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21 maio, 2026

O valor da individualidade

por Nelson José Cunha
Este vídeo é uma pequena, mas poderosa alegoria da condição humana.
Um grupo de pessoas aguarda em uma sala. Sempre que um sinal sonoro toca, todos se levantam. Uma mulher recém-chegada observa a cena sem entender o motivo. Nos primeiros momentos, permanece sentada. Logo, porém, começa a se levantar também - não por compreender a razão, mas simplesmente porque o grupo o faz.
Gradualmente, as pessoas vão saindo da sala. No final, ela fica sozinha. Ainda assim, continua obedecendo ao sinal. A regra perdeu o sentido, mas o hábito permaneceu.
O experimento revela uma das forças mais profundas da vida social: a tendência humana à conformidade.
O psicólogo Solomon Asch* demonstrou, em seus experimentos clássicos, que indivíduos perfeitamente racionais eram capazes de negar o que viam com os próprios olhos apenas para não contrariar o grupo. Stanley Milgram* mostrou até onde pessoas comuns podem chegar quando obedecem automaticamente a uma autoridade. Gustave Le Bon*, em sua análise das multidões, observou que o indivíduo frequentemente perde parte do senso crítico ao se dissolver no coletivo.
É assim que as culturas se perpetuam - e nem sempre isso é ruim. A civilização humana só existe porque aprendemos a transmitir conhecimentos, hábitos e valores de geração em geração. A imitação é uma ferramenta poderosa de sobrevivência. Nenhuma criança reinventaria sozinha a linguagem, as normas sociais ou as técnicas essenciais à vida
. O problema surge quando herdamos comportamentos sem jamais submetê-los à reflexão crítica.
É nesse terreno fértil que nascem preconceitos, idolatrias, consumismos vazios, modismos passageiros e crenças repetidas de forma mecânica. Muitas vezes defendemos ideias que nunca examinamos de verdade. Compramos o que não precisamos. Desejamos o que os outros desejam. Rejeitamos pessoas porque fomos ensinados a rejeitá-las. Não pensamos; apenas reproduzimos.
A dúvida, portanto, não é uma ameaça à civilização. É um instrumento de maturidade.
René Descartes* transformou a dúvida em método filosófico. John Stuart Mill* defendeu a individualidade como condição essencial para o progresso humano.
Sem pessoas dispostas a questionar os consensos, a sociedade se reduz a mera repetição.
Talvez a verdadeira liberdade comece exatamente aí: no instante em que alguém tem a coragem de perguntar “por quê?” antes de simplesmente se levantar junto com todos os outros.
Referências citadas:
*Solomon Asch – Experimentos de conformidade
*Stanley Milgram – Experimento de obediência à autoridade
*Gustave Le Bon – Psicologia das multidões
*René Descartes – Método da dúvida
*John Stuart Mill – Defesa da individualidade e da liberdade de pensamento

27 maio, 2025

O apelo ventoso de Benjamin Franklin

O polímata mais amado da América não estava falando totalmente sério quando escreveu o ensaio de 1871,"To The Royal Academy Of Farting", mas ele destacou alguns bons pontos. Ou seja, que se a ciência pudesse criar:
"... alguma droga saudável e não desagradável, para ser misturada com nossa comida comum, ou molhos, que tornariam as descargas naturais de vento de nossos corpos, não apenas inofensivas, mas agradáveis como perfumes, o mundo seria um lugar melhor."
Ele estava irritado com o establishment científico perseguindo o que ele via como objetivos cada vez mais pomposos, em vez de tentar resolver problemas práticos como, uh, bombas de ânus fedorentas.

http://www.mentalfloss.com/article/649356/fart-history-memorable-moments (8 de 20)

14 março, 2025

A aquisição do fascista Tech Bro está aqui

Joan Westenberg (@Daojoan) expõe a verdade nua e crua do que está acontecendo em nosso redor:

O futuro dos Estados Unidos não é mais decidido em Washington. Esse navio já partiu. Agora é ditado nos bunkers, jatos particulares e complexos de um Vale do Silício ideológico, por bilionários e extremistas da riqueza com a intenção de tratar a democracia como um incômodo que deve ser afastado. Esses homens — criados em uma imprensa raivosa que mitificou sua existência em suas vidas, os chamou de Wunderkind (do alemão wunder "prodígio" + kind "criança) e os tratou como algo acima e além da mera mortalidade — consumiram uma dieta constante de fanfics (de fan fiction, escritas ficcionais feita por fãs, baseadas em obras existentes) por  libertárias e autoritárias e, em seus estertores, conceberam uma nova ordem, projetada para servir seus egos elevados a todo e qualquer custo.

A Internet deveria ser o grande equalizador. Ela deveria ser uma força que destruísse hierarquias e desse poder às pessoas comuns. Em vez disso, ela permitiu a extração de riqueza e a avareza de um cartel de déspotas superalimentados e supermimados que enriqueceram em nome da inovação, sangraram o mundo até o ponto de um colapso quase total, intelectualizaram seu fetiche de poder e agora veem as instituições públicas como os obstáculos finais a serem desmantelados em sua busca egoísta e delirante por mais.

O declínio da América para o fascismo (envolto na bandeira e carregando uma cruz, segundo Elisabeth Vallet) foi permitido, apoiado, nutrido e encorajado por bilionários da tecnologia e CEOs que estão tão distantes da humanidade e do florescimento humano que se imaginam melhores administradores da nossa existência do que nós. Era evitável. É deplorável. E deveria ser uma afronta a qualquer um que acredite em liberdade, determinação e autonomia.

Este não é um debate abstrato ou uma preocupação distante. Esta não é uma teoria da conspiração, embora, em algum nível, seja claramente uma conspiração. O deslizamento autoritário nos Estados Unidos está acontecendo hoje, possibilitado por bilionários que veem a governança como uma ferramenta para ganho pessoal. A democracia está sendo desmantelada em tempo real, não por meio de golpes militares, mas por meio de aquisições corporativas, propaganda algorítmica e a influência descontrolada da riqueza.

Leia o ensaio completo em theindex.media.

