por Nelson José Cunha
A tiririca - Cyperus rotundus, chamada de nutgrass lá fora e, aqui dentro, até de grama-capeta - é pequena, fina, discreta porque não quer ser vista. Ela sabe que a exuberância atrai olhares e, por isso, se esconde. Sob aquela aparência modesta guarda uma arquitetura de vida que poucos organismos possuem. Espalha-se por sementes levíssimas que o vento distribui, cresce por rizomas que avançam silenciosos sob a terra e forma tubérculos capazes de resistir à seca, ao fogo, à enchente e até às enxadas mais raivosas. Basta que um fragmento minúsculo sobreviva para que tudo recomece - e recomeça sempre, para desespero dos jardineiros e admiração do resto de nós.Seu amargor não é falha: é estratégia. Seu baixo valor nutritivo não é limitação: é proteção. Animais a evitam, e assim ela se preserva. No subterrâneo, trabalha com discrição, liberando substâncias que dificultam a vida das plantas vizinhas para garantir um espaço para si. Considera-se rainha. Não porque deseje destruir alguém, mas porque sobreviver, para ela, não é escolha - é destino.
E há um detalhe que a aproxima da sabedoria: a tiririca não se ofende.
Você a arranca com raiva, pisa, xinga, ameaça - e ela, se pudesse, sorriria. Não um sorriso qualquer, mas aquele sorriso desafiador que humilha pela calma. Não desperdiça força em cobranças, não se perde em ressentimentos, não se distrai com o que não serve ao seu propósito. Enquanto nós nos desgastamos com irritações inúteis, ela guarda energia para continuar viva - e numerosa.
A tiririca não faz discursos, não lamenta as perdas; trabalha por baixo da terra, simulando a humildade que não tem. Esperteza sim.
E, de lá, contempla no alto as flores em seu esplendor - e não as inveja. Elas, ingênuas, atrairão olhares e morrerão por isso.
Para a tiririca não há condições desfavoráveis: ela apenas aproveita as que existem.
E talvez por isso ensine tanto.
Mostra que a vida não se ergue com barulho, mas com constância; não recomeça com bravatas, mas com raízes firmes; não se sustenta no orgulho, mas na capacidade de seguir adiante depois de cada golpe.
Chamam-na praga. Talvez seja mesmo - para quem só vê o desperdício de combatê-la.
Mas, para quem observa com atenção, torna-se exemplo.
Mostra que perder tempo com pequenas contendas só enfraquece quem as sente; que vingar-se é gastar a energia que poderia ser usada para florescer; e que há uma forma simples - e profundamente digna - de enfrentar o mundo: crescer.
A tiririca não vence por ferir ninguém.
Vence porque se recusa a desistir.
Há, nisso uma grande lição para quem anda cansado, ressentido ou paralisado por bobagens:
a vida não exige perfeição.
Exige persistência - qualidade que essa planta miúda domina como quase nenhuma criatura no planeta.
Seja tiririca!
N. do E.
"Vai frequentemente à casa de teu amigo, pois as ervas daninhas sufocam o caminho não utilizado."
— R.W. Emerson? W. Taylor? Caroline Larrington? Provérbio escandinavo? Anônimo?
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