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26 julho, 2025

Com resposta

Outro exemplo da terrível caligrafia de Horace Greeley:
Em 1870 a cidade de Sandwich, Illinois, convidou Greeley para discursar em sua associação de retórica.
Ele respondeu:
Caro senhor. — Estou sobrecarregado de trabalho e envelhecendo. Farei 60 anos no próximo dia 3 de fevereiro. No geral, parece que devo me recusar a dar palestras daqui em diante, exceto nesta vizinhança imediata, se é que o farei. Não posso prometer visitar Illinois para essa missão — e, certamente, não agora.
A cidade respondeu:
Caro senhor. — Sua aceitação para palestrar em nossa associação no próximo inverno chegou esta manhã. Sua caligrafia não sendo das mais simples, levou algum tempo para traduzi-la; mas conseguimos; e diríamos que a data '3 de fevereiro' e seus honorários de  '$60' são inteiramente satisfatórios.
Eles acrescentaram:
Como você sugere, podemos conseguir outros compromissos para você nesta vizinhança imediata; se for o caso, nós lhe diremos.
ex. anterior

06 julho, 2025

Um cronômetro de cozinha

O hino "Onward, Christian Soldiers" (Avante, Soldados Cristãos), cantado na melodia certa e em um ritmo não muito rápido, é um ótimo cronômetro de cozinha. Se você colocar o ovo em água fervente e cantar todos as quatro estrofes com o refrão, o ovo estará perfeito (no ponto mole, bem entendido) quando você chegar ao término da canção. (Futility Closet)

— Sra. GH Moore, em carta ao Daily Telegraph, 1983


http://youtu.be/Kj0UhWukNOw?si=UxghK4nBmkBYscJ7

29 maio, 2025

Uma carta aberta a Robert F. Kennedy Jr., que considera minha filha uma tragédia, por Anaïs Godard

Querido Sr. RFK Jr.,
(O "querido" é tradição. Não confunda com afeto.)

Você disse que crianças autistas são um fardo. Que elas destroem famílias. Que elas nunca pagarão impostos ou escreverão poemas. Que elas são, em essência, danos colaterais.
Gostaria de apresentar a você minha filha.
Ela tem cinco anos. Ainda não fala frases, mas sabe responder a uma piada com um sorriso irônico. Ela organiza seus marcadores por cor, depois caoticamente, depois por cor novamente. Ela joga beisebol sem regras, o que provavelmente é a maneira certa de jogar. Ela cantarola quando está pensando. Ela cantarola muito.
Quando outra criança está chateada — antes que os adultos percebam, antes mesmo que a criança chore — ela pega a mão dela. Encosta a testa na dela, delicadamente, como se estivesse verificando se há uma febre que só ela consegue sentir.
Ela não escreve poesias.
Ela é uma.
Às vezes, ela diz uma única palavra como se esta contivesse o céu inteiro.
E não, ela não será o tema da sua campanha. Ela não tornará seu pódio mais simpático ou suas políticas mais trágicas. Ela não é sua para ter pena. Ela é minha para me maravilhar.
Ela é ela mesma, por inteiro. Isso não é um defeito. É uma forma de resistência.
Você diz que crianças como ela nunca contribuirão. Eis o que eu sei:
O mundo em que você se move foi construído por pessoas que pensavam de forma diferente. Que balançavam as mãos ou não o olhavam nos olhos. A quem diziam que eram demais, ou de menos, ou que eram fragmentadas de maneiras que o mundo não se preocupou em entender.
Mentes neurodivergentes imaginaram o futuro. E então o inventaram.
Se você já leu Alice no País das Maravilhas , ou voou de avião, ou usou um computador, ou usou fones de ouvido com cancelamento de ruído a caminho de um de seus jantares de arrecadação de fundos antivacina, você deve algo a alguém que pensa como ela.
Não eram distrações ou deficiências. Eram maneiras diferentes de sentir, perceber e criar significado.
Nem todos os autistas vão redesenhar a física. Eles não precisam. O valor deles não está atrelado à invenção, é intrínseco.
O autismo não apaga o potencial. Ele o remodela. Às vezes é silencioso. Às vezes é não linear. É sempre humano.
A questão não é se pessoas como minha filha têm algo a oferecer. É se a sociedade está finalmente pronta para parar de medir valor com a escala errada.
O autismo não destrói famílias.
A ignorância sim.
O isolamento sim.
A vergonha faz isso.
Principalmente quando vem embalada em um terno com um microfone e uma alegação de bem público.
A sua versão do futuro não tem espaço para ela. Felizmente, ela não precisa de sua permissão para pertencer. Ela já está aqui.
\o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/
Fones de ouvido com cancelamento de ruído? Dr. Amar Bose.
O computador ou celular em que você está lendo isso? Alan Turing.
A teoria que reinventou o tempo? Albert Einstein.
A toca do coelho da Alice que ainda define a maravilha? Lewis Carroll.
A Capela Sistina? Michelangelo.
A poesia sóbria e dolorida ainda estudada em todas as salas de aula? Emily Dickinson.
A reformulação humana dos sistemas agrícolas industriais? Temple Grandin.
Todos neurodivergentes.
Todos parte do mundo em que você vive.
Ainda aqui. Ainda construindo.

