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21 maio, 2026

O valor da individualidade

por Nelson José Cunha
Este vídeo é uma pequena, mas poderosa alegoria da condição humana.
Um grupo de pessoas aguarda em uma sala. Sempre que um sinal sonoro toca, todos se levantam. Uma mulher recém-chegada observa a cena sem entender o motivo. Nos primeiros momentos, permanece sentada. Logo, porém, começa a se levantar também - não por compreender a razão, mas simplesmente porque o grupo o faz.
Gradualmente, as pessoas vão saindo da sala. No final, ela fica sozinha. Ainda assim, continua obedecendo ao sinal. A regra perdeu o sentido, mas o hábito permaneceu.
O experimento revela uma das forças mais profundas da vida social: a tendência humana à conformidade.
O psicólogo Solomon Asch* demonstrou, em seus experimentos clássicos, que indivíduos perfeitamente racionais eram capazes de negar o que viam com os próprios olhos apenas para não contrariar o grupo. Stanley Milgram* mostrou até onde pessoas comuns podem chegar quando obedecem automaticamente a uma autoridade. Gustave Le Bon*, em sua análise das multidões, observou que o indivíduo frequentemente perde parte do senso crítico ao se dissolver no coletivo.
É assim que as culturas se perpetuam - e nem sempre isso é ruim. A civilização humana só existe porque aprendemos a transmitir conhecimentos, hábitos e valores de geração em geração. A imitação é uma ferramenta poderosa de sobrevivência. Nenhuma criança reinventaria sozinha a linguagem, as normas sociais ou as técnicas essenciais à vida
. O problema surge quando herdamos comportamentos sem jamais submetê-los à reflexão crítica.
É nesse terreno fértil que nascem preconceitos, idolatrias, consumismos vazios, modismos passageiros e crenças repetidas de forma mecânica. Muitas vezes defendemos ideias que nunca examinamos de verdade. Compramos o que não precisamos. Desejamos o que os outros desejam. Rejeitamos pessoas porque fomos ensinados a rejeitá-las. Não pensamos; apenas reproduzimos.
A dúvida, portanto, não é uma ameaça à civilização. É um instrumento de maturidade.
René Descartes* transformou a dúvida em método filosófico. John Stuart Mill* defendeu a individualidade como condição essencial para o progresso humano.
Sem pessoas dispostas a questionar os consensos, a sociedade se reduz a mera repetição.
Talvez a verdadeira liberdade comece exatamente aí: no instante em que alguém tem a coragem de perguntar “por quê?” antes de simplesmente se levantar junto com todos os outros.
Referências citadas:
*Solomon Asch – Experimentos de conformidade
*Stanley Milgram – Experimento de obediência à autoridade
*Gustave Le Bon – Psicologia das multidões
*René Descartes – Método da dúvida
*John Stuart Mill – Defesa da individualidade e da liberdade de pensamento

02 maio, 2026

O Maracujá

Agora que sou velho, posso enfim responder ao jovem que um dia fui - aquele rapaz inquieto, confuso diante do próprio futuro. O coração acelerado pela necessidade de tomar decisões importantes sem experiência para referendá-las.
A velhice não estava entre as minhas aflições. Era apenas a ruína inevitável dos outros.
O que é ser velho?
Hoje eu sei. Ou, ao menos, sei mais do que ele sabia.
E, ainda assim, há dias em que me surpreendo diante do espelho, quase paralisado. Olho com uma estranheza quase infantil para aquele rosto e penso, com uma sinceridade desarmada:
Não pode ser. Isso não sou eu.
Há um desencontro profundo entre o que os olhos veem e o que o peito sente. O espelho me mostra um homem gasto: a pele do pescoço frouxa, as bochechas rendidas pela gravidade, a testa sulcada - tanto no riso quanto na dor, como se um e outro estivessem sempre presentes. É um corpo que revela.
Que denuncia.
Que conta, sem pedir licença, a história que o tempo escreveu.
Mas há mudanças mais silenciosas, mais fundas - aquelas que o espelho não alcança. Descobri, por exemplo, que o choro se tornou fácil. Agora ele brota quieto, como quem já não tenta conter o que transborda.
Não consigo olhar fotografias dos meus filhos pequenos. Evito - como quem evita um lugar perigoso. Porque a saudade não chega: avança. É súbita, afiada, quase física. Dá uma vontade desmedida de voltar no tempo.
Não para refazer grandes escolhas - elas foram acertadas. Mas para o pequeno. Segurar de novo aqueles corpos leves no colo. Sentir o calor deles adormecendo sobre o peito. Beijar as testas mornas.
A velhice me alcança com força nesses instantes. Não pelo que perdi - mas pelo que foi bom demais para caber apenas na memória.
Por isso, às vezes, fecho os álbuns antes da última página. Não por esquecimento. Por excesso.
As fotografias de meu pai - morto há trinta e cinco anos - ainda sabem me encontrar. Basta um segundo a mais… e algo cede por dentro. É um choro manso. Uma dor educada, comportada, desavergonhada - que aprendeu a falar baixo.
Nos momentos importantes, penso nele. Essa ausência nunca envelheceu. Queria que estivesse aqui - nem que fosse para ver o tamborete que acabei de fazer na oficina.
Há, nisso tudo, uma ironia discreta. A velhice só pesa quando me lembro dela. No resto, sigo vivendo - às vezes até com humor. Gosto de me chamar de velho quando tropeço, quando subo escadas e as pernas reclamam, quando o corpo, com sua honestidade brutal, me lembra dos limites.
Mas, se o corpo envelhece com franqueza quase cruel, o pensamento fez o caminho inverso. Hoje penso com mais leveza. Já não me agarro às minhas certezas. Compreendo mais do que julgo. Observo mais do que reajo.
Há uma serenidade que não existia antes - não por virtude, mas por realismo. Vejo o mundo com uma clareza que a pressa da juventude não permitia. Percebo padrões. Às vezes, antevejo finais.
Você já sabia? - perguntam.
Não. Eu não sabia. Apenas aprendi que o mundo se repete.
E é assim que respondo ao jovem que fui:
Ser velho não é apenas perder.
É um deslocamento.
O corpo enruga.
Mas algo dentro - silencioso - rejuvenesce.
Talvez porque já não precise provar nada.
Ou porque o essencial, enfim, tenha se revelado.
Envelhecer é isso:
a casca se fragiliza, por dentro, a vida insiste.
E insiste com esplendor.
Exatamente como um maracujá.
Nelson José Cunha
N. do E.
A flor do maracujá (Passiflora) simboliza principalmente a Paixão de Cristo, sendo conhecida como a "flor-da-paixão". 
Quando chegaram no continente americano, missionários espanhóis do século XVI interpretaram suas estruturas como símbolos religiosos: filamentos como a coroa de espinhos, estigmas como os cravos, e anteras como as chagas de Jesus. 
A flor também representa a paz e a espiritualidade.
Paulo Gurgel

