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28 janeiro, 2023

Falatório

Ilustração: Maurício de Sousa

Me contaram, não sei se é verdade. Mas, como ouvi o mesmo caso de pessoas diferentes, leva certo jeito de, realmente, ter acontecido.

A Televisão estava buscando uma cidade pequena do interior para gravar uma novela e em uma das cidades inicialmente pensadas, achou prudente levar a equipe técnica e os dois atores que fariam o papel romântico. Era uma maneira de, aos poucos, ir ambientando a equipe para às gravações. A notícia dessa visita, depressa se esparramou pela cidade, e quando desembarcaram e começaram a andar de lá para cá em suas ruas e praças, coisas estranhas aconteceram com os moradores que, atrás das cortinas, assistiam a passagem do pessoal.

Nesses momentos, conta-se que Dona Yolanda, fotografa de mão cheia, esparramou-se pelo telhado para tirar boas fotos e acabou por rolar escada abaixo; Lucinda Marques garota prodígio na cidade sentiu pontada no peito e, piormente, desmaiou de emoção; Amelinha ajoelhou-se no altar improvisado na pensão e não parou mais de rezar; Thais deitou a falar mal do governo, aos berros, em frente à Prefeitura; Patativa afirma que recebeu o espírito de seu bisavô anunciando que já tinha lugar reservado no paraíso quando resolvesse ir embora, tudo isso sem contar com outros como o jovem Lucas que se engasgou com gole maior que a boca de guaraná até receber um safanão que o deixou desacordado por seis minutos, enquanto Marcinha, mais emocionada que nunca, mastigou por inteiro uma caixa de lápis de cor do Diego.

Quando a turma foi embora e a tarde já caia, nunca mais os moradores da cidade encontraram outro assunto para discursar senão esse momento de glória maior. Dizem até que Marcos Alan, pistoleiro conhecido nas terras do Maranhão, resolveu largar o oficio e, melhormente, se transformar em caçador de almas para a regeneração.

Me contaram, não sei se é verdade.

Autor: Celso Antunes (2015)

10 janeiro, 2021

Por que andamos

Um manifesto pelo empoderamento peripatético:


1 Um resgate da palavra francesa flâneur (masculina; feminina: flâneuse), para quem vagueia numa urbe, popularizada na primeira metade do século XX. Elkin escreveu: "O flâneur entende a cidade como poucos de seus habitantes, pois a memorizou com os pés. Cada esquina, beco e escada tem a capacidade de mergulhá-lo nessa recuperação. O que aconteceu aqui? Quem passou por aqui? O que significa este lugar? O flâneur, sintonizado com os acordes que vibram por toda a cidade, sabe sem saber".

2 Caminhar é mapear com os pés. Ajuda você a compor uma cidade, conectando bairros que, de outra forma, poderiam permanecer entidades distintas, diferentes planetas ligados entre si, sustentados e remotos. Eu gosto de ver como, de fato, eles se misturam, eu gosto de perceber os limites entre eles. Caminhar me ajuda a me sentir em casa. Há um pequeno prazer em ver o quão bem eu conheço a cidade através de minhas andanças, atravessando diferentes bairros da cidade, alguns que eu conhecia muito bem, outros que eu não via há algum tempo, como me familiarizar com alguém que conheci em uma festa.

3 Às vezes, eu ando porque tenho coisas em mente, e caminhar me ajuda a resolvê-las. Solvitur ambulando, dizia Santo Agostinho. Ao ouvir esta frase, Bruce Chatwin imediatamente tomou nota. E Diógenes, o Cínico, respondeu aos paradoxos de Zenão sobre a irrealidade do movimento, levantando-se e indo embora. Usem esta conduta do filósofo grego para lidar com os "bolsomitos". Simples assim.

Why We Walk, Brain Pickinks
Flâneur, Wiki
Solvitur ambulando, Wiki

26 agosto, 2020

A mítica Cockaigne

O prêmio da cidade mais mítica e ridícula vai para o povo medieval que criou Cockaigne, (*) uma cidade utópica abundante em comida, liberdade sexual e embriaguez perpétua. Este paraíso ficcional foi formado por camponeses na Idade Média e é frequentemente considerado uma paródia do paraíso.
Os primeiros registros de Cockaigne, pronunciados exatamente como a droga favorita de tantas celebridades, você adivinhou, a cocaína, remonta ao final do século XII e é descrita como uma terra onde casas são feitas de bolos, chuvas de comida do céu e rios são feitos de vinho.
Uma das representações mais famosas desta terra de fantasia pertence ao famoso artista holandês Pieter Bruegel, o Velho, onde ele mostra pessoas deitadas na grama cercadas por alimentos prontamente disponíveis, como um porco assado e um ovo com talheres na perspectiva de serem comidos.

Pieter Bruegel, o Velho: Luilekkerland ("A Terra de Cockaigne") 
Óleo sobre painel (1567, Alte Pinakothek, Munique


http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=15385

(*) O termo surgiu em francês, Cocagne, Coquaigne, logo traduzido em inglês, Cockaigne, em italiano Cuccagna, em espanhol Cucaña.
http://en.wikipedia.org/wiki/Cockaigne

02 janeiro, 2017

Uma cidade muda o centro

Em Kiruna, a cidade mais ao norte da Suécia, vivem 18.000 pessoas. É uma cidade de mineração no Círculo Ártico. Há um monte de coisas interessantes para aprender sobre Kiruna e seu povo encantador, mas a grande mudança da cidade é o que há de mais interessante.
No plano físico, explico a seguir.
A mineração de ferro transformou o terreno sob a cidade em um queijo suíço, por assim dizer. Para evitar que todo o centro da cidade caia em um buraco, quando o terreno entrar em colapso, eles estão movendo a praça principal da cidade e os edifícios circundantes para um local a duas milhas de distância.