Sem pedir desculpas,
Anaïs (mãe, escritora e defensora permanente de uma poeta excepcional, não verbal e desafiadora do beisebol)

Website: McSweeney's. Tradução: PGCS (Blog EM)

06 março, 2025

Amigos de sempre

Carta escrita por Paulo Freire, em 31 de maio de 1968, desde Santiago, no Chile, a seu amigo Ariano Suassuna. Na correspondência, Paulo Freire agradece ao “fraterno, risonho e confiante” amigo pelo apoio “desde o primeiro momento” de perseguição política, que resultou no exílio de Freire naquele país. Esse importante documento faz parte do acervo documental de Ariano Suassuna, que foi organizado, em 2007, sob coordenação do professor Carlos Newton Júnior (Departamento de Artes, CAC/UFPE). DOI: 10.51359/2675-7354.2021.251437

Querido amigo Ariano:
Há poucos dias lhe escrevi, perguntando-lhe, inclusive, como andava minha situação. Volto agora a fazê-lo, depois de ter sido informado pela imprensa, brasileira e chilena, do resultado de meu processo e de ter recebido um telegrama amigo de Monte e Paulo Cavalcanti, confirmando a notícia.
Escrevo-lhe agora, meu velho amigo, para dizer-lhe de minha sincera gratidão pelo interesse que você teve, desde o primeiro momento, por meu caso. Nunca me esqueço de sua valentia de querer bem, quando, ao chegar ao aeroporto do Recife, vindo de Brasília, num momento em que tudo era penumbra, interrogação, desconfiança, medo, denúncia, fuga, negação; em que os “amigos”, antes e depois que o galo cantasse — não importava — diziam: “Quem é? Não conheço. Jamais vi este homem!” ou, o que era pior: “Conheço este homem, sempre desconfiei de suas intenções malvadas”, lá estava você, fraterno, risonho, confiante, ao lado de Monte, ambos abraçando-me. Abraçando-me, quando cumprimentar-me, simplesmente cumprimentar-me, era uma ameaça a quem o fizesse.Você, Monte e outros, muitos outros, foram o contrário de alguns. Entre estes, nunca me olvido também, sem rancor e sem ressentimento, do testemunho de um professor da universidade, que, ao dobrar uma esquina — a do cinema São Luiz — me divisou a uns 10 metros de distância e fez então o mais difícil: andou de lado...
Você, pelo contrário, veio sempre de frente ao meu encontro, a nosso encontro. Encarcerado, você procurava Elza, enquanto os que andavam de lado perderam nosso endereço...
Nesta carta “sencilla” nada mais lhe direi além do meu, do nosso muito obrigado.
Do amigo-sempre,
Paulo Freire
Santiago, 31.5.68


Ao postar esta foto de Ariano e Paulo em sua página no Xwitter, Mario Lago Filho perguntou:
"Precisa mais?"
Recife, década de 1990. Fotógrafo desconhecido. Acervo dos herdeiros de Ariano Suassuna.

12 dezembro, 2024

Sem resposta

Horace Greeley tinha uma caligrafia horrível. De acordo com o Handy-Book of Literary Curiosities (1892), de William Shepard Walsh, certa vez Greeley enviou de Nova Iorque a seguinte carta à Iowa Press Association:
"Esperei (até o limite de uma espera em que eu pareceria descortês), apenas para concluir que não posso comparecer a esta reunião de imprensa em junho próximo, como eu gostaria. Estou pressionado por tantos cuidados e deveres que, com o peso dos anos, sinto-me obrigado a recusar qualquer convite que me afaste um dia de viagem de casa."
Depois de algum estudo, os "iowanos" decifraram assim:
"Eu sempre me perguntei se algum esguicho havia negado o escândalo sobre o encontro do presidente com Jane na floresta, no sábado. Tenho canjica, cenoura e laços RR mais do que poderia movimentar com oito novilhos. Se as enguias estiverem estragadas, cave-as cedo. Qualquer insinuação de que os fornos de tijolos são perigosos para os presuntos me causa horrores."
A resposta deles não se tornou conhecida

09 dezembro, 2024

A quase abolição do golfe

Em uma carta de 3 de abril de 1971 ao editor do Saturday Review, o leitor KJ Sitewell relatou uma notícia alarmante:
Um congressista chamado AF Day apresentou um projeto de lei que aboliria todos os parques privados com mais de 50 acres e todas as atividades recreativas públicas em áreas que fossem usadas por menos de 150 pessoas por dia. O efeito prático disso seria a abolição dos campos de golfe do país.
Sitewell disse que entendia o motivo de Day porque cresceu com ele. 
O avô do congressista "morreu em uma armadilha de areia" e seu pai "morreu de ataque cardíaco depois de acertar 19 bolas em um lago". The Abolition (Almost) of Golf
Seguiu-se um alvoroço. Os clubes de campo prometeram combater o projeto de lei, os eleitores sitiaram seus representantes e os editoriais condenaram a medida, que a Golf World chamou de "uma ameaça sinistra ao golfe".
Mas, eventualmente, ficou claro que tal projeto de lei não existia e os leitores perceberam a ligação entre o nome do suposto congressista e a data da carta de Sitewell. Descobriu-se que tudo não passava de uma brincadeira inventada pelo brincalhão inveterado e editor da Review, Norman Cousins.
"Escrevi desculpas a cada assinante que ficou ofendido ou irritado", escreveu Cousins. “Implorei aos meus amigos jogadores de golfe, que ameaçaram me expulsar de todos os campos do país, que me perdoassem pela minha piada. Eu sofri bastante cada vez que joguei, disse a eles, e uma penitência me esperava em cada tee." No Play Zone


Tee é um suporte usado no golfe (e outros esportes) para apoiar e elevar uma bola parada antes de golpeá-la com o taco (ou o pé).