03 abril, 2026

O presente maior

Menina de 10 anos, criada em um orfanato, recebe um presente no dia do aniversário.
Abre a caixa com o cuidado de quem já aprendeu a não esperar demais da vida. Lá dentro, o tão sonhado iPad.
Mas não é o presente que a desarma.
É a frase acesa na tela.
Ela lê. Hesita. E pergunta, com a voz ainda incrédula:
"Vou ser adotada?"
Naquele instante, o objeto perde o valor.
Porque não há presente maior para uma criança do que deixar de ser só no mundo.
Nascer em uma família bem constituída é uma fortuna silenciosa - dessas que só percebemos quando falta.
Esta é a importância das coisas corriqueiras: exatamente por serem comuns, deixam de ser vistas.
Quem procura alegria e felicidade e não encontra, muitas vezes está sentado sobre elas - distraído, à procura do que já possui.
Nelson Cunha

19 março, 2026

Doutor Sabugosa

Nelson José Cunha
Abro o mapa sobre a mesa. Um pingo de tinta num verde imenso. No centro, quase invisível, um nome: Baião. Era para lá que eu iria: cinco estudantes – eu, de medicina, mais um agrônomo entusiasmado, dois colegas de medicina e um engenheiro –, todos cheios de curiosidade, a caminho do Projeto Rondon. A vida profissional ensaiando os primeiros passos.
A viagem começou com um susto. Um DC-3 sobrevivente da guerra, com hélices cansadas. Parecia atravessar décadas. Em Belém, o trem de pouso travou. Um sargento surgiu, voz firme:
· Vamos queimar combustível para evitar incêndio no pouso de barriga!
O avião pousou. As rodas finalmente tocaram o chão.
Baião ficava um dia inteiro rio Tocantins acima. Subimos em lancha da Marinha. À noite, os carapanãs zumbiam alto. O ar estava pesado de umidade. O sono vinha em redes penduradas entre mastros.
Chegamos pelo trapiche, um ancoradouro de madeira. Hospedagem no colégio das irmãs. Dieta de peixe, farinha e mais nada.
Na primeira manhã, após o café com beijú, distribuímos tarefas. Nosso agrônomo falava do milho híbrido. Folhetos, gráficos, slides — o futuro em papel. No Sindicato Rural, formamos a claque. Ele falava de resistência, espigas fartas, colheita dobrada. Seus olhos brilhavam. Desde Fortaleza só falava nisso. Levou o apelido de Doutor Sabugosa.
Encerrada a palestra, o prefeito abriu a palavra. De uma janela, um caboclo se levantou, tímido, chapéu nas mãos:
· Qui mi discupe, vossemecê… mais nóis já provemo desse mio aqui… mais as galinha injetaro ele. Elas num gosta de caroço grande.
Naquele instante, ficou claro que precisávamos aprender a escutar as galinhas.
Coube-me o ofício das consultas. Quinto ano concluído. Gripes, verminoses, pequenas suturas — medicina possível num estojo de remédios. Eu andava com os bolsos cheios de castanhas-do-pará. Sobrevivíamos àquela dieta monótona.
· Doutor, tem um cabeça de siri aí fora querendo se consultar. Já disse que só amanhã, mas ele é um orelha de pau e não entende.
· Qual a queixa dele?
· Fígado zangado com dor de dentro, teve um esquentamento por causa do chicote de chuva da semana passada.
Assim eram os dias tentando adivinhar expressões amazônicas. Entre uma consulta e outra, ajudávamos na roça, aprendíamos a fazer farinha e disputávamos partidas de futebol no campo de terra batida. Os moradores nos ensinavam a tirar leite de castanha e a reconhecer o cantar dos pássaros.
Nem só de verminoses e gripes viviam as consultas. Numa manhã, um rapaz de traços indígenas pediu ajuda para um parto complicado. Descemos o rio numa voadeira. A casa era uma palafita no igarapé. Madeira, folhas de palmeira, chão rangendo. A menina de dezessete anos estava magra, o feto não se movia. O estetoscópio confirmou: o coração não batia. Estava sentado, pélvico. A parteira aguardava. Lembrei dos meus plantões na maternidade, estavam valendo na selva, segui puxando o bebê devagar, para não ferir além do inevitável. Primeiro as pernas, depois o tronco, por fim a cabeça. O choro não veio. A menina chorou baixo. O rapaz recebeu o pequeno corpo embrulhado em pano e permaneceu imóvel. Controlamos o sangramento. Dei instruções de higiene. Pedi que arrancassem uma folha da parede para entrar ar.
O Tocantins parecia mais largo na volta.
As redes balançaram por mais trinta dias. Consultas, carapanãs, futebol com moradores e conversas com o padre local – um holandês magro, de óculos, que trocara Amsterdã pela margem do rio. Falávamos de queijos, de canais e da proverbial mesquinhez dos patrícios. Ele se espantava com nossa falta de pressa e ria da nossa dificuldade em entender o sotaque dos caboclos. Certa tarde, trouxe um queijo amarelo, lembrança da terra, e o partilhamos com os moradores, que estranharam o gosto forte.
A floresta nos ensinou o Brasil, e nós aprendemos que há saberes que os livros ainda não alcançam.

Nelson,
Ao utilizar-se do elemento sublinhado e clicável que incluí em seu texto, você poderá acessar a descrição de como foi a minha participação no Projeto Rondon, em 1970. Certamente para concluir que a minha experiência, tendo como pano de fundo a Cidade de Deus, no Estado da Guanabara, foi bem mais amena do que a sua extensão universitária no Estado do Pará.
~ Paulo

