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10 fevereiro, 2025

Os 10 mandamentos do cientista



Os resultados de um experimento, exibido usando luz laser ao redor de um objeto esférico, com os dados ópticos reais. Observe a extraordinária validação da previsão da teoria de Fresnel: que um ponto central brilhante apareceria na sombra projetada pela esfera, verificando a previsão absurda da teoria ondulatória da luz. A lógica, sozinha, não nos teria trazido aqui.

  1. Não presumirás que tua conclusão preferida esteja correta.
  2. Sempre considerarás o conjunto completo de dados relevantes ao tirares conclusões.
  3. Tu te lembrarás dos limites do alcance da validade de tua teoria, e somente a estenderás cautelosamente.
  4. Tornarás públicos teus dados, métodos e resultados, para que todos os considerem e escrutinem.
  5. Permanecerás tenazmente cético em relação a qualquer hipótese que encontrares.
  6. Quantificarás, respeitarás e não minimizarás tuas fontes de erro e teus potenciais vieses.
  7. Não aceitarás uma nova teoria como representativa da realidade até que ela supere todos os três obstáculos críticos necessários.
  8. Deverás obter aprovação e consentimento de todos os órgãos relevantes antes de conduzires pesquisas que possam impactar em outras pessoas.
  9. Não exagerarás a significância dos resultados de teus estudos.
  10. Deverás considerar até mesmo as melhores teorias, modelos e estruturas científicas apenas como provisórias, e constantemente procurarás testá-las, revisá-las e refiná-las.
N. do T.
Lerás o artigo completo de Ethan Slegel no Big Think.

03 outubro, 2024

O azul do céu

A publicação de 1931 do astrônomo e físico inglês James Jeans, "Why the Sky Is Blue" (Por que o céu é azul), se tornou um clássico da ciência desde que foi publicado pela primeira vez em uma série de palestras. Em apenas quatro parágrafos e uma analogia surpreendentemente detalhada mas simples, Jeans mostrou a milhões de estudantes uma compreensão do azul celestial do céu comparando-o com algo familiar, não substituindo a poesia da natureza por jargões e diagramas científicos. Assim, ele nos explica o processo pelo qual as ondas de luz azul se espalham acima de nós.
Porém, mais de cem anos antes, um cientista já havia criado uma ferramenta bem interessante dentro desse tema; neste caso, ele tentou mostrar como o céu é azul. O cianômetro de 1789, do físico suíço Horace Bénédict de Saussure (1740-1799) era "um círculo de amostras de papel tingidas de azuis cada vez mais profundos, do branco ao preto" e incluía 53 tons em sua interação mais avançada, pretendendo mostrar como a cor do céu muda conforme sua elevação. A ideia era fazer experimentos e catalogar as cores do céu.
Mas como medir o "azulado"? Usando suspensões de azul da Prússia, o papel tingido de Saussure formava quadradinhos de cada tom que ele conseguia distinguir as nuances. Assim, eram reunidos em um círculo de cores numerado que podia ser erguido até a distância padrão do olho – e o quadrado correspondente estabelecia o grau de azul.
O fascínio de Saussure com o azul do céu começou quando ele era um jovem estudante e viajou para Mont Blanc e ficou impressionado com o cume. Ele então sonhou em escalá-lo, mas em vez disso usou a riqueza de sua família para oferecer uma recompensa à primeira pessoa que pudesse. Vinte e sete anos depois, o próprio Saussure subiu ao topo com uma equipe, em 1786, carregando consigo "pedaços de papel de diferentes tons, para se erguer contra o céu e combinar com sua cor".


Mas após sua invenção, o cianômetro rapidamente caiu em desuso, como Maria Gonzalez de Leon aponta. "Afinal, pouca informação científica foi dada". Porém, dizem que Horace confiou em seu cianômetro pelo resto de sua vida.
A ferramenta, no entanto, acompanhou o famoso geógrafo Alexander von Humboldt também através do Atlântico, "para o Caribe, as Ilhas Canárias e a América do Sul", onde Humboldt "estabeleceu um novo recorde, no 46º grau de azul, para o céu mais escuro já medido" no cume da montanha andina Chimborazo. Este seria um dos únicos usos notáveis ​​do artifício poético. Quando a verdadeira causa do azul do céu, a dispersão da luz, foi descoberta décadas depois, na década de 1860, o círculo azul de Saussure já havia caído na obscuridade.
O cianômetro está agora em exibição no Museu de História da Ciência de Genebra, perto da sobrecasaca de Saussure e dos muitos instrumentos que ele levou para o topo do Mont Blanc no início de agosto de 1787. Mesmo em uma vitrine de vidro, os pequenos quadrados azuis não perderam em nada do seu brilho.
Fonte: Carol T. Moré, FTC Mag

26 outubro, 2022

Os demônios da ciência

Dalia Ventura, BBC News
Eles ajudaram a tornar realidade o que antes era fantasia e continuam a motivar a busca pelo que não foi encontrado até agora.
Alguns até se infiltraram na vida cotidiana e não mostram sinais de quererem sair dali.
Trata-se dos demônios da ciência, criaturas que ocupam o espaço das leis, teorias ou conceitos que ainda não conseguimos entender.
No entanto, esses demônios são mais parecidos com o demônio ou daimon da Grécia Antiga do que com aquelas entidades malignas que nos vêm à mente quando ouvimos essa palavra.
Como explica a sacerdotisa Diotima ao jovem filósofo Sócrates em "O Banquete de Platão", eles habitam aquele lugar intermediário entre deuses e homens, e entre sabedoria e ignorância.

Antes de escrever "A Origem das Espécies", Charles Darwin imaginou "um ser infinitamente mais astuto que o homem" que poderia produzir uma nova espécie de humanos, assim como somos capazes de criar ovelhas cuja lã tenha as qualidades que preferimos para nossos suéteres.
Essa foi uma das questões fascinantes que impulsionaram sua pesquisa.
O ser estranho acabou desaparecendo e na versão final de sua obra o que aparece é a teoria da seleção natural, sem causas milagrosas ou forças sobrenaturais.
No entanto, ele ressuscitou na década de 1960, sob o nome de "demônio darwiniano", quando os biólogos quiseram explorar o que aconteceria se não houvesse restrições biológicas à evolução, estimulando pesquisas para entender melhor a teoria da evolução.