20 novembro, 2023

Em louvor ao cotovelo

Pós-escrito de uma carta de Benjamin Franklin ao abade André Morellet, em julho de 1779:
PS.
Para confirmar ainda mais sua piedade e gratidão à Divina Providência, reflita sobre a situação que ela deu ao cotovelo. Você vê nos animais, que são destinados a beber as águas que correm sobre a terra, que se eles têm pernas longas, eles também têm um pescoço longo, para que possam beber sem se ajoelhar. Mas o homem, que estava destinado a beber vinho, é moldado de maneira que ele possa levar o copo à boca. Se o cotovelo tivesse sido colocado mais perto da mão, a parte anterior teria sido curta demais para levar o copo até a boca; e se estivesse mais perto do ombro, essa parte teria sido tão longa que, quando tentasse levar o vinho à boca, teria ultrapassado a marca e ido além da cabeça; assim, de qualquer forma, deveríamos estar no caso de Tântalo. Mas, a partir da situação real do cotovelo, podemos beber à vontade, com o copo indo diretamente para a boca.
"Vamos, então, com o copo na mão, adorar esta sabedoria benevolente. Adoremos e bebamos!"

Ben

O castigo de Tântalo
(mitologia grega) foi memorável: um suplício de fome e de sede eternas. Assim, mergulhado em água até ao pescoço, quando Tântalo se debruçava para beber a água, esta desaparecia. Para além disso, por cima da sua cabeça pendiam ramos de árvores com frutos saborosos, que o vento retirava do seu alcance sempre que tentava chegar a eles.

04 setembro, 2023

Carta de Gregório Duvivier a uma filha que vai nascer

"Você vai nascer falando a língua de Caetano, Gil e Chico Buarque. Quando o pessoal deu o Nobel de Literatura para o Bob Dylan, fiquei puto. Ah, vale letra de música? Fica claro que o pessoal do Nobel não fala português. Perto do Chico Buarque, Bob Dylan é uma espécie de Renato Russo! Sei que tem gente revoltada com isso na plateia. Mas o Bob Dylan rimou ‘leite’ com ‘River Plate’? (1) Não rimou! Fez música com a palavra paralelepípedo? (2) Não sabe nem o que é isso, aposto! Caetano fez uma música inteira em decassílabo. (3) Parece exagero, mas realmente acho que a música brasileira é uma coisa que faz a vida valer a pena".
N. do E.
(1) Vives na gandaia e esperas que eu te respeite / Quem que te mandou tomar conhaque / Com o tíquete que te dei pro leite / Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate. (in: "Biscate")
(2) Vai passar / Nessa avenida um samba popular / Cada paralelepípedo da velha cidade / Essa noite vai se arrepiar. (in: "Vai passar")
(3) Onde queres revólver sou coqueiro / e onde queres dinheiro sou paixão / onde queres descanso sou desejo / e onde sou só desejo queres não / e onde não queres nada nada falta / e onde voas bem alta eu sou o chão / e onde pisas o chão minha alma salta / e ganha liberdade na amplidão. (in: "O quereres", 1.ª de 6 estrofes)

02 janeiro, 2023

A carta secreta de Tito para Stalin

Para Josef Stalin, o presidente iugoslavo Josip Broz, mais conhecido como "Tito", era em princípio apenas mais um líder local que ele poderia facilmente dominar. Um galho que, como ele mesmo descreveu, se dobraria no momento em que o Kremlin movesse um dedo. No entanto, durante a Guerra Fria descobriu que poderia ser um adversário duro e irritante disposto a manter uma política personalista nas costas da URSS.
O Camarada Supremo ficou tão obcecado com essa independência do líder iugoslavo que ordenou ao NKVD que acabasse com ele. Os historiadores estimam em 22 o número de tentativas de assassinato que Stalin organizou contra o marechal Tito. Todas elas falharam. Sua insistência em acabar com a vida deste fez com que o proprio Tito enviasse uma carta secreta ao líder soviético, na qual o advertia de que, caso Stalin continuasse com seus planos, ele também ordenaria um sicário a lhe fazer uma visita.
«Pare de enviar pessoas para me matar! Já capturamos cinco assassinos: um com uma bomba, outro com um rifle… Se você não parar de enviar assassinos contra mim, enviarei um para Moscou muito rapidamente e, claro, não precisarei de enviar outro.»
Depois de receber essa carta, Stalin desistiu de suas tentativas e Tito (foto) viveu até os 87 anos, morrendo de causas naturais.


Fonte:La carta secreta del gran enemigo de la URSS que aterró a Stalin hasta su muerte, ABC Historia

23 dezembro, 2022

Endereço: Tähtikuja 1, 96930 Círculo Polar Ártico, Finlândia

Querido Papai Noel,
O que eu quero é um saldo bancário gordo e um corpo magro em 2023. Por favor, não misture as coisas como já aconteceu antes.

