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22 janeiro, 2026

A Minhoca Amorosa

por Nelson José Cunha

Esta é a história de uma minhoca que pensa demais.
Ela ama, organiza, protege e decide por outras.
Pode ser lida como uma fábula sobre a vida debaixo da terra ou como uma história sobre o que acontece quando alguém acredita saber o que é melhor para todos.
Leia sem pressa. O resto o chão conta.

Nascer diferente no minhocário foi erro na curva molhada. Vim com cabeça, e ela pensa. No resto, sou igual às minhas irmãs: sem olhos, sem ouvidos, cinco corações latejando em fila. Talvez por isso transbordo amor e muco.
Aqui falamos com o corpo. Abraços longos, toques rápidos, vibrações que viajam pelo húmus levando mensagens. Não temos banheiros separados; carregamos no corpo ambos os sexos. Os humanos chamam-nos hermafroditas. Nós nos chamamos simplesmente minhocas - ou Lumbricus, diziam os romanos.
Escavamos túneis para arejar raízes. Nosso excremento é o pão das nossas vizinhas, as árvores, ou tudo o que se sustenta por raízes. Silenciosas, úmidas e, por que não, orgulhosas.
Mas a minha cabeça me impedia de entrar nos túneis mais estreitos. Em compensação, aprendi a planejar, escrever poesias no barro com a ponta do corpo.
Tornei-me empresária do subsolo: distribuía húmus, traçava rotas conforme o murmúrio das raízes. Ganhei respeito e admiração,mas tambem inveja, ciúmes e uma paixão que não pedi.
Ela surgiu um dia - ágil, delicada, deslizando em curvas que eram versos inteiros. Aproximou-se com toques que não pediam licença. Apaixonamo-nos sem palavras. Cada encontro era uma mensagem cifrada na pele. Cada curva, uma estrofe. Nosso amor vibrou no escuro e, encostadas languidamente em raízes, sonhamos em crias.

Viagem à Superfície
Subi pela primeira vez num impulso de curiosidade e temor. A capa de muco e folhas colava-me ao chão como uma segunda pele. Avançava tateando: grama áspera, pedrinhas rolando sob o corpo, orvalho frio escorrendo como lágrimas. O Sol queimava - lâmina quente cravada nas costas.
Tudo era estranho e irresistivelmente belo. Senti lufadas de vento, seres curiosos que me tocavam e feriam. Outros se aproximavam e fugiam. Ao final voltei.

A Conquista do Poder
O minhocário já não era o mesmo. Túneis sabotados. Raízes secas. Toques hostis onde antes havia toques mansos. Percebi as alianças tramadas na lama. As traições. Diferente delas, eu penso.
Adotei uma estratégia fria. Pactos com as minhocas-líderes ,- que sempre querem algo em troca. E tiveram. É a política.
Toques combinados. Vibrações que prometiam os melhores túneis - ou anunciavam o frio lento da exclusão. Antecipar desejos e medos virou segunda natureza.
Às vezes, no escuro, sentia um dos cinco corações bater fora do compasso. Não sei se é culpa. O poder é uma arte de tocar e afastar.

O Pescador
Enxada. Terra rasgada com violência e fúria. Pânico. Corpos se retorcendo em fuga. Algumas irmãs colhidas pelo ferro - cheiro metálico de morte misturado ao húmus. Num estalo, lembrei do velho sapato. Nosso estorvo habitual.
- Para o sapato! - vibrei com toda a força.
Corremos todas. Aglomeramo-nos no couro roto, mas a lâmina atingiu o alvo. O sapato voou, arremessado com raiva pelo pescador que nunca soube de nós.
Ficamos imóveis. Terra tremendo. Terra acalmando. Quando o silêncio voltou, o respeito também voltou. Mas agora carregava um gosto diferente - medo disfarçado de gratidão. Política!

