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06 janeiro, 2025

Os caracóis guerreiros da Idade Média

Na Idade Média, quando o texto de um manuscrito ficava completo, as partes mais importantes podiam receber um acabamento floreado, como bordas detalhadas de folhagens onduladas, criaturas fantásticas e outros desenhos diversos.
Às vezes, eles eram acrescentados imediatamente. Em outros casos, muitas décadas depois. Mas não era uma tarefa casual.
Essas decorações são encontradas em uma ampla variedade de obras religiosas. Elas incluem saltérios (com salmos), livros de horas (com orações), breviários (com orações diárias), livros pontificais (com os rituais conduzidos pelos bispos) e decretais (cartas papais).
Os enfeites podiam ser bizarros, engraçados, grotescos e até grosseiros. Nádegas despidas, pênis, condições médicas e uma quantidade surpreendentemente grande de coelhos sanguinários ornamentam páginas do que, sem eles, seriam livros sóbrios e devocionais.
Essas obras de arte, encontradas nas margens dos livros, são conhecidas pelo nome de "marginália".
Muitas vezes, a marginália parece ter pouca relação com o texto do livro. Mas, por um breve período no final do século 13, os decoradores de livros de toda a Europa adotaram uma nova obsessão: os caracóis guerreiros.
Em um estudo abrangente desses gastrópodes lutadores, a historiadora da arte Lilian Randall contou 70 exemplos, em 29 livros diferentes. A maioria deles foi impressa entre 1290 e 1310.
Mas por que eles estão ali?
O verdadeiro significado destes desenhos medievais pode ter sido completamente perdido ao longo da história. 
Os caracóis eram tão frequentes nos livros medievais que, provavelmente, uma única explicação não será suficiente para justificar por que eles estavam tão na moda naquela época.

Extraído de: Gorvett, Zaria. O mistério dos caracóis guerreiros da Idade Média. BBC Future
Crédito da imagem: http://www.infobae.com/america/mundo/2024/05/17

08 julho, 2024

Antes de viajar no tempo à Idade Média: o que saber?


Aplicável a viagens à Europa Medieval entre os séculos XI e XIV, uma época razoavelmente interessante
O normal seria viajar para as cidades, onde os estrangeiros seriam mais bem recebidos; claro, para as cidades (onde viviam 90% da população), muito menos para os castelos, que seriam como fortalezas privadas da época, fortemente protegidas e destinadas a espantar estranhos.
As cidades ideais seriam as da Inglaterra, França, Alemanha e norte da Itália.
Entre as coisas a ter em mente estão:
  • Doenças. É melhor estar vacinado para tudo e mesmo assim é muito provável que adoeça, principalmente de infecções gastrointestinais, sem falar de algo pior, por exemplo a malária.
  • Segurança pessoal. O ideal é viajar em grupo, pois viajar sozinho seria tão perigoso que seria raro sair vivo de qualquer confronto. Melhor estar armado com adagas e coisas do gênero, é claro.
  • Dinheiro. Naquela época era normal negociar moedas de prata, então trazer prata para derreter/comercializar e trocar por "dinheiro local" seria uma boa ideia.
  • Tenha uma história confiável. Para evitar levantar suspeitas, o melhor seria ter uma história preparada sobre de onde você vem, o idioma e o sotaque que vai usar, o motivo da viagem, seu "status social" e coisas assim. Caso contrário, as pessoas ficarão desconfiadas (e com razão)... e serão maus negócios.
  • Alojamento. Não existem hotéis propriamente ditos; É normal concordar em ficar em casas particulares, mosteiros ou talvez pousadas. As pessoas não têm jornais ou outras formas de entretenimento, por isso apreciam que você possa contar histórias ou trazer notícias de fora para quando anoitecer.
  • Refeição. Você come o que lhe oferecem no alojamento, mas não se esqueça da opção de fazer sopa com o que pode comprar no típico "mercado medieval" da época.
  • Línguas. Cada região tem seu dialeto e o ruim é que o inglês ou o francês na Idade Média eram bem diferentes e variavam de uma região para outra; como hoje, mas de uma forma selvagem. E também é difícil saber hoje como era a pronúncia exata. Havia também a língua franca ou "língua comercial" que permitia administrar desta forma as viagens de um lugar para outro. Além disso, o latim poderia ser utilizado como língua de alto nível cultural, por exemplo, nos mosteiros.
  • Raça e gênero. Não havia racismo "como tal" naquela época, mas um visitante negro na Inglaterra despertaria curiosidade, por isso é melhor ter a história preparada de antemão ("Eu venho do sul da Europa", ou "do Norte de África", "Leste", etc.) As mulheres também faziam peregrinações, para poderem ir de um lugar para outro, embora não devamos esquecer as questões de segurança e, novamente, nunca viajar sozinhas.
  • Religião. A religião era muito mais importante do que é hoje, e as diferenças de crenças eram piores do que as de raça ou género. Na Europa era preciso ser cristão ou arriscar-se a ter problemas ou ser acusado de qualquer coisa e acabar mal.
https://www.microsiervos.com/archivo/mundoreal/consejos-viajeros-tiempo-destino-edad-media.html

