Mostrando postagens com marcador África. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador África. Mostrar todas as postagens

18 agosto, 2023

Ossos de contagem

Você já ouviu falar do osso Lebombo?
É ainda mais antigo que o osso Ishango (que muitos pensam que representa a mais antiga tabela de números primos).

Imagem superior: osso Lebombo. Abaixo: osso Ishango com gravação de números primos 
(JD Loreto e DH Hurlbert Smithsonian)

O osso Lebombo é, de fato, o mais antigo artefato matemático conhecido no mundo. Descoberto na década de 1970 em Border Cave, um abrigo rochoso na escarpa ocidental das montanhas Lebombo, em uma área perto da fronteira da África do Sul com a Suazilândia (atual Eswatini). O osso foi encontrado no lado de Eswatini e data de 35.000 aC. Consiste em 29 entalhes distintos que foram deliberadamente cortados na fíbula de um babuíno.
O osso tem entre 44.200 e 43.000 anos, de acordo com 24 datações por radiocarbono. Isso é muito mais antigo que o osso Ishango com o qual às vezes é confundido. Outros ossos entalhados têm 80.000 anos, mas não está claro se os entalhes são meramente decorativos ou se têm um significado funcional.
De acordo com O Livro Universal de Matemática, os 29 entalhes do osso Lebombo "podem ter sido usados como um contador de fases lunares, caso em que as mulheres africanas podem ter sido as primeiras matemáticas, porque acompanhar os ciclos menstruais requer o conhecimento de um calendário lunar"
(No entanto, o osso está claramente quebrado em uma extremidade, então os 29 entalhes podem ou não ser um número mínimo.)

28 março, 2023

De cabo a rabo

A origem dessa locução adverbial remonta ao período das grandes navegações portuguesas. A expressão inicial era "de Cabo a Rabat", referindo-se ao fato de se conhecer a costa africana da Cidade do Cabo, ao Sul, até à cidade de Rabat, em Marrocos. Eram pontos da rota de navegação das caravelas portuguesas com destino às Índias.
Seu significado atual é: ir, realizar algo ou conhecer um assunto do começo ao fim, de uma ponta à outra, dos pés à cabeça, de alfa a ômega etc.
Bom para o Dicionário Brasileiro de Frases.

02 dezembro, 2020

Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de "Hitler"

Dê uma olhada nesta foto. Sabe quem é?
A maioria das pessoas nunca ouviu falar dele.
Mas você deveria. Quando você vê o rosto dele ou ouve o nome dele, deveria ficar tão enjoado como quando lê sobre Mussolini ou Hitler ou vê uma de suas fotos. Veja bem, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo.
Seu nome é rei Leopoldo II da Bélgica.


Mark Twain escreveu uma sátira sobre Leopoldo chamada "Solilóquio do rei Leopoldo; Uma defesa de seu domínio no Congo", onde ele zombou da defesa que o monarca fez do seu reino de terror, em grande parte com as palavras do próprio Leopoldo. É uma leitura fácil em 49 páginas e Mark Twain é um autor popular nas escolas públicas americanas. Mas, como a maioria dos autores políticos, frequentemente leremos alguns de seus escritos menos políticos ou os leremos sem saber por que o autor os escreveu em primeiro lugar. A "Fazenda Animal", de Orwell, por exemplo, serve para reforçar a propaganda antissocialista americana sobre como as sociedades igualitárias estão fadadas a se transformar em seus opostos distópicos. Mas Orwell era um revolucionário anticapitalista de um tipo diferente - um defensor da democracia da classe trabalhadora de baixo - e isso nunca é apontado. Podemos ler sobre Huck Finn e Tom Sawyer, mas "Solilóquio do rei Leopoldo" não está na lista de leitura. Isso não é por acaso. As listas de leitura são criadas por conselhos de educação para preparar os alunos para seguirem as ordens e suportar o tédio.
~ Liam O’Ceallaigh

Extraído de: Diary of a Walking Butterfly

Estátuas na mira dos manifestantes

23 fevereiro, 2020

Uma banheira gigante de hidromassagem

Um satélite da Nasa forneceu esta imagem de uma enorme "tempestade" se formando no fundo do oceano. O bizarro fenômeno sob a superfície da água foi visto em 26 de dezembro de 2019, quando o satélite capturava imagens de rotina com as cores naturais da Terra.