07 março, 2026

O Mata-sete

Nelson José Cunha
Nove horas da manhã, e a campainha toca furiosa. Santinha corre à porta ainda de camisola, o coração na boca.
 É você, Ribamar? Já voltou tão cedo?
Ele nem responde. Entra atropelando tudo, direto para o banheiro, deixando um rastro de odor fétido e humilhação. Lá de dentro, entre gemidos de alívio e vergonha, vem o desabafo:
 Fiz nas calças, mulher! O maior vexame da minha vida! Recusei duas corridas no caminho porque não podia parar o táxi. Estava todo cagado...
Ribamar era taxista novato - só um ano de praça. Já ouvira, nas rodinhas, histórias de partos no banco de trás, malas de dinheiro esquecidas e cantadas perigosas. Com ele, nada. Atribuía a calmaria ao muiraquitã no peito, presente da avó maranhense, índia Tembé. Ela ensinara o ritual: ao sair de casa, apertar a rãzinha de pedra e sussurrar: Muyrakitan katu!
Naquele dia, levantou cedo para a feira em Floriano. Na estrada, viu um carro enguiçado e três homens acenando. Parou, crente de que a sorte o visitava. Um com maleta e dois com sacolas subiram no carro.
O mais falante, que parecia o chefe, sentou-se à frente. Mal o Fusca arrancou, ele resmungou:
 Mata-sete, mostra a escopeta pro motorista. Ele quer ver a grossura do cano.
Ribamar gelou. Olhou pelo retrovisor: roupas amarrotadas, malas suspeitas. O coração começou a tamborilar.
 Não, senhor! Não quero ver!  gaguejou, tremendo tanto que o volante parecia vivo.
O bandido deu uma risada intimidadora:
 Vamos aproveitar o táxi e fazer mais um serviço em Guadalupe. Você passa a escopeta para o motorista, ele dá cobertura. Em seguida, escondemos o dinheiro na casa dele.
O da maleta, o tal Mata-sete, alertou:
 Rubens... cuidado.
 Cuidado o quê? Com quatro assaltantes fica mais fácil!
Humberto, o terceiro, completou:
 Precisamos esconder o dinheiro e as armas em sua casa, sim, senhor.
Ribamar sentiu o mundo girar. Pensou no filho que ia nascer, na mãe velha, na própria vida por um fio. Invejava o burrinho magro à beira da estrada. Queria ser qualquer coisa  preá, sabiá, pedra  menos refém daquelas feras.
Agarrava o amuleto com tanta força que rasgou a camisa.
 Muyrakitan katu!
 Muyrakitan katu!
Repetia sem parar.
O Fusca trepidava nas costelas do chão de terra. O sol piauiense já transformava o carro numa fornalha. Foi então que o corpo de Ribamar cedeu. O inevitável aconteceu: o medo tomou conta, e o que devia ficar firme se soltou.
 Que cheiro de merda é esse?  berrou o chefe, quase cambaleando.  Está fazendo carreto de esterco, motorista?
 Não, senhor - respondeu Ribamar com calma súbita, a calma dos derrotados.  É bosta própria. Me distraí com a elevada palestra de Vossa Excelência e afrouxei... "os ânus". Coragem para assalto eu ainda não tenho muita. E não posso ir ao banco de Guadalupe, não. Recebi carta de cobrança. Estou com três prestações do carro atrasadas!
A fedentina se espalhou rapidamente, insuportável no calor fechado. Os bandidos tossiram, xingaram, abriram as janelas, lutando por oxigênio. Não aguentaram. Mandaram parar e desceram em debandada, sumindo pelo mato, fugindo do cheiro da morte - que, afinal, era apenas o cheiro da vida em pânico.
Ribamar, aliviado em todos os sentidos, fez o caminho de volta... cagado, mas finalmente em paz.

03 março, 2026

Viaji pru nor-di-Minas

Você é magrelo e quer engordar? Vá a Montes Claros.
Bate e volta.
Vá sem pressa, parando e comendo.
Na volta, comendo e parando.
Pegue o desvio para Cordisburgo e compre lá as famosas fatias.
Guimarães Rosa ficou inteligente por causa delas.
Compre umas dez de uma vez.
Dê só a seus inimigos. Ficarão seus amigos.
Ô diabo de fatia boa!

Depois, de Curvelo para BH pare na Fazenda Jasdan, do Onofre Ribeiro, o maior criador de gado indiano do mundo.
Compre o creme de milho da Cida.
Nelson Cunha
Metáforas de vida
Desde a Antiguidade, pode-se dizer que a alimentação vem sendo objeto de atenção e conhecimento, devido à necessidade inescapável de ingerir alimentos para manter a vida (Ulpiano). Por conseguinte, os prazeres da mesa não poderiam ausentar-se da vida e obra de Guimarães Rosa, que, frequentemente,  usava elementos do cotidiano mineiro em suas frases. Uma citação popularmente atribuída ao mestre de Cordisburgo ("junto dos bão é que a gente fica mió") diz que "no viver cabem todas as fatias... que você desejar", porquanto une a filosofia de vida ao prazer das pequenas coisas.
Paulo Gurgel

27 fevereiro, 2026

A lição da tiririca

por Nelson José Cunha
A tiririca - Cyperus rotundus, chamada de nutgrass lá fora e, aqui dentro, até de grama-capeta - é pequena, fina, discreta porque não quer ser vista. Ela sabe que a exuberância atrai olhares e, por isso, se esconde. Sob aquela aparência modesta guarda uma arquitetura de vida que poucos organismos possuem. Espalha-se por sementes levíssimas que o vento distribui, cresce por rizomas que avançam silenciosos sob a terra e forma tubérculos capazes de resistir à seca, ao fogo, à enchente e até às enxadas mais raivosas. Basta que um fragmento minúsculo sobreviva para que tudo recomece - e recomeça sempre, para desespero dos jardineiros e admiração do resto de nós.
Seu amargor não é falha: é estratégia. Seu baixo valor nutritivo não é limitação: é proteção. Animais a evitam, e assim ela se preserva. No subterrâneo, trabalha com discrição, liberando substâncias que dificultam a vida das plantas vizinhas para garantir um espaço para si. Considera-se rainha. Não porque deseje destruir alguém, mas porque sobreviver, para ela, não é escolha - é destino.
E há um detalhe que a aproxima da sabedoria: a tiririca não se ofende.
Você a arranca com raiva, pisa, xinga, ameaça - e ela, se pudesse, sorriria. Não um sorriso qualquer, mas aquele sorriso desafiador que humilha pela calma. Não desperdiça força em cobranças, não se perde em ressentimentos, não se distrai com o que não serve ao seu propósito. Enquanto nós nos desgastamos com irritações inúteis, ela guarda energia para continuar viva - e numerosa.
A tiririca não faz discursos, não lamenta as perdas; trabalha por baixo da terra, simulando a humildade que não tem. Esperteza sim.
E, de lá, contempla no alto as flores em seu esplendor - e não as inveja. Elas, ingênuas, atrairão olhares e morrerão por isso.
Para a tiririca não há condições desfavoráveis: ela apenas aproveita as que existem.
E talvez por isso ensine tanto.
Mostra que a vida não se ergue com barulho, mas com constância; não recomeça com bravatas, mas com raízes firmes; não se sustenta no orgulho, mas na capacidade de seguir adiante depois de cada golpe.
Chamam-na praga. Talvez seja mesmo - para quem só vê o desperdício de combatê-la.
Mas, para quem observa com atenção, torna-se exemplo.
Mostra que perder tempo com pequenas contendas só enfraquece quem as sente; que vingar-se é gastar a energia que poderia ser usada para florescer; e que há uma forma simples - e profundamente digna - de enfrentar o mundo: crescer.
A tiririca não vence por ferir ninguém.
Vence porque se recusa a desistir.
Há, nisso uma grande lição para quem anda cansado, ressentido ou paralisado por bobagens:
a vida não exige perfeição.
Exige persistência - qualidade que essa planta miúda domina como quase nenhuma criatura no planeta.
Seja tiririca!
N. do E.
"Vai frequentemente à casa de teu amigo, pois as ervas daninhas sufocam o caminho não utilizado."
 R.W. Emerson? W. Taylor? Caroline Larrington? Provérbio escandinavo? Anônimo?