11 setembro, 2023

Papel-moeda (século 10)

Embora as sociedades contemporâneas dependam cada vez mais de cartões e moedas digitais, muitos de nós ainda nos sentimos mais seguros quando nossas carteiras estão cheias do bom e velho dinheiro. 
Você já se perguntou como e quando recebemos papel-moeda, em primeiro lugar? 
A invenção do papel-moeda nacional remonta à China medieval. O primeiro papel-moeda foi introduzido no século 10 durante a dinastia Song (960-1279), e também por uma razão muito prática. Devido à escassez de cobre no país, as moedas foram substituídas por notas impressas em azul escuro chamadas guans em várias denominações. Comerciantes e viajantes europeus encontraram guans em suas viagens e trouxeram notícias sobre essas notas de papel chinesas no século 13. 
Ainda assim, as moedas de papel não seriam usadas na Europa por mais 300 anos depois disso.
https://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=17190

Arquivo

09 maio, 2023

O imposto da covardia

scutage (do latim scutum), escudo.
Na Inglaterra medieval, se um cavaleiro não desejasse ir lutar numa guerra, ele poderia pagar o scutage, popularmente conhecido como "imposto da covardia". O imposto, que foi iniciado pelo rei Henrique I, em 1100, permitia que os cavaleiros fossem dispensados do serviço militar em campanhas específicas. Mais tarde, o rei João, fazendo uso indevido desse imposto, passou a exigi-lo mesmo quando não havia guerras.

24 janeiro, 2023

As inovações tecnológicas da Idade Média



A Idade Média tem a reputação de ser tecnologicamente atrasada e carente do espírito de inovação, conceitos que também associamos a outras eras históricas. No entanto, o período do século 5 ao século 14 marca a invenção de várias das inovações tecnológicas mais significativas da história da humanidade.





1. Papel-moeda
2. Universidade
3. Ampulheta
4. Relógio mecânico
5. Tinta a óleo
6. Aquecimento central
7. Lagar de vinho
8. Arado pesado
9. Guindastes
10. Abóbada de cruzaria e arcobotante
11. Moinho
12. Óculos
13. Roca de fiar
14. Biblioteca pública
15. Impressora com tipos móveis

https://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=17190

10 junho, 2022

Monges copistas

O livro nem sempre foi um artigo barato. Durante a Idade Média, por exemplo, a Europa tinha poucas bibliotecas, as maiores não possuíam nem 1000 livros em seu acervo. Antes da invenção da máquina de Gutenberg, a forma mais popular e rápida de reproduzir um livro eram em manuscritos, com as próprias mãos. 
Foi realizando esse trabalho, que milhares de monges dedicaram suas vidas. Usando pergaminhos e tinta, esses homens copiavam palavra por palavra os escritos de Platão, Aristóteles, Heródoto e demais autores que sobreviveram à destruição da biblioteca de Alexandria.
Estima-se que um bom copista chegava a dar conta de 20 a 30 páginas por dia. Algumas cópias de livros como a Bíblia, demoravam anos para serem concluídas.
Como, na época, uma parte muito pequena da sociedade era letrada e a reprodução de livros era trabalhosa, as obras ficavam dentro de igrejas e bibliotecas de mosteiros, geralmente presas por cadeados e correntes, onde só se conseguia a consulta com a permissão de alguma autoridade religiosa.
In: Como se conseguia um livro antes da invenção de Gutenberg

