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07 outubro, 2024

Falcões Noturnos

Sobre este quadro, Nighthawks (Falcões Noturnos), Edward Hopper lembrou que "inconscientemente, provavelmente, eu estava pintando a solidão de uma cidade grande".
Em um restaurante aberto a noite toda, três clientes sentam-se no balcão em frente a um garçom, cada um parecendo perdido em pensamentos e desligado um do outro. A composição é bem organizada e parca em detalhes: não há entrada no estabelecimento, nem escombros nas ruas. Através de formas geométricas harmoniosas e do brilho da iluminação elétrica da lanchonete, Hopper criou uma cena serena, bela, mas enigmática. Embora inspirada em um restaurante que Hopper viu na Greenwich Avenue, em Nova Iorque, a pintura não é uma transcrição realista de um lugar real.


Infelizmente, não consigo encontrar uma fonte viável sobre a autenticidade da citação. Ainda assim, eu rio ao lembrar deste pequeno boato, que colhi ao pesquisar Edward Hopper durante uma pesquisa noturna na Internet:
7 de junho de 1942. Edward Hopper completa uma de suas pinturas mais conhecidas, a seminal Nighthawks. Quando questionado por um repórter do Chicago Tribute sobre o significado filosófico por trás do restaurante não ter saídas claramente visíveis, Hopper respondeu: "Merda. Porra. Eu fiz de novo. Droga. Porra. De novo não. Eu fiz de novo. Merda". E bateu o chapéu na perna. (TheGayestAgenda, Reddit)

28 janeiro, 2023

Falatório

Ilustração: Maurício de Sousa

Me contaram, não sei se é verdade. Mas, como ouvi o mesmo caso de pessoas diferentes, leva certo jeito de, realmente, ter acontecido.

A Televisão estava buscando uma cidade pequena do interior para gravar uma novela e em uma das cidades inicialmente pensadas, achou prudente levar a equipe técnica e os dois atores que fariam o papel romântico. Era uma maneira de, aos poucos, ir ambientando a equipe para às gravações. A notícia dessa visita, depressa se esparramou pela cidade, e quando desembarcaram e começaram a andar de lá para cá em suas ruas e praças, coisas estranhas aconteceram com os moradores que, atrás das cortinas, assistiam a passagem do pessoal.

Nesses momentos, conta-se que Dona Yolanda, fotografa de mão cheia, esparramou-se pelo telhado para tirar boas fotos e acabou por rolar escada abaixo; Lucinda Marques garota prodígio na cidade sentiu pontada no peito e, piormente, desmaiou de emoção; Amelinha ajoelhou-se no altar improvisado na pensão e não parou mais de rezar; Thais deitou a falar mal do governo, aos berros, em frente à Prefeitura; Patativa afirma que recebeu o espírito de seu bisavô anunciando que já tinha lugar reservado no paraíso quando resolvesse ir embora, tudo isso sem contar com outros como o jovem Lucas que se engasgou com gole maior que a boca de guaraná até receber um safanão que o deixou desacordado por seis minutos, enquanto Marcinha, mais emocionada que nunca, mastigou por inteiro uma caixa de lápis de cor do Diego.

Quando a turma foi embora e a tarde já caia, nunca mais os moradores da cidade encontraram outro assunto para discursar senão esse momento de glória maior. Dizem até que Marcos Alan, pistoleiro conhecido nas terras do Maranhão, resolveu largar o oficio e, melhormente, se transformar em caçador de almas para a regeneração.

Me contaram, não sei se é verdade.