21 fevereiro, 2026

O tangará, inteligência em um dedal

por Nelson José Cunha
A esperteza do tangará toca em um ponto que sempre me intrigou: a desproporção entre o tamanho do cérebro das aves e a inteligência efetiva de suas ações. Um cérebro diminuto, leve o bastante para voar, é capaz de produzir soluções que desafiam nossa intuição mais elementar sobre o que seja pensar.
O tangará não constrói seu ninho apenas para abrigar ovos. Ele o adorna. Não para agradar, mas para confundir. Suas estruturas visuais quebram padrões, criam ruído perceptivo, sabotam o olhar do predador. É camuflagem disruptiva - conceito que engenheiros e estrategistas humanos demoraram séculos para formular.
Ele usam fiapos de musgo e líquen, e funciona. Pesquisadores descobriram que tal estratégia reduz em 90% a pilhagem dos seus ninhos. O pássaro não sabe disso. Mas faz. E faz melhor do que muitos projetos conscientes.
Aqui reside o desconforto: chamamos isso de instinto, como se a palavra resolvesse o mistério. Não resolve. O instinto do tangará produz efeitos inteligentes, ajustados ao ambiente, eficientes e parcimoniosos. Não há desperdício cognitivo, nem exuberância inútil. Há inteligência brotando de um cérebro que cabe em um dedal.
Quando ampliamos o olhar, o espanto cresce. Corvos fabricam ferramentas, testam hipóteses, aprendem observando outros e transmitem soluções entre gerações. Papagaios reconhecem símbolos, quantidades e relações. Joões-de-barro erguem arquiteturas termicamente eficientes, orientadas ao sol, resistentes à chuva — sem engenheiro, sem cálculo formal, sem erro acumulado. Nenhuma dessas aves precisa de um cérebro grande. Precisa de um cérebro suficiente.
Essa constatação obriga a uma revisão incômoda de nossas certezas sobre nós mesmos. Há cérebros maiores do que o humano no mundo animal, e nem por isso há ciência, tecnologia ou história acumulada. O cérebro do homem primitivo não era menor nem menos complexo que o nosso; era, em essência, o mesmo cérebro, lançado em um mundo que ainda não havia aprendido a se lembrar de si. O salto humano não está no órgão, mas fora dele. Está na linguagem simbólica e em sua derivada decisiva: a escrita. Foi ela que criou algo radicalmente novo — memória fora do corpo, inteligência distribuída no tempo. Cada geração deixou de começar do zero e passou a herdar erros, acertos, técnicas e narrativas. O conhecimento deixou de morrer com quem o produziu. Somar tornou-se mais importante do que inventar. Sem isso, haveria inteligência, como há nas aves, mas não civilização.
A isso se somam as mãos. Não apenas como ferramentas anatômicas, mas como mediadoras entre símbolo e mundo. Ideias puderam virar gesto; gestos, artefatos; artefatos, tradição. Macacos têm mãos, mas não têm linguagem simbólica complexa. Papagaios vocalizam, mas não constroem cultura acumulada. O humano reuniu essas dimensões e, com isso, rompeu um limite que nenhuma outra espécie atravessou.
É nesse ponto que a comparação com a inteligência artificial se impõe. Para produzir resultados impressionantes, a IA depende de redes neurais gigantescas, consumo energético elevado, volumes colossais de dados e infraestrutura planetária. Ainda assim, o que ela faz é, em larga medida, imitação: recombina padrões já existentes. As aves, com alguns gramas de tecido neural, fazem algo mais radical — agem no mundo com economia, precisão e finalidade biológica. Um cérebro biológico tão pequeno faz, em termos proporcionais, muito mais do que nossas máquinas. Não porque seja “mais inteligente”, mas porque é inseparável da vida.
Ele não processa o mundo à distância; está imerso nele. Não calcula cenários abstratos; responde a pressões reais. Não simula consequências; sofre-as. Essa diferença ilumina algo essencial também sobre nós. Nos animais, a astúcia não se emancipa da natureza. Ela serve à sobrevivência, não ao poder.
O tangará não engana outros tangarás, não transforma sua habilidade em sistema, não cria narrativas para justificar desvios. Sua inteligência tem limite, e é justamente esse limite que a torna funcional. O humano, ao contrário, munido de linguagem, memória histórica e mãos capazes de transformar ideia em instrumento, passou a usar a astúcia não apenas para viver, mas para dominar, explorar, contornar responsabilidades. Quando a astúcia se separa da prudência, deixa de ser virtude e se torna risco sistêmico.
Nenhuma ave ameaça o ecossistema ao aprimorar sua técnica. Nós frequentemente o fazemos. Talvez, então, o espanto não devesse estar no quão inteligentes são os pássaros, mas no quão ineficientes nos tornamos ao confundir inteligência com volume — de dados, de neurônios, de discursos.
O tangará ensina, sem saber, que pensar não é acumular, mas ajustar. Não é impressionar, mas funcionar. A inteligência verdadeira não está no tamanho do cérebro nem na grandiosidade da máquina, mas na capacidade de agir sem destruir o chão que sustenta a ação.
Em um dedal de cérebro, o tangará constrói pontes invisíveis entre percepção e sobrevivência. Nós, com todo o nosso aparato simbólico e técnico, ainda insistimos em provar que sabemos mais — mesmo quando já esquecemos para quê.