As bibliotecas da época medieval criaram engenhosos métodos para que os livros pudessem ser lidos sem ser roubados Eram métodos que, de alguma forma, dissuadiam os ladrões de seu "animus furtandi".
Encontrei a descrição de dois deles em La Aldea Irreductible, num artigo de Guillermo: ¡Leed, leed, pero no os llevéis los libros!
In: Correntes e maldições

06 abril, 2022

O bufão Roland

As pessoas mais velhas costumam falar sobre como esse entretenimento era muito melhor nos velhos tempos. Mas no século 12, o auge do entretenimento era um cara pulando no ar, assobiando e peidando ao mesmo tempo. Este espetáculo deslumbrante, conhecido como "unum saltum et siffletum et unum bumbulum ("um salto, um assobio e um peido"), era realizado apenas uma vez por ano para Henrique II, pelo qual seu executor, Roland, the Farter, recebia um belo salário anual.


Roland, the Farter, era, como seu nome indicava, um flatulista profissional. Este título significa essencialmente que Roland era pago para peidar na frente das pessoas. Mais ou menos como Adam Sandler. Exceto que Roland não fez filmes para a Netflix, em vez disso, ele trabalhou na corte do rei Henrique II durante o século 12 na Inglaterra, quando o período medieval estava no auge.
O mundo medieval de Roland era um mundo sem TV, YouTube ou Instagram. Hoje em dia, se você quiser ver alguém peidar, levaria apenas alguns segundos para pesquisar e encontrar um vídeo, assisti-lo, rir e passar para algo mais engraçado (boa sorte).
Pois bem, na Idade Média, a necessidade de entretenimento era preenchida por bufões como Roland. Este freqüentemente se apresentava nas ruas ou nas cortes da nobreza e famílias reais em troca de dinheiro ou, em casos raros, propriedade. O flatulista teve tanto sucesso com suas oportunas habilidades de peidar que o rei Henrique II deu a ele sua própria mansão em Hemingstone, Suffolk, uma região a leste de Londres.
Desempenho de Roland
A única fonte confiável que menciona Roland é o Livro das Taxas, um documento do século 13 usado para contabilizar as muitas taxas devidas pela e para a Coroa. Entre uma lista de acordos burocráticos muito sérios e vitais, está uma breve descrição do desempenho de Roland e o pagamento que ele recebeu da Coroa.
Do Livro de Taxas: "Unum saltum et siffletum et unum bumbulum".
Embora possam parecer palavras sem sentido para a maioria, elas são, na verdade, latinas. Depois de uma boa tradução, a frase explica resumidamente que Roland executaria “um salto, um assobio e um peido” em uma curta sinfonia de ruídos corporais para uma pessoa. O show de três partes era parte da celebração anual de Natal do rei, aparentemente servindo como o grande final para as festividades do feriado em geral.
Além de ser hilário e uma indicação óbvia de como as tradições natalinas da monarquia britânica mudaram, o desempenho de Roland ocupa um lugar significativo na história da flatulência profissional.A performance é uma das primeiras menções de flatulência profissional na história medieval, ao lado de 12 farters musicais na Irlanda que peidaram até a fama durante o mesmo século que Roland. Esses registros históricos mostram que a flatulência era mais do que apenas uma piada; para alguns, era um meio de subsistência.