A massa de água em turbilhão - que mede 150 quilômetros de largura - foi descoberta na costa da África do Sul. Pensa-se que este redemoinho em sentido anti-horário tenha descolado da Corrente das Agulhas, que flui ao longo da costa sudeste da África e ao redor da ponta da África do Sul. Os redemoinhos das Agulhas tendem a estar entre os maiores do mundo, transportando água morna e salgada do Oceano Índico para o Atlântico Sul.
Não houve necessidade de alertar a navegação internacional nem de se preocupar com os pobres peixes que se viram envolvidos nesse ciclo de lavagem sem fim - - o corpo de água não representou ameaça.

27 abril, 2017

O fim do marfim?

Quase um terço dos elefantes africanos foram ilegalmente abatidos por caçadores furtivos, nos últimos dez anos, para atender à demanda de marfim na Ásia, onde ainda há um comércio em expansão desse material, particularmente na China.
Como consequência dessa matança, um número crescente de elefantes africanos nascem agora sem presas. Ao matarem os animais com melhor marfim, os caçadores estão alterando fundamentalmente o pool genético dos elefantes.
Em algumas áreas, 98 por cento dos elefantes fêmeas já não têm presas, No passado, esse número oscilava entre 2 e 6 por cento.
A continuar a predação pela busca do marfim, todos os elefantes africanos podem se tornar sem presas como seus primos asiáticos, alertam os pesquisadores.
http://www.independent.co.uk/news/elephants-africa-tusks-ivory-poaching-born-without-a7440706.html#gallery

"As presas são usadas por eles para escavar comida e água, para mover árvores e galhos, para a auto-defesa e para a exibição sexual.". BBC

O marfim vegetal
Está ganhando popularidade como um substituto para o marfim, embora seu tamanho limite a sua usabilidade. É o endosperma da semente de palmeiras do gênero Phytelephas (nome que significa planta-elefante), que são comumente encontradas nas florestas tropicais do Panamá à Bolívia e no noroeste do Brasil.
https://en.wikipedia.org/wiki/Phytelephas

13 fevereiro, 2017

Um mapa das chuvas na África

Esta é uma imagem bonita e alarmante. O que você está vendo é um mapa das chuvas na África, que vão desde os dois mil milímetros de precipitações pluviométricas por ano, perto do equador (áreas brancas), até a completa ausência de chuvas no Saara (áreas cinzas).
A ausência total de chuvas é algo muito sério. Existem aldeias na África em que não chove há nove anos. E as crianças com menos de onze anos de idade, que nelas residem, não têm a memória viva do que é a água caindo do céu.
Água é vida: sua interrupção pode ter consequências mortíferas. Infelizmente, isso pode acontecer tanto por razões naturais (como o AMO, o Atlantic Multi-decadal Oscillation) quanto artificiais (como as alterações climáticas), e os dois se somam.
https://plus.google.com/+YonatanZunger
http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=88670&src=eorss-iotd

Na Etiópia: Água potável extraída do ar.

08 fevereiro, 2017

O celeiro do Império Romano

A origem do nome "África" ​​não é totalmente clara. Os antigos romanos usavam o termo "Afri" para se referir aos habitantes de Cartago e, mais especificamente, a uma tribo da Líbia. Há evidências de que a palavra se originou de uma das línguas nativas da região, talvez do berbere.
Depois de conquistar Cartago (Tunísia moderna), no final da Terceira Guerra Púnica em 146 a.C., Roma estabeleceu a "província romana da África" ao redor da cidade destruída. A província cresceu para abranger as zonas costeiras do nordeste da Argélia e Líbia ocidental.
No entanto, as terras romanas no norte da África não foram limitadas à província romana da África. A ponta da Líbia, juntamente com a ilha de Creta, o Egito, assim como a Mauritânia  e porções do Norte da Argélia e Marrocos foram também conquistadas por Roma.
A fim de facilitar o comércio, especialmente de produtos agrícolas, vários imperadores romanos sucessivamente semearam, ao longo dos tempos, colônias no continente africano.
Roma tinha o povo, mas as pessoas precisavam de pão. E a África, rica em solo fértil, tornou-se  o "celeiro do Império."


http://madefrom.com/history/antiquity/marvel-north-africa-roman-times/

26 janeiro, 2017

A transposição dos girinos

A rã-touro (Pyxicephalus adspersus) é conhecida por sua agressividade. Mas, o maior dos ranídeos da África, é também um amor completo de rã quando se trata de cuidar das crias.
Neste vídeo da TV Nature, os girinos crescem em uma poça ao lado de uma lagoa. O sol está secando a poça, colocando seus filhos em perigo mortal. Então, ela cava um canal da poça até a lagoa, proporcionando-lhes a única forma de sobreviver.



O sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão (Guimarães Rosa). Os girinos, nem por precisão.

15 janeiro, 2017

Pássaro malandro

O pássaro drongo é o maior malandro do Kalahari e os suricatos são suas vítimas.
O primeiro passo é ganhar a confiança deles.



Este pássaro usa falsas chamadas de alarme para que os suricatos fujam, abandonando os petiscos que encontraram. É dessa forma que o drongo obtém uma boa parte de sua alimentação.

Música do dia: Urubu malando (c/ Altamiro Carrilho)

07 abril, 2016

A sopa de morcegos frugívoros

Já se disse que "as nossas diferenças fazem o mundo girar", e essa noção é reforçada aqui. Neatorama

Em partes subtropicais da África, Ásia e ilhas da região do Pacífico, a sopa de morcego é um prato popular.
Saiba aqui como é preparada a sopa na maneira tradicional da Micronésia.
Estes mamíferos voadores, no entanto, podem albergar mais de 60 tipos de vírus zoonóticos que podem infectar os seres humanos (o que é muito mais do que qualquer outro animal faz) e, por isso, eles se tornam perigosos de serem comidos.
O primeiro caso conhecido de Ebola foi documentado em 1976. Em 2014, houve uma epidemia que tirou a vida de mais de 11.000 pessoas, de acordo com o CDC. E especialistas acreditam que a epidemia de Ebola pôde ser rastreada até os seres humanos que entraram em contato com morcegos infectados.
Embora os vírus possam ser mortos quando os morcegos são cozidos por tempo suficiente e em altas temperaturas, qualquer pessoa envolvida na caça, na esfola, ou em outra forma de lidar com o animal antes de ser bem cozido está em risco de contrair uma infecção.
Em 2014, sopa de morcego foi proibida na Guiné, país da África Oriental, em seu esforço para evitar a propagação de Ebola.
A razão pela qual a carne morcego estava na demanda nesta área não foi por causa de crenças tradicionais e práticas médicas, mas porque é localmente considerado um alimento "de luxo", bem como uma fonte importante de proteína animal. E muitos até então desconheciam que o prato favorito local poderia estar repleto de patógenos virais.

23 março, 2016

Mansa Musa


Período: 1280-1337
País: Mali
Riqueza: mais rico do que qualquer um poderia descrever
Mansa Musa, rei de Timbuktu, é muitas vezes referido como tendo sido a pessoa mais rica do mundo. De acordo com o professor de história Richard Smith, do Ferrum College, o reino da África Ocidental de Musa foi provavelmente o maior produtor de ouro do mundo. Isso no tempo em que o ouro estava com uma demanda especialmente alta.
E quão rico era Musa? Não há, realmente, nenhuma maneira de colocar em números exatos a sua fortuna. Os registros são escassos e as fontes contemporâneas descrevem as riquezas do rei em termos que são impossíveis para a época.
Há relatos de sua famosa peregrinação a Meca – durante a qual as despesas de Musa causaram uma crise cambial no Egito – com a menção de que dúzias de camelos foram utilizados no transporte de centenas de libras de ouro. (Smith diz que um ano de produção de ouro do Mali provavelmente gerava cerca de uma tonelada.) Outros dizem que o exército de Musa consistia de 200 mil homens, incluindo 40 mil arqueiros – um quantitativo de combatentes que, mesmo atualmente, seria difícil para trazer a campo.
Rudolph Ware, professor de história da Universidade de Michigan, explica como as pessoas penam para descrever as riquezas de Musa, de tão imensas que eram:
"Ele foi o cara mais rico que alguém já viu, esse é o ponto", diz Ware. "As pessoas tentam encontrar palavras para explicar isso. Há imagens dele empunhando um cetro de ouro em um trono de ouro, com uma xícara de ouro na mão e uma coroa de ouro na cabeça. Imagine tanto ouro quanto você acha que um ser humano poderia possuir e dobrá-lo, isso é o que todas as estimativas procuram comunicar."
Quando ninguém pode sequer compreender a sua riqueza, significa que você é irritantemente rico.