11 fevereiro, 2026

O sapoti, onze anos depois

Postagem iniciadora da atual troca de mensagens:
Paulo, 
Onze anos depois, volto ao sapoti. Continuo seu defensor.
Onde moro hoje, a planta ainda é pequena, promessa mais do que colheita. (1) O pé em produção ficou na casa de Monlevade, já adulto, já sabendo cumprir o seu destino.
O que me surpreendeu, agora, foi o preço no Ceará. Estive aí em julho de 2025 e ele continuava girando em torno de dez reais.Uma espécie de congelamento histórico. Suprema humilhação para uma fruta não conseguir acompanhar sequer a inflação.
Enquanto isso, o mundo girou, o dinheiro perdeu valor, o salário encolheu e o sapoti permaneceu parado no tempo, como se não tivesse direito à correção monetária nem à mínima dignidade econômica. Não bastasse isso, perdeu espaço simbólico: saiu de cena para dar lugar ao kiwi, (2) fruta estrangeira, sem memória afetiva, mas com marketing, pedigree importado e status de vitrine.
O sapoti não apenas ficou mais barato. Ficou mais invisível. Tornou-se um fruto resistente, mas socialmente derrotado. (3) Não por falta de sabor, nem por deficiência nutricional, mas por abandono cultural. É a fruta que não frequentou academia, não fez intercâmbio, não aprendeu inglês.
Defendê-lo, hoje, é quase um ato político. Um gesto de memória e de teimosia. O sapoti segue ali, doce, íntegro, fiel a si mesmo — enquanto o mundo, esse sim, parece ter azedado. (4)
Nelson Cunha, Nova Lima - MG

Anotações do destinatário:
(1) Você que plantou? Se sim, meu elogio. Você está fazendo pelos sapotizeiros nas Gerais o que John Chapman fez pelas macieiras nos Estados Unidos.
(2) Os operadores de caixa dos supermercados estão confusos desde então, embora continuem hábeis em diferenciar as bananas dos abacaxis. Qualquer dia ainda vou aderir ao self-checkout.
(3) Invisível e socialmente derrotado são termos afins.
(4) Quanta doçura apesar do contraste!
Paulo Gurgel

03 fevereiro, 2026

Ratos na mala e outros afetos

Nelson José Cunha

Nas minhas idas a Nova Iorque, prefiro ficar do outro lado do rio, em Jersey City. Os hotéis custam metade do preço e são melhores. Manhattan, por valores semelhantes, oferece espeluncas com história. Minha filha, certa vez, hospedou-se em uma delas e foi surpreendida por ratos dentro da mala - um choque de realidade na cidade que nunca dorme, especialmente esses bichinhos.
Numa dessas viagens, meu pai foi conosco.
Francisco era sisudo por obrigação da farda. Em casa, porém, o uniforme ficava no cabide. Ele se desarmava. Tornava-se brincalhão, emotivo, um homem dado a afetos. Lembro-me de quando assistimos à Annie, na Broadway. Sentado ao seu lado, eu traduzia a história da menina órfã quando, de repente, vi uma lágrima escorrer por seu rosto. Aquele era o meu pai: um manteigão.
Herdei dele o gosto pela música e pela dança. Anos depois, em Nova Iorque, Annie voltou aos palcos. Não fui vê-lo. Por pura covardia. Temia reencontrar aquela lágrima - e a ausência dele, já morto. Preferi outros espetáculos. O melhor deles foi Jersey Boys.
O musical conta a história de uma banda de rapazes de New Jersey que, nos anos sessenta, rivalizou em popularidade com os Beatles. Os americanos sabem fazer esse tipo de espetáculo. Nada sobra, nada falta: som, luz, coreografia. Tudo funciona. E quem, na minha geração, nunca dançou colado ao som de Can’t Take My Eyes Off You?
No final, quando o próprio Frankie Valli surgiu em cena, a plateia explodiu. Aplaudimos de pé.
Lamento não ter assistido também a The Book of Mormon. Em seu lugar, tentamos ouvir jazz com a banda The Hot Sardines, no bar do hotel The Standard. Mas o porteiro barrou um amigo por causa da mochila e dos tênis. Ainda há lugares em que a roupa pesa mais do que a companhia.
Para não deixá-lo sozinho, desistimos. Fomos comer hambúrguer com feijão no Greenwich Village. Perdemos os espetáculos, mas ganhamos a noite: conversa solta, roupa confortável, amizade sem cerimônia.
No fim das contas, foi assim também com meu pai. Perdemos o musical que não vimos juntos, mas ficou a memória da lágrima, intacta, guardada como quem protege algo frágil na mala. Nova Iorque tem ratos, porteiros exigentes e palcos grandiosos. Mas o que realmente levamos - e o que nos acompanha de volta - são esses pequenos afetos: imperfeitos, clandestinos, e absolutamente nossos.

30 janeiro, 2026

Azul e Cinzas

Nelson José Cunha
Tenho o costume de puxar conversa com quem se senta a meu lado no avião. Os filmes não me interessam; a comida, muito menos  nem boa, nem farta. Nem sempre sou bem-sucedido.
Naquela vez, tive sorte. O passageiro era um piloto em férias. Milhares de horas de voo e histórias. Contou-me esta.
O pedido veio em tom de súplica, quando a fila de embarque ainda serpenteava pelo saguão. Uma mulher de olhos aflitos destacou-se do grupo e aproximou-se de Greta, comissária alemã da KLM, com duas décadas de profissão nos ombros.
 Por favor  disse a passageira, a voz carregada de emoção. É o sonho dela.
Uma vida inteira sonhando em viajar na primeira classe. A senhora poderia fazer essa gentileza para a minha adorável mãe?
Greta sentiu o conhecido nó de impotência. O regulamento era inflexível: não havia upgrade gratuito. Mas aquele olhar não pedia um favor; pedia um milagre.
 Não posso mudar a classe  respondeu, suavizando a negativa com um sorriso profissional.  Mas diga-me o assento dela. Prometo que será tratada como uma passageira da primeira classe.
A gratidão inundou o rosto da mulher.
 34B, corredor. Obrigada. Muito obrigada.
Horas depois, com o Airbus estabilizado sobre os céus da America, Greta preparou seu pequeno ato de rebeldia contra as regras inflexíveis da companhia. No carrinho, dispôs uma taça de espumante italiano, um pequeno pote de caviar com torradas, uma rosa vermelha e um cobertor branco de cashmere. Era tudo o que a burocracia lhe permitia.
Caminhou até o assento 34B. A passageira estava sentada sozinha, com a mão pousada sobre uma mochila no colo.
 Onde está sua mãe, senhora?  perguntou Greta, estranhando o assento vazio ao lado.
A mulher sorriu. Um sorriso doce e melancólico. Sem pressa, abriu a mochila e retirou um elegante vaso de cerâmica azul.
 Aqui  disse, com serenidade.  São suas cinzas. Estou levando-a ao Rio Hudson em Nova York, seu lugar favorito no mundo. O sonho dela era vê-lo uma última vez… de primeira classe.
Greta não hesitou. A vida inteira em grandes altitudes lhe ensinara que o extraordinário mora nos detalhes. Tomou o vaso com o cuidado de quem segura um recém-nascido.
 Com sua permissão  disse apenas.
Caminhou até a primeira classe, silenciosa e quase vazia àquela hora. Escolheu o melhor assento: 1A, junto à janela. Acomodou o vaso, ajustou o cinto de segurança ao redor da cerâmica, cobriu-o com o cobertor de cashmere e dispôs a taça e o caviar na bandeja. A rosa ficou ao lado, junto à janela, onde o entardecer começava a dourar as nuvens.
Pela primeira vez em trinta anos, Greta violava uma regra fundamental. Mas, diante daquele assento ocupado por uma última viagem, teve a certeza de estar obedecendo a uma lei mais antiga: a de honrar um desejo, por mais impossível que pareça.
E quando a luz do pôr do sol incendiou a cabine, pareceu-lhe que, para a passageira do assento 1A, a vista era, de fato, simplesmente espetacular. O Rio Hudson, lá embaixo, em todo seu esplendor.