NEW POST
http://www.mentalfloss.com/article/649356/fart-history-memorable-moments

15 novembro, 2021

Poulaines

Poulaines, sapatos ou botas com o bico extremamente alongado e pontudo, que foram usados na Europa, nos séculos 14 e 15.  Na Inglaterra, foram introduzidos durante o reinado de Ricardo II (1367 - 1400). De tão compridas, suas pontas eram enchidas com musgos ou crinas de cavalo, além de presas por barbante ou corrente de ouro/prata, logo abaixo dos joelhos, a fim de não atrapalharem o caminhar do usuário.
Receberam os nomes de "poulaines", "souliers à la poulaine" e "crakows", em alusão a seu suposto local de origem (Cracóvia, Polônia).
Essa tendência da moda nos pés, que agora parece tola a um observador moderno, um dia saiu do controle. Em um ponto, o rei Edward IV (1442 - 1483 ) teve que proibir os súditos de usarem pontas com mais de cinco centímetros. Alguns anos depois, ele decidiu proibir totalmente este tipo de sapatos.
Um design pontiagudo do sapato também foi criado em metal para ser usado juntamente com a armadura. "A History from Sandals to Sneakers" relata a história de uma "derrota infligida por  camponeses suíços na Batalha de Sempach (1386) contra os poderosos cavaleiros Habsburgos, a qual se deveu parcialmente ao uso dos sapatos de pontas compridas por estes últimos". Na Batalha de Nicópolis, em 1396, quando os otomanos derrotaram um exército de cruzados europeus, o contingente francês foi forçado a cortar as pontas de seus sapatos para bater em retirada com rapidez.

Representação da Batalha de Sempach mostrando uma grande pilha de pontas de sapato em uma colina no canto superior esquerdo da ilustração. Wikipedia (para ver a imagem ampliada)

http://fashionhistory.fitnyc.edu/poulaine/
http://bigthink.com/culture-religion/medival-shoes-bunions
http://blogdopg.blogspot.com/2011/10/competicao-pela-aparencia.html

27 outubro, 2021

Gerador de Meme Medieval

As iluminuras dos manuscritos medievais costumam retratar cenas que desafiam a interpretação moderna. No entanto, o mundo atual está cheio de pessoas que só querem ser engraçadas. Se você for uma delas, gostará de conhecer o Gerador de Meme Medieval
Escolha uma das imagens desta coleção da Biblioteca Nacional da Holanda, leia a seu respeito para descobrir o significado e aí acrescente sua piada. Existem disponíveis 15 imagens (algumas podem ser consideradas NSFW), que serão trocadas a cada três meses. 
Mesmo que você não queira fazer piadas com elas, explorar a história dessas imagens realmente estranhas é um bom uso do seu tempo livre.

1430. O que acontece nesta foto?!
A quenita Jael atraiu o líder do exército, Sísera, para sua tenda. Sísera vinha oprimindo violentamente os quenitas por 20 anos. Enquanto ele dormia, ela cravou uma estaca em sua cabeça.

20 janeiro, 2021

Ser.vi.dão

HIST Regime de trabalho rural que predominou na Idade Média na Europa Ocidental em que o servo, mesmo sem ser propriamente escravo, vivia preso à terra que cultivava e na dependência do seu proprietário ou senhor.


26 agosto, 2020

A mítica Cockaigne

O prêmio da cidade mais mítica e ridícula vai para o povo medieval que criou Cockaigne, (*) uma cidade utópica abundante em comida, liberdade sexual e embriaguez perpétua. Este paraíso ficcional foi formado por camponeses na Idade Média e é frequentemente considerado uma paródia do paraíso.
Os primeiros registros de Cockaigne, pronunciados exatamente como a droga favorita de tantas celebridades, você adivinhou, a cocaína, remonta ao final do século XII e é descrita como uma terra onde casas são feitas de bolos, chuvas de comida do céu e rios são feitos de vinho.
Uma das representações mais famosas desta terra de fantasia pertence ao famoso artista holandês Pieter Bruegel, o Velho, onde ele mostra pessoas deitadas na grama cercadas por alimentos prontamente disponíveis, como um porco assado e um ovo com talheres na perspectiva de serem comidos.

