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07 março, 2026

O Mata-sete

Nelson José Cunha
Nove horas da manhã, e a campainha toca furiosa. Santinha corre à porta ainda de camisola, o coração na boca.
 É você, Ribamar? Já voltou tão cedo?
Ele nem responde. Entra atropelando tudo, direto para o banheiro, deixando um rastro de odor fétido e humilhação. Lá de dentro, entre gemidos de alívio e vergonha, vem o desabafo:
 Fiz nas calças, mulher! O maior vexame da minha vida! Recusei duas corridas no caminho porque não podia parar o táxi. Estava todo cagado...
Ribamar era taxista novato - só um ano de praça. Já ouvira, nas rodinhas, histórias de partos no banco de trás, malas de dinheiro esquecidas e cantadas perigosas. Com ele, nada. Atribuía a calmaria ao muiraquitã no peito, presente da avó maranhense, índia Tembé. Ela ensinara o ritual: ao sair de casa, apertar a rãzinha de pedra e sussurrar: Muyrakitan katu!
Naquele dia, levantou cedo para a feira em Floriano. Na estrada, viu um carro enguiçado e três homens acenando. Parou, crente de que a sorte o visitava. Um com maleta e dois com sacolas subiram no carro.
O mais falante, que parecia o chefe, sentou-se à frente. Mal o Fusca arrancou, ele resmungou:
 Mata-sete, mostra a escopeta pro motorista. Ele quer ver a grossura do cano.
Ribamar gelou. Olhou pelo retrovisor: roupas amarrotadas, malas suspeitas. O coração começou a tamborilar.
 Não, senhor! Não quero ver!  gaguejou, tremendo tanto que o volante parecia vivo.
O bandido deu uma risada intimidadora:
 Vamos aproveitar o táxi e fazer mais um serviço em Guadalupe. Você passa a escopeta para o motorista, ele dá cobertura. Em seguida, escondemos o dinheiro na casa dele.
O da maleta, o tal Mata-sete, alertou:
 Rubens... cuidado.
 Cuidado o quê? Com quatro assaltantes fica mais fácil!
Humberto, o terceiro, completou:
 Precisamos esconder o dinheiro e as armas em sua casa, sim, senhor.
Ribamar sentiu o mundo girar. Pensou no filho que ia nascer, na mãe velha, na própria vida por um fio. Invejava o burrinho magro à beira da estrada. Queria ser qualquer coisa  preá, sabiá, pedra  menos refém daquelas feras.
Agarrava o amuleto com tanta força que rasgou a camisa.
 Muyrakitan katu!
 Muyrakitan katu!
Repetia sem parar.
O Fusca trepidava nas costelas do chão de terra. O sol piauiense já transformava o carro numa fornalha. Foi então que o corpo de Ribamar cedeu. O inevitável aconteceu: o medo tomou conta, e o que devia ficar firme se soltou.
 Que cheiro de merda é esse?  berrou o chefe, quase cambaleando.  Está fazendo carreto de esterco, motorista?
 Não, senhor - respondeu Ribamar com calma súbita, a calma dos derrotados.  É bosta própria. Me distraí com a elevada palestra de Vossa Excelência e afrouxei... "os ânus". Coragem para assalto eu ainda não tenho muita. E não posso ir ao banco de Guadalupe, não. Recebi carta de cobrança. Estou com três prestações do carro atrasadas!
A fedentina se espalhou rapidamente, insuportável no calor fechado. Os bandidos tossiram, xingaram, abriram as janelas, lutando por oxigênio. Não aguentaram. Mandaram parar e desceram em debandada, sumindo pelo mato, fugindo do cheiro da morte - que, afinal, era apenas o cheiro da vida em pânico.
Ribamar, aliviado em todos os sentidos, fez o caminho de volta... cagado, mas finalmente em paz.

21 março, 2025

Vamos ver o que o tempo traz

Era uma vez um agricultor muito humilde, mas muito sábio, que trabalhava arduamente a terra de sol a sol junto com seu filho.
Um dia, o filho lhe disse: "Pai, uma desgraça aconteceu conosco, o cavalo desapareceu".
O pai respondeu: "por que você acha que é uma desgraça? Vamos ver o que o tempo traz."
Alguns dias depois, o cavalo voltou, acompanhado por outro cavalo. Então o filho disse: "pai, que sorte, nosso cavalo trouxe outro cavalo". O pai disse novamente "por que você acha que é sorte? Vamos ver o que o tempo traz".
Depois de alguns dias, o rapaz quis montar o cavalo recém-chegado e este, não acostumado ao cavaleiro, ficou furioso e o jogou no chão. E o jovem quebrou a perna.
O rapaz exclamou: "Pai, que desgraça, quebrei minha perna!" E o pai, com sua experiência e sabedoria, disse: "Por que você chama isso de desgraça? Vamos ver o que o tempo traz." O jovem não estava completamente convencido da filosofia do pai, mas recolheu-se em sua cama.
Alguns dias depois, os enviados do rei atravessaram a aldeia, procurando jovens para levá-los à guerra, chegaram à casa do camponês e viram o jovem com a perna quebrada, deixando-o e continuando o caminho.
O jovem entendeu então que, em muitas ocasiões o que parece um infortúnio é uma bênção disfarçada. Que sorte ou azar não são acontecimentos absolutos, e que é preciso ver o que o tempo traz.

