07 março, 2026

O Matasete

Nelson José Cunha
Nove horas da manhã, e a campainha toca furiosa. Santinha corre à porta ainda de camisola, o coração na boca.
 É você, Ribamar? Já voltou tão cedo?
Ele nem responde. Entra atropelando tudo, direto para o banheiro, deixando um rastro de odor fétido e humilhação. Lá de dentro, entre gemidos de alívio e vergonha, vem o desabafo:
 Fiz nas calças, mulher! O maior vexame da minha vida! Recusei duas corridas no caminho porque não podia parar o táxi. Estava todo cagado...
Ribamar era taxista novato - só um ano de praça. Já ouvira, nas rodinhas, histórias de partos no banco de trás, malas de dinheiro esquecidas e cantadas perigosas. Com ele, nada. Atribuía a calmaria ao muiraquitã no peito, presente da avó maranhense, índia Tembé. Ela ensinara o ritual: ao sair de casa, apertar a rãzinha de pedra e sussurrar: Muyrakitan katu!
Naquele dia, levantou cedo para a feira em Floriano. Na estrada, viu um carro enguiçado e três homens acenando. Parou, crente de que a sorte o visitava. Um com maleta e dois com sacolas subiram no carro.
O mais falante, que parecia o chefe, sentou-se à frente. Mal o Fusca arrancou, ele resmungou:
 Matasete, mostra a escopeta pro motorista. Ele quer ver a grossura do cano.
Ribamar gelou. Olhou pelo retrovisor: roupas amarrotadas, malas suspeitas. O coração começou a tamborilar.
 Não, senhor! Não quero ver!  gaguejou, tremendo tanto que o volante parecia vivo.
O bandido deu uma risada intimidadora:
 Vamos aproveitar o táxi e fazer mais um serviço em Guadalupe. Você passa a escopeta para o motorista, ele dá cobertura. Em seguida, escondemos o dinheiro na casa dele.
O da maleta, o tal Matasete, alertou:
 Rubens... cuidado.
 Cuidado o quê? Com quatro assaltantes fica mais fácil!
Humberto, o terceiro, completou:
 Precisamos esconder o dinheiro e as armas em sua casa, sim, senhor.
Ribamar sentiu o mundo girar. Pensou no filho que ia nascer, na mãe velha, na própria vida por um fio. Invejava o burrinho magro à beira da estrada. Queria ser qualquer coisa  preá, sabiá, pedra  menos refém daquelas feras.
Agarrava o amuleto com tanta força que rasgou a camisa.
 Muyrakitan katu!
 Muyrakitan katu!
Repetia sem parar.
O Fusca trepidava nas costelas do chão de terra. O sol piauiense já transformava o carro numa fornalha. Foi então que o corpo de Ribamar cedeu. O inevitável aconteceu: o medo tomou conta, e o que devia ficar firme se soltou.
 Que cheiro de merda é esse?  berrou o chefe, quase cambaleando.  Está fazendo carreto de esterco, motorista?
 Não, senhor - respondeu Ribamar com calma súbita, a calma dos derrotados.  É bosta própria. Me distraí com a elevada palestra de Vossa Excelência e afrouxei... os anus. Coragem para assalto eu ainda não tenho muita. E não posso ir ao banco de Guadalupe, não. Recebi carta de cobrança. Estou com três prestações do carro atrasadas!
A fedentina se espalhou rapidamente, insuportável no calor fechado. Os bandidos tossiram, xingaram, abriram as janelas, lutando por oxigênio. Não aguentaram. Mandaram parar e desceram em debandada, sumindo pelo mato, fugindo do cheiro da morte - que, afinal, era apenas o cheiro da vida em pânico.
Ribamar, aliviado em todos os sentidos, fez o caminho de volta... cagado, mas finalmente em paz.

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