Os grifos são nossos. PGCS

11 dezembro, 2020

O jogador de xadrez turco

O jogador de xadrez turco de Maelzel era uma máquina que realmente existia. Construída em 1769, por Wolfgang von Kempelen, foi exibida nos séculos XVIII e XIX em feiras e teatros em Paris, Viena, Londres e Nova Iorque.
Em 1783, em seu hotel em Paris, Benjamin Franklin recebeu uma carta de Wolfgang von Kempelen,  convidando-o a ver e jogar com o autômato que jogava xadrez turco, além de caso quisesse inspecionar a máquina.
Franklin aceitou o desafio e, alguns dias depois, jogou xadrez turco com a máquina no Café de la Regence e perdeu. Embora Franklin fosse um amante do xadrez, ele não mencionou esse evento em nenhuma de suas correspondências, talvez, alguns explicam, porque ele era conhecido como sendo um mau perdedor.  [Tom Standage, The Turk, 2002 Walker Publishing]
Quando Von Kempelen morreu, seu filho vendeu a máquina para Nepomuk Maelzel, um violinista de Viena que também inventou dispositivos musicais como o metrônomo.
Edgar Allan Poe testemunhou uma demonstração do funcionamento da máquina e escreveu o ensaio "Maelzel's Chess Player"  para demonstrar que era uma fraude.[EA Poe: histórias curtas completas (tradução por J. Cortázar), Alianza Editorial, Madri, 2002]
Os aficionados por Poe notaram que o artigo tem um tom, uma voz notavelmente semelhante ao discurso de Dupin em "Os assassinatos na rua Morgue". Na verdade, existem muito mais interseções entre o artigo e o conto. Vários elementos em comum levam a acreditar que houve uma transposição de um para o outro:
Nos dois casos, temos uma sala trancada. Na história, a polícia não sabe explicar como o assassino poderia ter entrado ou saído do local, já que todas as portas e janelas estavam trancadas por dentro. No artigo, o objetivo de Poe é determinar se, dentro da máquina, um ser humano estavria escondido ou se ela continha, como Maelzel gostaria de que sua audiência acreditasse, apenas mecanismos.
Poe descreve em detalhes o ato de Maezel no palco: antes de fazer a máquina jogar xadrez, ele andava pelo palco rolando o autômato à sua frente, enquanto abria e fechava compartimentos e gavetas na máquina para mostrar que ela continha apenas elementos mecânicos. Ele propõe que Maelzel abria e fechava esses compartimentos e gavetas em uma ordem precisa, que permitia que uma pessoa no interior da máquina deslizasse um painel interno e se movesse no momento certo, e assim permanecer oculta. E conclui que, apesar da mecânica da máquina sempre à vista, sempre havia um espaço trancado em seu interior.
Este painel deslizante interno constitui parte da solução de Poe para a farsa no artigo. Ele é transposto para o conto, onde se torna uma janela deslizante que também constitui parte da solução para o mistério da sala trancada de Dupin. Descobre-se que o orangotango entra no apartamento por uma janela e, por acaso, um prego na moldura da janela trava a janela ao sair. O animal, em outras palavras, como a suposta pessoa dentro da máquina, se move graças a um mecanismo deslizante e, portanto, permanece oculto aos vizinhos que chegam ao local no momento em que o assassinato estava ocorrendo. [http://epistemocritique.org/why-an-ourang-outang/]
De fato, como foi mostrado mais adiante, não era a máquina que jogava xadrez, já que havia uma pessoa dentro dela - o jogador de xadrez francês Jacques Mouret - que era quem realmente a controlava.

14 agosto, 2020

O leitor escritor e vice-versa

"Aprender a ser um bom leitor é o que faz de você um escritor." ~  Zadie Smith

No quarto dos treze ensaios do livro intitulado "Flight", Rebecca Solnit escreveu:
"Como muitos outros que se transformaram em escritores, eu desapareci nos livros quando eu era muito jovem, desapareci neles como alguém correndo pela floresta. O que me surpreendeu e ainda me surpreende é que havia um outro lado na floresta de histórias e solidão, que eu saí daquele outro lado e conheci pessoas lá. Escritores são solitários por vocação e necessidade. Às vezes, acho que a prova não é tanto talento, o que não é tão raro quanto as pessoas pensam, mas objetivo ou vocação, que se manifestam em parte como a capacidade de suportar muita solidão e continuar trabalhando. Antes de os escritores serem escritores, eles são leitores, vivendo em livros, através de livros, na vida de outras pessoas que também são as cabeças de outras pessoas, naquele ato que é tão íntimo e, no entanto, tão solitário."

15 novembro, 2019

Por que precisamos de jardins

Oliver Sacks no Jardim Botânico de NY. (fotografia de Bill Hayes)
[...] Essas recompensas inigualáveis, tanto psicológicas quanto fisiológicas, são o que o neurologista e escritor Oliver Sacks (9 de julho de 1933 a 30 de agosto de 2015) explora em seu ensaio intitulado "Why we need gardens" (Por que precisamos de jardins). Ele escreve:
Como escritor, considero os jardins essenciais para o processo criativo. Como médico, levo meus pacientes a jardins sempre que possível. Todos nós tivemos a experiência de vagar por um exuberante jardim ou por um deserto atemporal, andando junto a um rio ou oceano, ou escalando uma montanha e nos achando simultaneamente acalmados e revigorados, engajados na mente, refrescados em corpo e espírito. A importância desses estados fisiológicos na saúde individual e comunitária é fundamental e abrangente. Em quarenta anos de prática médica, descobri que apenas dois tipos de terapia não farmacêutica são de vital importância para pacientes com doenças neurológicas crônicas: música e jardins.
Via Brain Pickings

Nova Acta: 711 e 773

01 abril, 2019

A adesão ao fascismo

Neste texto (*) datado de 1951, Theodor W. Adorno demonstra como a teoria de Sigmund Freud sobre a psicologia das massas desenvolvida em 1921 antecipou de maneira impressionante as dinâmicas pulsionais envolvidas na ascensão de Hitler; e indica como ela pode ser usada para compreender o fenômeno dos agitadores fascistas que ele observava em primeira mão nos EUA do pós-Segunda Guerra Mundial. Passadas mais de seis décadas desde sua publicação, o ensaio de Adorno se mostra de relevância assombrosa para o leitor brasileiro de 2018.