https://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=14843

11 outubro, 2023

O sapo saltador do Condado de Calaveras


Este conto de Mark Twain, de 1865, gira em torno de um personagem, Jim Smiley, que cria um sapo que ele chama de Dan'l Webster. Smiley treinou-o para pular uma longa distância e se gaba de que seu sapo pode "pular mais que qualquer sapo no condado de Calaveras".
Um dia, um estranho recém-chegado a Calaveras diz que não acha que o sapo de Smiley seja diferente de qualquer outro. Ele inclusive aposta quarenta dólares que possui outro sapo capaz de superar Dan'l Webster.
Deixado sozinho com o sapo campeão, o estranho o alimenta subrepticiamente para que ele não consiga pular.
Mais tarde, todos os habitantes do condado comparecem na praça da aldeia para ver o resultado da aposta. E ficam surpesos quando Dan'l não consegue dar nem um pequeno salto.
Entre as lamentações dos espectadores, o estranho embolsa o dinheiro das apostas e começa a sair. Quando Dan'l começa a vomitar um chumbo gosso - chumbo de espingarda! O estranho é então arrastado de volta, dispensado de seus ganhos e expulso do condado para sempre. Enquanto todos se unem para elogiar Dan'l Webster - ainda o campeão de salto do condado de Calaveras.

Sinopse do libreto da ópera de Lukas Foss e Jean Karsavina, baseada no conto "The Celebrated Jumpipng Frog of Calaveras County", de Mark Twain (1865)

17 agosto, 2023

A árvore antropófaga






Contos de plantas assassinas eram populares no final do século XIX.
Em 1887, o autor americano James William Buel descreveu a fantástica árvore antropófaga Ya-te-veo (espanhol para "Já te vejo") em seu livro Land and Sea.
É provável que esse criptídeo vegetal não passe de uma versão exagerada das plantas carnívoras reais.

17 março, 2023

O touro Ferdinando

"Era uma vez na Espanha um jovem touro e seu nome era Ferdinando." Assim começa o clássico infantil de 1936 sobre um touro que prefere as flores à luta. "Ferdinand the Bull" (El toro Ferdinand) foi um sucesso instantâneo, popular entre todos os usuários de sandálias e bebedores de suco de frutas, de Eleanor Roosevelt a Gandhi. Hitler, naturalmente, mandou queimar o livro pois continha propaganda pacifista.
Eu? Sempre tive uma queda por isso – uma fraqueza compartilhada pelo matador mais famoso de todos, Juan Belmonte. Adorei a versão do filme animado de 2017, com sua representação impecável de Las Ventas, a praça de Madri.
O que a maioria das pessoas não sabe é que a história de Munro Leaf, de 1936, foi baseada em fatos reais. O Ferdinando da vida real era um belo touro preto chamado Civilón, nascido nos pastos de sobreiro em torno de Salamanca. Os touros jovens aprendem a usar seus chifres praticando esgrima com seus irmãos e, após um grave corte, Civilón fez amizade com Carmelita, a filha de sete anos de seu criador.
Algo inédito. Um touro lutador é criado para arremessar em qualquer desafiante que ele percebe. Exclusivamente entre os herbívoros, ele atacará, não por autodefesa ou medo, mas por aquilo que só pode ser chamado de coragem. No entanto, ali estava um touro bravo que, aparentemente, havia  renunciado à sua herança.
As pessoas vinham de toda a Espanha para ver a visão extraordinária de um touro de briga comendo na mão de uma menina. Civilón era tão conhecido que os comentaristas de direita começaram a zombar do nome do infeliz primeiro-ministro republicano Santiago Casares Quiroga (coincidentemente, "civilón" também era um termo pejorativo que os soldados espanhóis usavam para civis).
Em junho de 1936, o astuto gerente da antiga praça de touros de Barcelona, La Monumental, contratou Civilón como um dos cordelinhos. Era a corrida da época: todo mundo queria ver se, assim que pisasse na arena, Civilón se lembraria de seu pedigree e atuaria. Ele o fez, sem hesitar, abaixando a cabeça e se lançando sobre o cavalo do picador.
A platéia levantou-se como um só homem para exigir o indulto, a preservação de um touro excepcional para que ele pudesse ser colocado em reprodução. O presidente, confrontado com uma petição unânime, consentiu, acenando com o lenço laranja, o que raramente é visto no ringue. Então o criador, o pai de Carmelita, Juan, chamou Civilón para o canto do ringue – e o touro, tão letal momentos antes, trotou mansamente para acariciar sua mão.
Um aficionado pode passar muitas temporadas sem ver um indulto . As touradas devem terminar com a morte do protagonista. Essa morte pode ser realizada espetacularmente ou não, dependendo da qualidade e coragem do matador (e de sua espada encontrar a aorta). Mas os próprios eventos são tão predeterminados quanto em uma tragédia grega – com a qual eles se assemelham muito. Se um touro ferir gravemente ou matar um matador, outro matador completará o rito.
Essa, pelo menos, é a teoria. Na realidade, a tourada passa por espasmos ocasionais de "indultismo". O problema é que todos ganham com esses perdões. Os espectadores sentem que fizeram parte de algo especial. O matador é poupado da parte mais perigosa da tarde - ter que passar por cima dos chifres do touro, para que um impulso para cima o estripe. O criador recebe sua mercadoria de volta. Mas se o indulto for banalizado, todo o ritual corre o risco de se tornar nulo.
O "indultismo" chegou perto de destruir a festa no México. E há sinais alarmantes de que está em ascensão na Espanha. Durante a primeira década deste século, havia, em média, dez indultos por ano – aproximadamente um para cada 300 touros. Em 2019 foram 43. Este ano, como os leitores regulares saberão, vi um indulto em cada uma das temporadas que assisti – Olivenza na Espanha e Béziers e Nîmes na França.
Quase 90 por cento das corridas espanholas foram canceladas nesta temporada, e o punhado que aconteceu teve pouca ou nenhuma audiência. No entanto, houve indultos em Astorga, Mérida, Valdepeñas, Andújar e Villanueva (assim como o de Olivenza). Os espectadores estão claramente compensando demais a triste temporada de bloqueio. Mas, ao fazer isso, eles estão criando uma ameaça que durará mais que o coronavírus.
Ah, e Civilón? A vida real não é uma história para crianças, e a Espanha tem uma confiabilidade mórbida. Duas semanas depois de sua aparição em Barcelona, a guerra civil eclodiu e Civilón foi massacrado e comido por milicianos vermelhos.