Laplace, Descartes e Maxwell: o triunvirato no computador
"Seu computador, por exemplo, em certo sentido foi desenvolvido motivado pela busca desses três demônios", diz Jimena Canales, em seu livro "Endemoniados: una historia sombría de los demonios en la ciencia", explicando:
  • O demônio de Laplace, em termos de ser uma máquina para acumular e processar dados
  • O demônio de Descartes, porque também é uma máquina de entretenimento e realidade virtual
  • E seus microprocessadores permitem que você faça o trabalho com mais eficiência, como o demônio de Maxwell.
Ler na íntegra.

14 outubro, 2022

Espelhos mágicos - 1

1 de 3
John Dee (retrato) era um tipo histórico de Jekyll e Hyde - gigante intelectual ou charlatão sombrio, dependendo do seu ponto de vista. Nascido em 1527, quando a Inglaterra estava gostando desse florescimento da arte (a qual chamamos de Renascimento), ele treinou com a cientista e fabricante de instrumentos técnicos Gemma Frisius, em Lovaina, nos Países Baixos e passou a ser um distinguido matemático.
Conselheiro pessoal e escritor oficial de "documentos de posição" técnicos sobre assuntos de política de navegação e marítima para a Rainha Elizabeth I, sua opinião foi buscada pelo governo Tudor no investimento em novas tecnologias e projetos para farejar metais.
O prefácio de Dee para a primeira edição em língua inglesa dos "Elementos de Geometria", do matemático grego Euclides (1570), editado por Sir Henry Billingsley, é considerado uma referência histórica nas aplicações da matemática pura em ciência e tecnologia.
Por outro lado, Dee associou-se a "skryvers" de má reputação, ou médiuns espirituais, como William Backhouse e Edward Kelley, e era amplamente conhecido em sua vida como um "conjurador notório". (*) Ele lançou horóscopos, mergulhou na alquimia e participou de elaboradas tentativas de adquirir conhecimentos consultando espíritos convocados com auxílio de bolas de cristal, feitiços e encantamentos derivados de manuscritos misteriosos.
1580. John Dee tornou-se um dos poucos plebeus visitados pela rainha Elizabeth. Poucas horas depois da morte da segunda esposa de Dee, a rainha e todo o seu conselho privado apareceram à sua porta. Dee tentou entretê-la usando o "espelho mágico" que ele havia recebido de Sir William Pickering, que antes fora o pretendente de Elizabeth. O espelho, feito de obsidiana altamente polida (vidro vulcânico), foi um dos muitos objetos e tesouros mexicanos trazidos para a Europa após a conquista do México por Cortés, entre 1527 e 1530.
Dee se tornou um "mágico" de cultura popular. Ele faz uma aparição no filme "Jubilee" (Jubileu), de Derek Jarman, concedendo a Elizabeth I uma visão de como será Londres na década de 1970.

(*) O biógrafo Benjamin Woolley juntou as evidências muitas vezes contraditórias dos restos fragmentários sobre a vida de Dee com considerável circunspecção, para que o leitor possa decidir por si mesmo em qual Dr Dee eles preferem acreditar. "The Queen's Conjuror: The Science and Magic of Dr Dee", por Benjamin Woolley. 394p. HarperCollins

Extraído de: The science of spiritualism, por Lisa Jardine, The Guardian

(Seria de obsidiana o espelho utilizado pela madastra da Branca de Neve?)

16 dezembro, 2021

A ciência do familiar

A "ciência do familiar" sempre atrai o interesse público. Isso aconteceu em 1861, quando Michael Faraday, o descobridor da eletricidade, deu palestras populares sobre "A História Química de uma Vela" para audiências lotadas da sociedade londrina. Isso acontece hoje. Meu colega Peter Barham invariavelmente tem a casa cheia para sua palestra sobre "A Física do Sorvete", com experimentos durante a palestra e uma degustação a seguir.
Como alguém que usa a ciência subjacente a objetos e atividades comuns para tornar a ciência mais acessível ao público, fiquei feliz em experimentar "The Physics of Biscuit Dunking". Parecia que havia uma boa chance de produzir uma pesquisa alegre que mostrasse como a ciência realmente funciona, bem como de produzir alguma publicidade na mídia em nome da ciência e dos anunciantes.
Os anunciantes tinham seus próprios preconceitos sobre como a ciência funciona. Eles queriam nada menos do que uma "descoberta"que atrairia as manchetes dos jornais.
Anunciantes e jornalistas não são os únicos que veem a ciência em termos de "descobertas". Até mesmo alguns cientistas o fazem. Pouco depois que a Royal Society foi fundada em 1660, Robert Hooke foi nomeado "curador de experimentos" e encarregado de fazer "três ou quatro experimentos consideráveis" (ou seja, descobertas) a cada semana e demonstrá-los aos membros da Sociedade.
Dada essa pressão, não é de admirar que Hooke tenha sido de temperamento irritável, com cabelos caindo em mechas desgrenhadas sobre seu semblante abatido. Na verdade, ele fez muitas descobertas, originando muito, mas pouco aperfeiçoando. Tive de dizer aos anunciantes que Hooke pode ter conseguido, mas não consegui. A ciência geralmente não funciona assim.
Os cientistas não pretendem fazer descobertas; eles se propuseram a descobrir histórias. As histórias são sobre como as coisas funcionam. Às vezes, a história pode resultar em um conhecimento totalmente novo ou em uma nova maneira de ver a natureza das coisas. Mas não frequentemente. Achei que, com a ajuda dos meus amigos e colegas da física e da ciência alimentar, haveria uma boa chance de descobrir uma história sobre a imersão de biscoitos, mas dificilmente resultaria em uma "descoberta". Para seu crédito, os anunciantes aceitaram meu raciocínio e começamos a trabalhar.
A primeira pergunta que fizemos foi "Como é um biscoito do ponto de vista do físico?" É uma pergunta típica de um cientista, que deve ser lida como "Como podemos simplificar este problema para que possamos respondê-lo?" A abordagem às vezes pode ser levada a extremos, como aconteceu com o famoso físico a quem foi pedido que calculasse a velocidade máxima possível de um cavalo de corrida. Sua resposta, de acordo com a lenda, foi que ele poderia fazer isso, mas somente se ele pudesse assumir que o cavalo era esférico.
A maioria dos cientistas não chega a tanto para reduzir problemas complicados a formas solucionáveis, mas todos nós fazemos isso de alguma forma - o mundo é muito complicado para entender tudo de uma vez. Os críticos nos chamam de reducionistas, mas, não importa como nos chamem, o método funciona. Crick e Watson, descobridores da estrutura do DNA, não encontraram a estrutura olhando para as complicadas células vivas cujo destino o DNA impulsiona. Em vez disso, eles retiraram todas as proteínas e outras moléculas que constituem a vida e olharam apenas para o DNA. Nos cinquenta anos seguintes, os biólogos colocaram gradualmente as proteínas de volta para descobrir como as células reais usam a estrutura do DNA, mas eles não saberiam o que era essa estrutura se não fosse pela abordagem reducionista original.
Decidimos ser reducionistas em relação aos biscoitos, tentando entender sua resposta ao mergulho em termos físicos simples e deixando as complicações para depois.