“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”

“Como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização.”

“A irracionalidade redespertada do seguidor é bastante racional do ponto de vista do líder: ela necessariamente tem de ser ‘uma convicção que não é baseada em percepções e raciocínios, mas em um vínculo erótico’.”

“A agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas o mandatário de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideia do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo.”

“Mostrando-se como um super-homem, o líder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio.”

“As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel.”

“É provavelmente a suspeita do caráter fictício de sua própria ‘psicologia de grupo’ que torna as multidões fascistas tão inabordáveis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encenação desmoronaria, e só lhes restaria entrar em pânico.”

“O ganho narcisista fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente, e às vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao grupo, é superior, melhor e mais puro que aqueles que estão excluídos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de crítica ou autoconsciência é ressentida como uma perda narcisista e provoca fúria.”

“O líder pode adivinhar os desejos e necessidades psicológicas dos que são suscetíveis à sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibições o que neles está latente, em vez de lançar mão de alguma superioridade intrínseca.”

“O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles são – os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade – em vez de estabelecer metas cuja realização transcenderia o status quo psicológico não menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus próprios propósitos – não precisa induzir uma mudança –, e a repetição compulsiva, que é uma de suas características primárias, estará em acordo com a necessidade dessa reprodução contínua.”

“A psicologia das massas foi controlada por seus líderes e transformada em meio para sua dominação. Ela não se expressa diretamente pelos movimentos de massa.”

(*) extraído de "A psicanálise da adesão ao fascismo", publicado no Blog da Boitempo

Contemporâneas

"Reconhecer erros engrandece instituições. Comemorá-los demonstra que podem repeti-los." ~ Jorge Solla

"Como voltar atrás, recuar sem vergonha de tê-lo feito, desdizer o que dissera, autotraduzir as próprias palavras são atos praticados por Bolsonaro sem se sentir em situação vexaminosa e sem enrubescer sequer os lábios emaciados, descoloridos, lembrando lábios de defuntos emaciados, que nos oferece na TV todas as vezes em que nela aparece, há tempo para ele anunciar que o apelo à celebração do golpe de 1964 foi uma chula, inoportuna e malfeita piada de 1.º de abril." ~ Luis Costa Pinto, O golpe da piada pronta

09 novembro, 2018

Valor literário

por Alberto Lins Caldas (*)
Como saber se um texto tem ou não "valor literário"? Como saber se um texto é realmente literário ou não passa de uma impostura? A gramática (normalmente o gramaticamente "correto" carrega uma boa dose de servilismo!) não pode ser aquilo que vai decidir sobre o "valor literário": a gramática é um ordenamento de poder, um círculo do já feito, do conhecido e reconhecido: a literatura vai sempre além desse círculo e seu limite; a língua também não pode decidir: a literatura é indiferente à língua: ela é somente seu suporte: não importa em qual língua a virtualidade literária se configure: ela não marca essa virtualidade; a região também em nada afeta o nascimento ou florescimento de uma obra, podendo, quando muito, fazê-la definhar por enquadrá-la a um pequeno significado vivencial, a um comodismo provinciano; uma tradição também não pode servir de parâmetro literário, pois a literatura sempre se fez a um passo depois das tradições, apesar de servir-se delas como nossa fome de um suculento pedaço de carne; gênero também não interessa: a grande literatura não pertence a nenhum gênero específico: não existe literatura negra ou branca, heterossexual ou homossexual, macho ou fêmea, moral ou imoral, infantil ou adulta, desenvolvida ou subdesenvolvida, prosa ou verso: o que há é literatura ou não literatura (parece que ninguém mais sabe o que é literatura e qualquer um que escreve é chamado de escritor); a história da literatura também não pode contribuir: as obras nascem sempre antes das outras obras de uma história: a origem de uma verdadeira obra literária é sempre anterior as suas "influências"; a economia também não resolve a questão: as classes sociais, a riqueza, o capital, a exploração, a mais valia, o roubo, o poder, a miséria, a história, os partidos, a política, o governo: nada disso cria ou impede a criação de uma grande literatura ou de uma grande obra: o "valor literário" não é uma conseqüência, em última instância, das determinantes econômicas. Então como saber se uma obra tem valor literário ou não?
Todas as obras de real valor literário possuem algo em comum: todas elas partem, sempre com um espírito de negação, de uma filosofia (F), de uma estética (E) e de uma visão de mundo (V) e constituem, em seus labirintos, uma visão de mundo própria, uma outra filosofia e uma nova estética: mas esses elementos só servem naquele universo, naquelas obras específicas: dali não nascem mais obras, a não ser como pastiches, reproduções de segunda mão, como em quase todas as obras provincianas: são reproduções simplificadas dos esquemas, das visões, das facilidades visíveis de uma obra, daqueles elementos que o poder difunde como qualidade e valor. Daí a misteriosa e espantosa multiplicação dos bilaquinhos, dos anjinhos, dos montelinhos, das lygiazinhas e dos coelhinhos: o que vemos aos montes em todas as províncias do mundo são pobres pastiches de algo que já foi feito e não poderia mais gerar nada a não ser a exaustão ou o delírio das críticas literárias, que fazem a festa exatamente sobre as FEV geradas pelas obras.
Mas ainda mantemos o mesmo problema: como saber se um texto tem ou não "valor literário"? É um longo caminho. Toda obra realmente literária gera uma rede de galerias onde se formatam em movimento sua FEV: cria-se uma espécie de "virtualidade singular" e uma forma de "virtualidade social". Há um intrincado virtual que é preciso levar em conta antes das análises do leitor, da língua, do estilo, dos discursos, dos gêneros, das formas, das estruturas, das funções. Precisamos, enquanto hermeneutas da obra literária, pensar sobre a FEV que propõe. É a partir desses componentes (FEV) que poderemos estabelecer se uma obra, em seus fundamentos, é somente uma reprodução sem valor, porquê mil vezes dita e dita mil vezes melhor, de uma “escola” qualquer, de um “autor” qualquer.
Uma “obra limite” sem história, sem personagem, sem lugar, sem perspectiva, sem narrador, sem temporalidade pode estruturar uma FEV inigualável. Sua significância nascerá da importância não do estilo, não da gramática, não da tradição, não da língua, não do gênero mas da sua específica FEV. Esse é um começo porque nenhuma obra literária se resume a sua FEV. Mas é dela que retira toda a sua força, todo a multiplicidade que devora as outras obras e exige a multiplicação da leitura e da interpretação; é dela que nasce nossa admiração, nosso amor, nosso espanto, nossa busca, nosso desejo, nosso olhar, nossa leitura. Fazer literatura não é somente escrever, contar uma história, construir um estilo: é criar uma FEV, é constitui-la com toda a nossa singularidade, com toda a sinceridade, coragem e unicidade que nos for possível. Como essa FEV pôs ao seu serviço um estilo, uma gramática, uma tradição, um gênero, uma história, uma língua é a nossa grande questão. Uma virtualidade singular que, para existir, precisa de uma outra voz, uma outra forma, uma outra perspectiva.
Daí porque é impossível para o artista ser "normal" e escrever (ou pintar ou esculpir ou criar qualquer coisa realmente em arte). Gerar filhotes, obedecer à família, entender o governo, participar de um partido político, sentir-se honrado por estar trabalhando ou estudando, amar pai e mãe, amar uma mulher ou à mulher sobre todas as coisas, defender a pátria, chorar de emoção com a bandeira, respeitar alguma coisa, gostar daquilo que todo mundo gosta, assistir televisão, gostar de programas de auditório e novelas, ler os autores da moda, ler os autores respeitados pela "escola" e pela "academia", desejar aquilo que todo mundo deseja e tolices do gênero são sintomas de uma quase FEV massificada que está há muito estabelecida, servindo somente a um mundo ridículo e cada vez mais pobre e fascista. Um escritor é aquele que, antes de tudo e depois de tudo, cria uma FEV própria, singular, como maneira de ver, sentir, dialogar, desejar e sonhar, viver e morrer.
Aqui resolvemos a nossa questão? Não! Para desalinharmos um bom pedaço desses fios é realmente preciso muito caminho e muita tinta. Aqui é somente um dos mil começos de algo sem começo que tem seu fim exatamente em todos os possíveis começos.
(*) Pernambucano de Gravatá, onde nasceu em 1957. Publicou Canto Fundamental e Cacimbas. Colabora em jornais do Recife (Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Diário da Manhã) com artigos de critica literária e poesia. Fundador do grupo informal Poetas da Rua do Imperador. Cursou Historia e Arqueologia na UFPE. Ensaísta proustiano e poeta. 

