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03 outubro, 2026

"Bão"

Na única viagem de navio que fiz na vida - ainda solteiro, voltando da Europa para o Brasil -, dividi a cabine com um professor português de literatura na Universidade de Munique. Tinha seus 60 anos.
Aproximei-me dele com uma dúvida: de onde vem esse som anasalado do "ão", tão indigesto para os estrangeiros e tão natural para nós?
A resposta dele foi surpreendente:
- Esse ditongo é celta. Celta antigo.
Por razões antes geográficas que históricas, a Galícia teve a sorte de ver seu litoral banhado por correntes quentes vindas do Caribe. Com elas, chegam sedimentos marinhos que fartam a vida marinha daquela costa.
Somos, em grande medida, descendentes daqueles pescadores celtas. Herdamos deles o DNA e o "ão" - ou seja, tudo de bão!
Nelson José Cunha

20 setembro, 2021

Os dias da semana em português

Na maioria dos idiomas, os nomes dos dias da semana se originam dos nomes de astros (Sol, Lua) ou de deuses pagãos (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus, Saturno).
No português esse fenômeno não aconteceu. 
É que, no século VI, São Martinho (520 - 579), bispo de Braga, Portugal, entendeu que seria uma blasfêmia chamar os dias da semana por nomes pagãos. Ele propôs que, durante a Semana Santa – que era então totalmente consagrada aos cultos e às orações –, fossem os dias chamados "ferias" (dias livres) e ordenados numericamente, conforme a liturgia católica (de segunda a sexta).
O nome domingo veio do latim Dies Domini (Dia do Senhor) e o sábado, do hebraico Shabbat, o dia de descanso do povo judeu.
Como o domingo é o primeiro dia da semana, o dia seguinte passou a ser chamado "segunda feria", ou seja, "segundo dia de folga da semana", e assim por diante. Aí está a primeira referência escrita que se conhece de "segunda feria".

(Igreja de São Vicente, Braga. Ano: 618)

Com o passar do tempo, essa denominação passou a ser usada o ano todo, não apenas durante a Semana Santa, e a palavra "feria" acabou sendo transformada em "feira".
Fonte: http://pt.quora.com/Por-que-no-Brasil-a-maioria-dos-dias-da-semana-terminam-com-feira

Em suas instruções, Martinho se opôs ao costume astrológico de nomear os dias da semana. Devido a sua influência, apenas o português e o galego (que, à época, eram uma única língua), entre as línguas românicas, assumiram para os dias da semana os nomes dos números e da liturgia católica, e não das divindades pagãs. O galego em grande parte retornou à nomenclatura anterior. WIKI

02 agosto, 2021

Medalhas (consen)suadas

A final da prova do salto em altura dos Jogos Olímpicos de Tóquio terminou de uma maneira invulgar.
Após não conseguir participar dos últimos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, há cinco anos, em função de uma lesão no tornozelo às vésperas da competição, Gianmarco Tamberi viu a glória neste domingo (01/08) na Olimpíada de Tóquio - 2020.
O italiano de 29 anos foi o atleta a realizar o maior salto em altura, faturando a medalha de ouro.
Mas um fato curioso aconteceu no estádio. O ponto mais privilegiado do pódio foi compartilhado com Mutaz Essa Barshim, do Catar, por ele ter também atingido a mesma altura no salto: 2,37 metros.
Os atletas chegaram a tentar uma meta mais alta, de 2,39 metros, mas ambos falharam em suas tentativas. Com isso, Barshim não pensou duas vezes e perguntou: "Podemos ter dois ouros?".
Bastou o aval do oficial da prova para ambos comemorarem juntos o ouro em Tóquio.


Barshim e Tamberi comemorando. Imagem: CNN Brasil

Ler também: As medalhas da amizade

Consensar ou consensuar 
"Embora frequentemente utilizados em reuniões e acordos de trabalho, os verbos consensar e consensuar não se encontram dicionarizados, não sendo reconhecidos no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (conferido em 02/08/2021). Podem ser considerados um jargão profissional, ou seja, um vocabulário específico, próprio de um grupo. São utilizados para indicar que há consenso, isto é, aprovação, consentimento, anuência." (Flávia Neves, Professora de Português)

23 junho, 2021

Morram de inveja

Cuentan que en cierta reunión de intelectuales en torno a las lenguas del mundo, uno de los presentes se dirigió a Víctor Hugo, poeta, dramaturgo y político, considerado uno de los más importantes escritores románticos.
-- Maestro --le dijo-- ¿Cuál es su opinión al respecto..?