20 abril, 2021

O desafio dos problemas científicos

Se você caminhar pela rua, encontrará uma série de problemas científicos. Destes, cerca de 80 por cento são insolúveis, enquanto 19,5 por cento são triviais. Nesse caso, talvez haja 0,5 por cento em que habilidade, persistência, coragem, criatividade e originalidade podem fazer a diferença. É sempre tarefa do acadêmico andar nesse meio por cento, fazendo as perguntas através das quais algum progresso pode ser obtido.
~ Sir Hermann Bondi, matemático e cosmologista austríaco. Em 1946, Bondi tornou-se cidadão britânico e, em 1983, recebeu a medalha Albert Einstein.


Nascido na Áustria, mas radicado em Cambridge, Sir Hermann Bondi teve uma carreira variada e impressionante como palestrante, pesquisador, administrador e conselheiro em muitos campos como cosmologia, tecnologia de radar, pesquisa espacial, energia e defesa. Ele se tornou conhecido pela teoria do estado estacionário do Universo, que foi refutada pela teoria do Big Bang, mas que causou muitas discussões frutíferas no mundo científico. Como um DG da ESRO, Sir Hermann Bondi provou suas capacidades intelectuais, organizacionais e de comunicação, ao mesmo tempo em que foi um dos principais atores na ascensão de um esforço espacial europeu de sucesso. Além do trabalho, Sir Hermann Bondi adorava viajar, esquiar e escalar montanhas. Ele também foi um membro ativo e posteriormente presidente da British Humanist Association, foi influenciado pela filosofia científica de Popper e estimulou a divulgação da ciência ao público. E era conhecido por ter uma personalidade muito forte, o que impressionou a muitas pessoas que o conheceram.

25 janeiro, 2021

Astrolábio, o primeiro computador

É uma ferramenta antiga, criada há mais de dois mil anos, quando as pessoas pensavam que a Terra era o centro do universo. Eles são frequentemente chamados de o primeiro computador e, por mais discutível que seja essa afirmação, uma coisa é certa, sem dúvida. Os astrolábios são objetos de imenso mistério e beleza.


Então, o que um astrolábio faz e como eles foram úteis no mundo antigo?
Em primeiro lugar, eles são instrumentos de resolução de problemas - eles calculam coisas como a hora do dia de acordo com a posição do sol e das estrelas no céu. Como um computador, você insere dados e, em seguida, recebe informações. Eles eram geralmente feitos de latão e tinham um diâmetro de 6 polegadas, embora fossem feitos também em dimensões muito maiores.
A primeira máquina do tipo astrolábio foi mencionada nas obras de Marcus Vitruvius Pollio, que morreu em 26 a.C. Ele descreveu um relógio em Alexandria que tinha um campo giratório de estrelas atrás de uma estrutura de arame. Isso foi certamente um começo para o astrolábio. Cláudio Ptolomeu (falecido em 168 d.C.), em seus escritos (de sua base em Alexandria), deu a entender que possuía um instrumento muito semelhante aos que reconhecemos hoje.
Os tempos mudaram. Novamente, em Alexandria, quase trezentos anos depois de Ptolomeu, a matemática e filósofa "pagã" Hipácia seria acusada de rituais satânicos envolvendo, entre outras coisas, o astrolábio, pela comunidade cristã da cidade. Ela foi atacada, estuprada e executada em 415 d.C. por uma multidão em plena luz do dia. Seu aluno, Theon de Alexandria, deixou anotações abundantes sobre o uso do astrolábio, mas seu uso no Ocidente estava, por quase mil anos, chegando ao fim.
Não é de se admirar que, após a morte de Hipácia, a Europa tenha perdido o astrolábio depois da queda do Império Romano, quando mergulhou de cabeça no período da história chamado Idade das Trevas. Muito conhecimento helenístico foi perdido para a Europa Ocidental - a população da qual considerava a tecnologia helenística (então 'pagã') com grande suspeita. No entanto, foi retido e mantido vivo no mundo islâmico, onde há muitas evidências de seu uso e desenvolvimento.
Ele voltaria para a Europa através dos mouros de al-Andalus. Sem a Espanha islâmica, argumenta-se, o Renascimento poderia muito bem nunca ter acontecido. É verdade que as idéias de al-Andalus se espalharam pela Europa no século XII e muitos intelectuais da Europa Ocidental se aglomeraram em lugares como Córdoba por ser um grande centro de conhecimento "perdido". Muitos dos antigos textos gregos, não encontrados em parte alguma da Europa, podiam ser encontrados em tais locais de educação, traduzidos para o árabe.
O astrolábio moderno de metal foi inventado por Abraão Zacuto, em Lisboa, a partir de versões árabes pouco precisas.

Abraão ben Samuel Zacuto teria nascido em Salamanca c. 1450. Ali teria estudado e lecionado astronomia e astrologia na Universidade de Salamanca, ainda que haja poucos detalhes sobre sua vida naquela cidade. Quando da expulsão dos judeus de Espanha em 1492, Zacuto refugiou-se em Portugal, sabendo-se que estava a serviço de D. João II em Junho de 1493.
Era já reconhecido como um importante astrónomo antes de chegar a Portugal. No país, seu trabalho foi importante para a ciência náutica. Foi chamado à Corte e nomeado Astrónomo e Historiador Real pelo Rei D. João II, cargo que exerceu até ao reinado de D. Manuel I. Foi consultado por este monarca acerca da possibilidade de uma viagem por mar até à Índia, que apoiou e encorajou.
Mesmo assim, depois de ter acontecido a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Zacuto sofreu a expulsão de Portugal, tal como todos os judeus que recusaram se converter ao catolicismo, através do batismo, que o rei português impôs aos que lá viviam. 
Morreu no Império Otomano c. 1510.