O Nascimento de um Mundo Novo
Depois da enxada, vieram crias com cabeça. Túneis precisaram ser alargados. Caminhos, repensados. A inteligência, antes rara, agora brotava em vários corpos. Irrigava tudo.
Percebi que podia salvar. Percebi que podia desequilibrar. Ensinei colaboração. Ensinei vigilância. Às vezes, no meio da noite úmida, sentia vibrações de descontentamento - irmãs que sonhavam com os túneis estreitos de antigamente. Pensar é bom, mas custa. Vidas mais simples custam menos.
Eu as calava com toques suaves que prometiam proteção. Proteção ou prisão? A diferença é fina como uma raiz capilar. A superfície ficou lá em cima, com seu Sol cegante e seus perigos. Nossa revolução foi silenciosa, tátil, lenta.

Epílogo
Hoje o minhocário é planejado. Equilibrado. Nutrimos raízes com precisão. Escutamos o solo. A paz reina. Mas a vigilância nunca dorme - é o preço.
Entre amor, estratégia e lama, aprendi que a força bruta é um sopro passageiro. A inteligência, aplicada com cuidado, constrói mundos. Aplicada sem cuidado, também os destrói.
No silêncio úmido, sob o emaranhado das raízes que sustentamos, permito-me uma contração lenta - algo entre sorriso e tremor. Uma vibração longínqua atravessa o solo. Não sei se é ameaça. Não sei se é convite.
Apenas escuto, com os cinco corações fora de compasso, e continuo escavando. É o futuro chegando.

05 abril, 2025

A centopeia e a lesma

Digamos que seja uma versão japonesa da fábula "A lebre e a tartaruga".
É sobre uma centopeia e uma lesma correndo para um santuário. Obviamente, a centopeia chega lá primeiro, mas quando a lesma chega, a centopeia ainda está tirando as sandálias.
Então, a lesma entra no santuário primeiro.

ZZZ...

27 maio, 2024

O Burro Juiz, por Monteiro Lobato

Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele. Como as outras aves rissem daquela pretensão, a bulhenta matraca de penas, furiosa, disse:
- Nada de brincadeiras. Isto é uma questão muito séria, que deve ser decidida por um juiz. Canta o sabiá, canto eu, e a sentença do julgador decidirá quem é o melhor artista. Topam?
- Topamos! piaram as aves. Mas quem servirá de juiz ?
Estavam a debater este ponto, quando zurrou um burro.
- Nem de encomenda! exclamou a gralha. Está lá um juiz de primeiríssima para julgamento de música, pois nenhum animal possui maiores orelhas. Convidemo-lo.
Aceitou o burro o juizado e veio postar-se no centro da roda.
- Vamos lá, comecem! ordenou ele.
O sabiá deu um pulinho, abriu o bico e cantou. Cantou como só cantam sabiás, garganteando os trinos mais melodiosos e límpidos. Uma pura maravilha, que deixou mergulhado em êxtase o auditório em peso.
- Agora, eu! disse a gralha, dando um passo à frente.
E abrindo a bicanca matraqueou uma grita de romper os ouvidos aos próprios surdos.
Terminada a justa, o meritíssimo juiz deu a sentença:
- Dou ganho de causa à excelentíssima senhora dona Gralha, porque canta muito mais forte que mestre Sabiá.
Quem burro nasce, togado ou não, burro morre.

Link: https://www.migalhas.com.br/quentes/88683/um-nacionalista-preso-por-delito-contra-a-seguranca-nacional
A condenação de Monteiro Lobato pelo Tribunal de Segurança Nacional (1941), confirma a velha fábula. A sentença deu razão ao que cantava mais forte.