Pieter Bruegel, o Velho: Luilekkerland ("A Terra de Cockaigne") 
Óleo sobre painel (1567, Alte Pinakothek, Munique


http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=15385

(*) O termo surgiu em francês, Cocagne, Coquaigne, logo traduzido em inglês, Cockaigne, em italiano Cuccagna, em espanhol Cucaña.
http://en.wikipedia.org/wiki/Cockaigne

29 abril, 2020

Caixas de dormir

Durante grande parte da história humana, a privacidade durante a hora de dormir era um conceito estranho. Muitas famílias pobres viviam em casas pequenas, onde havia apenas um ou dois quartos, sendo que o maior deles funcionava como quarto e sala de estar, ambos compartilhados por todos os ocupantes da casa, incluindo convidados.
Mesmo em palácios não era incomum os criados dormirem no mesmo quarto dos patrões. Quando o rei Henrique V dormiu com Catarina de Valois, escreve Bill Bryson em "At Home", tanto o mordomo quanto o camareiro estavam presentes no quarto. Em tais circunstâncias, as cortinas da cama proporcionavam um pouco de privacidade.
Mas se você queria uma verdadeira privacidade, tinha que dormir em uma cama de caixa.

Uma cama de caixa na Áustria. Crédito da foto: Wolfgang Sauber / Wikimedia Commons

Em muitas casas rurais da Escócia, França e partes da Holanda e Reino Unido, as pessoas dormiam em camas que eram essencialmente grandes armários de madeira com uma cama dentro e portas para fechar enquanto dormiam. Algumas camas de caixa eram móveis independentes; outras foram construídas em recessos e anexadas à estrutura da casa. Além da privacidade, o pequeno espaço fechado da cama de caixa mantinha os corpos dos seus ocupantes aquecidos durante o inverno.
Também é possível que as camas tenham oferecido algum grau de proteção contra intrusos, especialmente lobos e outros animais, que pudessem ter entrado em casa.

Extraído de: Why mediaeval europeans slept inside boxes, Amusing Planet

21 outubro, 2019

O pelourinho de dedo

Aqui está uma punição esquecida.
No século XVII, por motivo de uma ofensa menor (por exemplo, não prestar atenção a um sermão), um infrator podia ir para o pelourinho de dedo.
Um exemplar deste objeto ainda sobrevive na igreja de Santa Helena, em Leicestershire, Inglaterra.
O pelourinho de dedo é um tipo de contenção em que o dedo é mantido no interior de um bloco de madeira após introduzido por um buraco em forma de L para que a articulação fique dobrada dentro do bloco.


O nome é tirado do pelourinho, um dispositivo muito maior usado para prender a cabeça e as mãos.
"O dedo ficava confinado, e facilmente se vê que ele não poderia ser retirado até que o pelourinho fosse aberto", escreve William Andrews, em "Medieval Punishments" (1898). "Se o ofensor fosse mantido por muito tempo nessa postura, a punição teria sido extremamente dolorosa."

The finger pillory, Futility Closet

30 maio, 2019

Apenas mais um dia na Idade Média

Uma pessoa aqui está sendo esfaqueada no tórax e na cabeça. E simplesmente não dá a mínima.


Manuscritos medievais apresentam frequentemente "ilustrações assassinas". No entanto, por alguma estranha razão, muitas pessoas parecem estar entediadas com a vida e os assassinos estão lhes fazendo um piedoso serviço.
O site Sad and Useless traz uma relação dessas gravuras em que pessoas estão sendo esfaqueadas, mas não se importam.