01 outubro, 2018

Como envelhecer

Em seu ensaio intitulado "Como envelhecer", escrito em seu octogésimo primeiro ano e depois publicado em "Portraits from Memory and Other Essays", Bertrand Russell coloca no coração de uma vida satisfatória a dissolução do ego pessoal em algo maior.
Torne os seus interesses gradualmente mais amplos e mais impessoais, até que aos poucos as paredes do ego diminuam, e sua vida se torne cada vez mais imersa na vida universal. Uma existência humana individual deveria ser como um rio - pequeno a princípio, estreitamente contido em suas margens, e correndo passivamente por rochas e cachoeiras. Gradualmente, o rio se torna mais largo, os bancos recuam, as águas fluem mais silenciosamente e, no final, sem qualquer quebra visível, eles se fundem no mar e perdem de uma maneira indolor sua individualidade.
Cómo envejecer
Bertrand Russell (18 de maio de 1872 - 2 de fevereiro de 1970) filósofo, matemático e historiador britânico.

Bônus

15 outubro, 2017

Anatomia do Poder

Um tema que sempre me fascinou, justamente por não conseguir atribuir qualquer solenidade, reverência e muito menos levar a sério o Poder. Trata-se talvez do mais brilhante ensaio rigorosamente didático em que a anatomia e a gênese desta "coisa" é analisada de forma bem-humorada e com muitas ironias, como é o estilo de John Kenneth Galbraith, talvez o pensador mais brilhante do século XX. Vale a pena dar uma boa bisbilhotada aqui.
A propósito de Poder e suas futricas e intrigas a reboque, o Temeroso (na foto ao lado) ou está de peruca nova ou seu "personal fígaro" carregou nas tintas, e deu nisto:
Que pode ter sido uma brincadeirinha da Marcela para esquentar a relação.
Jaime Nogueira

Tem que manter isso aí, viu?
Refiro-me às mãos de Golpistófeles flagradas para trás, como que fossem merecedoras de um par de argolas interligadas do armarinho de Dona Justa.

Jaime rides again
"Entre os homens de dinheiro permanece até hoje a ideia de que, por causa da riqueza ou da primazia social decorrente, seus pontos de vista sobre política, economia e comportamento ou decoro pessoal devem ser levados a sério. Poucas pessoas sentem-se tão magoadas como eles quando suas opiniões são ignoradas ou indecentemente questionadas por alguém cujo direito de falar não é alicerçado no indispensável patrimônio." ~ John Kenneth Galbraith

17 outubro, 2014

Roscas

Achille Varzi C. , que é professor de Filosofia na Universidade de Columbia, Nova Iorque, tem interesse nas implicações filosóficas de buracos e vazios, o que o levou a uma investigação única sobre um subconjunto especial de entidades com buracos - ou seja, os donuts.
"Um donut sempre vem com um buraco. Se você acha que tem exceção, pode simplesmente não ser um donut. Não ser um donut, por definição. Rosquinhas sem buraco são como quadrados redondos ou maridos solteiros - algo sem sentido conceitual. Então, quando você compra um donut, você realmente compra duas coisas: o material comestível, mais o pequeno pedaço de vazio no meio. A compra é uma operação casada. Você não pode simplesmente pegar o donut e deixar o buraco na mercearia. Em outro sentido, no entanto, você pode querer insistir em que o material comestível é tudo o que existe - e que,portanto, o buraco é nada!"
Nas dez páginas de Doughnuts, o seu ensaio publicado em 2001, o professor Achille analisa os buracos das rosquinhas sob os mais diversos ângulos. Ele não só examina a topologia da rosquinha simples, como também introduz outras rosquinhas teoricamente possíveis: donuts com entalhes, bifurcados e com cavidades complexas e extravagantes.