EL PADROTE no Twitter @ArturoMeggido


Morram de inveja: o português é nossa pátria. Nós somos a língua das reformas ortográficas.

No Brasil, a língua portuguesa já passou por reformas em 1943 e 1971, enquanto em Portugal houve alterações em 1911, 1920, 1931, 1945 e 1973. Portugal e Brasil colocaram em prática as regras do Acordo Ortográfico de 1990, enquanto os restantes seis países lusófonos ainda não o fizeram. O período de adaptação iria até 2015.

21 abril, 2021

⛈ Quem sai (de chinelo) na chuva

Um chinelo de borracha pode ajudar a salvar a vida de alguém atingido por um raio?
Responde o "quorista" Elio Pastore:
Se serve de isolação? Não, é o mesmo que nada para o raio, que tem uns milhões de volts.
A proteção garantida contra raios é se trancar dentro do automóvel: pode cair raio mas não entra — já aconteceu.
Mas cuidado — tome atenção: se um raio cai no automóvel, não saia de imediato, espere um pouco — um minuto ou dois.
É para dar tempo de a eletricidade estática se dissipar (já aconteceu: o raio caiu, a caminhonete parou, o motorista saiu apressado e pisou no chão. Morreu no mesmo instante.)

No UOL, em "Conheça mitos e verdades sobre raios", lê-se em 7/15:
Neste caso, desde que o calçado, mesmo que seja um chinelo, esteja seco (situação pouco provável de ocorrer durante um temporal). Se estiver molhado, e a pessoa estiver exposta a uma tempestade, não resolve. Qualquer objeto molhado torna-se condutor de eletricidade e pode atrair raios.
Os grifos são nossos.

O chinelo ou a chinela
As palavras "chinelo" e "chinela" existem na língua portuguesa e estão corretas. São palavras sinônimas. Assim, podemos utilizar as palavras "chinelo" ou "chinela" sempre que quisermos referir um tipo de calçado que apenas cobre a parte da frente do pé, deixando o calcanhar livre. A palavra "chinelo" é tida como a mais correta e socialmente aceita, sendo a mais utilizada pelos falantes da língua portuguesa.
Flávia Neves, em Dúvidas de Português

17 março, 2021

Um físico interessante (2)

Se você pedisse a alguém para descrever como um físico "típico" parece e age, o que aconteceria? A imagem que a maioria das pessoas pintaria não seria muito lisonjeira e estaria de acordo com estereótipos bastante negativos. Estudos têm sido feitos em que as crianças são convidadas a desenhar um cientista, e os resultados são bastante consistentes com a variedade "cientista louco". Shows como "The Big Bang Theory" na televisão tipicamente retratam os físicos como indivíduos socialmente inaptos, não atléticos, genuinamente não-mundanos, em conformidade com estereótipos com os quais eu pessoalmente tenho me familiarizado desde que eu era muito jovem.

François Arago, um físico interessante
Caminhando um dia nas muralhas da cidade, o jovem Arago encontrou um oficial de engenheiros que supervisionava os reparos. Arago ficou intrigado com o homem e soube que ele poderia seguir uma carreira semelhante na Escola Politécnica, em que só poderia se inscrever passando por um difícil exame de matemática. Desse ponto em diante, Arago procurou e estudou atentamente as obras das principais mentes matemáticas e físicas da época. Quando chegou a hora do exame, ele estava mais do que preparado, apesar da hostilidade do examinador:
Afinal chegou o momento do exame e fui para Toulouse na companhia de um candidato que havia estudado em colégio público. Foi a primeira vez que alunos de Perpignan participaram da competição. Meu camarada tendo sido intimidado em seu exame ficou completamente desconcertado. Quando, logo depois dele, me dirigi para o quadro-negro, uma conversa muito singular aconteceu entre M. Monge (o examinador) e eu. (*)
"Se você vai responder como seu camarada, é inútil para mim questioná-lo."
"Senhor, meu camarada sabe muito mais do que demonstrou. Espero ter mais sorte do que ele, mas o que o senhor acabou de me dizer pode muito bem me intimidar e me privar de todos os meus poderes."
"A timidez é sempre a desculpa dos ignorantes. É para salvá-lo da vergonha de um fracasso que proponho não examiná-lo."
"Não conheço vergonha maior do que a que você agora me inflige. Você será assim tão bom para me questionar? É o seu dever."
"Você anda muito alto, senhor! Veremos em breve se isso é um orgulho legítimo."
"Prossiga, senhor. Estou confiante."
Arago não apenas passou no exame, mas o dominou, fornecendo várias técnicas para resolver as questões que lhe foram colocadas. Acabou por ocupar o primeiro lugar na lista de inscritos na Politécnica, no final de 1803, e destacou-se nos estudos.
Extraído de: François Arago: the most interesting physicist in the world! SKULLS IN THE STARS

(*) É admissível escrever «entre ele e eu»? Não deveria ser «entre ele e mim»?
Quando surge outra palavra entre a preposição e o pronome, autores como António Vieira e Castilho utilizam «entre ele e eu», «entre mim e tu». Um exemplo: «E entre o embaixador... e eu se concertou...» (Vieira, inéditos, III, 124).
Cf. Cândido de Figueiredo, "Lições Práticas" e "Gramática Sintética da Língua Portuguesa", Clássica Editora.
In: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

05 fevereiro, 2021

Verbos auxiliares de si próprios

Em expressões como "vai indo", "vem vindo", há indiscutível cunho pleonástico; são, porém, ambas formas corretas, e podem ser empregadas normalmente no vernáculo. Veja-se, nessa esteira, o exemplo de Camilo Castelo Branco: "Parece-me que são horas de vir vindo o jantar". 
Em realidade, trata-se de caso em que o verbo vir acaba sendo auxiliar de si próprio, em construção perfeita e correta, como também demonstra o seguinte exemplo de Machado de Assis: "Vieram vindo depois os bravos, os apoiados, os não-apoiados, uma bonita agitação".
De maneira geral, as locuções verbais são formadas por um verbo auxiliar + verbo principal. O verbo auxiliar aparece flexionado, remetendo ao tempo, modo, número e à pessoa da ação verbal. O verbo principal aparece em formas nominais, quais sejam: gerúndio, infinitivo ou particípio.
Fiz uma compilação de outros exemplos em que os verbos "ir" e "vir" aparecem como auxiliares de si próprios:
"Eu vou indo, correndo, pegar meu lugar no futuro." Paulinho da Viola, "Sinal fechado".
"Podem preparar / Milhões de festas ao luar / Que eu não vou ir / Melhor não pedir / Eu não vou ir, não quero ir." Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, "Você e eu".
"Ao chegar bem perto fez um sinal com o braço. Respondi com um gesto aflito de quem pede socorro. Ele deve ter entendido: fez uma volta e veio vindo por detrás, para passar bem em cima de mim." Fernando Sabino, "O menino no espelho".
"Pois vejo vir vindo no vento / O cheiro da nova estação." Belchior, "Como os nossos pais".
"Por meios e modos, sortimos arranjados animais de montada, arranchamos dias numa fazenda hospitaleira, e viemos vindo atravessando o Pardo e o Acari, em toda a parte a gente era bem recebida. Guimarães Rosa, "Grande sertão: veredas".

02 abril, 2020

Sinatras em "Downtown"

~ José Lázaro da Silva, em Quora:
Geralmente se diz que "saudade" é intraduzível, porém eu não diria que isto é verdade, porque devemos traduzir ideias e conceitos e não palavras! Para traduzir "tenho saudade de" para o inglês, usamos o verbo "to miss" (que indica um sentimento de perda, de sentir falta, e nada tem a ver com a palavra "miss" que significa senhorita).
Claro que "to miss" é um verbo, enquanto saudade é um substantivo abstrato. Isto não importa muito, o importante é a ideia ser traduzível.
Para uma palavra de nossa língua não ser traduzida, ela tem que representar algo peculiar de nossa cultura, e aí os outros idiomas terão que usar a nossa palavra.
Ouça Frank Sinatra e Nancy Sinatra na música "Downtown".