NORTH, Christopher. The pardoner's tale. The Critic. Trad.: PGCS

24 dezembro, 2022

Nicholas era ...

... mais velho que o pecado, e sua barba não podia ser mais branca.
Ele queria morrer.
Os pequenos nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas conversavam em sua própria e estranha linguagem, e conduziam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando em suas fábricas.
Uma vez por ano eles o forçavam, entre soluços e protestos, à Noite Interminável. Durante a jornada, ele deveria ir até cada criança do mundo e deixar um dos presentes invisíveis dos anões ao lado de suas camas. As crianças dormiam congeladas no tempo.
Ele invejava Prometeu e Loki, Sísifo e Judas. Sua punição era mais dura.
Ho.
Ho.
Ho.

por Neil Gaiman
http://youtu.be/D1bf90USDbM (o poema em vídeo)

28 outubro, 2022

Espelhos mágicos - 3

3 de 3
O Espelho Mágico é um elemento imprescindível ao filme de 1937, "Branca de Neve e os Sete Anões". Dentro dele habita o Escravo, um espírito aprisionado (semelhante a uma máscara teatral, cercada por fogo e fumaça) que sempre fala a verdade.
A introdução do filme (contada na forma de um livro) informa ao público que a Rainha todo dia consulta o Espelho Mágico para saber quem é a mais bela de todas. Enquanto o Escravo no espelho responde que é a Rainha, ela se mostra contente, sabendo que o Espelho Mágico nunca mente. 


(No entanto, receosa de que a sua enteada, Branca de Neve, possa um dia tornar-se mais bonita do que ela, a Rainha veste a menina em trapos e força-a a trabalhar como criada no castelo.)
Mas, um dia...
Rainha: Fala, Mágico Espelho meu. Quem é mais bela do que eu?
Espelho: Famosa é a vossa beleza, Majestade. Porém, há uma menina, entre nós, com tanto encanto e suavidade que eu digo: ela é mais bela do que vós.
Rainha: Pior para ela. Revela o seu nome.
Espelho: Lábios vermelhos como a rosa, cabelos negros como o ébano, pele branca como a neve.
Rainha: Branca de Neve!
A Rainha então ordena que o Caçador mate a enteada na floresta. Descumprindo a ordem, o Caçador manda a moça fugir. E, no retorno ao castelo, entrega à Rainha o coração de um bicho - como prova de que matou Branca de Neve na floresta.
Mas a Rainha fica sabendo a verdade em nova consulta ao Espelho Mágico.  
Espelho: Sobre as sete colinas de joias, além da sétima parede, na Cabana dos Sete Anões, mora Branca de Neve, a mais bela de todas.
Esta é a última aparição do Espelho no filme. O que acontece com ele não fica claro. Como o Caçador, o Espelho e o Escravo que o habita são personagens menores usados para fazer avançar a história.

Curiosidade. No Brasil, Almirante fez a voz do Espelho Mágico. O dublador é o cantor, compositor e radialista Henrique Foréis Domingues (RJ, 19 de fevereiro de 1908 — RJ, 22 de dezembro de 1980)

(Diga espelho meu se há na avenida alguém mais feliz que eu?) 

05 março, 2022

Um nome de artista

O nome do fino estabelecimento era Gatinha Mimosa. Ficava no interior do interior desse brasilzão.
O Gatinha Mimosa, com a apresentação erótica, ímpar, do par Vangoglewylson e Jupyara, era a sensação entre os melhores nomes da cidade. A apresentação do par, com suas estrepolias eróticas, era feita em cima de uma rede de "dormir". Sucesso estrondoso de público.
Na realidade, o nome do brilhante ator era Vanglewylson, mas, por causa de uma cabrita solta nos muros do vizinho, houve uma briga feia entre ele e o tal vizinho. Até hoje discute-se, em voz baixa, entre todos os fãs e fofoqueiros do lugar os motivos porque os vizinhos brigaram por causa de uma cabrita. As histórias são muitas e, por uma questão de princípios, melhor não incluir neste relato.
Na briga, de peixeira, murros e pontapés, Vanglewylson teve a orelha decepada pela peixeira do vizinho.
Atendido na farmácia da cidade, o farmacêutico, única pessoa alfabetizada do local, passou a chamar o profissional das artes cênicas por Vangoglewylson. Com perdão do verdadeiro pintor e de sua orelha.
Todo mundo achou estranho, pois não sabiam explicar o apelido, mas todos gostaram da pompa do nome, inclusive o que pintava o sete na rede de "dormir" e sua companheira de "palco".