12 abril, 2024

O pequeno buraco negro: uma fábula cósmica

Quando os buracos negros emergiram pela primeira vez da matemática da relatividade, o próprio Einstein duvidou se eles poderiam ou não ser reais – ele lutou para imaginar que a natureza pudesse produzir uma coisa tão ameaçadora, que o espaço-tempo pudesse se curvar a um extremo tão monstruoso. E... então levamos apenas um século para ouvir com nossa imensa orelha protética o som de dois buracos negros colidindo para produzir uma onda gravitacional, então para ver com nosso olho telescópico um buraco negro real na selva cósmica. Aqui surge a prova viva da insistência de Richard Feynman de que "a imaginação da natureza é muito, muito maior do que a imaginação do homem".
Com seu drama cósmico e sua ciência deslumbrante no limite do possível, os buracos negros atraem a imaginação humana com inúmeras metáforas para nossas perplexidades existenciais. Um deles ganha vida em Little Black Hole, de Molly Webster e do ilustador Alex Willmore — uma meditação incomum sobre como viver com a austera solidão existencial de saber que tudo e todos que amamos podem ser tirados de nós e está finalmente destinado ao esquecimento, como viver com a perda iminente que é o preço de estar totalmente vivo.
O conceito central da história baseia-se no paradoxo da informação do buraco negro de Stephen Hawking - a insinuação combinada da relatividade e da teoria quântica de campos que, embora nem mesmo a luz possa escapar de um buraco negro, pedaços de informação podem transcender sua imensa atração gravitacional e se libertar no forma do que é conhecido como radiação Hawking.
Era uma vez um pequeno buraco negro que amava tudo no universo.
As estrelas. Os planetas. As rochas espaciais e a raposa espacial. Até os astronautas voadores.
O pequeno buraco negro amava seus amigos.
Um dia, o pequeno buraco negro fez amizade com uma estrela, mas no momento em que eles estão se divertindo em construir um castelo cósmico juntos, a estrela desaparece e sua luz desaparece.
Em seguida, um cometa passa, mas assim que o pequeno buraco negro fica desejoso de uma nova amizade, o cometa se desfaz em poeira cósmica e desaparece.
Então eles vêm e vão, os planetas e os asteroides, a raposa e os astronautas, cada novo amigo é levado assim que se aproxima, deixando o pequeno buraco negro perplexo e desolado.
Confuso e desconsolado, o pequeno buraco negro se depara com um grande buraco negro repleto da sabedoria de um ancião, que ilumina o fato fundamental de que ser um buraco negro significa engolir e aniquilar tudo e qualquer um que se aproxime.

E, no entanto, pedaços de informação podem escapar do ventre do buraco negro, borbulhando de volta como restos do que foi consumido. Do legado de Hawking surge a metáfora central da história sobre como viver com a perda das pessoas que mais amamos: sempre podemos trazê-las de volta à superfície de nossa consciência com as alavancas gêmeas da memória e da imaginação. 

03 abril, 2024

O Homem e o Sátiro

Um Homem se perdeu em uma floresta numa noite de inverno. Enquanto estava perambulando, um Sátiro veio até ele e, percebendo que estava perdido, prometeu-o um alojamento para a noite e também guiá-lo para fora da floresta pela manhã.
Enquanto ia para a habitação do Sátiro, o Homem ergueu suas duas mãos até a boca e se manteve assoprando-as.
"Para quê você faz isso?" disse o Sátiro.
"Minhas mãos estão adormecidas pelo frio," disse o Homem, "e meu sopro as aquece."
Depois disso, eles chegaram à casa do Sátiro, e logo ele colocou um prato de mingau quente na frente do Homem. Mas quando o Homem levou sua colher à boca e começou a soprá-la, o Sátiro disse "E para quê você faz isso?"
"O mingau está muito quente, e meu sopro vai esfriá-lo."
"Fora daqui," disse o Sátiro. "Eu não quero nada com alguém que tanto assopra quente quanto frio."
(Esopo)

22 agosto, 2022

Hic - significados

aqui (em latim). Por exemplo, na expressão "hic et nunc", aqui e agora

(com letras maiúsculas) hipertensão intracraniana, no jargão da neurologia

a principal dificuldade (de um assunto ou negócio)

onomatopeia para soluço (hiccup, em inglês)

(com ponto de exclamação), representando estado de embriaguez. "Esta pinga - hic! - parece boa".
Ver esta aplicação em O bêbado culto.