Poderá também gostar de ver:
O valor do ouro

06 dezembro, 2015

Cercas de mel

Os elefantes podem ser belos e majestosos, mas também são um incômodo quando eles entram nas plantações. Isso, por exemplo, é um sério problema na África Oriental.
Mas a zoóloga Lucy King desenvolveu uma solução.
Os elefantes têm medo das abelhas, porque suas picadas são muito dolorosas. E, quando ouvem o zunir das abelhas – de abelhas africanas, para piorar a situação – eles fogem imediatamente.
Então, Lucy inventou uma barreira para elefantes (foto) que consiste de uma longa sequência de fio com colmeias a cada 10 metros. Quando os elefantes batem no fio, eles irritam as abelhas que começam a deixar suas colmeias para ir ferroá-los. E só esse movimento preparatório das abelhas para o ataque já é suficiente para afugentar os elefantes intrusos.
Edible Geography chama poeticamente de "honey fences" (cercas de mel) o dispositivo inventado pela zoóloga.

Boas cercas, bons vizinhos, diz o provérbio.

Formigas: trombando com os elefantes

24 novembro, 2015

Aniversário da descoberta do fóssil Lucy

Thiago Barros
O 41º aniversário da descoberta do fóssil Lucy é o tema do Doodle Google desta terça-feira (24). O esqueleto do Australopithecus afarensis foi encontrado em 1974 pelo antropólogo Donald Johnson e o estudante Tom Gray durante escavações na Etiópia, no deserto do Triângulo de Afar. O alto grau de conservação da ossada espantou os arqueólogos.
Após os pesquisadores constatarem que o fóssil de 3,2 milhões de anos pertencia a uma mulher, batizaram-no de Lucy em homenagem à música dos Beatles chamada "Lucy in the Sky with Diamonds" que, segundo relatos, estaria tocando no momento das escavações e nas comemorações após a descoberta.
O Doodle
“Lucy in the sky with diamonds” parece ter inspirado também o Doodle que o Google fez em homenagem à descoberta. Afinal, as letras do nome da empresa têm uma cor com o tom no melhor estilo “diamante”. No meio, há uma animação mostrando a evolução de um macaco para o homem como grande destaque.


Lucy é a personagem do meio, que seria um Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos. Seu crânio com tamanho intermediário entre o dos humanos e o dos chimpanzés é o que denomina o gênero de Australopithecus, que significa “macaco do sul”. Eles são bastante próximos dos hominídeos do gênero Homo na escala de evolução. Ver também: Descoberta do fóssil mais antigo do gênero "Homo", Acta
Johnson considerou que o espécime era do sexo feminino, baseando-se no osso pélvico e sacro completos indicando a largura da abertura pélvica. Lucy tinha apenas 1,1 metros de altura, pesava 29 kg e se parecia de certa forma com um chimpanzé comum. Entretanto, embora a criatura tivesse um cérebro pequeno, a pélvis e os ossos das pernas eram quase idênticos aos dos humanos modernos.