08 outubro, 2020

A bandana de Anna

"Espero que você consiga trabalhar arduamente na ciência e, assim, banir lembranças dolorosas, na medida do possível", escreveu Charles Darwin, na primavera de 1864, a um jovem e obscuro correspondente alemão que acabara de lhe enviar dois fólios de sua autoria: estudos impressionantemente ilustrados de pequenos organismos marinhos unicelulares - uma obra-prima que encantou Darwin como uma das coisas mais majestosas que ele até então tinha visto.
Mas Ernst Haeckel (16 de fevereiro de 1834 - 9 de agosto de 1919), que adiante cunharia o termo ecologia e se tornaria um proeminente defensor da teoria da evolução, não poderia banir o inatingível: meses antes, em seu trigésimo aniversário, Anna Sethe, o amor de sua vida, havia sido arrancado dele por uma morte súbita, quando o casal, após um longo noivado, estava prestes a se casar.
Na esteira de seu luto insondável, o jovem biólogo marinho aplicou o método de Joan Didion para lidar com o luto por movimento e seguiu para a França. Andando pelas praias de Nice, sua mente em um lugar irrecuperável e seu coração com um vazio ameaçador, ele parou no meio do caminho - algo havia tomado sua atenção: flutuando perto da superfície do mar, em uma piscina de maré, deparou-se com uma água-viva - uma espécie de medusa que ele nunca tinha visto antes.
Ele havia caído sob o "feitiço da medusa" dez anos antes, aos vinte anos, enquanto acompanhava um orientador em uma expedição de pesca e pesquisa. Agora, uma década e uma devastação depois, Haeckel se rendeu a esse encantamento inicial para se firmar nos corrimãos paralelos da maravilha e da descoberta, do esplendor estético e do desafio científico.
Haeckel passou os quinze anos seguintes estudando e  desenhando essas criaturas estranhas e belas - evocativas de árvores e cogumelos, ovários e naves espaciais - e para nomear a mais bela das espécies que encontrou inspirou-se em sua amada perdida: Mitrocoma annae - "bandana de Anna" (na ilustração).

Extraído de: The Otherworldly Beauty of Jellyfish: How Ernst Haeckel Turned Personal Tragedy into Transcendent Art in the World’s First Encyclopedia of Medusae, by Maria Popova - Brain Pickings

Ernst Haeckel, 1879:
"Mitrocoma annae é uma das mais lindas e a mais pequena entre todas as medusas; ela foi observada pela primeira vez por mim, em abril de 1864, na baía de Villafranca perto de Nice. (...) Eu designei esta espécie, a princesa da Eucopiden, em lembrança da minha inesquecível esposa, Anna Sethe."
(do livro de R.J. Richard "O trágico sentido da Vida : Ernst Haeckel e a luta pelo pensamento evolutivo")

27 agosto, 2020

O realismo científico de Bunge

O filósofo da ciência Mario Bunge morreu em Montreal (24/02/2020). Ele é um dos autores de língua espanhola mais citados da história e, em setembro passado, completou 100 anos.
Bunge recebeu o "Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades" em 1982. Embora tenha nascido em Buenos Aires em 1919, ele estava em Montreal desde 1966, onde foi professor de lógica e metafísica na Universidade McGill. Ele também ensinou física e filosofia teórica, primeiro na Universidade de La Plata e depois na Universidade de Buenos Aires.
Bunge deu entrevistas e escreveu livros até o fim para combater as pseudociências. Foi sua luta particular. Em artigo publicado no El País, em 2017, disse:
Eu já falei sobre o fato de que são apresentadas como se fossem ciências autênticas, porque exibem alguns dos atributos da ciência, em particular o uso conspícuo de símbolos matemáticos, embora carecem de propriedades essenciais, especialmente compatibilidade com conhecimentos anteriores e contraste empírico.
Bunge foi um intelectual muito prolífico, tendo escrito mais de 400 artigos e 80 livros, notadamente: "A Ciência, seu Método e sua Filosofia" (1960), no qual explica as bases do método científico, e seu monumental "Tratado em Filosofia Básica", em 8 volumes (1974-1989).

Via Hipertextual

08 julho, 2020

Aos Pesquisadores Científicos

No dia 8 de julho são comemorados o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador Científico. A primeira data foi sancionada em 2001, pela Lei n.º 10.221; e a segunda, em 2008, através da Lei n.º 11.807. Ambas homenageiam o dia da criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 8 de julho de 1948.

Aos Pesquisadores Científicos
Vianney Mesquita*

Sejam benditos os pesquisadores,
Com seus rigores a buscar verdades,
Capacidades de interlocutores
E de ouvidores de obscuridades.

Ao perquirir tão insondáveis fatos,
Cujos relatos pedem teorias,
Por estas vias os feitos transatos
Têm, mais que atos, metodologias.

Neste exercício de sabedoria,
Ao revelar seus faustos de vivência,
Tranquilidade e douta teimosia,

É demonstrado em toda a percuciência,
Extasiando o mundo, que aprecia
Um vivaz operário da Ciência.

* Escritor e jornalista. Acadêmico titular da Academia Cearense de Língua Portuguesa

http://vianneymmesquita.blogspot.com/2016/04/metodo-e-conhecimento-confluencia_18.html
http://academiacearense.blogspot.com/2014/07/e-n-s-i-o.html
http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/3641/1/2010_TESE_MLCIDRACK.pdf

26 junho, 2020

O navio de Teseu

A vida de Kepler é um testemunho de como a ciência faz pela realidade o experimento mental de Plutarco conhecido como "o navio de Teseu" faz para o eu.
Na alegoria grega antiga, Teseu - o rei fundador de Atenas - navegou triunfantemente de volta à grande cidade depois de matar o mítico Minotauro em Creta. Por mil anos, seu navio foi mantido no porto de Atenas como um troféu vivo e foi navegado anualmente para Creta para reencenar a viagem vitoriosa. Quando o tempo começou a corroer a embarcação, seus componentes foram substituídos um por um - novas pranchas, remos, velas - até que nenhuma peça original permanecesse. Plutarco pergunta então que era o mesmo navio? Não existe um eu estático e sólido. Ao longo da vida, nossos hábitos, crenças e ideias evoluem além do reconhecimento. Nossos ambientes físicos e sociais mudam. Quase todas as nossas células são substituídas. No entanto, permanecemos, para nós mesmos, "quem" "nós" "somos".
Assim, com a ciência: pouco a pouco, as descobertas reconfiguram nossa compreensão da realidade. Essa realidade nos é revelada apenas em fragmentos. Quanto mais fragmentos percebemos e analisamos, mais realista é o mosaico que fazemos deles. Mas ainda é um mosaico, uma representação - imperfeita e incompleta, por mais bela que seja, e sujeita a uma transfiguração interminável. Três séculos depois de Kepler, Lord Kelvin subiu ao pódio na Associação Britânica de Ciências, em 1900, e declarou: "Não há nada novo a ser descoberto na física agora. Tudo o que resta é uma medição cada vez mais precisa". No mesmo momento, em Zurique, o jovem Albert Einstein está incubando as idéias que convergiriam para sua concepção revolucionária de espaço-tempo, transfigurando irreversivelmente nossa compreensão elementar da realidade.

Extraído do ensaio How Kepler Invented Science Fiction and Defended His Mother in a Witchcraft Trial While Revolutionizing Our Understanding of the Universe, de Maria Popova. Brain Pickings

Relacionado: Mudança e identidade

18 julho, 2019

Um experimento de 500 anos em microbiologia

Em algum lugar da Universidade de Edimburgo, há uma caixa de carvalho contendo 400 frascos selados de vidro - bem, agora são alguns menos - que contêm esporos secos de B. subtilis e Chroococcidiopsis sp.

(A) Bacillus subtilis, uma bactéria Gram-positiva. (B) A estrutura de um esporo bacteriano típico. As múltiplas camadas do esporo servem para proteger o genoma, que está alojado no núcleo parcialmente desidratado. (C) Chroococcidiopsis sp., uma cianobactéria extrema tolerante à dessecação.
A 500-year experiment, por Charles Cockell

No Museu de História Natural de Londres há réplicas dessa caixa e do seu conteúdo.
Eles são o material de um experimento sobre a sobrevivência a longo prazo das bactérias. Tão longo é esse prazo que o experimento, que começou em 2014, não terminará até 30 de junho de 2514. Sim, é uma experiência que durará 500 anos . Então, não digam agora que os cientistas não são pacientes.
A ideia é que a cada dois anos, durante os primeiros 24 anos do experimento, seis frascos sejam retirados de cada uma das caixas, eles sejam abertos, os esporos sejam reidratados e sua capacidade de germinar seja observada.
Três dos frascos estão em uma caixa de papelão simples, os outros três em uma caixa de chumbo para protegê-los da radiação ambiente. A partir daí, o processo é repetido a cada 25 anos até atingir 2514.
Nas observações realizadas em 2014 e 2016 não foi encontrado que a capacidade de germinação dos esporos tenha sido reduzida; Os resultados de 2018 ainda não foram publicados, mas presume-se que não haja muita diferença.
O maior problema desta experiência é arranjar alguém que, dentro de vários séculos,, seja capaz de saber o que fazer com as amostras que estão nas caixas, assumindo-se que a civilização e a ciência continuem a existir, e que as caixas não estejam perdidas em um porão qualquer, é claro.


As experiências mais longas da história até agora:
A Campainha Oxford, que funciona com duas pilhas secas desde 1840. Desconhece-se a exata composição dessas pilhas que fornecem eletricidade para que a campainha funcione há 176 anos.
O Relógio Beverly, situado no Departamento de Física da Universidade de Otago, em Dunedin, Nova Zelândia. Acionado por variações de temperatura e pressão atmosférica, o relógio funciona desde que foi construído em 1864.
A Gota de Piche, na Universidade de Queensland, na Austrália, um experimento que teve início em 1927. Desde que o piche começou a fluir através de um funil já gotejou em nove ocasiões: a primeira, em 1938 (onze anos depois), e a última, em julho de 2013.

29 abril, 2019

Carta de Sobral

Em 30 de março último começou a reação da ciência brasileira contra a ignorância militante do governo Bolsonaro. Na Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Sobral, realizada nos dias 27 – 30 de março, com mais de 3 mil pessoas, nasceu a Carta de Sobral, cujo texto, um sinal histórico vital da ciência no Brasil, deve ser aqui repercutido na íntegra:
☀️Sob o Sol de Sobral: por uma educação básica de qualidade, pela ciência e pela democracia
"O problema imaginado por minha mente
foi solucionado pelo céu luminoso do Brasil."
[Albert Einstein, 1925]
A SBPC e os participantes de sua Reunião Regional, realizada em Sobral entre os dias 27 e 30 de março, se manifestam firme e decididamente em defesa da educação pública de qualidade, da ciência e da democracia no País.
Comemoramos neste ano o centenário do eclipse solar de 1919, cujas observações, feitas em Sobral, foram decisivas para a confirmação da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, que alterou profundamente a ciência e a nossa visão do Universo. Deste município do Ceará, Terra da Luz – primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão –, vem, ainda, o exemplo notável de melhoria significativa no desempenho dos estudantes das escolas básicas, um processo que foi construído a partir de políticas públicas continuadas e que priorizaram a educação. Outros exemplos similares, e exitosos, provêm de diversos municípios brasileiros. Um desafio grande é estendê-los para abarcar todo o País.
A valorização efetiva do professor e sua formação adequada são fatores essenciais para a melhoria da educação básica. Outros fatores importantes são condições de trabalho adequadas, boa gestão escolar, avaliações criteriosas e mobilização da comunidade local em prol da educação. O ensino de ciências é fundamental para a formação de um cidadão no mundo contemporâneo. No momento em que ganham proeminência ideias obscurantistas e correntes anticientíficas, é essencial destacar a importância decisiva do conhecimento científico para as tomadas de decisão individuais e coletivas, para a gestão pública e para o desenvolvimento social e econômico do País.
O papel do Estado é essencial para a garantia dos direitos sociais dos brasileiros. A vinculação orçamentária de recursos para a educação e saúde foi uma importante conquista da Constituição de 1988, e a desvinculação desse orçamento, como anunciada recentemente, é uma ameaça muito grave e terá consequências catastróficas para a educação, a saúde e a qualidade de vida da imensa maioria dos brasileiros. Conclamamos todos os brasileiros a se unirem em um movimento amplo em defesa da educação pública de qualidade, laica, que respeite a diversidade e assegure direitos e oportunidades iguais para todas as crianças e jovens. O destino do povo brasileiro deve estar acima dos interesses financeiros ou de setores privilegiados da sociedade.
Por outro lado, os drásticos cortes realizados recentemente no orçamento de Ciência, Tecnologia e Inovação (da ordem de 40%), que já estava em nível muito baixo, colocam o Brasil na contramão da história. Os países desenvolvidos investem de maneira ainda mais acentuada nestas áreas em momentos de crise econômica. Pesquisas demonstram que o investimento em ciência tem repercussão social significativa e retorno econômico grande. É inaceitável que sejam feitos novos cortes em um orçamento já tão reduzido. As consequências afetarão toda a estrutura de pesquisa no País e, ainda, os setores empresariais que buscam promover a inovação. Eles comprometem o funcionamento do sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, construído ao longo de décadas, dificultam a recuperação econômica e certamente irão afetar seriamente a qualidade de vida da população brasileira e a soberania do País.
Recursos para educação e para ciência e tecnologia não são gastos, são investimentos do presente em um futuro melhor para o País!
A SBPC, ao longo de sua história, juntamente com muitas outras entidades científicas acadêmicas e da sociedade civil, se destacou por sua luta pela educação, pela ciência e pela democracia no Brasil. Atuamos contra as práticas autoritárias de um regime ditatorial, em defesa das liberdades democráticas, pela redemocratização do País e pela construção da Constituição de 1988 que incorporou os direitos da cidadania.
Neste momento crítico da vida nacional, reafirmamos a importância do livre pensar e da democracia em sua plenitude. Não aceitaremos o retorno do cerceamento às liberdades democráticas, da censura, das perseguições políticas, da ausência da liberdade de expressão, que são direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU.
Queremos que todos os cidadãos, em especial as crianças e os jovens, tenham garantidos seus direitos educacionais e sociais. Motivos justos para comemorações intensas pelo conjunto dos brasileiros, nos próximos anos e décadas, serão a superação do analfabetismo e da miséria, o avanço significativo na educação, na ciência e na tecnologia, uma melhor qualidade de vida para todos, a redução das desigualdades, a preservação do meio ambiente e de nossas riquezas naturais, que estão em causa neste momento, e o desenvolvimento sustentável do País.
É essencial, neste momento, uma atuação vigorosa e permanente da comunidade científica, acadêmica e educacional como um todo, por meio de suas entidades e instituições de pesquisa. É necessária uma mobilização mais intensa dos pesquisadores, professores e estudantes, das entidades científicas e das instituições de ensino e pesquisa brasileiras, em conjunto com outros setores da sociedade civil, lideranças políticas e parlamentares, para exercerem uma pressão social legítima, que poderá ser determinante para a reversão do atual quadro de retrocessos no apoio à educação e à ciência e tecnologia e de ameaças à democracia no País.
Que o Sol luminoso do Brasil inspire e motive a todos nós na resolução dos problemas do País.
Sobral, 30 de março de 2019