10 outubro, 2022

O misterioso "cadeado"

O cadeado em espiral 
"Um dos exemplos mais espetaculares de cadeado em espiral é a última carta de Mary Stuart", segundo os nove especialistas do King's College de Londres, do MIT e da Universidade de Glasgow, na Escócia, em um artigo publicado na revista Electronic British Library Journal.
"O conteúdo da carta é poderoso e comovente: escrito na véspera da sua execução, serve não só de carta - um documento destinado a ser enviado e lido por alguém distante -, mas também como sua última vontade e testamento, além de uma tentativa para que seja declarada mártir", segundo o artigo. "Às vezes, se afirma que escrever a carta foi o último ato de Mary; na verdade, depois de escrita, a carta precisou ser dobrada e lacrada."
De fato, depois de escrever sua última mensagem, a rainha dobrou, recortou e costurou o papel, enquanto se aproximava a hora de sua morte. E, por mais habilidosa que ela fosse, o cadeado em espiral utilizado deve ter tomado seu tempo, pois ele exige mais de 30 passos para sua elaboração. Eis alguns desses passos:


Pode-se observar que um pedaço de papel era recortado de forma que a margem da carta ficasse pontiaguda; e, depois de dobrá-la, era feita uma fenda onde essa ponta era inserida. Esse pedaço de papel tornava-se essencialmente a agulha e o fio utilizados para continuar o bordado até completar o cadeado em espiral.
O resultado, além de seguro, era muito elegante.
Para maior segurança, era acrescentado um lacre de cera.
Segundo os pesquisadores, trata-se de "uma técnica muito complexa que exigia tempo, paciência e muita habilidade: um movimento em falso e seu mecanismo de bloqueio poderia romper-se, exigindo começar a carta de novo".
"A mecânica desse cadeado obriga a pessoa que abrir a carta a rompê-lo para ter acesso ao conteúdo", explicam os especialistas. E, ao rompê-lo, como "a fechadura se rompe em vários lugares, é impossível voltar a montá-la de forma a permitir a passagem [da ponta] novamente através das ranhuras".
Ou seja, o destinatário saberia se a sua correspondência havia sido violada.
"Os seres humanos sempre tentaram garantir a segurança das mensagens enviadas entre si - e, ao longo da história, criamos enormes inovações", afirmou à BBC News o coautor do estudo Daniel Starza Smith, do King's College de Londres.
Segundo Smith, "a forma de dobrar as cartas pode fornecer informações sobre os gostos, a moda e os códigos sociais em diversos momentos da história. Quanto mais aprendermos sobre letterlocking, (*) melhor entenderemos o 'idioma' que nos transmitem os documentos e mais aprenderemos com eles."
Em artigo para o MIT Technology Review, Dambrogio ressalta que esse projeto vem sendo desenvolvido "ao longo de um período de intenso debate público sobre os sistemas globais de comunicação, o papel da interceptação estatal e a natureza da privacidade".
As infinitas formas de reduzir o tamanho de uma folha de papel retangular usadas por pessoas de diferentes países, períodos, culturas e estilos de vida "demonstram que essas questões são importantes para as pessoas há centenas de anos e nos permitem estudar o que elas fizeram a respeito".
O letterlocking é o vínculo entre "as técnicas de segurança das comunicações físicas do mundo antigo e a criptografia digital moderna", segundo o artigo publicado no Electronic British Library Journal.
(*) Em português, seria algo como "travacarta", atendendo ao pedido de Dambrogio de manter o termo com uma única palavra.

30 março, 2022

As mulheres deveriam ser completamente abolidas?


Em 28 de março de 1912, o bacteriologista Almroth Wright escreveu uma carta ao London Times argumentando que as mulheres deveriam ter o direito de votar negado e, de fato, mantidas completamente afastadas da política devido às suas deficiências psicológicas.
Dois dias depois, o Times publicou esta resposta. Assinada por "One of the Doomed", mas na verdade foi escrita por Clementine Churchill, de 26 anos, esposa de Winston:

30 de março de 1912

Ao editor do London Times.

Senhor,

Depois de ler a exposição capaz e ponderada de Sir Almroth Wright sobre as mulheres como ele as conhece, a pergunta não parece mais ser "As mulheres não deveriam votar?", mas "as mulheres não deveriam ser completamente  abolidas?"

Fiquei tão impressionado com a dissertação de Sir Almroth Wright, apoiada por tanta experiência científica e pessoal, que cheguei à conclusão de que as mulheres deveriam ser interrompidas.

Aprendemos com ele que elas em sua juventude são desequilibradas, que de vez em quando sofrem de irracionalidade e hipersensibilidade, e que sua presença distrai e irrita os homens em suas vidas e atividades diárias. Se assumem uma profissão, a indelicadeza de suas mentes as torna parceiras indesejáveis para seus colegas homens. Mais tarde na vida, elas estão sujeitas a graves e prolongados distúrbios mentais e, se não são totalmente insanas, muitos delas têm de ser silenciadas.

Sendo assim, quão mais feliz e melhor não seria o mundo se pudesse ser purgado das mulheres? É aqui que olhamos para os grandes cientistas. O caso é realmente sem esperança? As mulheres, sem dúvida, tiveram seus usos no passado, caso contrário, como essa tribo detestável poderia ter sido tolerada até agora? Mas é certo que serão indispensáveis no futuro? A ciência não pode nos dar alguma garantia, ou pelo menos alguma base de esperança, de que estamos às vésperas da maior descoberta de todas — isto é, como manter uma espécie de machos por meios puramente científicos?

E não podemos olhar para Sir Almroth Wright para coroar suas muitas conquistas ao libertar a humanidade das espécies parasitas, dementes e imorais que infestaram o mundo por tanto tempo?

Sua obedientemente,

CSC ("Uma das Condenadas")

http://lettersofnote.com/2012/05/14/ought-women-not-to-be-abolished-altogether/

24 julho, 2021

Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos!

