05 outubro, 2026

Gaveta de Cartas - 2

O termo "Gaveta de Cartas" refere-se a uma seção da histórica revista satírica Careta (que circulou entre 1908 e 1960). Nela, a redação respondia a correspondências enviadas pelos leitores, com o humor ácido e irônico característico da publicação. Atualizei a ortografia
Satanaz Junior (S. Paulo)
Seus sonetos, apesar de satânicos, são de tal sorte errados que, não obstante toda a boa vontade que nos animava, impossível nos foi evitar-lhes a condenação.
Mlle Santuzza (Ro)
Diz a senhorita: Ai quem me dera ver a nuvem rósea cair sobre a cabeça da montanha / E descambando aos poucos, peneirando / Pousar por sobre mim! / Ai quem me dera ver o raio aéreo dourado, cintilante, azul de Phebo / Aquecer as camadas da atmosfera / Banhando-me de luz!
Pois Exma. a nuvem caiu, mas foi sobre as nossas cabeças, pesando-nos horrivelmente. Os raios aéreos penetraram-nos de tal sorte que ficamos todos em crivo, com uma atmosfera tão superaquecida que equivaleu a um legítimo banho de vaрог: esperamos que a poetisa não se esqueça de mandar lestas (sic).
Salles (Barbacena).
Não há necessidade de procurar padrinhos Se o que escreveu for bom deveras, será publicado. Se não prestar, não há padrinho que lhe valha.
Caricio Velloso (Florianópolis).
Não entraremos na apreciação de semelhantes fatos que escapam à nossa competência. Constatamos, mas não discutimos.
Cleudro de Lores (Ouro Preto)
Pode remeter sem susto. Aqui não há compadresco.
L. Pernalta (Manaus).
Aí vão: Na amplidão celeste / Onde paira tu'alma / Triste doce e calma / Sem igual conteste / Senão a beleza / De quem existiu / No Mundo! / Partiu / Levando a tristeza / De uma vida ingrata / Pois nunca amou! / E quando deitou / No caixão de prata / Seu corpo virgem / De imaculada / Tinha a cor dourada d'estrelas / Lá no Horizonte / O romper d'Aurоrа / E contudo embora / Via-se na fronte / E na face em flor / Deste anjo em fuga / A sinistra nuga / Nuvem de vapor!
Lindos versos! O Sr. Pernalta naturalmente os concebeu e ejaculou em uma hora de inspiração divina. Por isso mesmo os publicamos para que todos os conheçam e o amigo chegue ao Parnaso.
Euvaldo Ruiz (Paraná)
O "Conto Mystico" é por demais tétrico. Os versos são aleijados. A fantasia é plágio. O amigo Euvaldo é caipora.

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