Fernando Gurgel Filho

11 dezembro, 2020

O jogador de xadrez turco

O jogador de xadrez turco de Maelzel era uma máquina que realmente existia. Construída em 1769, por Wolfgang von Kempelen, foi exibida nos séculos XVIII e XIX em feiras e teatros em Paris, Viena, Londres e Nova Iorque.
Em 1783, em seu hotel em Paris, Benjamin Franklin recebeu uma carta de Wolfgang von Kempelen,  convidando-o a ver e jogar com o autômato que jogava xadrez turco, além de caso quisesse inspecionar a máquina.
Franklin aceitou o desafio e, alguns dias depois, jogou xadrez turco com a máquina no Café de la Regence e perdeu. Embora Franklin fosse um amante do xadrez, ele não mencionou esse evento em nenhuma de suas correspondências, talvez, alguns explicam, porque ele era conhecido como sendo um mau perdedor.  [Tom Standage, The Turk, 2002 Walker Publishing]
Quando Von Kempelen morreu, seu filho vendeu a máquina para Nepomuk Maelzel, um violinista de Viena que também inventou dispositivos musicais como o metrônomo.
Edgar Allan Poe testemunhou uma demonstração do funcionamento da máquina e escreveu o ensaio "Maelzel's Chess Player"  para demonstrar que era uma fraude.[EA Poe: histórias curtas completas (tradução por J. Cortázar), Alianza Editorial, Madri, 2002]
Os aficionados por Poe notaram que o artigo tem um tom, uma voz notavelmente semelhante ao discurso de Dupin em "Os assassinatos na rua Morgue". Na verdade, existem muito mais interseções entre o artigo e o conto. Vários elementos em comum levam a acreditar que houve uma transposição de um para o outro:
Nos dois casos, temos uma sala trancada. Na história, a polícia não sabe explicar como o assassino poderia ter entrado ou saído do local, já que todas as portas e janelas estavam trancadas por dentro. No artigo, o objetivo de Poe é determinar se, dentro da máquina, um ser humano estavria escondido ou se ela continha, como Maelzel gostaria de que sua audiência acreditasse, apenas mecanismos.
Poe descreve em detalhes o ato de Maezel no palco: antes de fazer a máquina jogar xadrez, ele andava pelo palco rolando o autômato à sua frente, enquanto abria e fechava compartimentos e gavetas na máquina para mostrar que ela continha apenas elementos mecânicos. Ele propõe que Maelzel abria e fechava esses compartimentos e gavetas em uma ordem precisa, que permitia que uma pessoa no interior da máquina deslizasse um painel interno e se movesse no momento certo, e assim permanecer oculta. E conclui que, apesar da mecânica da máquina sempre à vista, sempre havia um espaço trancado em seu interior.
Este painel deslizante interno constitui parte da solução de Poe para a farsa no artigo. Ele é transposto para o conto, onde se torna uma janela deslizante que também constitui parte da solução para o mistério da sala trancada de Dupin. Descobre-se que o orangotango entra no apartamento por uma janela e, por acaso, um prego na moldura da janela trava a janela ao sair. O animal, em outras palavras, como a suposta pessoa dentro da máquina, se move graças a um mecanismo deslizante e, portanto, permanece oculto aos vizinhos que chegam ao local no momento em que o assassinato estava ocorrendo. [http://epistemocritique.org/why-an-ourang-outang/]
De fato, como foi mostrado mais adiante, não era a máquina que jogava xadrez, já que havia uma pessoa dentro dela - o jogador de xadrez francês Jacques Mouret - que era quem realmente a controlava.

30 setembro, 2020

O Princípio de "Cachinhos Dourados"

É assim chamado por analogia à história infantil "Cachinhos Dourados e os Três Ursos" (Goldilocks and the Three Bears, em inglês), em que uma garotinha chamada "Cachinhos Dourados" prova três tigelas diferentes de mingau e prefere o mingau que não é nem muito quente nem muito frio, mas que tem a temperatura ideal. Como a história infantil é bem conhecida entre diferentes culturas, o conceito de "a quantidade ideal" é facilmente compreendido e aplicado em diversas áreas, incluindo psicologia do desenvolvimento, biologia, astronomia, economia e engenharia.


Em astrobiologia, a Zona de Cachinhos Dourados refere-se à zona habitável em torno de uma estrela: como disse Stephen Hawking: "como Cachinhos Dourados, o desenvolvimento de vida inteligente requer que as temperaturas planetárias sejam 'ideais'".