"Hic Rhodus, hic saltus": Do latim, comumente traduzido como: "Rodes é aqui, é aqui que você salta!"
A máxima bem conhecida, mas pouco compreendida, origina-se da tradução latina tradicional da moral da fábula de Esopo, O Fanfarrão, que tem sido objeto de traduções incorretas. Na fábula um atleta se gaba de que, em Rodes, realizara um salto estupendo e que havia testemunhas que poderiam comprovar sua história. Um espectador então comenta: "Tudo bem! Digamos que aqui seja Rodes, demonstre o salto aqui e agora". A fábula ensina que as pessoas devem ser reconhecidas por seus atos, não por suas próprias reivindicações.

19 junho, 2022

A natureza da fábrica e a natureza

Você se lembra da fábula do sapo e o escorpião? Às vezes, as coisas são simplesmente da sua natureza.
Então, o que acontece se você for uma fábrica, expelindo fumaça e gases nocivos? Se você tem algo semelhante a um coração, então você pode começar a se sentir um pouco culpado pelo que está causando ao meio ambiente. Apesar do fato de que é para isso, essencialmente, que você foi criado.


22 setembro, 2021

Os ritos da primavera

por Millôr Fernandes, in: "Fábulas Fabulosas"

Pois é, vou aproveitar que as folhas das árvores estão voltando e que o meu telhado voou com a última ventania, pra Ihes contar que Prosérpina(1) foi sequestrada por Plutão.
Sequestrada, ela, que não estava acostumada a isso, berrou: "Você vai me pagar, seu bruto!", ao que Plutão pensou lá com seus tridentes que quem ia pagar era ela, e em espécie.
Chegando às Regiões Infernais, underground onde habitava, Plutão ofereceu a Prosérpina ouro, incenso e mirra e muito sexo, mas ela só aceitou mesmo este último com papel passado, primeiro porque toda mulher é chegada a um bom casamento, e segundo porque assim ela podia xingar o canalha com mais autoridade.
Enquanto isso, a mãe – dela - largava de mão a agricultura olímpica(2) e ia se queixar a Júpiter que, na época, sozinho, resolvia, como um delfim, todos os problemas nas altas paragens.
Júpiter, que estava com pressa porque tinha um entrevero libidinoso com Danae e ainda ia se transformar em chuva de ouro, disse que aquilo era um caso entre homem e mulher(3) e devia ser resolvido como tal.(4) Mas Ceres retrucou que, sendo assim, abandonava definitivamente a cornucópia de abacaxi, soja, milho, trigo, frutas em geral.(5) Diante da ameaça desse boicote, Júpiter chamou Mercúrio, seu filho com Maia, e disse:
"Meu filho, resolve essa parada aí enquanto eu vou botar minha pele de touro, pois tenho um compromisso sexual com Europa daqui a meia hora."(6) No entrementes, Plutão, já por aqui com sua mulher, Prosérpina, resolveu devolvê-la à superfície, mas a lei jupiteriana não permitia que ninguém mais subisse depois de ter ingerido qualquer coisa lá embaixo, e Prosérpina tinha tomado umas e outras.
Só depois de muitas e muitas conversações as forças de baixo e do alto chegaram a um denominador comum: Prosérpina ficava seis meses no submundo e seis cá em cima, período em que Ceres concordava em abrir sua horta à floração e frutificação incentivadas. Essa combinação entre os Altos Poderes trazia anualmente seis meses de frio horrível e conseqüente falta de produtos hortigranjeiros, ocasião em que o povo morria como mosca subalimentada.(7)
Foi sempre assim que se criou o frio, a fome e a beleza da primavera. Sempre que Prosérpina volta à superfície, está tudo esgalhado e seco, mas a mãe, Ceres, fica tão contente que sai pulando pelos prados, dando ordens a torto e a direito: "Brota, violeta!" "Abre, girassol!", "Flora, margarida!", "Arroxeia, quaresmeira!" É por isso que a primavera é linda e todo mundo adora a primavera. Exceto, é claro, as flores!

MORAL: NEM TUDO É MEL NO REINO DAS ABELHAS.