Não é algo fácil, mas não há realmente nenhuma alternativa. A mina é muito rentável para fechar, a enorme atividade mineira local necessita da cidade para sustentá-la, e as pessoas que vivem lá amam essa cidade.

05 dezembro, 2016

A cidade em que todos vivem no mesmo prédio

Situado na costa sul do Alasca, Whittier é uma cidade com uma população de 220 ​​habitantes – com todos vivendo no mesmo edifício.
Construída após a Segunda Guerra Mundial, Torre Begich (foto), com 14 andares, inclui 150 apartamentos, correios, um supermercado, uma locadora de vídeos, o escritório do prefeito etc.
Somente a escola está em outra instalação, embora seja ligada ao prédio residencial por um túnel para que as crianças possam ir às aulas em mangas de camisa, mesmo no mais rigoroso inverno.


Microsiervos c/ vídeo
Whittier, el pueblo cuyos habitantes viven todos en el mismo edificio
Cribeo c/ vídeo
Hay un pueblo en Alaska donde todos los habitantes viven en el mismo edificio

21 maio, 2014

A cidade azul

Uma pequena cidade do Noroeste de Marrocos é bastante popular entre os turistas por sua cor predominantemente azul. (*)
É Chefchaouan, uma cidade de 40 mil habitantes localizada no coração das montanhas de Rif, sob as sombras de dois picos chamados Ech-Chaoua (Os Chifres).
Na década de 1930, Chefchaouan era habitada por refugiados judeus. Como parte de sua tradição, os judeus pintaram de azul suas casas, inspirados em que a mansão celestial era também azul. Embora eles não sejam mais a maioria da população, os seus atuais moradores continuam seguindo a tradição de pintar as casas e ruas da cidade com a cor azul.


(*) Mas não exclusivamente por isso. A idílica Chefchaouan é também um popular destino de compras de produtos de artesanato, queijos de cabra e da maconha que é amplamente cultivada no Norte de Marrocos.

A aldeia azul

26 agosto, 2012

A cidade giratória

Clockwork Citiy é o conceito mais estranho de cidade que apareceu ultimamente. É quase o oposto da famosa Cidade Linear proposta por Arturo Soria y Mata, em torno de 1900, ainda que ao fundo também se pareça com ela ("faixas" para habitação, escritórios e indústria).
Na verdade, a partir de muitos pontos de vista, a cidade giratória não faria sentido:
Como a rotação afetaria seus habitantes? Ficariam tontos? Que critérios serão escolhidos para as voltas e a frequência? De onde se obteria a energia para mover toda a estrutura? Seria eficiente? Que sucederia se o mecanismo dos movimentos sofrer defeito? Como a cidade cresceria?
Enfim ... com uma lista tão interminável de "mas", talvez essa ideia seja melhor o cenário para um jogo ou um filme de ficção científica.

Clockwork City. Publicado por Alvy em 18/07/2011 no Microsiervos



Brasília - DF

07 fevereiro, 2009

A canção-cidade

Em 1932, gravada por Gastão Formenti, foi lançada com êxito a canção "Maringá". Composta pelo médico Joubert de Carvalho, em parceria com Olegário Mariano, essa canção marcou época no Brasil. Em seu processo de criação, imaginaram os autores uma cabocla, Maria, retirante de Ingá (PB), uma cidade nordestina assolada pela seca. A fictícia Maria do Ingá, que se tornaria a Maringá da canção.
É comum nome de cidades inspirarem canções, mas, neste caso, surpreendentemente, o nome da canção é que deu origem ao nome da cidade. Muito cantada pelos trabalhadores que construiam uma nova cidade no Paraná, "Maringá" acabou sendo o nome escolhido para designar essa cidade pela direção da companhia construtora. 
Adiante, Joubert de Carvalho ainda comporia outra música para Maringá: "A cidade que nasceu de uma canção". E a cidade de Maringá, por sua vez, o homenageria em vida com o nome de uma rua e um busto em praça pública.
Abaixo, garimpados no Metacafe, dois vídeos com "Maringá":
1) Com o violonista Fernando Deghi, no programa "Viola, minha viola", em execução precedida pela segunda parte do "Prelúdio nº 3", de Villa-Lobos.
2) Com o cantor Leo Marini, numa versão de "Maringá" para o espanhol (em ritmo de bolero).
 

11 julho, 2007

Springfield

O desenhista Matt Groening criou a fictícia cidade de Springfield para cenário das estripulias dos Simpsons.
No mundo real, muitas cidades apresentam este nome nos EUA. O que levou a uma recente disputa, entre elas, para escolher a comunidade que ostentaria o título de “lar dos Simpsons”.
Quatorze delas se submeteram a uma votação on line. E venceu a Springfield do estado de Vermont, uma cidade de 9.300 habitantes.

Fonte: g1.globo.com