14 abril, 2019

Formas Artísticas da Natureza

Ciência e arte - uma lacuna, alguns podem dizer um abismo, sempre existiu entre elas. Então, ocasionalmente, apenas de vez em quando, surge alguém que tenta (e consegue) suprimir essa lacuna. Assim foi com o alemão Ernst Haeckel quando, em 1899, ele começou a publicar sua obra "Art Forms of Nature"("Kunstformen der Natur", em seu alemão nativo).
Contemporâneo de Darwin, Haeckel mudaria, através de suas impressões litográficas, o modo como muitos consideravam a relação entre arte e ciência.



Ernst Haeckel (1834 — 1919)
Foi médico, naturalista e um artista versado em ilustração que se tornaria professor em anatomia comparada.  Descreveu e nomeou muitas espécies, mapeou uma árvore genealógica que relacionou as diferentes formas de vida e ajudou a popularizar o trabalho de Charles Darwin. Propôs alguns termos frequentemente utilizados em ciência como filo, ecologia, antropogenia e filogenia, e ampliou as ideias de seu mentor, Johannes Müller, argumentando que os estágios embrionários em um animal recapitulam a história de sua evolução, isto é, que a ontogenia seria uma recapitulação da filogenia.

04 março, 2019

Os Caçadores de Mitos

MythBusters (Os Caçadores de Mitos) é um programa de ciência popular da televisão que foi ao ar no Discovery Channel de 2003 a 2016. É estrelado pelos especialistas de efeitos especiais Adam Savage e Jamie Hyneman, que usam seus conhecimentos para testar a validade de vários rumores e lendas urbanas. Outras coprotagonistas também apareceram nas várias temporadas da série e foram apelidados de "Build Team".


Os Caçadores de Mitos testaram mais de 1.000 mitos distintos em 271 episódios, abrangendo 14 anos, resultando em uma vasta quantidade de informações sobre mitos comuns e fenômenos interessantes.
A página a seguir resume por categorias os resultados de de todos os episódios que foram ao ar.