21 abril, 2020

Ser tão explosivo

Sobre este assunto, uma vez escrevi um conto assim:

Naquele dia estava sozinho no escritório.
E o estômago doía tanto que o suor frio escorria pela testa. As tripas se remexiam, barulhentas...
Foi ao banheiro. Apesar de muito educado, muito contido, como estava sozinho, resolveu soltar tudo com força.
"Danem-se todos", pensou, "se fizesse um barulhão. Estava só. Ninguém ouviria."
Sentou-se no vaso sanitário e peidou. Bem alto. Soltou todos os gases acumulados. Alívio imediato. Parecia ter alcançado a liberdade completa, até da alma. E alcançou.
Viu apenas um clarão e ouviu um barulho ensurdecedor. O prédio tremeu e o calor desintegrou tudo.
Deve ter sido o único ser humano que peidou no epicentro de uma bomba atômica.
Como em toda sua vida, teve tempo apenas para começar a sentir-se culpado. Não teve tempo para sentir-se culpado por inteiro.
Muito menos de saber que não teve nenhuma culpa.

Fernando Gurgel Filho

Curiosidades
  • Escritores famosos discutiram o fenômeno da flatulência. Shakespeare mencionou-a em cinco peças. Benjamin Franklin publicou um ensaio intitulado "Fart Proudly" (Peido com Orgulho).
  • No Brasil, Moacir Scliar fez uma revisão sobre o assunto.
  • Em um dia, você compartilha gás suficiente para encher um balão de festa.
  • O metano, um dos gases intestinais, é altamente inflamável. Um celeiro na Alemanha cheio de vacas peidorreiras pegou fogo.
  • Os Yanomamis na floresta amazônica se cumprimentam peidando. CARECE DE CONFIRMAÇÃO

07 maio, 2019

Encontros com o Inominável

Conta Machado de Assis que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja?
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele.
Capítulo III - A boa nova aos homens
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento. (...)
[http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000195.pdf]

Em "A Comédia Divina", inspirada no conto "A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, a atriz Mônica Iozzi é uma jornalista que tenta entrevistar o diabo (Murilo Rosa), que fundou uma igreja para difundir suas "virtudes" e conquistar fiéis. Mas ela não esperava que o demônio fosse tão sedutor.
[https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2017/10/06/monica-iozzi-tem-encontro-com-o-diabo-em-cena-de-a-comedia-divina-veja.htm]



Da confissão público-privada de Dave Pacheco:
Corri para o Diabo que esperava por mim.
Ele disse: você demorou tanto.
Eu disse: o tráfego foi um inferno.
Ele disse: você não tem ideia.
[https://plus.google.com/107246182325732580542]

26 abril, 2019

O Conde Lucanor - 4

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ("Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto IV - O que, ao morrer, disse um genovês à sua alma
Don Juan Manuel
Tradução PGCS
Um dia, o Conde Lucanor falava com seu conselheiro Patrônio e disse-lhe o seguinte:
— Patrônio, graças a Deus, eu tenho minhas terras bem cultivadas e pacificadas, assim como de tudo que preciso de acordo com meu estado e, por sorte, talvez mais, de acordo com meus colegas e vizinhos, alguns dos quais me aconselham a começar um negócio de certo risco. Mas, embora eu sinta grande desejo de fazê-lo, por causa da confiança que tenho em você, eu não queria começá-lo até me aconselhar com você sobre o que fazer nesse assunto.
— Senhor Conde Lucanor, disse Patrônio, para você fazer o que for mais conveniente, eu gostaria muito de lhe contar o que aconteceu com um genovês.
O conde pediu que ele fizesse isso.
Patrônio começou:
— Senhor Conde Lucanor, havia um genovês muito rico e muito afortunado, na opinião de seus vizinhos. Este genovês ficou seriamente doente e, percebendo que estava morrendo, reuniu parentes e amigos e, quando chegaram, mandou chamar sua esposa e filhos; Ele se sentou em uma sala muito bonita de onde o mar e a costa podiam ser vistos. Ele trouxe as suas joias e riquezas e, quando as teve perto, começou a gracejar com sua alma:
"Alma, bem vejo que você quer deixar-me e não sei porquê, pois se busca minha esposa e filhos, aqui os tem tão maravilhosos que pode se sentir satisfeita; se busca parentes e amigos, aqui também os tem, muitos e muito distintos; se busca prata, ouro, pedras preciosas, joias, tapeçarias, mercadorias para o tráfego, aqui você os tem em tal quantidade que nunca cobiçará mais; se busca navios e galés que produzem riqueza e aumentam sua honra, lá estão eles, no porto visto desta sala; se busca terras férteis e jardins, que também são frescos e agradáveis, eles estão sob essas janelas; se você quer cavalos e mulas e aves e cães para a caça e para o seu divertimento, e até mesmo menestréis para acompanhá-lo e distraí-lo; se busca uma casa suntuosa, bem equipada com camas e estrados e quantas coisas sejam necessárias, você não vai perder nada. E desde que você não está satisfeita com tantos bens nem deseja apreciá-los, é evidente que você não os quer. Se, então, prefere ir em busca do desconhecido, vá com a ira de Deus, que será muito néscio quem se aflija pelo mal que lhe suceder."
— E você, Sr. Conde Lucanor, graças a Deus está em paz, com bem e com honra, eu acho que não será sábio arriscar o que agora possui para começar o negócio que foi aconselhado, porque talvez esses conselheiros lhe digam isso porque eles sabem que, uma vez que se envolva nesse assunto, ao fazer o que eles querem seguindo a vontade deles, enquanto que agora que você está em paz, eles que seguem a sua vontade. E talvez pensem que assim conseguirão prosperar, o que não conseguiriam enquanto você vive em paz, como o que sucedeu ao genovês com sua alma. É por isso que eu prefiro aconselhá-lo que, enquanto você pode viver com paz e sossego, sem perder nada, não se junte a uma empresa onde você tem que arriscar tudo.
O Conde ficou muito satisfeito com este conselho dado por Patrônio, agiu de acordo com ele e obteve resultados muito bons.
E quando Dom Juan ouviu esta história, considerou-a boa, mas não quis fazer versos novamente, porém terminou com este dito que foi difundido entre as mulheres idosas de Castela:
Quem estiver bem sentado, não se levante.

