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31 dezembro, 2024

Ano Novo - Ferreira Gullar

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

06 novembro, 2023

Náufragos! Como sobreviver à desesperança

Dougal Robertson (29 de janeiro de 1924 a 22 de setembro de 1991) ainda era um adolescente, o caçula dos oito filhos de um professor de música escocês, quando ingressou na Marinha Mercante Britânica. Depois que um ataque japonês a um navio a vapor durante a Segunda Guerra Mundial matou sua esposa e filho, ele deixou a marinha e se mudou para Hong Kong, onde conheceu e se casou com uma enfermeira.
Juntos, eles começaram uma nova vida como produtores de leite no interior da Inglaterra, em uma fazenda sem eletricidade ou água corrente. Eventualmente, eles tiveram uma filha, depois um filho, depois um par de gêmeos.
Depois de quase duas décadas na fazenda, a família teve uma ideia pouco ortodoxa sobre como educar melhor seus filhos, como mostrar a eles como o mundo é um lugar vasto e maravilhoso, cheio de todos os tipos de pessoas diferentes e de todos os tipos de maneiras diferentes de viver: vivendo! Eles venderam tudo o que tinham, compraram uma escuna e partiram para velejar ao redor do mundo, partindo em 27 de janeiro de 1971.
Depois de mais de um ano no mar, quando haviam contornando a ponta da América do Sul para fazer a travessia do Pacífico, as baleias assassinas atacaram a escuna a 200 milhas da costa de Galápagos, afundando-a em menos de um minuto. Eles se amontoaram em um bote salva-vidas inflável, conseguiram pegar um pedaço de vela da água e amarraram-no ao bote de 9 pés que tinham a bordo para usá-lo como um rebocador para a jangada que agora abrigava seis seres humanos.
De repente, eles eram um minúsculo ponto no maior oceano da Terra, envolto pelo vasto vazio aberto de horizontes infinitos. Sem instrumentos náuticos ou cartas, movidos apenas por sua vela improvisada, eles não tinham esperança de chegar à terra. Sua única chance era o resgate por um navio que passasse. Considerando a imensidão do Oceano Pacífico, era uma improbabilidade que beirava o milagre.
Dezessete dias em sua vida como náufragos, a jangada murchou. Tudo o que eles tinham agora era o estreito bote de fibra de vidro, com a borda um pouco acima do nível da água - com toda a carga humana.
Por aquela resiliência cega que a vida tem de resistir à não-vida, eles persistiram, comendo carne de tartaruga e de peixes voadores que pousaram no fundo do barco, e bebendo água da chuva. Tempestades os açoitavam. As baleias os ameaçavam. A sede e a fome os consumiam. Seus corpos estavam cobertos de feridas de água salgada. Enormes navios passaram à vista, perdendo-se seus gritos de socorro. Mas eles continuaram, esperando contra a esperança, trabalhando de todas as maneiras concebíveis para manter acesa a centelha da vida.
Depois de 37 dias como náufragos, o acaso sorriu para eles - um barco de pesca japonês avistou o sinalizador de socorro e veio em seu socorro. Suas línguas estavam tão inchadas pela desidratação que mal podiam agradecer a seus salvadores.
Ao longo de tudo, Dougal manteve um diário para o caso de eles escaparem da morte - um ato em si emblemático daquele tocante e tenaz otimismo pelo qual eles sobreviveram. Mais tarde, ele se baseou nele para publicar um relato da experiência e, em seguida, destilar seus aprendizados em Sea Survival: A Manual.

Reencenação do resgate: demonstrando como a família Robertson se encaixou no bote.

Popova, Maria. How To Survive Hopelessness, The Marginalian. Trad.: PGCS

03 outubro, 2020

Lista de espera

A quem sabe esperar, o tempo abre as portas. Provérbio chinês

Por favor, espere na linha. Sua ligação é muito importante para nós.

Deseja o melhor e espera o pior.

Em frente ao coqueiro verde, esperei uma eternidade. Erasmo, "Coqueiro verde"

Esperando Godot. Samuel Beckett

Esperar Godot
que não vem? Oh eu prefiro
esperar Godiva.

A espera é difícil, mas eu espero sonhando. Jorge Ben, "Zazueira"

Tudo vem para aquele que sabe esperar.

De onde se espera é que não vem coisa alguma. Barão de Itararé

Quem espera sempre alcança.

Espere sentado ou você se cansa. Chico, "Bom conselho"

espera, s. f.

27 março, 2020

A esperança que faz sentido

A partir de uma reflexão de Václav Havel:
A esperança, em seu sentido mais profundo, não é o sentimento de que as coisas vão terminar bem. Mas, antes, a capacidade de lutar por algo porque é bom, e não apenas porque há chance de alcançar sucesso. Quanto mais despropositada a situação em que demonstramos ter esperança, mais poderosa é a esperança. Definitivamente, a esperança não é a mesma coisa que o otimismo. Não é a convicção de que algo vai dar certo, mas a certeza de que alguma coisa faz sentido, independentemente de como evolua.