14 janeiro, 2019

Ninguém pode ter "opinião" sobre a existência da gravidade

Salvador Nogueira

FELIZ ANO VELHO. O obscurantismo voltou com tudo, e se trata de um fenômeno global. Para alguns arautos da irracionalidade, aliás, a palavra "global" nem faz sentido. É o caso dos terraplanistas, que seguem colecionando adeptos. Em outubro de 2018, um grupo de "pesquisadores" terraplanistas foi recebido por deputados estaduais na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, onde ganharam uma homenagem por seus "estudos" sobre a forma do nosso planeta.
O terraplanismo é folclórico. Rende risadas. (1) Mas o fato de sandices como essa ganharem popularidade não tem a menor graça. Por duas razões. Primeiro, porque trata-se de um sintoma de que parte significativa da população viva hoje desconhece fatos objetivos sobre o mundo - como a Lei da Gravitação, que os terraplanistas dizem ser uma farsa. Segundo, porque estamos descobrindo que quase ninguém sabe distinguir fatos de opiniões - você simplesmente não pode ter uma "opinião" sobre o formato da Terra ou sobre a existência da gravidade. Isso pertence ao reino dos fatos. O pior, de qualquer forma, é que isso definitivamente não se aplica só a conceitos como o formato da Terra.
Uma pesquisa do Pew Research Center, feita em 2018, entrevistou 5.035 americanos adultos selecionados aleatoriamente pela internet. Tudo que eles tinham de fazer era ler dez frases simples e apontar se eram afirmações factuais ou opiniões. Apenas 26% foram capazes de apontar corretamente as cinco factuais e só 35%conseguiram identificar corretamente as cinco que eram opinativas. Resumindo a ópera, três em cada quatro americanos não sabem separar fato de opinião. Poucos acreditariam que no Brasil a situação seja muito melhor. E isso explica muita coisa. Ou você nunca ouviu alguém dizer por aí, pelas redes sociais, quando encurralado pelos fatos, que "essa é a minha opinião", como forma de encerrar um debate?
A partir do momento em que as pessoas se sentem à vontade para desconectar suas opiniões dos fatos objetivos, temos um problema grave. A Terra plana é entretenimento, mas e o movimento antivacinas? A Europa viu um aumento de 400% no número de casos de sarampo em um ano - de 5.273 em 2016 para 21.315 em 2017.
E mesmo quando defensores do movimento antivacinas são confrontados com esses números, e com a explicação clara de como vacinas funcionam e de como simplesmente não há evidência de que elas possam causar os males que se atribuem a elas, ainda assim eles podem se esconder por trás de teorias conspiratórias sobre a "malévola indústria farmacêutica". E, claro, quando não houver outro recurso, parte-se para um "mas essa é a minha opinião". Eita.
Ao longo do progresso fantástico realizado pela humanidade durante o século 20, fomos nos esquecendo do que era a vida antes que a ciência entrasse para valer no nosso cotidiano. Sem vacinas e antibióticos, a mortalidade infantil era altíssima. Durante o século 19, ela era de 30%; a cada três crianças nascidas, uma morria antes de completar cinco anos. Na Alemanha chegava a 50%.
Então a ciência entrou em cena, com três contribuições essenciais: a percepção de que saneamento básico era essencial para evitar infecções, o desenvolvimento dos antibióticos e a criação das vacinas. O ser humano passou milhares de anos tentando proteger sua prole com rezas, chás e superstições de todo tipo, mas o que deu certo foi entender como as doenças funcionam e combatê-Ias com armas eficazes.
Ao longo do século 20, pela primeira vez na história, vimos um declínio acentuado na mortalidade infantil. Em 2015, ela era, em termos globais, de 4.3%. Ou seja, a cada cem crianças, apenas quatro morriam antes de completar 5 anos. E isso numa média tirada do mundo inteiro. No Brasil, no mesmo ano, era só de 1,7%. Na Suécia, dado de 2014, 0,3%.
Outro tema adorado pela turma do "mas essa é a minha opinião" é a mudança climática. Pouco importa que a Nasa e quem mais for apresente fartas evidências do aquecimento global. Pouco importa que os registros de temperaturas, feitos com termômetros (pouco afeitos a ideologias), apontem que a temperatura média do planeta já subiu 0,9°C entre 1880 e 2017. Pouco importa que 17 dos 18 anos mais quentes nos 138 anos de registros tenham acontecido depois de 2001, ou que 2016 tenha sido o ano mais quente de todos os registros. O sujeito espera a primeira brisa gelada soprar para dizer "cadê o aquecimento global?". É dramático, e se trata de um problema que está ganhando proporções cada vez maiores. Não é mais o seu primo doido no WhatsApp. É o Ministro das Relações Exteriores que atribui às medições feitas pela Agência Espacial dos Estados Unidos o status de "complô ambientalista globalista esquerdista sei-lá-mais-o-que-ista".
Da mesma forma, vemos o descalabro nas políticas de saúde. Basta lembrar a quantidade de dinheiro que o SUS (Sistema Único de Saúde) gasta em "práticas alternativas", também conhecidas como "tratamentos sem qualquer evidência de eficácia". É homeopatia, acupuntura, (2) aromaterapia, bioenergética, cromoterapia, florais; tudo pago com dinheiro público. Em 2017, foram R$ 17,2 bilhões nisso.
É o tal negócio: o sujeito pode acreditar no que quiser. É direito dele. Mas ninguém pode aplicar crenças pessoais no âmbito da gestão pública. E estamos chegando num ponto em que agentes públicos se sentem à vontade para ditar políticas de acordo com premissas completamente desconectadas da realidade objetiva. Tudo não passaria de um escândalo embaraçoso, não fosse um detalhe: essas atitudes nunca tiveram tanto apoio popular.
Como é possível? Hoje, qualquer um de nós tem mais informação disponível nas mãos, com um celular e uma conexão 4G, do que tinha o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca nos anos 1960. (3) É um disparate imaginar que, diante do tamanho poderio tecnológico de que dispomos, estejamos ficando, na média, cada vez mais desinformados e ignorantes. No entanto, é verdade.
E só vamos desarmar essa arapuca se encontrarmos uma base comum de fatos objetivos com os quais todo mundo possa concordar. Essa base só pode ser uma: a ciência. E não porque ela seja moralmente ou ideologicamente superior. Mas porque ela se aceita como falível. Porque está fundamentada na dúvida, não na certeza. E a certeza inabalável, imune aos fatos, é o caminho mais curto para o retrocesso.
(matéria enviada por Jaime Nogueira)
Notas do blog EM
(1) A Conferência Internacional da Terra Plana (FEIC, na sigla em inglês) decidiu fretar um navio de cruzeiro no ano que vem com o absurdo propósito de chegar aos limites da Terra. Segundo uma parte dos seguidores desta corrente, que defende que a Terra não é esférica, o planeta acaba num muro de gelo que nos separa do espaço exterior, aonde pretendem chegar nesse cruzeiro. O ex-capitão naval Henk Keijer lembra que todas as cartas náuticas e os sistemas de navegação foram desenvolvidos sob a premissa de que a Terra é esférica, a que navegação desse cruzeiro deverá ser "muito complicada" se a tripulação discordar disso. "Os navios navegam baseando-se no princípio de que a Terra é redonda. As cartas náuticas são desenhadas com isso em mente: que a Terra é redonda", recorda o ex-capitão, acrescentando que os navios usam "um moderno sistema de navegação que se chama ECDIS, que proporciona uma grande melhora na segurança da navegação". A própria existência do GPS é outra prova de que a Terra é esférica, indica Keijer, já que o sistema se baseia em 24 satélites que orbitam a Terra. "Se a Terra fosse plana, três satélites já seriam suficientes para proporcionar os dados" argumenta,
(2) A acupuntura é uma espetada bem feita. Esse é o ponto.
(3) Ler: Comunicação e informação.