O caso jelly donut
Popular em diversos países, o jelly donut não tem o buraco no meio. Se o tivesse, não haveria lugar para colocar a geleia. Recheado e polvilhado com açúcar, esta variedade de "rosca" lembra o nosso sonho.

A evolução das rosquinhas

23 julho, 2014

Ariano Suassuna, o homem da esperança

ROMANCE D’A PEDRA DO REINO, de Ariano Suassuna
por Fernando Gurgel Filho
Carlos Drummond de Andrade disse: "Extraordinário romance-memorial-poema-folhetim que Ariano Suassuna acaba de explodir. Ler esse livro em atmosfera de febre, febril ele mesmo, com a fantasmagoria de suas desaventuras, que trazem a Idade Média para o fundo Brasil do Novecentos, suas rabelesiadas, seu dramatismo envolto em riso. Ah, escrever um assim deve ser uma graça, mas é preciso merecer a graça da escrita, não é qualquer vida que gera obra desse calibre".
Faltou pouco para o Suassuna escrever "o" romance do Brasil. A partir de fatos históricos, como a chacina ocorrida no sertão de Pernambuco em que inocentes foram assassinados para fazer ressuscitar o Rei Dom Sebastião - a própria contradição do fato é tragicômica - Suassuna coroa o Movimento Armorial com um romance de armas, brasões, fidalguias, reis e vassalos, existentes apenas na imaginação doentia de sertanejos fanáticos.
O narrador, que se autodenomina Dom Dinis Quaderna, em estilo que ele mesmo chama de régio-sertanejo, transforma "uns cavalos pequenos, magros e feios, uma porção de gente suja, magra faminta e empoeirada, arrastando ... uma porção de velhos animais de Circo, famélicos e desdentados, numa tropa pobre e amontoada" em uma "Cavalgada fidalga composta de Ciganos, vestidos de gibões medalhados e cravejados, trazendo onças,veados, gaviões e cobras... ...precedida por duas bandeiras, uma com onças e contra-arminhos, outra com coroas e chamas de ouro em campo vermelho."
Essa visão distorcida da realidade revela, tão-somente, a má formação do narrador e as suas visões de um mundo fantástico em que ele almeja implantar uma monarquia sertaneja-negro-tapuia em oposição à elite ibérica-mouro-portuguesa. A caricatura do País é perfeita, onde a elite e a intelectualidade estão representadas por um filósofo de direita que se diz oriundo da melhor estirpe dos coronéis de engenho e outro de esquerda que diz representar a alma sertaneja e mestiça do índio e do escravo. Os dois vivem às custas do narrador que, em tudo, parece representar o Povo. E se servem dele até para firmar suas ideias caricatas de um País tragicômico.
É um livro que merece ser lido e relido, atentando para os tangenciamentos com a realidade dos sertões e para os fatos históricos narrados - na forma distorcida pelo narrador, claro. (FGF)
Em tempo
O escritor paraibano Ariano Vilar Suassuna, autor de "Auto da Compadecida" e "A Pedra do Reino", morreu nesta quarta-feira (23), aos 87 anos, no Recife.
Nascido em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, em 16 de junho de 1927, era filho do político João Suassuna, que ocupou o governo da Paraíba e foi assassinado no Rio de Janeiro, em 1930.
A família passou a viver em Taperoá, onde Suassuna começou a estudar e viu a primeira peça de mamulengos (fantoches típicos do nordeste brasileiro), que depois teria influência em sua produção teatral.
Em 1942, o autor se mudou para Recife e aos 16 anos começou a escrever poesias. Aos 20 publicou a primeira peça, "Uma Mulher Vestida de Sol".
Em 1950, formou-se advogado, profissão à qual se dedicou durante anos sem abandonar a literatura.
Em 1955, publicou o "Auto da Compadecida", sua obra mais famosa, que em 2000 seria adaptada para uma minissérie e um filme de sucesso, estrelados por Matheus Nachtergaele e Selton Mello.
Com projeção nacional, deixou a advocacia e viu suas peças serem montadas em outros Estados.
Na década de 1970, lançou o Movimento Armorial, com o objetivo de criar arte erudita a partir de elementos da cultura popular, como literatura de cordel e música de viola. Seu livro "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta", de 1971, é baseado nesses preceitos.
"Eu digo sempre que das três virtudes
teologais , sou fraco na fé e fraco
na caridade, só me resta a esperança.
Eu sou o homem da esperança."
As principais obras de Ariano Suassuna
1947 - "Uma Mulher Vestida de Sol"
1949 - "Os Homens de Barro"
1950 - "Auto de João da Cruz"
1952 - "O Arco Desolado"
1953 - "O Castigo da Soberba"
1954 - "O Rico Avarento"
1955 - "Auto da Compadecida"
1957 - "O Casamento Suspeitoso"
1957 - "O Santo e a Porca"
1958 - "O homem da Vaca e o Poder da Fortuna"
1959 - "A Pena e a Lei"
1960 - "Farsa da Boa Preguiça"
1962 - "A Caseira e a Catarina"
1971 - "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta"
1976 - "História d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao sol da Onça Caetana"
1980 - "Sonetos com Mote Alheio"
1985 - "Sonetos de Albano Cervonegro"
1987 - "As Conchambranças de Quaderna"
Leia +
Ariano e os computadores, Por causa de uma gravata e Aboio

02/08/2014 - Atualizando a nota com Literatura de Cordel
A chegada de Ariano Suassuna no Céu, por Klévisson Viana e Bule Bule. In: Livro Errante
(obrigado a Winston Graça pela lembrança)

04 julho, 2013

Primo Levi. É ISTO UM HOMEM?

por Fernando Gurgel Filho
Dizem que sobreviventes são pessoas extremamente perigosas.
Talvez seja pelo fato de que, quando se chega ao fundo do poço, quando nada mais resta ao ser humano, nada mesmo, e se este sobrevive, resta um ser humano completamente livre e fortalecido para qualquer situação do cotidiano. O embate, às vezes cruel, do dia a dia torna-se apenas um leve e aprazível afazer cotidiano, e a vida, merecidas férias no paraíso terrestre.
Os que passaram pelas atrocidades dos campos de concentração nazistas e saíram vivos bem sabem disso.
Estes, antes de serem sobreviventes, foram aniquilados como seres humanos. Foram colocados em condições extremas de miséria humana, aonde o mais absurdo dos mais abjetos comportamentos puderam ser observados entre "aquilo" que, ainda há pouco, fora dos campos de concentração, era chamado de "ser humano".
Primo Levi, no livro "É Isto Um Homem?", conta-nos sua história no campo de concentração de Auschwitz. O livro, escrito logo depois de sua libertação e publicado em 1947, é um relato fiel de lembranças ainda bem nítidas de como seres humanos conseguem transformar outros seres humanos em lixo e coisas inúteis, apenas porque esses outros seres humanos não estão do mesmo lado de suas convicções, seja política/religiosa, seja porque não nasceram sob a mesma bandeira, com as mesmas características, mesmas caspas, mesmo chulé.
Ao entrar em Auschwitz lia-se no grande portão de entrada "ARBEIT MACHT FREI" - O trabalho liberta.