www.cervantesvirtual.com

22 março, 2019

O anel jogado no lago

"Precisamos da natureza - água, sol, ar - para sobreviver, mas ela realmente não precisa de nós. Ela é generosa conosco, mas ela tem algumas condições, e nós temos que respeitá-las." ~ Rachel Carson, bióloga e pioneira do conservacionismo
Água: uma celebração impressionante do elemento da vida baseado no folclore indiano
É a história de sete irmãs, enviadas pelos pais para encontrar água. Depois de andarem o dia todo subindo e descendo morros, elas finalmente chegaram a um lago - mas ficava muito abaixo delas, e portanto inacessível. Testemunhando sua luta e desânimo, o lago teve pena delas e fez uma oferta - ele se elevaria se elas lhe dessem seu bem mais precioso.
Dispostas a fazer qualquer coisa pela água, as irmãs concordaram, e a mais jovem tirou um lindo anel do dedo e jogou no lago. A água subiu rapidamente, as irmãs encheram as panelas e ficaram muito contentes.
Ilustração: Tara Books
Mas assim que elas se preparavam para voltar para casa, a irmã mais nova começou a chorar, lamentando ter sacrificado o anel. Ela o queria de volta. Suas irmãs insistiram que haviam feito uma barganha com o lago, por isso tendo que honrar o compromisso. Mas não havia como fazer a irmã mais nova mudar de ideia. Recusando-se a abandoná-la, as outras seis mulheres relutantemente começaram a procurar pelo anel. E todas desceram para a água, entraram no escuro e desapareceram, para nunca mais serem vistas - o lago as engolira por terem quebrado sua promessa.
O anel na história representa uma barganha que as irmãs fizeram com o lago - uma promessa que elas então quebraram. Quando se vai contra uma barganha e se torna ganancioso, a natureza castiga como o lago fez com as sete irmãs. Suas leis são rigorosas.

Maria Popova, Brain Pickings

30 novembro, 2018

O Conde Lucanor - 3

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ("Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto VI - O que aconteceu com a andorinha e os outros pássaros depois da semeadura do linho
Don Juan Manuel
Trad.: PGCS
Novamente, quando o conde Lucanor estava conversando com Patrônio, seu conselheiro, ele disse:
— Patrônio, me asseguram que alguns nobres, que são meus vizinhos e muito mais fortes do que eu, estão se reunindo contra mim e que, com artes más, procuram uma maneira de me prejudicar. Eu não creio nem temo, mas, como confio em você, eu quero lhe pedir que me aconselhe se devo estar preparado contra eles.
— Senhor Conde Lucanor, disse Patrônio, para que você possa fazer o que neste caso parece mais conveniente, eu gostaria muito de que você soubesse o que aconteceu com a andorinha e os outros pássaros.
O conde perguntou-lhe o que havia acontecido.
"Sr. Conde, disse Patrônio, a andorinha viu que um homem semeava linho e, guiado pelo bom senso, pensou que, quando o o linho crescesse, os homens poderiam fazer com ele redes e outras armadilhas para caçar pássaros. Imediatamente, ela foi até estes, reuniu-os e disse-lhes que os homens tinham plantado linho e que, se este crescesse, deveriam ter ciência dos perigos e danos que isso lhes traria. Por isso, aconselhava-os a ir aos campos de linho e arrancar as sementes antes de que nascessem. No entanto, as aves não deram importância ao aviso e não foram recolher as sementes. A andorinha insistiu muito para que seguissem o tal conselho, até concluir que os pássaros não percebiam o perigo nem tinham qualquer preocupação a respeito. Enquanto isso, o linho continuava a crescer, e os pássaros não conseguiam mais retirá-lo com seus bicos e patas. Arrependeram-se, finalmente, por não ter sanado o problema no devido tempo, apesar de suas lamentações serem já inúteis para evitar o mal.
"Vendo a andorinha, que as outras aves não queriam se prevenir do perigo que as ameaçava, acrescentou Patrônio, ela falou com os homens, pôs-se sob a proteção deles e ganhou a paz e a segurança para si e para a sua espécie. E, desde então, vivem as andorinhas com segurança entre os homens, que não as perseguem. Enquanto as outras aves, que não souberam prevenir-se do perigo, são perseguidas e caçadas todos os dias com redes e armadilhas.
"E você, Sr. Conde, se quiser evitar o dano que o ameaça, tome precauções e cuide-se antes que seja tarde demais.Não é prudente aquele que vê as coisas quando já aconteceram ou estão acontecendo; mas o é aquele que, a um simples indício, descobre o perigo que corre e adota as soluções para evitá-lo.
O conde ficou muito satisfeito, agiu de acordo com o conselho e tudo correu muito bem.
Como Don Juan viu que era uma boa história, mandou colocá-la neste livro e fez uns versos que dizem assim:
O mal ao começar se deve extirpar
Porque, uma vez crescido, quem o conseguirá?