Art Young, 1926

23 maio, 2019

Uma fonte de esperanças e sonhos

A incrível história de como um livro - um livro em particular - se tornou uma tábua de salvação para as adolescentes da escola secreta que Helen montou no gueto de Varsóvia como um antídoto aos inúmeros assaltos contra a dignidade a que os nazistas submetiam esses jovens judias: a negação da educação básica. ~ Maria Popova, Brain Pickings

Querida amiga,
Você poderia imaginar um mundo sem acesso à leitura, ao aprendizado, aos livros?
Aos vinte e um anos, fui forçada a entrar no gueto da Segunda Guerra Mundial na Polônia, onde ser pego lendo qualquer coisa proibida pelos nazistas significava, na melhor das hipóteses, trabalho duro; na pior das hipóteses, morte.
Lá, eu conduzi uma escola clandestina oferecendo às crianças judias uma chance na educação essencial negada por seus captores. Mas logo cheguei a sentir que ensinar essas jovens almas sensíveis ao latim e à matemática estava enganando-as de algo muito mais essencial - o que elas precisavam não era de informação seca, mas de esperança, do tipo que é transportada para um mundo de sonhos.
Um dia, como se adivinhasse meus pensamentos, uma garota me implorou: "Por favor, poderia nos contar um livro, por favor?"
Eu tinha passado a noite anterior lendo "Gone with the Wind" (E o Vento Levou...) - um dos poucos livros contrabandeados que circulava entre pessoas de confiança, através de um canal subterrâneo, e com a palavra de honra para ler apenas à noite, em segredo. Ninguém tinha permissão para manter um livro por mais de uma noite - assim, se informado, o livro já teria mudado de mãos quando os inquisidores chegassem.
Eu tinha lido "Gone with the Wind" desde o anoitecer até o amanhecer e ainda iluminava o meu próprio mundo dos sonhos, quando convidei esses jovens sonhadores a se juntarem a mim. Quando lhes "contei" o livro, eles compartilharam os amores e provações de Rhett Butler e Scarlett O'Hara, de Ashley e Melanie Wilkes. Por aquela hora mágica, nós escapamos para um mundo não de assassinato, mas de boas maneiras e hospitalidade. Todos os rostos das crianças se animaram com nova vitalidade.
Uma batida na porta quebrou nosso mundo compartilhado de sonhos. Enquanto a classe silenciosamente saía, uma menina pálida de olhos verdes se virou para mim com um sorriso choroso: "Muito obrigado por essa jornada em outro mundo. Poderíamos, por favor, fazer isso de novo, em breve?". Eu prometi que iríamos, embora eu duvidasse que teríamos muito mais chances. Ela colocou os braços em volta de mim e eu sussurrei:
- Até mais, Scarlett.
- Acho que prefiro ser Melanie - respondeu ela -, embora Scarlett devesse ter sido muito mais bonita!
Quando os acontecimentos no gueto tomaram seu rumo, a maioria dos meus companheiros sonhadores foi vítima dos nazistas. Dos vinte e dois alunos da minha escola secreta, apenas quatro sobreviveram ao Holocausto.
A menina pálida de olhos verdes foi uma delas.
Muitos anos depois, finalmente consegui localizá-la e nos conhecemos em Nova York. Uma das maiores recompensas da minha vida continuará sendo a lembrança de nosso encontro, quando ela me apresentou ao marido como "a fonte de minhas esperanças e sonhos em tempos de total privação e desumanização".
Há momentos em que os sonhos nos sustentam mais que fatos. Ler um livro e render-se a uma história é manter nossa humanidade viva.
Atenciosamente,
Helen Fagin

20 agosto, 2017

Criança, não perca a Esperança

Revendo os arquivos do blog EM, encontrei uma postagem de cinco anos atrás relacionada a uma campanha aqui promovida.
A Esperança Esperança.
Tendo como nome a segunda das virtudes teologais e como símbolo um inseto de bons presságios (Tettigonia viridissima), a campanha se destinou a coletar fundos para resolver algumas pendências que tínhamos com o IR.
(Há na cultura popular a crença de que o pouso deste inseto em uma pessoa lhe trará boa sorte.)


Eta campanha mais ou menos!
Toda a equipe da casa vestiu-se de verde: a fotógrafa Petúnia, que, estando de licença-prêmio, deixou a praia de nudismo em que fazia selfies para reassumir o cargo na redação; o Sr. Mário Valadão, que passou primeiro a bater para só depois cobrar dos inadimplentes. E o controlador do blog EM que, mandando os escrúpulos às ervilhas (Pisum sativum), decidiu envergar uma camisa com a cor 2421 C da PANTONE enquanto durar a arrecadação.
Até mesmo o velho e bom Dr. Carta Pácio deu a sua inestimável contribuição. Ao enviar por carta o slogan que está sendo usado na edição deste ano:
CRIANÇA, NÃO PERCA A ESPERANÇA
Pois é, a velha senhora, a que sempre se repete está de volta.
E, como toda e qualquer esperança, requer uma certa perseverança. Que, se não for uma solução, pelo menos é uma boa rima.

31 dezembro, 2016

Poema do Fim do Ano

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Mora uma louca chamada Esperança:

E quando todas as buzinas fonfonam

Quando todos os reco-recos matracam

Quando tudo berra quando tudo grita quando tudo apita

A louca tapa os ouvidos

e

atira-se

e – ó miraculoso voo! –

Acorda outra vez menina, lá embaixo, na calçada.

O povo aproxima-se, aflito

E o mais velhinho curva-se e pergunta:

– Como é teu nome, menininha dos olhos verdes?

E ela então sorri a todos eles

E lhes diz, bem devagarinho para que não esqueçam nunca:

– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

"Poemas para a Infância" (Mario Quintana – Poesia Completa, Editora Nova Aguilar, 2005)