Conta Primo Levi que a lembrança daquela frase singela "ainda hoje me atormenta nos sonhos".
Auschwitz não era um campo de concentração comum - o que, por si só, seria uma vergonha para a humanidade - era um campo de extermínio. Ou seja, a possibilidade de um ser humano entrar lá e sair com vida era nula. Com o tempo - pouco tempo, diga-se de passagem -, a iminência da morte era uma constante e a degradação do ser humano chegava a pontos inimagináveis. De ambos os lados, tantos prisioneiros como seus carrascos.
Talvez não por acaso, ao terminar de ler este pequeno grande livro, lembrei-me imediatamente de um outro, "Vidas Secas". Do muito conhecido brasileiro Graciliano Ramos. Ali vemos como foram produzidos milhares e milhares de sobreviventes.
Lembrei-me também dos porões da ditadura brasileira, tão recente e tão esquecida dos brasileiros. Menos por aqueles que foram colocados abaixo da linha da miséria humana. Ali também foram produzidos milhares e milhares de sobreviventes.
Será que, um dia, a humanidade poderá se livrar dessas ameaças?
Apenas os jovens poderão nos dar essa resposta.

23 outubro, 2012

O sonho do ministro JB pode virar pesadelo

por Ramatis Jacino, VIOMUNDO

Negros que escravizam e vendem negros na África, não são meus irmãos
Negros senhores na América a serviço do capital, não são meus irmãos
Negros opressores, em qualquer parte do mundo, não são meus irmãos...
Solano Trindade

O racismo, adotado pelas oligarquias brasileiras para justificar a exclusão dos negros no período de transição do modo de produção escravista para o modo de produção capitalista, foi introjetado pelos trabalhadores europeus e seus descendentes, que aqui aportaram beneficiados pelo projeto de branqueamento da população brasileira, gestado por aquelas elites.
Impediu-se, assim, alianças do proletariado europeu com os históricos produtores da riqueza nacional, mantendo-os com ações e organizações paralelas, sem diálogos e estratégias de combate ao inimigo comum. Contudo, não há como negar que o conjunto de organizações sindicais, populares e partidárias, além das elaborações teóricas classificadas como “de esquerda”, sejam aliadas naturais dos homens e mulheres negros, na sua luta contra o racismo, a discriminação e a marginalização a que foram relegados.
No campo oposto do espectro ideológico e social, as organizações patronais, seus partidos políticos e as teorias que defendem a exploração do homem pelo homem, que classificamos de “direita”, se baseiam na manutenção de uma sociedade estamental e na justificativa da escravidão negra, como decorrência “natural” da relação estabelecida entre os “civilizados e culturalmente superiores europeus” e os “selvagens africanos”.
[...]
As elites brasileiras sempre utilizaram indivíduos ou grupos, oriundos dos segmentos oprimidos para reprimir os demais e mantê-los sob controle. Capitães de mato negros que caçavam seus irmãos fugidos, capoeiristas pagos para atacarem terreiros de candomblé, incorporação de grande quantidade de jovens negros nas polícias e forças armadas, convocação para combater rebeliões, como a de Canudos e Contestado, são exemplos da utilização de negros contra negros ao longo da nossa história.
Havia entre eles quem acreditasse ter conquistado de maneira individual o espaço que, coletivamente, era negado para o seu povo, iludindo-se com a ideia de que estaria sendo aceito e incluído naquela sociedade. Ansiosos pela suposta aceitação, sentiam necessidade de se mostrarem confiáveis, cumprindo a risca o que se esperava deles, radicalizando nas ações, na defesa dos valores dos poderosos e da ideologia do “establishment” com mais vigor e paixão do que os próprios membros das elites. A tragédia, para estes indivíduos – de ontem e de hoje -, se estabelece quando, depois de cumprida a função para a qual foram cooptados são devolvidos à mesma exclusão e subalternidade social dos seus irmãos.
[...]
A esquerda, por suas origens e compromissos, em que pese o fato de existirem pessoas racistas que se auto intitulam de esquerda, comporta-se de maneira diversa: foi um governo de esquerda que nomeou cinco ministros de Estado negros; promulgou a lei 10.639, que inclui a história da África e dos negros brasileiros nos currículos escolares; criou cotas em universidades públicas; titulou terras de comunidades quilombolas e aprofundou relações diplomáticas, econômicas e culturais com o continente africano.
Joaquim Barbosa se tornou o primeiro ministro negro do STF como decorrência do extraordinário currículo profissional e acadêmico, da sua carreira e bela história de superação pessoal. Todavia, jamais teria se tornado ministro se o Brasil não tivesse eleito, em 2003, um Presidente da República convicto que a composição da Suprema Corte precisaria representar a mistura étnica do povo brasileiro.
Com certeza, desde a proclamação da República e reestruturação do STF, existiram centenas, talvez milhares de homens e mulheres negras com currículo e história tão ou mais brilhantes do que a do ministro Barbosa.
Contudo, nunca passou pela cabeça dos presidentes da República – todos oriundos ou a serviço das oligarquias herdeiras do escravismo – a possibilidade de indicar um jurista negro para aquela Corte. Foi necessário um governo de esquerda, com todos os compromissos inerentes à esquerda verdadeira, para que seu mérito fosse reconhecido.
A despeito disso, o ministro Barbosa, em uníssono com o Procurador Geral da República, considera não haver necessidade de provas para condenar os réus da Ação Penal 470. Solidariza-se com as posições conservadoras e evidentemente ideológicas de alguns dos demais ministros e, em diversas ocasiões procura ser “mais realista do que o próprio rei”.
Cumpre exatamente o roteiro escrito pela grande mídia ao optar por condenar não uma prática criminosa, mas um partido e um governo de esquerda em um julgamento escandalosamente político, que despreza a presunção de inocência dos réus, do instituto do contraditório e a falta de provas, como explicitamente já manifestaram mais de um dos integrantes daquela Corte.
Por causa “desses serviços prestados” é alçado aos céus pela mesma mídia que, faz uma década, milita contra todas as iniciativas promotoras da inclusão social protagonizadas por aquele governo, inclusive e principalmente, àquelas que tentam reparar as conseqüências de 350 anos de escravidão e mais de um século de discriminação racial no nosso país.
O ministro vive agora o sonho da inclusão plena, do poder de fato, da capacidade de fazer valer a sua vontade. Vive o sonho da aceitação total e do consenso pátrio, pois foi transformado pela mídia em um semideus, que “brandindo o cajado da lei, pune os poderosos”.
Não há como saber se a maximização do sonho do ministro Joaquim Barbosa é entrar para a história como um juiz implacável, como o mais duro presidente do STF ou como o primeiro presidente da República negro, como já alardeiam, nas redes sociais e conversas informais, alguns ingênuos, apressados e “desideologizados” militantes do movimento negro.
O fato é que o seu sonho é curto e a duração não ultrapassará a quantidade de tempo que as elites considerarem necessário para desconstruir um governo e um ex-presidente que lhes incomoda profundamente.
Elaborar o maior programa de transferência de renda do mundo, construir mais de um milhão de moradias populares, criar 15 milhões de empregos, quase triplicar o salário mínimo e incluir no mercado de consumo 40 milhões de pessoas, que segundo pesquisas recentes é composto de 80% de negros, é imperdoável para os herdeiros da Casa Grande. Contar com um ministro negro no Supremo Tribunal Federal para promover a condenação daquele governo é a solução ideal para as elites, que tentam transformá-lo em instrumento para alcançarem seus objetivos.
O sonho de Joaquim Barbosa e a obsessão em demonstrar que incorporou, na íntegra, as bases ideológicas conservadoras daquele tribunal e dos setores da sociedade que ainda detém o “poder por trás do poder” está levando-o a atropelar regras básicas do direito, em consonância com os demais ministros, comprometidos com a manutenção de uma sociedade excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária.
A aproximação com estes setores e o distanciamento dos segmentos a quem sua presença no Supremo orgulha e serve de exemplo, contribuirão para transformar seu sonho em pesadelo, quando àqueles que o promoveram à condição de herói protagonizarem sua queda, no momento que não for mais útil aos interesses dos defensores do “apartheid social e étnico” que ainda persiste no país.
Certamente não encontrará apoio e solidariedade nos meios de esquerda, que são a origem e razão de ser daquele que, na Presidência da República, homologou sua justa ascensão à instância máxima do Poder Judiciário. Dos trabalhadores das fábricas e dos campos, dos moradores das periferias e dos rincões do norte e nordeste, das mulheres e da juventude, diretamente beneficiados pelas políticas do governo que agora é atingido injustamente pela postura draconiana do ministro, não receberá o apoio e o axé que todos nós negros – sem exceção – necessitamos para sobreviver nessa sociedade marcadamente racista.