26 abril, 2019

O Conde Lucanor - 4

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ("Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto IV - O que, ao morrer, disse um genovês à sua alma
Don Juan Manuel
Tradução PGCS
Um dia, o Conde Lucanor falava com seu conselheiro Patrônio e disse-lhe o seguinte:
— Patrônio, graças a Deus, eu tenho minhas terras bem cultivadas e pacificadas, assim como de tudo que preciso de acordo com meu estado e, por sorte, talvez mais, de acordo com meus colegas e vizinhos, alguns dos quais me aconselham a começar um negócio de certo risco. Mas, embora eu sinta grande desejo de fazê-lo, por causa da confiança que tenho em você, eu não queria começá-lo até me aconselhar com você sobre o que fazer nesse assunto.
— Senhor Conde Lucanor, disse Patrônio, para você fazer o que for mais conveniente, eu gostaria muito de lhe contar o que aconteceu com um genovês.
O conde pediu que ele fizesse isso.
Patrônio começou:
— Senhor Conde Lucanor, havia um genovês muito rico e muito afortunado, na opinião de seus vizinhos. Este genovês ficou seriamente doente e, percebendo que estava morrendo, reuniu parentes e amigos e, quando chegaram, mandou chamar sua esposa e filhos; Ele se sentou em uma sala muito bonita de onde o mar e a costa podiam ser vistos. Ele trouxe as suas joias e riquezas e, quando as teve perto, começou a gracejar com sua alma:
"Alma, bem vejo que você quer deixar-me e não sei porquê, pois se busca minha esposa e filhos, aqui os tem tão maravilhosos que pode se sentir satisfeita; se busca parentes e amigos, aqui também os tem, muitos e muito distintos; se busca prata, ouro, pedras preciosas, joias, tapeçarias, mercadorias para o tráfego, aqui você os tem em tal quantidade que nunca cobiçará mais; se busca navios e galés que produzem riqueza e aumentam sua honra, lá estão eles, no porto visto desta sala; se busca terras férteis e jardins, que também são frescos e agradáveis, eles estão sob essas janelas; se você quer cavalos e mulas e aves e cães para a caça e para o seu divertimento, e até mesmo menestréis para acompanhá-lo e distraí-lo; se busca uma casa suntuosa, bem equipada com camas e estrados e quantas coisas sejam necessárias, você não vai perder nada. E desde que você não está satisfeita com tantos bens nem deseja apreciá-los, é evidente que você não os quer. Se, então, prefere ir em busca do desconhecido, vá com a ira de Deus, que será muito néscio quem se aflija pelo mal que lhe suceder."
— E você, Sr. Conde Lucanor, graças a Deus está em paz, com bem e com honra, eu acho que não será sábio arriscar o que agora possui para começar o negócio que foi aconselhado, porque talvez esses conselheiros lhe digam isso porque eles sabem que, uma vez que se envolva nesse assunto, ao fazer o que eles querem seguindo a vontade deles, enquanto que agora que você está em paz, eles que seguem a sua vontade. E talvez pensem que assim conseguirão prosperar, o que não conseguiriam enquanto você vive em paz, como o que sucedeu ao genovês com sua alma. É por isso que eu prefiro aconselhá-lo que, enquanto você pode viver com paz e sossego, sem perder nada, não se junte a uma empresa onde você tem que arriscar tudo.
O Conde ficou muito satisfeito com este conselho dado por Patrônio, agiu de acordo com ele e obteve resultados muito bons.
E quando Dom Juan ouviu esta história, considerou-a boa, mas não quis fazer versos novamente, porém terminou com este dito que foi difundido entre as mulheres idosas de Castela:
Quem estiver bem sentado, não se levante.