20 setembro, 2015

Portugueses na África

Crônica inédita de Lima Barreto encontrada na Biblioteca Nacional
A crônica "Portugueses na África", escrita por Lima Barreto – provavelmente em 1907 –, nunca foi publicada; nem mesmo na coluna "Echos", da revista A Floreal, à qual ela se destinava, segundo indicação do autor no verso de uma das folhas em que foi escrita. O original foi encontrado recentemente numa pasta do Arquivo Lima Barreto – que está preservado na Divisão de Manuscritos – pelo doutor em "Estudos Brasileiros (Literatura e Cultura)" pela Universidade de Lisboa, João Marques Lopes, hoje bolsista do Programa Nacional de Apoio a Pesquisadores Residentes (PNAP-R), da Biblioteca Nacional. João Marques Lopes estuda o modo como a obra de Lima Barreto, um dos mais importantes escritores brasileiros, foi recebida em Portugal.
Os srs. já conhecem a coisa. De ano em ano, os jornais daqui e de além-mar noticiam estrondosas vitórias dos portugueses sobre os indígenas de suas possessões de África. No tempo dos “Lusíadas”, talvez por não existir o jornalismo periódico, não davam tanta importância a feitos idênticos. Pelo menos não tenho notícia que Lisboa festejasse retumbantemente Antônio Salema, que, aí pelos fins de Quinhentos, matou dez mil índios perto de Cabo Frio; e se ainda nos resta memória das proezas da gente assinalada em Diu e Goa é porque alguns cronistas precavidos e meia dúzia de poetas entusiastas registraram-nas em prosa de bronze, ainda áspero, e em grandiosos versos, um tanto monótonos.
Hoje, não havendo farta messe de ações heroicas, lá pelo velho Portugal, os jornais e o governo não deixam escapar uma só vitoriazinha. Os heroísmos são narrados um a um, em frases cheirando ainda à Ilíada; os retratos são publicados e os plutarcas afiam a pena para mais essa centena de varões ilustres.
O que há em suma? Esta coisa simples: um destacamento português, de cem ou duzentas praças, derrota uma partida de desgraça dos negros, duplamente desgraçados por serem negros e por viverem em possessões do Portugal necessitado de vitórias.
Pelo jeito, o governo lusitano precisa demonstrar a vitalidade da nação; precisa lembrar ao mundo que o sangue heroico dos varões assinalados ainda não está de todo acabado; e para tal organiza, de quando em quando, umas justas art-nouveau em que morrem algumas dezenas de negros (ora, os negros!) e os portugueses praticam heroísmos dignos de versos gregos e do triunfo romano.
Tenho para mim que esses negros flexíveis e adaptáveis a toda a sorte de misteres, desde o de bestas de carga até o nobilíssimo de adversários dos esforçados varões do Portugal moderno, têm que acabar um dia. Se isso se der, a velha metrópole vai se ver atrapalhada para arranjar quem se preste à demonstração experimental de sua heroicidade eterna; e, a menos que a gente a quem outrora Marte obedeceu queira combater os chimpanzés e os gorilas de África, Lisboa só terá festas com franco cunho guerreiro quando o governo das Necessidades sabiamente resolver condecorar com grandiosas solenidades os valentões da Baixa que se portarem heroicamente nas rijas com tripulações de barcos estrangeiros de passagem pelo Tejo. Então é que havemos de ver o indigesto Teófilo a explicar esse afloramento do Heitor português na população da sarjeta alfacinha e o velho Camões a bimbalhar nas colunas dos jornais:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias…
E poderá assim Portugal, e por muito tempo, achar nos seus registos de nascimento, nomes que se possam contar naqueles outros em quem, como o Albuquerque terrível e o Castro forte, a morte não teve poder.
É ainda de Camões que, a meu ver, deve sofrer modificações convenientes para se adaptarem ao novo heroísmo de Portugal, se os nossos irmãos do Tejo querem um adaptador excelente, temos aqui à mão alguns experimentados em guerra. O Barão de Paranaguá calha, por exemplo…
N. do E.
[1] Extraído de: http://www.bn.br/noticia/2015/09/cronica-inedita-lima-barreto-encontrada-bn
[2] A ortografia foi atualizada.
[3] Grato a Fernando Gurgel pela informação sobre a descoberta do original desta crônica no Arquivo Lima Barreto da Biblioteca Nacional.

15 setembro, 2015

Ler o Mundo

No livro "E se Obama fosse Africano?", Mia Couto passa em revista as mazelas de Moçambique. Mazelas que assombram e freiam o desenvolvimento econômico e social de países em desenvolvimento. Países onde o colonizador plantou as sementes grosseiras da civilização após arrancar as sementes genuínas do lugar. O colonizador, culto e letrado à sua maneira, não soube ler o Mundo à sua volta.
Como diz Mia Couto, no livro citado:
"Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar.
Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o déficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros."
Fernando Gurgel
Resenha
Mia Couto, em "E se Obama fosse africano?" (Companhia das Letras), expõe um conjunto de textos de intervenção que resulta da sua participação em encontros públicos. As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, onde o escritor procura fazer da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade contemporânea.