Ramatis Jacino (foto) é professor, mestre e doutorando em História Econômica pela USP e presidente do INSPIR – Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial.

17 fevereiro, 2011

A presença do acaso em nossas vidas

1. Introdução
O que é “acaso”?
Segundo os dicionários, acaso é "um conjunto de pequenas causas independentes entre si, que se prendem a leis ignoradas ou mal conhecidas, e que determinam um acontecimento qualquer".
É de se notar que, na definição de "acaso", existe uma ligação direta entre causa e efeito, causa e consequência e que, mesmo desconhecendo a causa, esta foi determinante para o acontecimento.
Em outras palavras, quando observamos a ocorrência de um fato, mas dizemos que o "acaso" provocou, é porque não conhecemos a causa que foi determinante para o acontecimento.
E se o acaso puder ser definido de outra forma? Se definirmos o acaso como a ausência de causa ou como algo que pode ter se originado de tantas outras causas - nenhuma determinante em si mesma para a ocorrência e, ainda, possivelmente sem nenhuma conexão entre si - e que podemos dizer com certeza que não existe causa ou série causal que a determinou? É possível?
Creio que sim e é isso que ocorre em nossas vidas. Religiões, superstições, conhecimento, relacionamentos, mandingas, simpatias, são apenas formas como tentamos agir sobre nossas vidas esperando conseguir um resultado previsível.
Entretanto, o resultado que pretendemos alcançar como, por exemplo, sucesso profissional ou acertar na loteria, não está vinculado diretamente a nenhum desses fatores e pode até ter sido determinado por fator nenhum. Apenas aconteceu por mero acaso. E neste caso, estamos querendo dizer que nenhuma causa foi determinante para o resultado alcançado.
Aí, o nosso cérebro dá um nó, porque, a imensa maioria das pessoas, dentre as quais podemos citar filósofos, cientistas e outros estudiosos, rejeita a ideia da existência de um acontecimento sem uma causa que o determinou. Seria algo como, em física, dizer que observamos uma reação sem ter havido qualquer ação anterior.
2. Determinismo
Existe corrente filosófica que rejeita veementemente a ideia de acaso. Para esses pensadores não existe acaso. Assim, não existem causas independentes e desconhecidas, existe apenas o desconhecimento do início de onde se originou a causa. E, ainda segundo essa corrente, as explicações estariam no início do Universo onde tudo o que aconteceu ou acontecerá já teria sido determinado. Essa corrente de pensamento é chamada de "determinista".
Foi Laplace quem deu a maior contribuição ao determinismo ao afirmar que, não existindo o que chamamos de acaso, é possível achar explicação para qualquer evento. Segundo ele, se existisse uma inteligência que pudesse conhecer todas as forças que atuam ou que atuaram sobre o Universo desde o seu nascimento, essa inteligência poderia explicar qualquer acontecimento, mostrando suas causas. Poderia, também, predizer, a partir de uma situação presente, tudo que iria acontecer a partir daí.
Os deterministas são de opinião que, em todo o Universo, todos os corpos e forças atuam uns sobre os outros de forma que sempre haverá um encadeamento obrigatório e lógico entre os acontecimentos.
Em suma, para os deterministas, tudo está escrito e nada acontece por acaso e, portanto, nada acontece sem uma finalidade já definida no início dos tempos.
3. Livre arbítrio
Em oposição ao determinismo, existe uma outra corrente que defende a existência, não de uma causa única e primordial, mas de “cadeias de causas e efeitos interligadas onde um fenômeno determina um outro, que determina um outro..., e juntos eles constituem uma série causal”. Assim, dentro de cada cadeia causal é possível localizar a causa de cada ocorrência. Uma série causal poderia ser, então, completamente independente de uma segunda.
Duas séries causais seriam consideradas independentes quando não existisse um elo de ligação entre elas. Como exemplo, citam a ocorrência de um eclipse, ao mesmo tempo em que verifica que o pneu de seu carro furou. Por serem fenômenos sem nenhum elo de ligação entre si, podemos dizer que o furo do pneu ocorreu por acaso, não tem nada a ver com o eclipse.
Caso o eclipse tivesse provocado intensa escuridão e, em consequência, o carro tivesse caído em um buraco e furado o pneu, poderíamos dizer que duas séries causais independentes (o eclipse e o fato do autor estar na rua com seu carro) se cruzaram resultando em uma terceira série causal: o furo no pneu do carro.