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10 agosto, 2018

Tocadores de sinos

Leitura e interpretação do texto de conto de Don Juan Manuel, príncipe de Villena, no livro O Conde Lucanor e Patrônio, escrito entre 1330 e 13335. Ali, fazia-se comentar o secular tema.
Tratava-se de acirrada contenda, na Idade Média, figurando as congregações dos monges da Catedral e dos frades menores de Paris. Aqueles, tidos por "cabeças pensantes" da Igreja. O últimos, simples "tarefeiros humildes", responsáveis pela conservação dos templos. Motivo da discórdia: o direito de tocar o sino ao nascer do Sol, nas matinas. Dado o simbolismo ritualístico, a disputa chegou ao papa, que designou a ida de uma cardeal para solver a problemática. O sábio emissário determinou a presença dos oponentes, portando o longo processo, contendo queixas, denúncias e agravos. Hora aprazada. Todos presentes. O representante papal tomou a documentação, jogou-a numa fogueira e bradou: 
"Eis a sentença! Aquele que acordar mais cedo, é esse que tange o sino."
Geraldo Duarte, Ideias, DN
Referência: http://bib.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/08144974389758451867857/p0000001.htm#I_1_

O Conde Lucanor: 1 e 2

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01 junho, 2018

O Conde Lucanor - 2

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ( "Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto XIII - O que aconteceu a um homem que caçava perdizes
Don Juan Manuel
Trad.: Henry Alfred Bugalho
Outra vez, o Conde Lucanor conversava com Patronio, seu conselheiro, e lhe disse:
— Patronio, alguns nobres muito poderosos e outros nem tanto, às vezes, causam danos a minhas terras ou a meus vassalos, mas, quando nos encontramos, eles me pedem desculpas, dizendo-me que fizeram-no obrigados pela necessidade, muito a contragosto e sem poderem evitar. Como eu gostaria de saber o que devo fazer em tais circunstâncias, suplico-vos que me deis vossa opinião sobre este assunto.
— Senhor Conde Lucarno, disse Patronio, o que haveis me contado, e sobre o qual me pedis conselho, parece-se muito com o que ocorreu a um homem que caçava perdizes.
O conde lhe pediu que contasse a história.
— Senhor conde, disse Patronio, havia um homem que estendeu suas redes para caçar perdizes e, quando já apanhado bastantes, o caçador voltou para junto da rede onde estavam suas presas. Na medida em que as recolhia, tirava-as da rede e as matava e,enquanto fazia isto, o vento, que batia em cheio em seus olhos, o fazia chorar. Ao ver isto, uma das perdizes, que estava presa na malha, começou a dizer a suas companheiras:
— Olhem, amigas, o que acontece a este homem! Ainda que nos mate, olhem como ele se condói por nossa morte e, por isto, chora!
Mas outra perdiz que avoava por ali, mais velha e mais sábia do que a outra que havia caído na rede, respondeu-lhe:
— Amiga, dou graças a Deus porque me salvei da rede e agora peço a Ele que salves a mim e a todas minhas amigas dum homem que busca nossa morte, mesmo que dê a entender com lágrimas que muito se condói.
Vós, senhor Conde Lucanor, evitai sempre aqueles que vos causam dano, mesmo que dêem a entender que sentem muito; mas se algum vos prejudica, sem buscar vossa desonra, e se o dano não for muito grave para vós, se se trata duma pessoa à qual deveis favores, e que além disto foi forçado a isto pelas circunstâncias, eu vos aconselho que não se importeis demais, mas deveis procurar que tal não se repita tão freqüentemente que chegue a macular vosso bom nome ou vossos interesses. Mas se vos prejudica voluntariamente, rompei com ele para que vossos bens e vossa fama não se vejam lesionados ou prejudicados.
O conde viu que este era um bom conselho que Patronio lhe dava, seguiu-o e tudo ficou bem.
E vendo don Juan que o conto era bom, ordenou pô-lo neste livro e fez estes versos:
A quem te faz mal, mesmo que seja para ti pesar,
Busca sempre um modo para poder dele se afastar.

http://www.revistasamizdat.com/2008/11/o-conde-lucanor.html
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27 maio, 2018

A visita da Fada Madrinha


Cinderela chegou aos 75 anos. Depois de uma vida gratificante com o príncipe encantado, que tinha recém-falecido, ela sentou-se em sua cadeira de balanço, observando o mundo passar na varanda de sua residência, com um gato chamado Alan como companhia.
Naquela tarde ensolarada, do nada apareceu a Fada Madrinha.
Cinderela disse: "Fada Madrinha, o que você está fazendo aqui depois de todos esses anos?"
A Fada Madrinha respondeu: "Bem, Cinderela,é que eu decidi lhe atender três desejos. Há alguma coisa pela qual o seu coração ainda anseia?"
Cinderela ficou muito feliz e, depois de pensar um pouco, ela disse seu primeiro desejo:
"Eu queria ser muito rica".
Instantaneamente, sua cadeira de balanço foi transformada em ouro maciço. Cinderela ficou atônita. Alan, seu velho gato fiel, pulou de seu colo e correu assustado para a beira da varanda.
Cinderela disse: "Oh, obrigada, Fada Madrinha!"
"É o mínimo que eu posso fazer", respondeu a Fada Madrinha. "O que seu coração agora deseja?"
Cinderela olhou para o seu corpo frágil e disse: "Eu gostaria de ser jovem e bela novamente."
Na mesma hora, seu segundo desejo tornou-se realidade, e ela recuperou a juventude e a beleza de antes.
Então, a Fada Madrinha falou: "Você tem ainda o terceiro desejo, o que você gostaria de pedir?"
Cinderela olhou para o gato ainda assustado e disse: "Desejo que você transforme meu velho gato Alan em um jovem bonito e atraente".
Magicamente, Alan sofreu uma mudança em sua composição biológica e virou um rapaz tão bonito que ninguém jamais tinha visto igual.
A Fada Madrinha novamente falou: "Parabéns, Cinderela, aproveite a nova vida!" E, como em um passe de mágica brilhante, ela se foi.
Por alguns minutos, Alan e Cinderela se contemplam mutuamente. Cinderela estava sentada, quase sem fôlego, olhando para o rapaz mais belo que ela já tinha visto em toda a vida.
Nisso, Alan foi até Cinderela, que estava sentada na cadeira de balanço, e a abraçou com seus braços fortes e jovens. Ele se inclinou perto de sua orelha e sussurrou, soprando seu cabelo dourado com seu hálito quente:
"Aposto que agora você se arrepende de já ter me castrado, não é mesmo?"

Fonte: http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=8023, reescrito.

29 dezembro, 2017

Resiliência

Em 2012, o historiador dinamarquês Esben Brage encontrou aquele que pode ser o primeiro conto escrito por Hans Christian Andersen, um dos mais famosos autores de obras infantis (entre elas "A Pequena Sereia", "O Soldadinho de Chumbo" e "O Patinho Feio").
O texto inédito, intitulado "Tællelyset" (A Vela de Sebo, em tradução livre), foi localizado no Arquivo Nacional de Funen, na cidade de Odense.
O personagem central da história é uma triste vela que só encontra o sentido da vida quando conhece uma caixa de fósforos. "Ela passou a brilhar por muito tempo, satisfazendo a si mesma e a todas as criaturas ao seu redor", eis o trecho final do conto.

SANDEEP BELEL'S IMAGE,  2016
Matchstick art

22 dezembro, 2017

Um senhor muito velho com umas asas enormes

Numa pequena vila, a curiosa aparição de um senhor muito velho com umas asas enormes transforma a vida de todos no lugar. Sua presença intrigante e os estranhos acontecimentos que vão se revelando provocam fascínio, dúvida e as mais diferentes reações. Neste conto de Gabriel García Márquez, escrito em 1968, o mestre do realismo fantástico de uma forma inigualável se utiliza de fabulações povoadas por situações oníricas e fenômenos insólitos que estimulam, divertem e impressionam.
"No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu pátio inundado para atirá‑los ao mar, pois o bebê recém‑nascido tinha passado a noite com febre e pensava‑se que era por causa da pestilência. O mundo estava triste desde terça‑feira. O céu e o mar eram uma única e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em março resplandeciam como poeira de luz, tinham‑se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era tão fraca ao meio‑dia que, quando Pelayo regressava à casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo do pátio. Teve de aproximar‑se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava caído de borco no lodaçal e que, apesar dos seus grandes esforços, não podia levantar‑se, porque lho impediam as suas enormes asas.
Assustado por aquela visão aflitiva, Pelayo correu em busca de Elisenda, sua mulher, que estava a pôr compressas ao bebê doente, e levou‑a até ao fundo do pátio. Ambos observaram o corpo caído com um silencioso pasmo. Estava vestido como um trapeiro. Não lhe restavam mais do que uns fiapos descoloridos no crânio pelado e pouquíssimos dentes na boca, e essa lastimosa condição de bisavô ensopado tinha‑o desprovido de qualquer grandeza. As suas asas de abutre velho, sujas e meio depenadas, estavam encalhadas para sempre no lodaçal. Tanto o observaram, e com tanta atenção, que Pelayo e Elisenda muito rapidamente se recompuseram do assombro e acabaram por achá‑lo familiar. Então atreveram‑se a falar‑lhe, e ele respondeu‑lhes num dialeto incompreensível, mas com uma boa voz de navegante. Foi por isso que deixaram de preocupar‑se com o inconveniente das asas e chegaram à sensata conclusão de que era um náufrago solitário de algum navio estrangeiro, desfeito pelo temporal. Contudo, chamaram, para que o visse, uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela chegou‑lhe um olhar para tirá‑los do engano.
‑ É um anjo ‑ disse‑lhes. ‑ Com certeza vinha por causa da criança, mas o desgraçado está tão velho que a chuva o fez cair."
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