02 janeiro, 2026

Ainda não será desta vez

Nelson José Cunha
Chegou pelo correio um folheto de funerária com promoção especial para o fim de ano.
Mal o vi, pensei: será que já sabem a minha idade só porque compareci a alguns velórios por lá?
Essa inteligência artificial está em toda parte. Reconhece-nos pela fotografia, pela voz, pelo modo de andar. Sabe onde estivemos, a quem devemos, até aquela visita furtiva à loja de produtos pirateados.
Não há mais como brincar com semelhante presença.
Se tiver algo a ocultar, saia a pé e de capacete. A quem perguntar, responda com silêncio: sua voz já está arquivada na nuvem digital.
Hão de querer saber o que fazia na Rua Guaicurus, em Belo Horizonte - território das quase-belas damas noturnas. Alegar que se perdeu já não convence: uma câmera registrou sua saída constrangida de um dos prédios de lá.
Para circular despercebido, use capacete e camisa dos Correios, aquela que traz no bolso a bandeira nacional. Carteiro patriota entra em qualquer lugar. Se surgir uma passeata verde e amarela, misture-se à multidão sem receio: passará por mais um cidadão inocente.
Quanto às funerárias, os folhetos não cessam de chegar. Um deles oferecia cinquenta por cento de desconto na cremação, caso eu me desencarnasse antes da próxima Copa - desde que fornecesse a lenha.
Achei a proposta atrativa. Lenha não me falta: nossa cama de casal serviria perfeitamente. Para que a viúva haveria de querer uma cama tão grande? Espero que ela não mantenha esperanças de ocupá-la novamente. Meu ciúme também é perpétuo.
Hesitei em assinar, pelo receio de que, descumprido o acordo, não me permitissem regressar do Céu para reclamar.
Aliás, deve ser insuportável passar a eternidade inteira sobre uma nuvem, vendo meus amigos se divertirem lá embaixo.
Às vezes penso que o paraíso é aqui: todo mundo peca sem temer as consequências.
Especialmente nestes tempos em que o inferno está lotado.
Pecaram mais do que estava previsto na inauguração do mundo.
Lá não aceitam mais ninguém - sobretudo brasileiros. Bagunçaram o lugar: consumiram, no churrasco, toda a lenha destinada à queimação das almas.
Outros, de camisa vermelha, venderam as caldeiras como ferro-velho para os chineses. Para completar, os motoboys, sempre correndo como se o inferno tivesse prazo de entrega, estão chegando em bandos e gastando o estoque de fósforos para acender seus baseados.
Por ora, enquanto o inferno está fechado por excesso de lotação, vou cometendo os meus pecados aqui. A idade já limitou os da carne. Sobrou-me, por enquanto, apenas o consolo da gula.
Aproveitem o ano novo, este e os próximos, porque nunca se sabe se será o último.

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