Publicadas na "Isto É" e compiladas no livro "Cartas da Mãe - Henfil", as cartas de Henrique de Souza (1944-1988) à sua mãe Dona Maria merecem ser relidas. De narrativa clara, elas conduzem o leitor a profundas reflexões sobre a atual conjuntura, em que reaparece a necessidade de protegermos "esta planta muito tenra", que é a nossa democracia.
Criador de personagens icônicos dos quadrinhos brasileiros (como o cangaceiro Zeferino, o bode Orelana, a Graúna, o Cabôco Mamadô e os dois Fradim), Henfil era uma espécie de termômetro do ânimo da luta pela reabertura democrática. Naquele momento, o país tentava livrar-se da ditadura militar, arregimentando suas forças pela anistia e para a campanha das "Diretas Já".
O Brasil de hoje sofre as turbulências de outro golpe, ao qual não faltou no momento mais azado o apoio dos militares. Os paisanos que o planejaram, financiaram e concretizaram ainda apostam na ampliação do desânimo como uma forma de desmobilização popular.
Foto: Henfil, sentado no colo materno

HENFIL NO CEARÁ

São Paulo, 9 de janeiro de 1980.
Mãe,
Sem piadinha. Vou me abrir.
Eu tenho acordado de uns seis meses para cá sem ânimo, sem esperança, sem vontade de brilhar, de lutar, de mudar a Lucinha, O Brasil, o mundo, o universo!
Muitas noites eu não durmo, assombrado. Pensando assim: tô ficando velho, é isso. Talvez o pessoal odara tenha razão e eu já seja coisa antiga.
Passo então a pensar angustiado em como enfrentar minha velhice tomando fortificantes, complexo B, mudando meu guarda-roupa.
Bão.
De repente eu percebi que o mano Betinho e a Maria também estão de farol baixo.
Aí, anteontem, pego o jornal e vejo o resultado da pesquisa Gallup que dizia que 71% dos brasileiros estão pessimistas. Há uma epidemia de desânimo e impotência assolando o país nesse exato momento!
O atual sistema, para governar, nos fez pessimistas. E pessimista não dorme, não faz amor, não faz partidos, não incomoda, não reclama, não briga.
Que diabo de país é este?
Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos! Somos a maioria! Às ruas!
Henfil

25 março, 2021

27 janeiro, 2021

Uma confissão difícil

Um pai passa pelo quarto de seu filho e fica surpreso ao ver a cama arrumada e tudo limpo. Em seguida, ele vê uma carta apoiada no travesseiro e, chegando mais perto, percebe que no envelope está escrito "Pai".


Com a pior premonição, ele abre o envelope e lê a carta com as mãos trêmulas:
"Querido Papai,
É com grande pesar e tristeza que eu estou lhe escrevendo. Eu tive que fugir para poder casar com minha nova namorada, porque eu queria evitar uma cena com você e mamãe.
Eu encontrei o significado do amor com a Jéssica. Ela é tão querida, mas eu sabia que vocês não iriam aprovar nosso relacionamento por causa de todos os seus piercings, tatuagens e roupas apertadas. Sei que vocês também não gostam que ela é 20 anos mais velha que eu.
Mas não é somente paixão, pai. Jéssica está gravida. Ela disse que seremos muito felizes. Ela é proprietária de um trailer na mata, e tem uma pilha de lenha que vai nos durar o inverno inteiro. Nós sonhamos em ter muito mais filhos.
Jéssica abriu meus olhos para o fato de que a maconha não faz mal a ninguém. Nós vamos começar a plantar, para poder trocar com outras pessoas da comunidade por cocaína e ecstasy.
Papai, não se preocupe comigo. Eu já tenho 15 anos e eu sei como cuidar de mim mesmo. Algum dia, eu tenho certeza que vamos estar aqui de volta, para que você possa conhecer seus muitos netos.
Com amor, do seu filho,
Paulo.
P.S.: Pai, nenhuma das coisas que escrevi acima é verdade. Estou na casa dos meus amigos. Eu só queria lembrá-lo de que há coisas piores na vida do que as minhas notas no boletim desse ano, que está na mesa da cozinha. E me ligue quando for seguro voltar para casa!"
http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=4914

14 novembro, 2020

Carta para o Brasil

Por Neil deGrasse Tyson
10 de setembro de 2020
Para a edição brasileira de Respostas de um astrofísico.