22 janeiro, 2026

A Minhoca Amorosa

por Nelson José Cunha

Esta é a história de uma minhoca que pensa demais.
Ela ama, organiza, protege e decide por outras.
Pode ser lida como uma fábula sobre a vida debaixo da terra ou como uma história sobre o que acontece quando alguém acredita saber o que é melhor para todos.
Leia sem pressa. O resto o chão conta.

Nascer diferente no minhocário foi erro na curva molhada. Vim com cabeça, e ela pensa. No resto, sou igual às minhas irmãs: sem olhos, sem ouvidos, cinco corações latejando em fila. Talvez por isso transbordo amor e muco.
Aqui falamos com o corpo. Abraços longos, toques rápidos, vibrações que viajam pelo húmus levando mensagens. Não temos banheiros separados; carregamos no corpo ambos os sexos. Os humanos chamam-nos hermafroditas. Nós nos chamamos simplesmente minhocas - ou Lumbricus, diziam os romanos.
Escavamos túneis para arejar raízes. Nosso excremento é o pão das nossas vizinhas, as árvores, ou tudo o que se sustenta por raízes. Silenciosas, úmidas e, por que não, orgulhosas.
Mas a minha cabeça me impedia de entrar nos túneis mais estreitos. Em compensação, aprendi a planejar, escrever poesias no barro com a ponta do corpo.
Tornei-me empresária do subsolo: distribuía húmus, traçava rotas conforme o murmúrio das raízes. Ganhei respeito e admiração,mas tambem inveja, ciúmes e uma paixão que não pedi.
Ela surgiu um dia - ágil, delicada, deslizando em curvas que eram versos inteiros. Aproximou-se com toques que não pediam licença. Apaixonamo-nos sem palavras. Cada encontro era uma mensagem cifrada na pele. Cada curva, uma estrofe. Nosso amor vibrou no escuro e, encostadas languidamente em raízes, sonhamos em crias.

Viagem à Superfície
Subi pela primeira vez num impulso de curiosidade e temor. A capa de muco e folhas colava-me ao chão como uma segunda pele. Avançava tateando: grama áspera, pedrinhas rolando sob o corpo, orvalho frio escorrendo como lágrimas. O Sol queimava - lâmina quente cravada nas costas.
Tudo era estranho e irresistivelmente belo. Senti lufadas de vento, seres curiosos que me tocavam e feriam. Outros se aproximavam e fugiam. Ao final voltei.

A Conquista do Poder
O minhocário já não era o mesmo. Túneis sabotados. Raízes secas. Toques hostis onde antes havia toques mansos. Percebi as alianças tramadas na lama. As traições. Diferente delas, eu penso.
Adotei uma estratégia fria. Pactos com as minhocas-líderes ,- que sempre querem algo em troca. E tiveram. É a política.
Toques combinados. Vibrações que prometiam os melhores túneis - ou anunciavam o frio lento da exclusão. Antecipar desejos e medos virou segunda natureza.
Às vezes, no escuro, sentia um dos cinco corações bater fora do compasso. Não sei se é culpa. O poder é uma arte de tocar e afastar.

O Pescador
Enxada. Terra rasgada com violência e fúria. Pânico. Corpos se retorcendo em fuga. Algumas irmãs colhidas pelo ferro - cheiro metálico de morte misturado ao húmus. Num estalo, lembrei do velho sapato. Nosso estorvo habitual.
- Para o sapato! - vibrei com toda a força.
Corremos todas. Aglomeramo-nos no couro roto, mas a lâmina atingiu o alvo. O sapato voou, arremessado com raiva pelo pescador que nunca soube de nós.
Ficamos imóveis. Terra tremendo. Terra acalmando. Quando o silêncio voltou, o respeito também voltou. Mas agora carregava um gosto diferente - medo disfarçado de gratidão. Política!

O Nascimento de um Mundo Novo
Depois da enxada, vieram crias com cabeça. Túneis precisaram ser alargados. Caminhos, repensados. A inteligência, antes rara, agora brotava em vários corpos. Irrigava tudo.
Percebi que podia salvar. Percebi que podia desequilibrar. Ensinei colaboração. Ensinei vigilância. Às vezes, no meio da noite úmida, sentia vibrações de descontentamento - irmãs que sonhavam com os túneis estreitos de antigamente. Pensar é bom, mas custa. Vidas mais simples custam menos.
Eu as calava com toques suaves que prometiam proteção. Proteção ou prisão? A diferença é fina como uma raiz capilar. A superfície ficou lá em cima, com seu Sol cegante e seus perigos. Nossa revolução foi silenciosa, tátil, lenta.

Epílogo
Hoje o minhocário é planejado. Equilibrado. Nutrimos raízes com precisão. Escutamos o solo. A paz reina. Mas a vigilância nunca dorme - é o preço.
Entre amor, estratégia e lama, aprendi que a força bruta é um sopro passageiro. A inteligência, aplicada com cuidado, constrói mundos. Aplicada sem cuidado, também os destrói.
No silêncio úmido, sob o emaranhado das raízes que sustentamos, permito-me uma contração lenta - algo entre sorriso e tremor. Uma vibração longínqua atravessa o solo. Não sei se é ameaça. Não sei se é convite.
Apenas escuto, com os cinco corações fora de compasso, e continuo escavando. É o futuro chegando.