16 agosto, 2015

Um bate-estaca na África

Para fazer a fundação de um edifício você precisa de um dispositivo mecânico: um bate-estaca (pile driver). Mas... se você não tem um?
Então, você usa a força da peãozada.


31 maio, 2015

Migingo como dói

É difícil acreditar que um pedaço de terra que cobre apenas metade de um acre seja um tema de muita controvérsia, mas Migingo, uma pequena ilha de pesca no Lago Vitória, na África Oriental, é exatamente isso.
Quênia e Uganda reclamam que a ilha está dentro de seus territórios, o que provoca muita tensão entre os pescadores de cada país, pois todos acreditam ter o direito de usá-la para pescar.
A Ilha Migingo é apenas um pontinho no mapa, mas (de perto) como dói.


26 fevereiro, 2015

Uma epidemia de risos e prantos

Uma epidemia pode ser definida como algo que "predomina em uma comunidade, em um momento especial, e que é produzida por causas especiais, geralmente não presentes na comunidade afetada (MacNaulty, 1961)".
Como as epidemias mais comuns são causadas pela disseminação de vírus, bactérias ou outros parasitas, há uma tendência a esquecer que o comportamento emocional anormal pode se espalhar de uma pessoa para outra e, assim, assumir uma forma de epidemia.
Um exemplo disto: foi o que concluiu este relatório sobre uma epidemia de risos, prantos e inquietação que perturbou por seis meses a vida normal das pessoas no distrito de Bukoba (mapa), ao Noroeste de Tanganica, em 1962.
A doença começou em uma escola para meninas, espalhando-se em seguida para outras escolas e aldeias da região. Adolescentes escolares constituíram a maioria dos casos, embora adultos (não alfabetizados) também tenham sido afetados pela doença. Não foram encontrados sinais físicos anormais significativos e todos os exames laboratoriais foram normais nas pessoas acometidas. Não houve mortes. Nenhum fator tóxico nos alimentos consumidos foi detectado. Sugeriu-se que o problema tenha sido uma epidemia de histeria em comunidades culturalmente suscetíveis.

29 julho, 2014

A rota do gelo

Em 1959, em resposta a um desafio de uma estação de rádio, um fabricante norueguês de material de isolamento transportou um bloco de gelo de três toneladas, do Círculo Ártico até o Equador, sem refrigeração.
O bloco, isolado com madeira e lã de vidro, foi carregado em um caminhão até o sul da Europa, o qual foi levado por um cargueiro de Marselha a Argel e, em seguida, atravessou o Saara, fugindo da guerrilha e enfrentando frequentes atoleiros na areia.
Depois de três semanas, a equipe com o bloco de gelo chegou a Lambaréné, Gabão, onde entregou 300 kg de remédios para o benemérito Dr. Albert Schweitzer (no centro da fotografia). ►
Uma semana depois, a expedição chegou a seu destino, Libreville.
Surpreendentemente, o bloco de gelo havia perdido apenas 11 por cento de seu peso. Eles cortaram-no, dividiram-no entre os cidadãos da cidade equatorial e voltaram para a Noruega.

Ice Route, Futility Closet | Ice block expedition of 1959, Wikipedia

09 julho, 2014

O Lago Natron

É um lago salgado e alcalino (pH entre 9 e 10.5) situado no norte da Tanzânia, próximo da fronteira deste país com o Quênia. Trata-se de um lago com menos de três metros de profundidade cujas águas apresentam cores características de lagos com elevadas taxas de evaporação. Devido aos pigmentos de microrganismos adaptados à alta salinidade do lago, os tons de suas águas são vermelhos nas partes profundas e alaranjados nas partes superficiais.
Em 2013, o fotógrafo inglês Nick Brandt fez fotografias para o seu livro "Across the Ravaged Land" (Por Toda a Terra Devastada), em que retratou animais mortos e petrificados após quedas nas águas salino-alcalinas do Natron. Esses animais, na maioria alados, tiveram a morte por desidratação aguda e consequente petrificação, em alguns casos, quase instantânea de seus corpos.


Aposto que essa aí foi a ultima coisa que os animais viram no lago.