Autor: Celso Antunes (2015)

25 abril, 2015

Paul não morreu. Viva Paul

O primeiro boato de que Paul McCartney morreu (em um acidente de carro) circulou em Londres em janeiro de 1967. Esse boato, porém, foi reconhecido e refutado na edição de fevereiro do fanzine The Beatles Book (fig. 1),
Mas não se sabe se o segundo boato, de 1969, que circulou após o lançamento do álbum Abbey Road, guardou alguma relação com o primeiro. Durante a gravação do disco, Paul teria sido secretamente substituído por um tal "William Campbell", que vencera um concurso de sósias de McCartney, para poupar o público do luto.
No outono de 1969, os Beatles estavam de fato em processo de dissolução. E, como os compromissos públicos de McCartney eram poucos, ele tinha ido passar uma temporada na Escócia, com sua nova esposa Linda, a fim de pensar na próxima carreira solo.
Supostas pistas sobre a morte de McCartney eram encontradas por seus fãs, principalmente em Abbey Road. Elas incluíam mensagens percebidas quando certas músicas eram tocadas ao contrário e interpretações simbólicas de algumas das letras do disco.
Um exemplo sempre citado é o da capa de Abbey Road (fig. 2), que representaria um cortejo fúnebre, onde:
Lennon, vestido de branco, seria o clérigo (ou uma figura celeste), Ringo Starr, vestido de preto, o agente funerário, George Harrison, em jeans e camisa, o coveiro, e McCartney, descalço e fora de sintonia com os outros membros da banda, o cadáver de si próprio.
Paul não morreu, viva Paul. Foi Faul (falso Paul) que morreu.
Saberemos que Paul morreu de verdade quando o satírico The Onion sair com a seguinte manchete:

PAUL McCARTNEY MORRE UMA SEGUNDA VEZ

BOATOS (leiam mas não passem adiante).

01 março, 2013

Sacos de dinheiro

Circula na internet um boato com o seguinte teor:

"Este ano (2013), março terá 5 sexta-feiras, 5 sábados e 5 domingos. Isto acontece uma vez a cada 823 anos. Estes anos são conhecidos como money bags (sacos de dinheiro)."

Pegaram um fato ocasional, inventaram um número (823), um nome em inglês e espalharam na internet. Ninguém se preocupou com as contas, nem estranhou se tratar de um período tão grande.
Nem ao menos checaram os calendários. Muitos simplesmente acreditaram.
Esse fato vai se repetir toda vez que março começar numa sexta-feira. E isso é bem mais frequente do que a cada 823 anos. Em março de 1985, por exemplo, aconteceu (confira aqui).
De um ano para outro, o dia da semana em que um mês começa avança um dia. Em anos bissextos, o início do mês avança dois dias da semana, exceto para janeiro e fevereiro, em que esse avanço duplo é percebido no ano seguinte. Se não fossem os anos bissextos, a cada 7 anos tudo se repetiria, pois o calendário teria passado por todos os dias da semana. Como os anos bissextos mudam esse comportamento a cada 4 anos, podemos dizer que todo o conjunto do calendário, incluindo anos bissextos, se repete regularmente no MMC entre 7 e 4, isto é, a cada 28 anos.

Post relacionado: Reciclagem de calendários

19 agosto, 2011

Boatos

Os boatos são vistos como crimes cometidos por terceiros. São crimes perfeitos, não deixam o menor vestígio e não precisam de qualquer tipo de arma - a defesa fica sem pernas para andar. Jean-Noël Kapferer