02 janeiro, 2026

Ainda não será desta vez

Nelson José Cunha
Chegou pelo correio um folheto de funerária com promoção especial para o fim de ano.
Mal o vi, pensei: será que já sabem a minha idade só porque compareci a alguns velórios por lá?
Essa inteligência artificial está em toda parte. Reconhece-nos pela fotografia, pela voz, pelo modo de andar. Sabe onde estivemos, a quem devemos, até aquela visita furtiva à loja de produtos pirateados.
Não há mais como brincar com semelhante presença.
Se tiver algo a ocultar, saia a pé e de capacete. A quem perguntar, responda com silêncio: sua voz já está arquivada na nuvem digital.
Hão de querer saber o que fazia na Rua Guaicurus, em Belo Horizonte - território das quase-belas damas noturnas. Alegar que se perdeu já não convence: uma câmera registrou sua saída constrangida de um dos prédios de lá.
Para circular despercebido, use capacete e camisa dos Correios, aquela que traz no bolso a bandeira nacional. Carteiro patriota entra em qualquer lugar. Se surgir uma passeata verde e amarela, misture-se à multidão sem receio: passará por mais um cidadão inocente.
Quanto às funerárias, os folhetos não cessam de chegar. Um deles oferecia cinquenta por cento de desconto na cremação, caso eu me desencarnasse antes da próxima Copa - desde que fornecesse a lenha.
Achei a proposta atrativa. Lenha não me falta: nossa cama de casal serviria perfeitamente. Para que a viúva haveria de querer uma cama tão grande? Espero que ela não mantenha esperanças de ocupá-la novamente. Meu ciúme também é perpétuo.
Hesitei em assinar, pelo receio de que, descumprido o acordo, não me permitissem regressar do Céu para reclamar.
Aliás, deve ser insuportável passar a eternidade inteira sobre uma nuvem, vendo meus amigos se divertirem lá embaixo.
Às vezes penso que o paraíso é aqui: todo mundo peca sem temer as consequências.
Especialmente nestes tempos em que o inferno está lotado.
Pecaram mais do que estava previsto na inauguração do mundo.
Lá não aceitam mais ninguém - sobretudo brasileiros. Bagunçaram o lugar: consumiram, no churrasco, toda a lenha destinada à queimação das almas.
Outros, de camisa vermelha, venderam as caldeiras como ferro-velho para os chineses. Para completar, os motoboys, sempre correndo como se o inferno tivesse prazo de entrega, estão chegando em bandos e gastando o estoque de fósforos para acender seus baseados.
Por ora, enquanto o inferno está fechado por excesso de lotação, vou cometendo os meus pecados aqui. A idade já limitou os da carne. Sobrou-me, por enquanto, apenas o consolo da gula.
Aproveitem o ano novo, este e os próximos, porque nunca se sabe se será o último.

27 dezembro, 2025

A sabedoria silenciosa do mangará

por Nelson José Cunha
O meu passeio é o quintal. Depois de tantos anos na cidade, vejo-me agora parado diante de uma bananeira, observando um cacho que acaba de se inclinar para o chão.
Olho minhas mãos, sujas e satisfeitas com os resíduos de terra roxa - a cor do mangará. Sei que ele já cumpriu sua missão e deve ser removido: a seiva precisa seguir apenas para as bananas que vingaram.
O que esconde essa criatura tão simples e bela?
A curiosidade me arrebata, e começo a exploração. O mangará tem camadas, como as cebolas. Uma capa, depois outra, e mais outra. Ao despir a planta, encontro logo abaixo da primeira capa uma penca de bananas pequenas e incompletas. Sigo adiante e descubro outras mais - bananinhas mal-nascidas, frágeis, todas aninhadas e protegidas.
Descubro então algo ainda mais admirável. 
Enquanto murcha, o mangará consome para si os nutrientes que iriam para essas promessas inviáveis. A bananeira parece saber, com uma sabedoria silenciosa, quantas bananas pode sustentar. Quando o terreno é fértil, ela solta mais pencas. Quando percebe que não terá condições de cuidar, interrompe e murcha.
Nada ali é desperdício, tampouco engano. O excesso é contido para que o essencial sobreviva.
Entre nós, homens, costuma ser diferente. Produzimos mais do que podemos sustentar, prometemos além do que somos capazes de cumprir, iniciamos obras que não terminam, geramos vidas, projetos e ruínas sem medir o custo de mantê-los. Desperdiçamos recursos, afetos e futuros - não por necessidade, mas por vaidade, pressa ou descuido.
Ali, encontro uma virtude que nós, tantas vezes, esquecemos. Até as bananinhas que jamais chegariam à mesa foram tratadas como filhas. Sabiam-se condenadas ao apodrecimento, mas nem por isso lhes foi negado abrigo, nem retirada a ternura. A natureza cuida até do que não dará certo - e, ainda assim, sabe quando parar.
Talvez seja por isso que o chamem também de coração da bananeira.
O homem da cidade viveu o bastante para reconhecer a nobreza escondida num simples mangará. Por esse encantamento tardio, só me resta agradecer.
A quem?

18 novembro, 2025

Vá plantar batatas!...

Um sujeito enfezado me mandou: fui.

A batata - doce, gorda e morena - parecia um pequeno gênio da garrafa: cabeça miúda, umas dobrinhas e aquele barrigão cheio de vontade de viver.

O método é prosaico. Pegue uma sacola de supermercado, molhe-a bem por dentro até pingar e coloque ali sua batata, também úmida, como quem pretende jogá-la na lixeira. Dê um nó firme - para não tentar fugir da nobre missão feminina. Depois, esqueça-a no escuro de uma gaveta por quinze dias: um repouso merecido, desses que o mundo não dá.

Então, quando se lembrar de desfazer o nó, verá brotos por todos os lados, ávidos por luz e terra. Corra com eles, os pequenos famintos de chão, para um pedaço de terra fofo: querem fincar raízes no mundo.

Não me pergunte o resto. Só sei que, passados uns quatro meses, sua batata voltará multiplicada.

E aí me pergunto: se a vida resiste e brota de otimismo até dentro de uma sacola esquecida, como é possível ainda haver fome - e tristeza - neste mundo?

Pós-escrito:

Paulo, o texto não é tutorial. Metáforas e alegorias.

Nelson José Cunha

11 novembro, 2025

Envelhecer juntos é bom por isso

transporte de bobinas de aço

Conchita, Diego, Henrique e eu - o motorista - voltávamos de um sítio em Brumadinho.
Faltando apenas seis quilômetros para Monlevade, uma carreta carregada com bobinas de aço (como as da imagem acima) veio em sentido contrário, virou na curva e lançou as bobinas na direção destes Cunhas.
Algumas rolaram ribanceira abaixo, mas uma delas - com o codinome sai-da-frente - resolveu seguir firme para o destinatário em São Paulo. Veio com boa pontaria na nossa direção, enquanto eu freiava para escapar do impacto. (A D20 era nova...)
A bobina, porém, não teve dó, nem respeito, nem nada: continuou rolando, implacável.
Conchita gritou:
-Vai bater!
Se batesse, viraríamos papel de jornal em tintas vermelhas.
Sem alternativa, virei o volante para o barranco - e caímos, confiados de que quatro anjos da guarda e oito asas seriam suficientes.
Que nada! Estavam socorrendo outros - afinal, a BR-381 é conhecida como rodovia da morte.
Os dois meninos nada sofreram; estavam no banco de trás. As portas não abriram com o capotamento. Conchita, ao final da queda, teve escoriações leves, e eu quebrei o mais improvável dos ossos: o dedo médio - justamente aquele que mostramos “a quem nos tem ofendido”.
O coitado estava agarrado ao volante, mas ainda assim se partiu.
Nos meus mais escusos pensamentos, confesso que imaginei: será que, no meio do reboliço, não estiquei a mão pra fora com o dedo em riste?
Enfim, salvaram-se todos - exceto um revólver que fora de meu pai.
Deve ter sido encontrado por algum amigo disposto a vingar o motorista da carreta; por essas bandas, a vingança ainda é costume - e, graças a Deus, tenho ótimos amigos.
Perdi também um microscópio cirúrgico, que a esta altura deve estar servindo para operar cataratas em algum lugar.
A camionete, que Deus a tenha em boa garagem no Céu, teve a piedade de se amassar toda para nos deixar quase inteiros.
Assim, tivemos a sorte de não morrer jovens, para sentir as dores da velhice - essas são teimosas e aparecidas.
Todo dia uma delas me acorda com uma fisgada: ora na perna, ora no braço, ora na testa.
Só não dói o ovário - mas a Conchita sente alguma fisgada por lá.
Envelhecer em casal é bom por isso.
Nelson José Cunha

06 novembro, 2025

Jabuticaba, sua diversidade

Esta pérola mais brasileira do que todos nós - não é só a pretinha abundante que nasce, tem vida breve e morre sem viajar, tamanho o amor que dedica ao próprio tronco. Orgulhosa, não inveja a uva; não admite a humilhação de ser pisada.
Tem outras roupas para se vestir: a rajada, rara e cobiçada; a bordô (ou ponheca), de poucas sementes; e a verde, que amadurece verde - todas unidas pelo mesmo veneno que as torna irresistíveis: o veneno da doçura.
Até o pé é generoso e não se quebra com a escalada da freguesia. Tenho várias no meu quintal adolescente e me submeto a seus caprichos, pois ela gosta de se fazer esperar.
Os impacientes que comam melancias.
Nelson José Cunha

29 setembro, 2025

Meus sócios, minha ruína

Tenho cá em meu quintal as frutas mais caras do mundo. Não é que sejam exóticas; ao contrário, são frutas de feira, vendidas a quilo: mangas, laranjas, abacates.
As minhas são caras porque se associaram a pragas miúdas e graúdas, arruinando minha produtividade. Entre os sócios graúdos estão os macacos e os jacus, [1] ambos protegidos pela lei brasileira — intocáveis. Minha vingança se volta contra as pragas miúdas: besouros, lagartas, fungos, vírus e bactérias. Gasto mais com defensivos do que com remédios para a velhice.
Fiz sociedade em dois pés de amora (foto) - um contrato injusto: à minha aproximação com a cestinha colheitadora, só me sobram as amoras [2] ainda verdes e azedas; as grandes, doces e pretas piano são devoradas pelos sócios passarinhos.
As mangas são lindas por fora, mas habitadas por dentro com os bichos que, no passado, povoaram as goiabas.
Os figos [3]) se aproveitam verdes; à menor ameaça de amadurecimento, a tropa de larápios alados dá conta de bicá-los.
Há um provérbio espanhol que diz:
"Amigo en la necesidad, enemigo en la abundancia."
E assim, meus estimados amigos, despeço-me deste desabafo para sair de compras. [4]
Vou comprar frutas. (Nelson José Cunha, cearense de Nova Lima-MG)

N. do E.
[1] Em festa de jacu, inhambu não pia. É uma frase que nem todo mundo vai entender de primeira, mas que carrega grande sabedoria. O jacu é um pássaro de dimensões maiores e o inhambu é menor que ele. Assim, o ditado ensina que é melhor ficamos tranquilos e não comprarmos guerras que não podemos vencer.
[2] Amoras. Frutos agregados de arbustos vulgarmente designados como "silvas". Tolera facilmente solos pobres, sendo uma das primeiras plantas a colonizar terrenos baldios.
[3] Debaixo da doçura de um figo há um ciclo de vida temível para quem aprecia a fruta. Leia este artigo e descubra o segredo que os figos escondem. Uma pista? Envolve vespas. Muitas vespas.
[4] Para fazer isso de forma inteligente, é útil criar uma lista de compras, pesquisar produtos e preços, e evitar compras por impulso para controlar o orçamento, de acordo com o blog da Serasa. (Paulo Gurgel)

20 junho, 2025

Mitos e verdades sobre dinheiro, sucesso e felicidade

Permita-me lhe oferecer um prato de sopa — mas não uma sopa qualquer. Esta é densa, filosófica, feita de ideias reconfortantes e temperada com sabedoria. Sirva-se. Sente-se com calma, aconchegue-se sob um cobertor imaginário, e disponha-se a ouvir um pensador.
Ele não traz apenas histórias: carrega conselhos, reflexões, provocações — talvez até algumas respostas. Afinal, a vida é breve, e nela somos lançados sem manual de instruções, como quem cai de paraquedas num mundo em movimento.
Tropeçamos, erramos, recomeçamos. Como um bebê que aprende a andar, precisamos cair para entender o equilíbrio. Mas há um segredo: se alguém nos estende a mão, o caminho se torna menos incerto. A jornada se equilibra, acelera — e o sucesso, muitas vezes, floresce nesse amparo. A sabedoria nasce do olhar atento às experiências alheias.
Hoje, convido-o a ouvir um desses guias — não um guru, mas um professor da vida. Clóvis de Barros Filho nos ajuda a pensar, com lucidez e paixão, sobre aquilo que tanto buscamos: dinheiro, felicidade... e talvez o sentido de tudo isso.
Nelson José Cunha
VÍDEO (1:26)

26 junho, 2024

Jack Stanford (1935)

Sem querer desmerecer o talento de Michael Jackson, em 1935, já impressionava a audiência esse dançarino Jack Stanford. Parece que MJ bebeu nessa fonte aí. Eu me lembro de ter visto em Los Angeles dois dançarinos de rua que faziam o passo que tornou MJ famoso, o moonwalk ou backslide. Tenho o filme em super 8. Era o ano de 1968, Michael Jackson tinha 20 anos. (Nelson José Cunha)

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