1. Também chamada Perefata -a que dá frutos -, filha de Júpiter com Ceres, que Júpiter seduziu disfarçado de chama. Prosérpina era tão bonita que o próprio pai tentou faturá-Ia fingindo-se de serpente.
2. Deixando cair a produção agrícola e desequilibrando o PNB da Hélade.
3. Já raro, então.
4. Por exemplo?
5. Mas não abandonou. Nunca abandonam.
6. Júpiter também seduziu Antíope, disfarçado de sátiro; Leda, fazendo-se de cisne, e até- epa! -disfarçou-se como Diana para fornicar com Calisto. Um senhor travesti!
7. Mas também nenhum governo pode resolver tudo ao mesmo tempo, não é mesmo?

Millôr Online, UOL (http://www2.uol.com.br/millor/fabulas/056.htm)

15 setembro, 2021

Nada que fazer

Uma águia estava no alto de uma árvore.
Um coelho viu a águia e perguntou: "Posso sentar aqui embaixo? Assim feito você que não está fazendo nada?"
A águia respondeu: "Claro, por que não?"
Então, o coelho sentou no chão abaixo da águia e ficou descansando. De repente, uma raposa apareceu, pulou no coelho e comeu.
Moral da história:
Para estar sentado e sem nada que fazer, você deve estar sentado alto, muito alto.

Nada a fazer
Nada para fazer

Vídeo: 🦅 agarra 🦊 que pegou 🐇


"A águia só queria um negócio 2 em 1."

04 março, 2021

Autodepreciação

A educação matemática do jovem físico [Albert Einstein] não era muito sólida, o que estou em uma boa posição para avaliar, pois ele a obteve de mim em Zurique, há algum tempo.
~ Hermann Minkowski

O GATO E A BARATA
A baratinha velha subiu pelo pé do copo quase cheio de vinho, que tinha sido largado a um canto da cozinha, desceu pela parte de dentro e começou a lambiscar o vinho. Dada a pequena distância, que nas baratas vai da boca ao cérebro, o álcool lhe subiu logo a este.
Bêbada, a baratinha caiu dentro do copo. Debateu-se, bebeu mais vinho, ficou mais tonta, debateu-se mais, bebeu mais, tonteou mais e já quase morria quando deparou com o carão do gato doméstico que sorria de sua aflição, no alto do copo.
– Gatinho, meu gatinho – pediu ela –, me salva, me salva. Me salva que assim que eu sair eu deixo você me engolir inteirinha, como você gosta. Me salva.
– Você deixa mesmo eu engolir você? – disse o gato.
– Me saaalva! – implorou a baratinha. – Eu prometo.
O gato virou o copo com uma patada, o líquido escorreu e com ele a baratinha que, assim que se viu no chão, saiu correndo para o buraco mais perto, onde caiu na gargalhada.
– Que é isso? – perguntou o gato. – Você não vai sair daí e cumprir sua promessa? Você disse que deixava eu comer você inteira.
– Ah, ah, ah! – ria então a barata, sem poder se conter. – E você é tão imbecil a ponto de acreditar na promessa de uma barata velha e bêbada?
Moral da História:
Às vezes a autodepreciação nos livra do pelotão.
Millôr Fernandes

03 abril, 2020

O trompetista feito prisioneiro




Um trompetista, feito prisioneiro,
Esperou ter a vida poupada ao dizer
Que não tomava parte da luta.
Mas eles lhe responderam "Certo,
E quanto à música que você tocava?"

Songs may serve a cause as well as swords.
As músicas podem servir tanto a uma causa quanto as espadas.

Crane Poetry Visual, Fables of Aesop

15 dezembro, 2019

O pássaro congelado


Um pássaro voava para o sul onde ia passar o inverno.
Estava tão frio que ele congelou e caiu no chão em uma grande campina. Enquanto ele estava desfalecido, veio uma vaca e despejou merda sobre ele. Com o calor que vinha dos dejetos da vaca, ele começou a reanimar-se. O esterco estava, de fato, descongelando-o!
Ele ficou todo quente e feliz, e logo começou a cantar de alegria.
Um gato que passava ouviu o pássaro cantar e veio investigar. E, descobrindo o pássaro cantor sob a pilha de esterco,  imediatamente o desenterrou e comeu.
Moral múltipla da história:
1. Nem todo mundo que joga merda em você é seu inimigo.
2. Nem todo mundo que tira você da merda é seu amigo.
3. E quando você está no fundo da merda, é melhor ficar de bico fechado.

Joke #4781. Tradução: PGCS

17 maio, 2019

A lentidão vence

"O fato de o autor pensar devagar não é sério, mas o fato de ele publicar mais rápido do que ele pensa é indesculpável."
~ Wolfgang Pauli


Todos se lembram da história da tartaruga e da lebre, mas ninguém parece ter aprendido a lição que ela ensina: a lentidão vence.
Acontece que a fábula acertou. A pesquisa sugere regularmente que o chamado pensamento lento requer um pensamento mais disciplinado e produz decisões mais produtivas do que reações rápidas, que são menos precisas ou menos úteis. E o pensamento lento é - como a tartaruga, lenta mas seguramente - o que avança em novas intervenções nos campos mais díspares.

O estudo "Becoming a Man" (Tornando-se um Homem) da Universidade de Chicago, Harvard, Northwestern e da Universidade da Pensilvânia descobriu que as intervenções de pensamento lento, para os jovens que moram nos bairros mais cheios de gangues de Chicago, reduziram suas chances de se envolverem com crimes e melhoraram seu desempenho escolar em até 44 por cento.

Em um exercício, alunos empilharam 36 copos plásticos numa pirâmide em três minutos. Conseguiram-no aqueles que mantiveram um ritmo constante até a última taça, enquanto a pressão do tempo levou ao colapso das pirâmides por parte de outros. É como uma metáfora para a vida real, onde você tem que se concentrar através de distrações.

Shane Frederick, professor da Escola de Administração de Yale, é conhecido por ter criado o "Teste de Reflexão Cognitiva", uma medida simples para determinar se uma pessoa resolve um problema "rapidamente, com pouca deliberação consciente" ou "através de pensamento reflexivo e lento". Daniel Kahneman, o único não-economista a receber o Prêmio Nobel de Economia, incluiu o teste em seu livro "Thinking, Fast and Slow" (Pensando, Rápido e Lento).
Tem três perguntas:
1) Um bastão e uma bola custam US $ 1,10. O bastão custa US $ 1,00 a mais que a bola. Quanto custa a bola?
____cents
2) Se forem necessários cinco minutos a cinco máquinas para fazer cinco widgets, quanto tempo levaria a 100 máquinas para fazer 100 widgets?
____minutos
3) Em um lago, há uma cobertura de lírios. Todos os dias, a cobertura dobra de tamanho. Se levar 48 dias para cobrir todo o lago, quanto tempo levaria para cobrir a metade do lago?
____dias
Comentário
O que torna essas perguntas tão simples tão complicadas é que elas são feitas sob medida para tentar a intuição humana com respostas erradas específicas. Das 3.428 pessoas que Frederick pesquisou em seu estudo, 33% perderam as três perguntas e 83% perderam pelo menos uma das perguntas. Das várias universidades das quais Frederick coletou dados, o MIT teve a maior porcentagem de alunos para responder a todas as perguntas corretamente - apenas 48%.Frederick disse que os entrevistados normalmente deram as seguintes respostas intuitivas, mas incorretas: 1) 10 centavos, 2) 100 minutos e 3) 24 dias. A resposta correta para a primeira pergunta é de 5 centavos. A resposta correta para a segunda questão é de cinco minutos. A resposta correta para o terceiro problema é de 47 dias.