Em Paris (59, rue des Petits Champs) existe uma instituição única no mundo: a Fundação para o Estudo e a Informação sobre os Boatos. Criada pelo psicólogo Jean-Noël Kapferer, essa fundação se dedica a estudar o mecanismo de formação dos boatos bem como o incrível poder de comunicação que eles apresentam.
Nos telefones da Fundação, as secretárias eletrônicas registram os boatos que são transmitidos pelo público. A partir dessa coleta de dados, cada boato é dissecado. Para receber o foro de boato é preciso que haja de 100 a 150 chamadas sobre o assunto.
Os franceses se ligam principalmente nos boatos da área da saúde pública, enquanto os norte-americanos têm uma especial predileção por boatos que falem de sexo.
[...]
Dizem que um incorrigível boateiro foi preso. Para assustá-lo, colocaram-no diante de um pelotão de fuzilamento. Mas era só uma simulação e o homem a seguir foi solto. De volta à prática, a sua primeira ação foi anunciar:
- Não espalhem, mas o exército está sem munição.
Há boatos quando há segredos. Há boatos porque as pessoas precisam fantasiar a realidade. E há pessoas que são propensas a certos boatos porque estes vão ao encontro de seus interesses. Os boatos são encontrados sempre que as circunstâncias são ambíguas, as questões são importantes e a capacidade crítica é baixa.
E como neutralizar um boato quando se sabe que o ato de desmenti-lo pode reforçá-lo?
Não passem adiante, mas há uma falação de que a fundação de Kapferer está para fechar as portas...
PGCS
O artigo completo está no Preblog.

10 novembro, 2010

O PATO

Paulo,
Recebo e-mails continuamente com as advertências mais variadas. A maioria deles refere-se à saúde e quase todos são mentirosos. Melhor defini-los como boatos eletrônicos que produzem efeitos mais perniciosos do que os antigos boatos de orelha e passo curto.
Uma simples pesquisa na internet bastaria para desmenti-los, mas poucos fazem isso. Preferem reendereçá-los para multiplicar seu alcance. Nessa última eleição recebi vários deles com as acusações mais espantosas, especialmente contra a Dilma. O internauta não tem consciência da gravidade desses cliques que transferem aos amigos a tarefa de abrigá-los como verdadeiros e a prerrogativa de reenviá-los. O internauta ético não tem o direito de usar a influência que tem sobre seus amigos para propagar informações falsas.
Alguns e-mails ressaltam os efeitos colaterais de remédios transformando-os em puro veneno. Outros recomendam uma milagrosa semente ou o poder curativo de uma agulha quando espetada no lugar certo. Tem gente que acredita que um cabo de colher enfiada no gargalo possa impedir a saída do gás de um refrigerante. Tal propriedade é prontamente desmentida porque o gás escapa assim mesmo, mas o pseudocientista insiste e ainda defende com veemência o seu uso. Vejo pela cidade garrafas PET cheias de água ao lado do medidor de energia com o propósito de fazer o relógio andar mais devagar. Elétrica ignorância!
São exemplos da má qualidade da educação no Brasil. As escolas querem que o aluno acumule informações, mas não ensinam o que fazer com elas. A neurociência diz que a memória humana tem limitações e o cérebro “apaga” o que não lhe é essencial. Não fique frustrado se esqueceu a letra do Hino da Bandeira ou a data do descobrimento da América (*). O homem inteligente é muito mais do que uma enciclopédia. Para guardar tudo que nos ensinam, teríamos que ter a cabeça volumosa e pesada como a de um elefante e rodas para locomoção. As informações estão nos livros e agora na internet. Dentro de vinte anos, todo conhecimento humano caberá em minúsculos chips carregados na cintura. É só aprender a buscar a informação que se quer, usá-la e esquecê-la novamente. O nosso cérebro é insuperável na arte de pensar criticamente, inventar, julgar e sentir. As escolas não ensinam como aprender por dedução, como solucionar problemas e criar novidades. O que se vê são pessoas despreparadas para enfrentar o mundo porque renunciaram à tarefa de pensar. Quem não reflete sobre o que consome vira presa fácil da política e da religião. Do outro lado estará sempre alguém inteligente elaborando técnicas para escravizá-lo a uma ideologia, religião ou produto. O brasileiro não pode continuar sendo um PATO e para isso precisamos revolucionar a educação. Educar é ensinar a aprender, ensinar a duvidar, ensinar a resolver, ensinar a inventar.

(*) Não esqueça a data do aniversário de casamento ou perderá a memória para sempre por traumatismo craniano.
Nelson Cunha
Um desses e-mails: