frederic Church intitulada "O Meteoro de 1860". Essa pintura e vários artigos de jornal do dia, incluindo uma nota no "Harpers Weekly", que citam uma brilhante procissão de meteoros vista no nordeste dos EUA, de Nova Iorque e Pensilvânia até Wisconsin.

Remembering the Great Meteor Procession of 1860, Universe Today

25 dezembro, 2020

O Pássaro Osbick

Em "The Osbick Bird", Edward Gorey conta em versos a história do pássaro osbick - uma criatura surgida de sua imaginação selvagem e maravilhosa - que um dia pousa no chapéu de coco solitário e digno de Emblus Figby. Como que vindo do nada, ou melhor, do espaço negativo que existe no céu das minimalistas paisagens em preto e branco do autor.
E então, assim, Emblus Figby e o pássaro osbick começam uma vida juntos - como se a vida sempre tivesse que ser vivida nesse conjunto em particular; como se cada um tivesse sido feito para ser a rima do outro. Apesar das discussões ocasionais, os dois prosseguem amigos firmes.
Nessa vida compartilhada, charmosa e excêntrica, que os versos brincalhões de Gorey descrevem, eis que um dia o rolo se esgota (spoiler: Emblus Figby morre). E, após um período de luto apropriado, o pássaro osbick segue em frente. Voando para fora no último quadro (tal como havia voado para dentro no primeiro), em uma consonância milagrosa do improvável com o inevitável.

22 dezembro, 2020

Quatro estações

→ Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Álvares de Azevedo(1831-1852)

→ Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Jorge de Lima (1895-1953)

→ É primavera de novo.
A Terra é como uma criança
que conhece os poemas de cor.
Rainer Rilke (1875-1926)

→ Agora já passa da hora
Está lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão.
Chico Buarque

24 julho, 2020

Ode à natureza

"Minha filha precisava memorizar um poema para uma apresentação na escola e me perguntou se eu conhecia um bom poema sobre a natureza. É claro que existem muitos bons poemas, mas eu realmente queria que ela tivesse a coisa mais poética já escrita sobre a natureza - o último parágrafo de 'A Origem das Espécies', de Darwin - apresentada em verso. Então, eu tentei." ~ Liza Gross
http://blogs.plos.org/biologue/2012/12/05/darwins-tangled-bank-in-verse

The Tangled Bank

Contemple um riacho luxuriante
Atapetado com muitos tipos de plantas
Insetos e pássaros volitando, aqui e ali,
Vermes rastejando na terra úmida

Reflita que essas formas
Elaboradas e diferentemente construídas
Foram produzidas por um conjunto bem simples
De normas em ação

Crescimento, reprodução e herança
Variação para transmitir
A seleção natural que por fim leva
À extinção dos menos aptos

Da guerra da natureza
Da fome e da morte
Siga as espécies mais exaltadas
Que já respiraram

Há grandeza nessa visão da vida
E seus poderes ainda não acabaram
Tendo sido originalmente inspirados
Em algumas formas ou apenas uma

E de um começo tão simples
Como jamais poderia ser imaginado
As infinitas formas mais belas e maravilhosas
Continuamente evoluem

A escolha do termo Tangled Bank originou-se do livro de Charles Darwin, "A origem das
espécies", que foi publicado em 1859 com o título "On the Origin of Species by Means of Natural
Selection or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life" (Da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida).
Eis o trecho que inspirou esta ode à natureza:
“É interessante contemplar um riacho luxuriante, atapetado com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos ramos, insetos variados que volitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complexa, têm sido todas produzidas por leis que atuam em volta de nós. Estas leis, tomadas em seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da ação direta e indireta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, o objeto mais exaltado que somos capazes de conceber, a saber, a produção dos animais superiores, segue diretamente. Há grandeza nessa visão da vida, com seus vários poderes, tendo sido originalmente inspirada em algumas formas ou em uma; e que, embora este planeta tenha andado de bicicleta de acordo com a lei fixa da gravidade, desde um começo tão simples as infinitas formas mais belas e maravilhosas foram e estão sendo desenvolvidas. (Darwin, 1859, p. 554).

Nova Acta
Post 1145 - A biodiversidade altera as estratégias de evolução bacteriana