www.cervantesvirtual.com

30 novembro, 2018

O Conde Lucanor - 3

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ("Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto VI - O que aconteceu com a andorinha e os outros pássaros depois da semeadura do linho
Don Juan Manuel
Trad.: PGCS
Novamente, quando o conde Lucanor estava conversando com Patrônio, seu conselheiro, ele disse:
— Patrônio, me asseguram que alguns nobres, que são meus vizinhos e muito mais fortes do que eu, estão se reunindo contra mim e que, com artes más, procuram uma maneira de me prejudicar. Eu não creio nem temo, mas, como confio em você, eu quero lhe pedir que me aconselhe se devo estar preparado contra eles.
— Senhor Conde Lucanor, disse Patrônio, para que você possa fazer o que neste caso parece mais conveniente, eu gostaria muito de que você soubesse o que aconteceu com a andorinha e os outros pássaros.
O conde perguntou-lhe o que havia acontecido.
"Sr. Conde, disse Patrônio, a andorinha viu que um homem semeava linho e, guiado pelo bom senso, pensou que, quando o o linho crescesse, os homens poderiam fazer com ele redes e outras armadilhas para caçar pássaros. Imediatamente, ela foi até estes, reuniu-os e disse-lhes que os homens tinham plantado linho e que, se este crescesse, deveriam ter ciência dos perigos e danos que isso lhes traria. Por isso, aconselhava-os a ir aos campos de linho e arrancar as sementes antes de que nascessem. No entanto, as aves não deram importância ao aviso e não foram recolher as sementes. A andorinha insistiu muito para que seguissem o tal conselho, até concluir que os pássaros não percebiam o perigo nem tinham qualquer preocupação a respeito. Enquanto isso, o linho continuava a crescer, e os pássaros não conseguiam mais retirá-lo com seus bicos e patas. Arrependeram-se, finalmente, por não ter sanado o problema no devido tempo, apesar de suas lamentações serem já inúteis para evitar o mal.
"Vendo a andorinha, que as outras aves não queriam se prevenir do perigo que as ameaçava, acrescentou Patrônio, ela falou com os homens, pôs-se sob a proteção deles e ganhou a paz e a segurança para si e para a sua espécie. E, desde então, vivem as andorinhas com segurança entre os homens, que não as perseguem. Enquanto as outras aves, que não souberam prevenir-se do perigo, são perseguidas e caçadas todos os dias com redes e armadilhas.
"E você, Sr. Conde, se quiser evitar o dano que o ameaça, tome precauções e cuide-se antes que seja tarde demais.Não é prudente aquele que vê as coisas quando já aconteceram ou estão acontecendo; mas o é aquele que, a um simples indício, descobre o perigo que corre e adota as soluções para evitá-lo.
O conde ficou muito satisfeito, agiu de acordo com o conselho e tudo correu muito bem.
Como Don Juan viu que era uma boa história, mandou colocá-la neste livro e fez uns versos que dizem assim:
O mal ao começar se deve extirpar
Porque, uma vez crescido, quem o conseguirá?

www.cervantesvirtual.com

01 junho, 2018

O Conde Lucanor - 2

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ( "Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto XIII - O que aconteceu a um homem que caçava perdizes
Don Juan Manuel
Trad.: Henry Alfred Bugalho
Outra vez, o Conde Lucanor conversava com Patronio, seu conselheiro, e lhe disse:
— Patronio, alguns nobres muito poderosos e outros nem tanto, às vezes, causam danos a minhas terras ou a meus vassalos, mas, quando nos encontramos, eles me pedem desculpas, dizendo-me que fizeram-no obrigados pela necessidade, muito a contragosto e sem poderem evitar. Como eu gostaria de saber o que devo fazer em tais circunstâncias, suplico-vos que me deis vossa opinião sobre este assunto.
— Senhor Conde Lucarno, disse Patronio, o que haveis me contado, e sobre o qual me pedis conselho, parece-se muito com o que ocorreu a um homem que caçava perdizes.
O conde lhe pediu que contasse a história.
— Senhor conde, disse Patronio, havia um homem que estendeu suas redes para caçar perdizes e, quando já apanhado bastantes, o caçador voltou para junto da rede onde estavam suas presas. Na medida em que as recolhia, tirava-as da rede e as matava e,enquanto fazia isto, o vento, que batia em cheio em seus olhos, o fazia chorar. Ao ver isto, uma das perdizes, que estava presa na malha, começou a dizer a suas companheiras:
— Olhem, amigas, o que acontece a este homem! Ainda que nos mate, olhem como ele se condói por nossa morte e, por isto, chora!
Mas outra perdiz que avoava por ali, mais velha e mais sábia do que a outra que havia caído na rede, respondeu-lhe:
— Amiga, dou graças a Deus porque me salvei da rede e agora peço a Ele que salves a mim e a todas minhas amigas dum homem que busca nossa morte, mesmo que dê a entender com lágrimas que muito se condói.
Vós, senhor Conde Lucanor, evitai sempre aqueles que vos causam dano, mesmo que dêem a entender que sentem muito; mas se algum vos prejudica, sem buscar vossa desonra, e se o dano não for muito grave para vós, se se trata duma pessoa à qual deveis favores, e que além disto foi forçado a isto pelas circunstâncias, eu vos aconselho que não se importeis demais, mas deveis procurar que tal não se repita tão freqüentemente que chegue a macular vosso bom nome ou vossos interesses. Mas se vos prejudica voluntariamente, rompei com ele para que vossos bens e vossa fama não se vejam lesionados ou prejudicados.
O conde viu que este era um bom conselho que Patronio lhe dava, seguiu-o e tudo ficou bem.
E vendo don Juan que o conto era bom, ordenou pô-lo neste livro e fez estes versos:
A quem te faz mal, mesmo que seja para ti pesar,
Busca sempre um modo para poder dele se afastar.

http://www.revistasamizdat.com/2008/11/o-conde-lucanor.html
www.cervantesvirtual.com

15 dezembro, 2017

O Conde Lucanor - 1

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ( "Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto VII - O que aconteceu a uma mulher chamada senhora Truhana
Don Juan Manuel
Trad.: Henry Alfred Bugalho
Certa vez, Conde Lucanor conversava com Patrônio deste modo:
— Patrônio, um homem me propôs algo e também me disse a forma como consegui-lo. Assegurou que tem tantas vantagens que, se com a ajuda de Deus tudo ocorrer bem, seria para mim de grande utilidade e proveito, pois os benefícios se unem uns aos outros, de tal forma que, no final, seriam muito grandes.
Então, contou a Patrônio tudo que sabia. Após ouvi-lo, Patrônio respondeu ao conde:
— Senhor Conde Lucanor, sempre ouvi dizer que o prudente se atém às realidades e desdenha as fantasias, pois muitas vezes a quem vive destas costuma ocorrer o mesmo que se sucedeu à senhora Truhana.
O conde perguntou o que havia acontecido a ela.
— Senhor conde, disse Patrônio, havia uma mulher que se chamava senhora Truhana, que era mais pobre do que rica, e que, indo um dia ao mercado, levava um jarro de mel sobre a cabeça. Enquanto seguia pelo caminho, começou a pensar que venderia o mel e que, com o que lhe dessem, compraria um bocado de ovos, dos quais nasceriam galinhas e que logo, com o dinheiro que lhe dessem pelas galinhas, compraria ovelhas, e assim iria comprando e vendendo, sempre com lucro, até que se visse mais rica do que todas as suas vizinhas.
Logo pensou que, sendo tão rica, poderia arranjar um bom casamento a seus filhos e filhas, e que iria acompanhada pela rua por genros e noras, e pensou também que todos comentariam sua boa sorte, pois havia conseguido tantos bens, mesmo que houvesse nascido muito pobre.
Assim, pensando nisto, começou a rir com muita alegria por causa de sua boa sorte, e rindo, rindo, deu um tapinha na própria testa, o jarro caiu no chão e se rompeu em mil pedaços. Senhora Truhana, quando viu o jarro quebrado e o mel derramado pelo chão, começou a chorar e a se lamentar amargamente, porque havia perdido todas as riquezas que esperava obter com o jarro, se este não houvesse se quebrado. Assim, porque pôs toda sua confiança em fantasias, não pôde fazer nada do que tanto esperava e desejava.
Se quereis, senhor conde, aquilo que dizeis e pensais sejam realidade algum dia, procura sempre que se tratem de coisas razoáveis e não fantasias, ou imaginações duvidosas e vãs. E quando quiserdes iniciar algum negócio, não arrisqueis algo mui caro, cuja perda vos possa causar desgosto, com o intuito de obter um proveito baseado apenas na imaginação.
O que Patrônio contou agradou muito o conde, que agiu de acordo com a história e, assim, se saiu muito bem.
E como Don Juan gostou deste conto, escreveu-o neste livro e compôs estes versos:
Em realidades certas podeis confiar,
Mas das fantasias deveis vos afastar,

http://www.revistasamizdat.com/2008/11/o-conde-lucanor.html
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