Segundo essa entendimento a respeito do acaso, ainda que todos os fatos ocorram dentro de um mesmo Universo, a existência de fatos isolados dos demais justificaria o livre arbítrio. No pensamento determinístico não há espaço para o livre arbítrio, tudo já estaria determinado e ocorreria de acordo com o preestabelecido. A aceitação da existência de séries causais independentes resulta na convicção de que o homem pode evitar que séries causais independentes se cruzem, podendo, também, criar suas próprias séries causais que gerariam consequências previsíveis.
Essa corrente de pensamento levou o ser humano a acreditar em resultados, bons ou maus, advindo de deuses, em atos praticados em vidas passadas, em atos praticados por ele ou seus antepassados, na bondade dos santos, bem como em mandingas, simpatias e superstições sem fim. Ou seja, com o livre arbítrio, o ser humano, ao invés de se sentir livre para tomar as rédeas de seus próprios resultados, ficou preso a fatores e crenças que, na sua imaginação, seriam determinantes para criação de séries causais propícias ao resultado que ele estava procurando.
Isso acontece porque é muito difícil para o ser humano aceitar consequências sem causas diretas, bem como reação sem ação anterior que a provocou. Tudo porque tendemos a procurar padrões e, nos relacionamentos humanos e suas consequências, pode não existir um padrão para as causas nos resultados observados, mesmo que sejam iguais ou parecidos com os milhares de resultados que ocorrem em torno de nós.
Não que a causa seja desconhecida ou não possa ser apurada. Mas um mesmo resultado pode ter sido obtido por várias causas sobre as quais não temos controle, podemos apenas inferir o grau de probabilidade de um evento ocorrer sob várias causas possíveis.
4. Aleatoriedade
Segundo alguns estudiosos, essa aparente dificuldade em aceitar a ideia do acaso em sua definição mais correta é porque resultaria na aceitação de que os corpos que compõem o Universo não tem, nem nunca tiveram, qualquer relação de causa e efeito direta. Rejeitam a ideia de que todos os acontecimentos, inclusive o início do processo que resultou no Universo como hoje o conhecemos, seriam obra do mais puro acaso.
A partir daí, uma outra corrente vem se destacando, aceitando a ocorrência de séries causais independentes, que consideram aleatórias, ou seja, sem um padrão definido, e rejeitam a tese de que o ser humano pode atuar sobre essas séries causais de forma a gerar resultados previsíveis.
Os índios canadenses têm uma frase que resume isto muito bem: "Formigas montadas em um tronco descendo o rio têm a certeza de que o estão dirigindo".
Assim, não tendo como gerar resultados previsíveis, todos os humanos, por mais conscientes que sejam e por mais visão de futuro que tenham, irão se deparar a todo momento com o mais puro jogo de dados, onde existem apenas probabilidades de acertar qualquer dos números em uma jogada qualquer.
Por isso, existem pensadores que afirmam ser a determinação e a persistência mais importantes para a obtenção de um bom resultado em uma carreira profissional ou empresarial, por exemplo, do que a inteligência, sabedoria ou conhecimento acumulado.
Calvin Coolidge, um dos Presidentes dos Estados Unidos, chegou a afirmar que: “Nada no mundo pode substituir a persistência. O talento não pode. Nada é mais comum do que pessoas talentosas frustradas. A genialidade não pode. O gênio não recompensado é quase proverbial. A educação não pode. O mundo está cheio de fracassados instruídos. Apenas a persistência e a determinação são onipotentes.”
Diante da aleatoriedade que cerca a existência humana, probabilidades de acerto resultam, então, mais da quantidade de ações desenvolvidas em uma determinada direção do que qualquer outro fator que esteja sob nosso controle ou que venhamos a controlar.
Leonard Mlodinov, em "O Andar do Bêbado", define bem: "...um dos importantes fatores que levam ao sucesso está sob nosso controle: o número de vezes que tentamos rebater a bola, o número de vezes que nos arriscamos, o número de oportunidades que aproveitamos. Pois até mesmo uma moeda viciada que tenda ao fracasso às vezes cairá do lado do sucesso."
Então, "tente outra vez", como diria o sábio Raulzito.

Fernando Gurgel Filho
Sobradinho-DF, 18 de maio de 2010.

Bibliografia
Entler, Ronaldo - "Definição do acaso”, texto publicado no portal http://www.entler.com.br/, 1997;
Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda - "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro-RJ, 1998;
Gray, John - "Cachorros de Palha", 6ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro-RJ, 2009;
Mlodinov, Leonard - "O Andar do Bêbado", Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 2009.