Pessoas otimistas têm uma coisa em comum: sempre atrasadas.
Elas acreditam que podem encaixar mais tarefas em uma quantidade limitada de tempo do que as outras pessoas e prosperar quando têm multitarefas. Simplificando, eles são fundamentalmente esperançosas.
Uma pessoa com tendência para o atraso gosta de parar e cheirar as rosas… Permanecer excessivamente ligada a horários significa incapacidade de aproveitar o momento.

https://www.bostonglobe.com/ideas/2015/07/25/the-power-slow-thinking/ToZbzYl7rG0yVMCtsZ7WnJ/story.html
https://waitbutwhy.com/2015/07/why-im-always-late.html

25 março, 2019

Um avarento e seu ouro

Esopo (*)
Um avarento tinha enterrado seu pote de ouro num lugar secreto do seu jardim. E todos os dias, antes de ir dormir, ele ia até o ponto, desenterrava o pote e contava cada moeda de ouro para ver se estava tudo lá. Ele fez tantas viagens ao local que um ladrão, que já o observava há bastante tempo, curioso para saber o que o avarento estava escondendo, veio uma noite, e sorrateiramente desenterrou o tesouro levando-o consigo.
Quando o avarento descobriu sua grande perda, foi tomado de aflição e desespero. Ele gemia e chorava enquanto puxava seus cabelos.
Alguém que passava pelo local, ao escutar seus lamentos, quis saber o que acontecera.
"Meu ouro! Todo meu ouro!” chorava inconsolável o avarento, “alguém o roubou de mim!"
"Seu ouro! Ele estava nesse buraco? Por que você o colocou aí? Por que não o deixou num lugar seguro, como dentro de casa, onde poderia mais facilmente pegá-lo quando precisasse comprar alguma coisa?"
"Comprar!" exclamou furioso o avarento. "Você não sabe o que diz! Ora, eu jamais usaria aquele ouro. Nunca pensei de gastar dele uma peça sequer!"
Então, o estranho pegou uma grande pedra e jogou dentro do buraco vazio.
"Se é esse o caso," ele disse, "enterre então essa pedra. Ela terá o mesmo valor que tinha para você o tesouro que perdeu!"
Moral: Uma posse só tem valor quando dela fazemos uso.

(*) Esopo, fabulista grego. Embora sua existência não tenha sido esclarecida, vários contos creditados a ele foram reunidos ao longo dos séculos e em muitas línguas, em uma tradição narrativa que continua até hoje.

Conto: NO VELÓRIO, SÓ FINÓRIO

23 julho, 2017

Devagar e sempre

Lembra-se daquela fábula de La Fontaine, "A Lebre e a Tartaruga"?
Você realmente nunca acreditou que uma lebre iria parar no meio de uma corrida para descansar. E que, no final, fosse perder a disputa por excesso de confiança.
Bem, aqui está uma recriação na vida real que confirma que a história contada naquela fábula pode ter de fato acontecido.



Na Tailândia, a velocidade potencial de uma lebre não foi páreo para a determinação e a persistência de uma tartaruga.
Devagar e sempre, esta ganhou a corrida!

Tocando em frente

21 maio, 2013

O Pavão e o Urubu

Viviam no Jardim do Éden o Pavão e o Urubu.
Certo dia, o Pavão refletiu:
- Sou a ave mais bonita do mundo, tenho uma plumagem colorida e exuberante, e não sei voar de modo a mostrar minha beleza. Feliz é o Urubu que é livre para voar por onde quer.
O Urubu, por sua vez, pousado no alto de uma árvore, também refletia:
- Que ave infeliz sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser vista por todos. Quem me dera ser belo e vistoso como o Pavão!
Foi quando tiveram a ideia de que um cruzamento entre eles poderia trazer a solução. Se gerassem um descendente que voasse como o Urubu e tivesse a beleza do Pavão...

Taí o resultado desse CRUZAMENTO.

Estória repassada por Germano Gurgel. Reescrita.

25 novembro, 2011

O pássaro que perdeu o amigo

Um pássaro descrevia com entusiasmo um milharal que existia nas redondezas. Convidando outro para que ambos fossem lá para um amplo, geral e irrestrito banquete.
Mas o outro se mostrou temeroso:
- Costuma haver caçadores naquele milharal.
- Ora, dividiremos o risco.
- Qual! Você é pequenino e eu sou grande...
Ficava entendido que o pássaro de porte avantajado, no caso de ambos serem vistos por um caçador, seria o alvo preferencial. E o pequenino, assim, é que teria maior chance de escapar.
E isso não era tudo. O pássaro graúdo lembrou um detalhe que tornava a aventura arriscadíssima:
- Você pia sem parar. Vai certamente chamar a atenção para nós.
- Fico em silêncio. No milharal eu só vou abrir o bico para comer grão.
- Bem, sendo assim...
E voaram os dois para a desejada lambança. Só que o pequenino, mal se viu entre as espigas, esqueceu-se do trato. E pôs-se a piar incessantemente, o que atraiu para o local uns caçadores.
Bastou um tiro para acertar... logo quem? O passarão, como era previsível.


Quanto ao pequenino, este voou para longe sem maiores dificuldades. E sem uma ponta de arrependimento, acrescente-se também. Tanto que ele, ao escapar, ainda comentou:
- Perco o amigo mas não perco o piado.
PGCS

05 julho, 2011

Penso, logo cito - 25

Isaiah Berlin, filósofo judeu:

“A raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe uma coisa muito importante.”

Ao lado, a ilustração de uma fábula de Esopo, A raposa e o porco-espinho, na qual a raposa é que sabe uma coisa. Já o porco-espinho...

28 janeiro, 2011

Os biellenses, gente dura

Meu pai já contava a história abaixo, como piada. Não sabia que era um conto/fábula do Ítalo Calvino.
Fernando Gurgel Filho

Os biellenses, gente dura
Certo dia, um camponês descia para Biella. O tempo estava tão feio que quase não dava para andar pela estrada. Mas o camponês tinha um compromisso importante e continuava a caminhar de cabeça baixa, enfrentando a chuva e a tempestade.
Encontrou um velho que lhe disse:
- Bom dia! Aonde vai, bom homem, com tanta pressa?
- Para Biella – disse o camponês sem se deter.
- Poderia dizer ao menos: "se Deus quiser".
O camponês parou, encarou o velho e contestou:
- Se Deus quiser, vou para Biella; e, se Deus não quiser, vou do mesmo jeito.
Ora, aconteceu que aquele velho era o Senhor.
- Então, você irá para Biella dentro de sete anos – disse-lhe. - Nesse ínterim, dê um mergulho naquele pântano e fique por lá sete anos.
E o camponês se transformou em rã de um só golpe, deu um salto e sumiu no pântano.
Passaram-se sete anos. O camponês saiu do pântano, virou homem, enfiou o chapéu e retomou a estrada para o mercado.
Após alguns passos, eis de novo aquele velho.
- Aonde é que vai, bom homem?
- Para Biella.
- Poderia dizer: "se Deus quiser".
- Se Deus quiser, melhor; caso contrário, já conheço as regras, e posso ir sozinho para o pântano.
E não houve jeito de arrancar nem mais uma palavra dele.

Italo Calvino
Fábulas Italianas
Companhia de Bolso

18 dezembro, 2008

A fábula da formiga filósofa

Não há nada de novo sob o sol?
Incomodada por esta questão, a formiga subiu a um cipó em busca da resposta. A um cipó, já meio ressequido, que ela considerou ideal para instalar o seu posto de observação.
De lá, a formiga podia ver o mundo em que vivia. Mas, como constatou a seguir, havia um problema com o observatório que escolhera. Ficava muito abaixo do sol. E este, com o passar das horas, elevou-se cada vez mais até que ficou... a pino.
Depois disto, o sol passou a declinar no sentido do poente. Para o contentamento da formiga, que tomou esta decisão: "espero até o crepúsculo".
E o crepúsculo chegou. Foi quando, ao apurar a vista, a formiga viu... aliás, não viu nada. Pois todas as coisas já haviam mergulhado muito rapidamente na escuridão.
Então, ficou de retornar no dia seguinte (PGCS).