"Just listen to the rhythm of a gentle bossa nova
You'll be dancing with 'em too before the night is over."

29 janeiro, 2020

Números honestos

Números honestos são números que podem ser descritos com igual número de letras.

n = n.º de letras

Em inglês:
4 four (o menor número honesto no alfabeto padrão)
8 two cubed
10 half a score; ten over one
11 two plus nine; five plus six
13 one plus twelve; two plus eleven; five plus eight; the sixth prime; one plus a dozen

Como a página Math Magic de Erich Fiedman está em inglês, estes exemplos não servem para nós que falamos português. Mas, arrisco dizer que, em nossa matemática lusófona, o menor número honesto é 5.

Números vampiros
Números com apelidos
Números felizes
Números brincões

03 novembro, 2019

Oito bilhões de pessoas no mesmo lugar

De alguma forma, este vídeo dá uma ideia de quanto espaço físico nós, os oito bilhões de pessoas do planeta Terra, ocuparíamos se estivéssemos todos reunidos no mesmo lugar.
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Para ajudar na comparação, algumas estruturas conhecidas como a Burj Khalifa de Dubai, a Torre Eiffel... foram inseridas (respeitando-se a escala) na ilha de Manhattan, o local habitual das "comparações".
As medidas finais, em "estilo campo de futebol", que essa multidão ocuparia, seriam: cerca de 82 x 29 quilômetros, com todo mundo superapertado, a uma densidade de cerca de 3 pessoas por metro quadrado.
Com a música e o burburinho que acompanham o vídeo como trilha sonora, eu estava esperando no final um palco de shows, em que Marty McFly começasse a tocar uma guitarra elétrica...
Bem, em outra versão deverá ser assim, acho. @ALVY



Desfrute de uma vista aérea do bairro Santosh Park, área de Uttam Nagar, em Deli, Índia.

Superapertado
O não-emprego do hífen após o prefixo "super" seguido de vogal DEVERÁ CRIAR UMA EXCEÇÃO. Veja o que ocorre com este par de palavras: SUPERAÇÃO e SUPER-AÇÃO.

18 agosto, 2019

Teste de Vocabulário Português Online

O português é uma língua de origem latina do subgrupo itálico do grupo das línguas indo-europeias.
É a língua mais falada no hemisfério sul, a terceira mais falada no mundo ocidental e a quinta mais falada no mundo. Atualmente, mais de 250 milhões de pessoas no mundo falam o português e o Brasil responde por cerca de 80% desse total.
A língua portuguesa é instituída como oficial em nove países: Portugal, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial.
Existem ainda lugares em que este idioma é utilizado de forma não oficial por uma parcela restrita da população. São eles: Macau (na China) e Goa (na Índia).

My Portuguese Vocabulary Size is about: 【27740】! What about you?


— Seu português é tão bom quanto o de Machado de Assis. Você pode até criar novas palavras que irão expandir o dicionário Português-Português.
— Eu já faço isto quando estou criando verbetes para o DBF, o Dicionário Brasileiro de Frases.

Ao leitor: Você já se perguntou sobre o tamanho de seu vocabulário em português?
https://www.arealme.com

07 dezembro, 2018

Geografia Fácil do Brasil

A @fernandaffp tem um questionamento importante:
Se acima temos o Rio Grande do Norte e abaixo temos o Rio Grande do Sul, por que todo o resto do país não se chama Rio Grande do Meio?



Por que não?
Em Lisboa, tem os bairros Campo Grande e Campo Pequeno, e no meio, fica o Entre Campos.
No Brasil, o Rio Grande do Meio poderia ser também chamado Entre Rios. E todos seríamos rio-grandenses.
A propósito: por que só Rio de Janeiro? Precisamos de um Rio para cada mês.

Riograndense ou rio-grandense?
Em se tratando de nomes compostos designativos de povos, utiliza-se o hífen quando não há perda de letras na formação das palavras. Exemplos: rio + grandense = rio-grandense/ mato + grossense = mato-grossense Quando houver perda de letras, não se utiliza o hífen. Exemplo: estado + unidense = estadunidense.


02 setembro, 2018

Sem querer explicar, mas já explicando...


Na volta a gente compra... - É certamente a frase mais ouvida nos shopping centers, lojas de departamentos e camelódromos. Sua doce e terna mãezinha já deve ter usado este artifício muitas vezes para ludibriar você. Daí ser esta frase considerada a maior causa de trauma infantil.
Boa para o DBF (Dicionário Brasileiro de Frases).

Qual é o plural de shopping center?
Esse estrangeirismo, já de uso tão generalizado na língua, tem seu plural formado apenas com a variação do segundo termo: shopping centers. A regra é similar à da construção do plural para termos como guarda-roupa (guarda-roupas). São casos de substantivos compostos em que uma das palavras se origina de um verbo e, por isso, não varia. Já a palavra shopping desacompanhada de center vale como um substantivo incorporado à língua, sendo assim admitido o plural shoppings.
(http://www1.redegestao.com.br/cms/opencms/desafio21/artigos/comunique/lingua/0071.html)

09 agosto, 2018

Vênus, seu eterno entardecer

Vênus gira tão lentamente em seu próprio eixo que precisa de 243 "dias da Terra" para completar um "dia de Vênus". Na verdade, é o "dia" mais longo dos planetas do Sistema Solar, mais longo inclusive do que o próprio ano do planeta (o tempo que Vênus leva para rodar em torno do Sol).
Como o raio de Vênus é de 6.000 km, isso significa que sua circunferência máxima é de cerca de 38.000 km. Então, se você caminhar sobre o equador de Venus, caminhando a um bom ritmo sem parar — 156 km / dia, cerca de 6,5 km / h — você poderá andar sem ver findar o pôr-do-sol, em uma espécie de pôr-do-sol eterno.

Pôr do Sol ou pôr-do-sol
Escrevemos sem hífen e Sol (com inicial maiúscula), quando nos referimos exclusivamente ao astro. E escrevemos pôr-do-sol, com hífenes e sol (com inicial minúscula), quando não nos referimos ao astro, mas sim à ocasião, ao momento, ao aspecto em que o Sol se põe. Uma coisa é o Sol — o astro; outra coisa é a posição, o momento em que ele está, ou o aspecto que ele nos oferece. Por isso, escrevemos: «Trabalho de sol a sol.» Suponhamos um astrônomo a escrever sobre o astro Sol. Escreverá pôr do Sol com a palavra Sol bem individualizada: com inicial maiúscula e inteiramente separada do que lhe antecede. Repare-se que o vocábulo Sol não se encontra ligado à palavra anterior por meio de hífen. Não forma um todo com as palavras anteriores. Reparemos em pôr-do-sol. O vocábulo sol não está individualizado. Forma um todo com as duas palavras anteriores. Por isso está ligado ao antecedente pelo hífen e escrito com inicial minúscula.

15 junho, 2018

Seca e Meca e olivais de Santarém

Seca (diz-se também Ceca, em português) era a importante cidade de Córdova (Espanha) e Meca, a cidade santa do Islã.
(Correr, andar) Seca e Meca é portanto uma expressão nitidamente árabe. Corresponde a dizer: «fazer muito e não adiantar nada».
Uma das explicações tradicionais pretende que Ceca «era a designação popular da mesquita de Córdova», conforme comenta Sérgio Luís de Carvalho, em "Nas Bocas do Mundo" (Lisboa, Planeta Manuscrito, 2010, páginas 97/98), onde acrescenta:
«[...] correr Ceca e Meca remete para as antigas peregrinações hispano-muçulmanas que se faziam entre a principal cidade santa do Islão e a capital muçulmana da Ibéria. Saliente-se que, de entre todas as antigas cidades islâmicas que tinham mesquita, Córdova era a mais distante de Meca.[...]»
É, pois, plausível que, na génese da expressão em apreço, Ceca e Meca ocorram sem referência específica a lugares realmente existentes, mas apenas como forma de criar uma rima, que, ao mesmo tempo, permite exagerar (hipérbole) o esforço associado à longa deslocação a que a expressão parece, afinal, aludir.
Refira-se ainda que, em português, existe outra versão desta locução: «por ceca e meca e olivais de Santarém» (ver obra citada de S. Luís de Carvalho).
"Seca e Meca e olivais de Santarém" é também o título de um livro de 1946 do folclorista cearense Gustavo Barroso.

ciberdúvidas
wiktionary

13 abril, 2018

O Sacramental, de Clemente Sánchez

Clemente Sánchez de Vercial foi um clérigo leonês que viveu entre o século XIV e o XV e que escreveu várias obras religiosas e moralizantes.
O seu Sacramental foi um dos livros mais lidos durante o século XV, tendo sido proibido pela Inquisição no século XVI e consequentemente queimado. Teve várias edições impressas em língua castelhana e portuguesa.
O Sacramental de Clemente Sánchez de Vercial, obra pastoral redigida entre 1421 e 1425 em língua castelhana, depois dos livros destinados ao ofício religioso, foi o livro mais impresso na Península Ibérica, desde a introdução da imprensa até meados do século XVI.
A primeira impressão portuguesa teria ocorrido em Chaves, em 1488, mas não existem provas concretas que suportem esta tese. O incunábulo do Sacramental impresso em Chaves é considerado por alguns «o primeiro livro em língua portuguesa impresso em Portugal».
Segundo Vindel, teria sido o primeiro livro impresso na Espanha, por volta de 1470, em Sevilha. Foi traduzido para o catalão - Lo sagramental - em Lérida, 1495.
Conhecem-se treze edições em castelhano, uma em catalão e quatro em português. Das edições em português, duas foram impressas no século XV (Chaves, 1488 (?); e Braga (entre 1490 e 1500) e duas, no século XVI (Lisboa, 1502; e Braga, 1539).
O Sacramental era um depositário da forma como deveria viver o homem medieval, abordando a alimentação, as relações familiares, as relações sociais, a relação com Deus, o trabalho, o descanso, a saúde, a doença e a sexualidade, o que faz dele um documento indispensável para o estudo da sociedade medieval portuguesa.

02 janeiro, 2018

O rigoroso controle dos veículos pessoais em Cingapura

Singapore (Reuters) - Cingapura, um dos lugares mais caros do mundo para se possuir um veículo, não permitirá o aumento em seu número de automóveis a partir de fevereiro de 2018.
Citando a escassez de terra da cidade-estado e os bilhões de dólares reservados para investimento em transporte público, a Autoridade de Transporte Terrestre (LTA) disse que estava cortando a taxa de crescimento permissível para carros e motocicletas em Cingapura dos atuais 0,25 por cento por ano para 0 por cento. A nova taxa será revista em 2020.
A cidade-estado controla rigorosamente o seu número de veículos ao estabelecer uma taxa de crescimento anual e através de um sistema de licitação para o direito de possuir e usar um veículo por um número limitado de anos. É uma das nações mais densamente povoadas do planeta e já possui um extenso sistema de transporte público.
Atualmente, 12 por cento da área de terra total de Cingapura é ocupada por estradas, disse a LTA. "Tendo em vista as restrições de terra e as necessidades concorrentes, há uma margem limitada para a expansão da rede rodoviária", afirmou a autoridade.
Cingapura, cuja população aumentou quase 40% desde 2000 até cerca de 5,6 milhões de habitantes atualmente, contou no ano passado com mais de 600 mil carros particulares e de aluguel em suas estradas. Este número inclui os carros usados ​​por motoristas que trabalham em serviços como o Grab e o Uber, que estão se tornando cada vez mais populares.
Um carro do tipo médio em Cingapura custa em torno de quatro vezes o seu preço nos Estados Unidos.
O governo de Cingapura expandiu o comprimento de sua rede ferroviária em 30% e adicionou novas rotas e capacidades em sua rede de ônibus. E continuará, nos próximos cinco anos, a investir bilhões de dólares em novas infra-estruturas e ativos operacionais ferroviários e em subsídios para a contratação de ônibus.

Cingapura ou Singapura?
O Manual (de Comunicação da Secom do Senado Federal) adota a forma original da palavra, Cingapura, embora, hoje, as duas formas sejam válidas.
Para explicar a origem da dupla grafia, vale voltar um pouco no tempo. A palavra foi originalmente grafada com "c" no século 16. Depois, passou a vigorar em Portugal, provavelmente por influência do inglês (Singapore), a versão com "s". Em 1945, a reforma ortográfica registrou o termo como Singapura. A nova forma passou a valer em Portugal. No entanto, como o Brasil rejeitou o acordo, por aqui continuou vigorando a forma Cingapura.
A ambivalência está presente nos principais dicionários brasileiros. O Houaiss registra Cingapura, o Aurélio, Singapura.
A versão mais recente do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra os adjetivos cingapurense, cingapuriano e também singapurense.
A forma adotada pelo Manual também é a registrada na lista do IBGE Países, fonte que adotamos como referência para informações sobre países.

25 fevereiro, 2017

No chão de uma galeria

Visitantes do Museu de Arte Moderna, em San Francisco, pensaram que seria uma obra pós-moderna.este par de óculos deixado no chão por um rapaz brincalhão, de 17 anos de idade,
Para testar a teoria de que as pessoas olham para qualquer coisa que esteja em um ambiente de galeria e tentam interpretá-la artisticamente, Khayatan havia colocado seus óculos no chão e se afastado para ver o que aconteceria.
Logo, as pessoas começaram a cercá-los, mantendo uma distância segura da "obra" e várias delas até tiraram fotos.

O adolescente tuitou a reação do público, atraindo para o seu relato mais de 45.000 RT.


Pluralia tantum
Óculos é um substantivo masculino plural, sendo óculo a sua forma no singular. Esta forma, contudo, não é comumente utilizada pelos falantes da língua. Assim, a palavra óculos é considerada um caso de pluralia tantum, ou seja, uma palavra utilizada no plural para indicar um único objeto composto por duas partes simétricas. O mesmo ocorre com as palavras calças e binóculos.
O erro na expressão "meu óculos" ocorre porque, erradamente, a palavra óculos é assumida como um substantivo de dois números, que se mantém invariável quer no singular, quer no plural, como pires, ônibus e lápis.
Nos casos de pluralia tantum, também se pode optar pelo uso da expressão um par de. Assim, podemos dizer: um par de óculos, um par de calças, um par de binóculos,…
http://duvidas.dicio.com.br/meus-oculos-ou-meu-oculos/
"Óculos" é representante de um tipo de substantivo que os gramáticos classificam como pluralia tantum, expressão latina que significa "apenas plurais". São palavras que levam o plural em sua formação, embora se refiram a coisas singulares – na verdade, pares simétricos. Além dos óculos, encaixam-se nessa categoria as calças, as cuecas, as tesouras…
A língua popular, especialmente a que se fala no Brasil, não gosta muito de pluralia tantum: afinal, se o objeto é um só, por que não singularizá-lo? A calça, a cueca e a tesoura, no singular, são formas que os falantes encontraram – todas já dicionarizadas e admitidas na língua culta – de driblá-lo.
Por que os óculos tiveram destino diferente? Provavelmente porque, enquanto ninguém imagina a peça de vestuário de um perneta ao ouvir falar em "uma calça", nem a metade inútil de um instrumento cortante ao ler sobre "a tesoura", "o óculo" sugeriria um monóculo, 50% do objeto referido. A solução foi abraçar despudoradamente a discordância numérica: "o óculos".
Erro crasso, sem dúvida. Onde já se viu singularizar o plural? Bom, tudo indica ter sido exatamente o que se deu com o substantivo "pires", que ninguém estranha, mas essa é outra história.
http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/meu-oculos-meus-oculos-singular-ou-plural/

18 fevereiro, 2017

Escritores e tradutores

"Os escritores fazem as literaturas nacionais e os tradutores fazem a literatura universal. Sem os tradutores, os escritores não seríamos nada, estaríamos condenados a viver encerrados na nossa língua." (José Saramago, extraído do site da Fundação José Saramago)

Um óbice: Serenata sintética.