Caro Brasil,
Das minhas muitas viagens à América do Sul, nunca tive a oportunidade de visitar você. A maioria delas teve como destino a cordilheira dos Andes, com o objetivo de observar o magnífico céu do hemisfério sul através de telescópios de alta tecnologia de um consórcio internacional. Mas, mesmo assim, tenho pensado em você com bastante frequência.
Como nativo dos Estados Unidos da América, sei em que costumamos pensar quando se trata de você. Não seguindo uma ordem específica, você possui a maior e mais importante floresta tropical do mundo. Você abriga o maior rio do mundo, que, a cada minuto que passa, escoa para o oceano Atlântico um volume de água que daria para encher um estádio de futebol. E, sim, nós sabíamos da existência de seu rio e de sua floresta tropical muito antes de a Amazon.com [1] pegar o nome emprestado.
Quer mais? Não há quem não goste de castanha-do-brasil [2]. Na verdade, nos EUA, nós precisamos pagar pelo pacote "premium" para que elas venham incluídas em nossos mix de castanhas. E mesmo aqueles de nós que quase não acompanham futebol sabem da existência de seus times famosos, ficando na maior expectativa de ver você na final da Copa do Mundo a cada quatro anos. Também sabemos das suas praias deslumbrantes pelas músicas que as cantam — a "Garota de Ipanema" sendo uma delas. Sabemos de suas festas populares, principalmente o Carnaval, e tentamos imitar a intensidade e a alegria dessas celebrações — com dança e música — aqui no nosso hemisfério. Sabemos do seu café. E eu, particularmente, amo a sua bandeira. Há um pedaço do céu noturno estampado nela; mais de duas dezenas de estrelas retraçam constelações autênticas, incluindo o Cruzeiro do Sul.
Então, se você perguntasse a qualquer um de nós nos EUA o que vem à nossa cabeça quando seu nome é mencionado, normalmente selecionaríamos algo a partir dessa lista.
Você sabe do que nós não nos damos conta? Metade das vezes que embarcamos em voos domésticos, da American Airlines ou de outras companhias aéreas, viajamos num avião da Embraer. Tudo bem, o folheto com instruções de segurança traz impresso nele o nome Embraer. Nós podemos até achar Embraer escrito em letras miúdas em algum lugar da fuselagem. Mas quase nenhum de nós sabe que a aeronave é projetada e fabricada no Brasil. Você poderia alardear "Tecnologia Brasileira", mas não o faz. Por que não? A Alemanha não hesita em se gabar da dela. Nada mais justo, claro. Todo mundo conhece a qualidade dos produtos fabricados na Alemanha, que, por sua vez, permeiam sua economia aeroespacial, a terceira maior do mundo.
Mas, espere. Um dos grandes pioneiros nos primórdios da aviação era brasileiro. Engenheiro brilhante e inventivo, altamente condecorado, Alberto Santos-Dumont liderou a transição mundial do transporte aéreo mais leve que o ar para o mais pesado que o ar. O valor de uma semente cultural como essa, plantada no nascimento de uma indústria, é incalculável. Um século depois, você se tornou líder em tecnologias de biocombustíveis — um passo fundamental em direção a uma economia verde onde nossa harmonia com a natureza vai determinar se iremos prosperar, sobreviver ou nos extinguir. Você também possui uma ambiciosa agência espacial, além de ser a sexta maior indústria aeroespacial do mundo. Na América Latina, você também é líder em Tecnologia da Informação. E num país famoso por sua agricultura, quase um terço de sua economia se apoia num setor produtivo impregnado de tecnologia.
Então talvez seja a hora de o mundo saber mais a respeito disso. Talvez seja a hora de os brasileiros saberem mais sobre isso. Talvez esteja mais do que na hora de você exibir produtos que declarem: "Fabricado no Brasil". Seja o que mais for, ou não, verdade no mundo, as economias de crescimento do futuro — mesmo as que possam ser puramente agrícolas — vão girar em torno dos investimentos feitos hoje em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Numa democracia, esses investimentos fluem de um eleitorado letrado cientificamente, que elege líderes esclarecidos e que entendem o valor da educação, das pesquisas e das descobertas. Sem essas perspectivas, ainda estaríamos vivendo em cavernas, com alguns de nós resmungando: "Você não pode explorar o mundo exterior. Primeiro precisa resolver os problemas da nossa caverna".
Para que ninguém se esqueça, o primeiro (e único) astronauta sul-americano foi um engenheiro aeronáutico brasileiro. E quando se deu o lançamento de sua missão? Em 2006, ano do centenário do primeiro avião bem-sucedido de Santos-Dumont. E o que ele levou para o espaço? Uma bandeira do Brasil e uma camisa da seleção brasileira de futebol.
Os países que mais passam por dificuldades no mundo tendem a ser aqueles com baixos níveis de instrução e com ausência de STEM [3] em sua cultura. Você tem os recursos e o legado para liderar toda a América Latina, se não o mundo, no que um país do futuro deveria ser — no que um país do futuro deveria aspirar ser.
Se você abraçar e apoiar suas indústrias STEM — e o setor de tecnologia inteiro — então os sonhos dos alunos em toda a cadeia educacional não terão limites, conforme eles forem introduzidos num mundo em que foguetes são o que alimentam as ambições das pessoas que saem pela porta da caverna.
Atenciosamente,
Neil deGrasse Tyson, EUA

[1] Amazon é a palavra em inglês tanto para Amazonas quanto para a Amazônia. (N. do T.)
[2] Também chamada de castanha-do-pará. (N. do T.)
[3] STEM é a sigla em inglês para Science, Technology, Engineering e Mathematics [Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática] (N. do T.)
http://www.haydenplanetarium.org/tyson/letters/2020-09-10-letter-to-brazil.php#portuguese-version

07 junho, 2020

Carta de um químico

Ouro Preto, zinco de agosto de 2014

Querida Valência:
Sinto que estrôncio perdidamente apaixonado por ti. Ao deitar-me, quando descálcio meus sapatos, mercúrio no silício da noite, reflito e vejo que me sinto sódio. Então, desesperadamente, cloro.
Sem ti, Valência, minha vida é um inferro. Ao pensar que tudo começou com um arsênio de mão, cloro de vergonha. Sabismuto bem que te amo. Embora não digas, sei que gostas de um tal de Hélio e também do Hidro-Eugênio. De antimônio, posso te assegurar que não sou nenhum érbio e que trabário para viver.
Oxigênio cruel tu tens, Valência! Não permitas que eu cometa algo er rádio.
Lembro-me de que tudo começou no ânion passado, com um arsênio de mão, quando atravessávamos uma ponte de hidrogênio. Estavas num carro prata, com rodas de magnésio. Houve uma atração forte entre nós dois, acertamos os nossos coeficientes, compartilhamos os nossos elétrons e a ligação foi inevitável. Inclusive depois, quando te telefonei, respondeste carinhosamente: "Protão, com quem tenho o praseodímio de falar?".
Por que me fazes sofrer tanto assim, sabendo que tu és a luz que me alumina? Meu caso é cério, mas não ácido razão para um escândio social.
Soube que a Inês contou que eu te em bromo com esse namouro. Manganês, deixa de onda e não acredita niquela disser, pois sabes que nunca agi de modo estanho contigo. Aliás, se não tiveres arranjado outro argôniomento, procura um Avogadro e me metais na cadeia. Lembra-te, porém, que não me sais do pensamento.
Abrácidos deste que muito te ama.
Magnésio

Fonte: internet, com fusão de duas versões e uma terceira autoral.

Arquivo: Tem remédio? (13 ago 2010) PGCS

23 maio, 2019

Uma fonte de esperanças e sonhos

A incrível história de como um livro - um livro em particular - se tornou uma tábua de salvação para as adolescentes da escola secreta que Helen montou no gueto de Varsóvia como um antídoto aos inúmeros assaltos contra a dignidade a que os nazistas submetiam esses jovens judias: a negação da educação básica. ~ Maria Popova, Brain Pickings

Querida amiga,
Você poderia imaginar um mundo sem acesso à leitura, ao aprendizado, aos livros?
Aos vinte e um anos, fui forçada a entrar no gueto da Segunda Guerra Mundial na Polônia, onde ser pego lendo qualquer coisa proibida pelos nazistas significava, na melhor das hipóteses, trabalho duro; na pior das hipóteses, morte.
Lá, eu conduzi uma escola clandestina oferecendo às crianças judias uma chance na educação essencial negada por seus captores. Mas logo cheguei a sentir que ensinar essas jovens almas sensíveis ao latim e à matemática estava enganando-as de algo muito mais essencial - o que elas precisavam não era de informação seca, mas de esperança, do tipo que é transportada para um mundo de sonhos.
Um dia, como se adivinhasse meus pensamentos, uma garota me implorou: "Por favor, poderia nos contar um livro, por favor?"
Eu tinha passado a noite anterior lendo "Gone with the Wind" (E o Vento Levou...) - um dos poucos livros contrabandeados que circulava entre pessoas de confiança, através de um canal subterrâneo, e com a palavra de honra para ler apenas à noite, em segredo. Ninguém tinha permissão para manter um livro por mais de uma noite - assim, se informado, o livro já teria mudado de mãos quando os inquisidores chegassem.
Eu tinha lido "Gone with the Wind" desde o anoitecer até o amanhecer e ainda iluminava o meu próprio mundo dos sonhos, quando convidei esses jovens sonhadores a se juntarem a mim. Quando lhes "contei" o livro, eles compartilharam os amores e provações de Rhett Butler e Scarlett O'Hara, de Ashley e Melanie Wilkes. Por aquela hora mágica, nós escapamos para um mundo não de assassinato, mas de boas maneiras e hospitalidade. Todos os rostos das crianças se animaram com nova vitalidade.
Uma batida na porta quebrou nosso mundo compartilhado de sonhos. Enquanto a classe silenciosamente saía, uma menina pálida de olhos verdes se virou para mim com um sorriso choroso: "Muito obrigado por essa jornada em outro mundo. Poderíamos, por favor, fazer isso de novo, em breve?". Eu prometi que iríamos, embora eu duvidasse que teríamos muito mais chances. Ela colocou os braços em volta de mim e eu sussurrei:
- Até mais, Scarlett.
- Acho que prefiro ser Melanie - respondeu ela -, embora Scarlett devesse ter sido muito mais bonita!
Quando os acontecimentos no gueto tomaram seu rumo, a maioria dos meus companheiros sonhadores foi vítima dos nazistas. Dos vinte e dois alunos da minha escola secreta, apenas quatro sobreviveram ao Holocausto.
A menina pálida de olhos verdes foi uma delas.
Muitos anos depois, finalmente consegui localizá-la e nos conhecemos em Nova York. Uma das maiores recompensas da minha vida continuará sendo a lembrança de nosso encontro, quando ela me apresentou ao marido como "a fonte de minhas esperanças e sonhos em tempos de total privação e desumanização".
Há momentos em que os sonhos nos sustentam mais que fatos. Ler um livro e render-se a uma história é manter nossa humanidade viva.
Atenciosamente,
Helen Fagin

29 abril, 2019

Carta de Sobral

Em 30 de março último começou a reação da ciência brasileira contra a ignorância militante do governo Bolsonaro. Na Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Sobral, realizada nos dias 27 – 30 de março, com mais de 3 mil pessoas, nasceu a Carta de Sobral, cujo texto, um sinal histórico vital da ciência no Brasil, deve ser aqui repercutido na íntegra:
☀️Sob o Sol de Sobral: por uma educação básica de qualidade, pela ciência e pela democracia
"O problema imaginado por minha mente
foi solucionado pelo céu luminoso do Brasil."
[Albert Einstein, 1925]
A SBPC e os participantes de sua Reunião Regional, realizada em Sobral entre os dias 27 e 30 de março, se manifestam firme e decididamente em defesa da educação pública de qualidade, da ciência e da democracia no País.
Comemoramos neste ano o centenário do eclipse solar de 1919, cujas observações, feitas em Sobral, foram decisivas para a confirmação da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, que alterou profundamente a ciência e a nossa visão do Universo. Deste município do Ceará, Terra da Luz – primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão –, vem, ainda, o exemplo notável de melhoria significativa no desempenho dos estudantes das escolas básicas, um processo que foi construído a partir de políticas públicas continuadas e que priorizaram a educação. Outros exemplos similares, e exitosos, provêm de diversos municípios brasileiros. Um desafio grande é estendê-los para abarcar todo o País.
A valorização efetiva do professor e sua formação adequada são fatores essenciais para a melhoria da educação básica. Outros fatores importantes são condições de trabalho adequadas, boa gestão escolar, avaliações criteriosas e mobilização da comunidade local em prol da educação. O ensino de ciências é fundamental para a formação de um cidadão no mundo contemporâneo. No momento em que ganham proeminência ideias obscurantistas e correntes anticientíficas, é essencial destacar a importância decisiva do conhecimento científico para as tomadas de decisão individuais e coletivas, para a gestão pública e para o desenvolvimento social e econômico do País.
O papel do Estado é essencial para a garantia dos direitos sociais dos brasileiros. A vinculação orçamentária de recursos para a educação e saúde foi uma importante conquista da Constituição de 1988, e a desvinculação desse orçamento, como anunciada recentemente, é uma ameaça muito grave e terá consequências catastróficas para a educação, a saúde e a qualidade de vida da imensa maioria dos brasileiros. Conclamamos todos os brasileiros a se unirem em um movimento amplo em defesa da educação pública de qualidade, laica, que respeite a diversidade e assegure direitos e oportunidades iguais para todas as crianças e jovens. O destino do povo brasileiro deve estar acima dos interesses financeiros ou de setores privilegiados da sociedade.
Por outro lado, os drásticos cortes realizados recentemente no orçamento de Ciência, Tecnologia e Inovação (da ordem de 40%), que já estava em nível muito baixo, colocam o Brasil na contramão da história. Os países desenvolvidos investem de maneira ainda mais acentuada nestas áreas em momentos de crise econômica. Pesquisas demonstram que o investimento em ciência tem repercussão social significativa e retorno econômico grande. É inaceitável que sejam feitos novos cortes em um orçamento já tão reduzido. As consequências afetarão toda a estrutura de pesquisa no País e, ainda, os setores empresariais que buscam promover a inovação. Eles comprometem o funcionamento do sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, construído ao longo de décadas, dificultam a recuperação econômica e certamente irão afetar seriamente a qualidade de vida da população brasileira e a soberania do País.
Recursos para educação e para ciência e tecnologia não são gastos, são investimentos do presente em um futuro melhor para o País!
A SBPC, ao longo de sua história, juntamente com muitas outras entidades científicas acadêmicas e da sociedade civil, se destacou por sua luta pela educação, pela ciência e pela democracia no Brasil. Atuamos contra as práticas autoritárias de um regime ditatorial, em defesa das liberdades democráticas, pela redemocratização do País e pela construção da Constituição de 1988 que incorporou os direitos da cidadania.
Neste momento crítico da vida nacional, reafirmamos a importância do livre pensar e da democracia em sua plenitude. Não aceitaremos o retorno do cerceamento às liberdades democráticas, da censura, das perseguições políticas, da ausência da liberdade de expressão, que são direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU.
Queremos que todos os cidadãos, em especial as crianças e os jovens, tenham garantidos seus direitos educacionais e sociais. Motivos justos para comemorações intensas pelo conjunto dos brasileiros, nos próximos anos e décadas, serão a superação do analfabetismo e da miséria, o avanço significativo na educação, na ciência e na tecnologia, uma melhor qualidade de vida para todos, a redução das desigualdades, a preservação do meio ambiente e de nossas riquezas naturais, que estão em causa neste momento, e o desenvolvimento sustentável do País.
É essencial, neste momento, uma atuação vigorosa e permanente da comunidade científica, acadêmica e educacional como um todo, por meio de suas entidades e instituições de pesquisa. É necessária uma mobilização mais intensa dos pesquisadores, professores e estudantes, das entidades científicas e das instituições de ensino e pesquisa brasileiras, em conjunto com outros setores da sociedade civil, lideranças políticas e parlamentares, para exercerem uma pressão social legítima, que poderá ser determinante para a reversão do atual quadro de retrocessos no apoio à educação e à ciência e tecnologia e de ameaças à democracia no País.
Que o Sol luminoso do Brasil inspire e motive a todos nós na resolução dos problemas do País.
Sobral, 30 de março de 2019

26 fevereiro, 2019

O tempo presente

Você tinha uma noção do tempo diferente das outras pessoas. As idéias comuns do passado, presente e futuro pareciam banais sob o seu olhar. Você gostava de dizer que cada momento contém o passado e o futuro, e citar (como eu me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo como "o presente é o instante em que o futuro desmorona no passado", fez parte da sua modéstia: o seu gosto em encontrar as suas ideias nas ideias de outros escritores.
Trecho da "Carta a Borges", escrita por Susan Sontag, no décimo aniversário de morte de Jorge Luís Borges, o bruxo de "entortar o tempo".


O tempo é precioso. Ele passa rápido como a areia em uma ampulheta. Não desperdice o tempo! Use-o sabiamente.

O tempo voa [cada vez mais]
O tempo de cada um
O tempo e o espaço
tempo tempo tempo tempo