01 novembro, 2018

Besso, um cientista amigo de Einstein

Michele Angelo Besso (Riesbach, 25 de maio de 1873 - Genebra, 15 de março de 1955) foi um engenheiro suíço/italiano.
Angelo Besso nasceu em Riesbach de uma família de ascendência judaica italiana (sefardita). Ele foi um amigo próximo de Albert Einstein durante seus anos no Instituto Politécnico Federal em Zurique  (hoje o ETH Zurique), e depois no escritório de patentes em Berna, onde Einstein o ajudou a conseguir um emprego. Besso é creditado com a introdução de Einstein para os trabalhos de Ernst Mach, o crítico cético da física que influenciou a abordagem de Einstein à disciplina. Einstein chamou Besso de "a melhor caixa de ressonância da Europa" para as idéias científicas.
No artigo original de Einstein sobre a Relatividade Especial, ele terminou o artigo afirmando:
"Concluindo, gostaria de dizer que, ao trabalhar com o problema aqui tratado, tive a leal assistência de meu amigo e colega M. Besso, e que estou em dívida com ele por várias sugestões valiosas."
Besso morreu em Genebra, aos 81 anos. Em uma carta de condolências à família Besso, Albert Einstein escreveu:
"Agora ele partiu para esse mundo estranho um pouco à minha frente. Isso não significa nada. Pessoas como nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente." 
Einstein morreu trinta e três dias depois de seu amigo, em 18 de abril de 1955.

Web TV Culture: Einstein et Besso, deux génies au service de la science (vídeo 2;50)

23 outubro, 2018

Em grande estilo

Se você acredita que a ciência é sobre o uso de grandes palavras para argumentar que você está certo e outras pessoas estão erradas, aqui está um artigo que usa grandes palavras para argumentar que você está certo e outras pessoas estão erradas:
O Papel da Ciência na Hermenêutica Evangélica
RESUMO
Neste artigo, argumento que os cristãos evangélicos podem acomodar a ciência dentro dos limites da estrita exegese bíblica governada pela hermenêutica gramatical e histórica. Para este fim, eu descrevo o método histórico-gramatical para mostrar como a ciência entra nela. Eu, então, distingo entre usos teológicos e exegéticos da ciência. Em seguida, uso a filosofia da ciência de Lakatos para distinguir entre movimentos exegéticos ad hoc e bem motivados. Com base nesses critérios, apresento as teorias do intervalo e do dia-a-dia como exemplos de falha hermenêutica na acomodação da ciência. Finalmente, uso a interpretação do quadro para ilustrar uma acomodação hermenêutica da ciência.
John B. King Jr
The Role of Science in Evangelical Hermeneutics
Páginas 177-187 | Publicado online: 10 abr 2018
https://doi.org/10.1080/14746700.2018.1455268

09 junho, 2018

Stephen Hawking e sua supercadeira

Stephen William Hawking (8 de janeiro de 1942, Oxford, UK - 14 de março de 2018, Cambrige, UK) foi um físico teórico, cosmólogo e um dos mais consagrados cientistas das últimas décadas. Doutor em cosmologia, foi professor lucasiano de matemática na Universidade de Cambridge, na qualidade de professor lucasiano emérito, um posto que foi ocupado por Isaac Newton, Paul Dirac e Charles Babbage. Também foi diretor de pesquisa do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica e fundador do Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge.
Hawking era portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa incurável que paralisa os músculos do corpo sem, no entanto, atingir as funções cerebrais. A doença foi detectada quando ele tinha 21 anos. Em 1985, Hawking teve que se submeter a uma traqueostomia após ter contraído pneumonia e, a partir de então, utilizou um sintetizador de voz para se comunicar. Gradualmente, ele perdeu o movimento dos seus braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, de modo que sua mobilidade ficou praticamente nula. Em 2005, Hawking usava os músculos da bochecha para controlar o sintetizador e, em 2009, já não podia mais controlar a sua cadeira de rodas elétrica.
Outros cientistas criaram novas formas de tecnologia para evitar que o físico sofresse da "síndrome do encarceramento", ajudando a traduzir os pensamentos de Hawking em fala. A última versão desenvolvida pela Intel e cedida a Hawking em 2013, rastreava o movimento dos olhos do cientista para gerar palavras, embora ele afirmasse em seu site oficial (www.hawking.org.uk) que ainda prefiria usar o "cheek tracking" (rastreamento da bochecha) para utilizar a interface ACAT (um sistema também desenvolvido pela Intel).


Hawking se descrevia como ateu. Em algumas ocasiões, usou a palavra "Deus" em seus livros e discursos, mas, segundo ele próprio, no sentido metafórico e relativo. Hawking acredita que "o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por um Criador, mas um Criador não intervém para quebrar essas leis". Ele comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo que "há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".
Apesar de confinado a uma cadeira de rodas e incapaz de falar sem o auxílio de um sintetizador de voz (que o deixava "com um sotaque americano"), Stephen Hawking realizou notáveis contribuições no campo da cosmologia (o estudo do universo como um todo) e da gravidade quântica, além de escrever as 262 páginas do maior "best-seller" da ciência para leigos: "Uma breve história do tempo". WIKI

Na Genno e ScientiaComo Hawking escrevia e pronunciava seus discursos
1. Um tablet era instalado em um suporte de metal acoplado a um dos braços da cadeira.
2. No menu havia termos prontos, como "sim", e uma lista de palavras em ordem alfabética, além da função "soletrar".
3. Um sensor nos óculos captava os movimentos da bochecha usados para escolher as frases.
4. O texto completo era enviado ao sintetizador, que criava a voz simulando entonação, segundo Sam Blackburn, assistente de Hawking. O som saía atrás do suporte do computador.
5. Para palestrar, ele escrevia o discurso antes. Na hora da participação, envia ao sintetizador uma frase por vez, o que deixava a fala mais natural.

No blog EM: Stephen Hawking está fora de controle

17 maio, 2018

A fabricação intencional da ignorância

Agnotologia, o estudo da ignorância ou da construção da ignorância. O termo vem do grego ἄγνωσις, agnōsis, "desconhecer", e -λογία, -logia.

Ir até http://blogdopg.blogspot.com.br/2013/01/nao-sei.html.
  • A ciência precisa ser transparente.
  • Os resultados e métodos devem ser abertamente compartilhados para que pesquisadores externos possam reproduzi-los e validá-los de forma independente.
  • Os métodos utilizados para coletar e analisar dados devem ser rigorosos e claros, e as conclusões devem ser apoiadas por evidências.


Agnogênese, a fabricação intencional da ignorância. Esta ignorância não é simplesmente a ausência de saber alguma coisa: é uma falta de compreensão deliberadamente criada por agentes que não querem que você saiba...

Ir até https://fivethirtyeight.com/features/the-easiest-way-to-dismiss-good-science-demand-sound-science/

Fontes de desinformação
  • boatos/lendas e obras de ficção;
  • governos e políticos;
  • interesses instituídos (vested interests) e ONGs;
  • mídia/meios de comunicação.
Ir até http://genereporter.blogspot.com.br/2016/06/divagacao-cientifica-divulgando.html