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08 novembro, 2024

Língua à Portuguesa

Chegamos enfim ao conflituoso Francisco Sá de Miranda, o introdutor do soneto (porém não é este o caso) na Língua à Portuguesa:

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

05 janeiro, 2024

Charles Bukowski, o poeta do caos

Bukowski nos TT
Ele era escrotíssimo? Era.
A escrita dele é interessante? É.
Os anos 70 foram muito loucos? Foram.
Este é o tuíte.

- E quando ninguém acorda você de manhã, e quando ninguém espera você à noite, e quando você pode fazer o que quiser. Como você chama isso, liberdade ou solidão?
- Já beijei mais garrafas do que pessoas e, sinceramente, uma ressaca dói menos que um desamor (Bukowski, para escandalizar os sóbrios).
- Então, fui para minha cama com aquela sensação que todos os bêbados conhecem bem: de que tinha sido um idiota, mas também à puta que pariu com isso.
- Você consegue se lembrar quem você era antes que o mundo lhe dissesse quem deveria ser?
- Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim assim.
- Escrever sobre um bloqueio de escritor é melhor do que não escrever nada.
- Se conseguiu enganar uma pessoa, não significa que ela seja tola. Isso significa que ela confiou em você mais do que você merecia.
- Amar é permitir que alguém possa destruí-lo. E confiar que isso não vai acontecer.
- Eu proponho um relacionamento aberto, mas aí você não fica com ninguém. Ninguém.

07 abril, 2023

O poeta e o repentista

Quando começou a escrever sonetos, Ariano Suassuna já tinha uma grande admiração por Dimas Batista, repentista de São José do Egito, município do sertão de Pernambuco. Certa vez, ao encontrá-lo em uma cantoria, falou: "Dimas estou escrevendo um soneto".
Batista, respondeu: "Muito bem, Ariano".
Três meses depois, em novo encontro, Ariano diz: "Dimas, estou em tal linha daquele soneto".
Aí, três ou quatro meses depois, Suassuna encontrou Dimas em outra cantoria e falou: "Dimas, terminei um quarteto".
E assim o tempo foi passando...
Dois anos depois, Ariano se encontrou mais uma vez com Dimas e disse: "Terminei o soneto". E apresentou ao repentista a obra concluída.
Foi quando Batista  respondeu, de improviso, com estes gloriosos undecassílabos:

Eu muito admiro o poeta da praça
Que passa dois anos fazendo um soneto.
Depois de três meses termina um quarteto,
Com todo esse tempo, ainda fica sem graça.
Com tinta e papel, o esboço ele traça
Contando nos dedos pra metrificar.
Que noites de sono ele perde a estudar
A fim de mostrar tão minguado produto,
Pois desses eu faço dois, três num minuto
Cantando galope na beira do mar.

21 março, 2023

A cidade da Bahia

Naquele tempo, disse Gregório de Matos a seus coetâneos:
"A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha.
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro."
Nasceu Gregório de Matos na então capital do Brasil, Salvador, BA, em 20 de dezembro de 1636, numa época de grande efervescência social, e faleceu no Recife, PE, em data imprecisa. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras.
Como poeta de inesgotável fonte satírica não poupava ao governo, à falsa nobreza da terra e nem mesmo ao clero. Não lhe escaparam os padres corruptos, os reinóis e degredados, os mulatos e emboabas, os "caramurus", os arrivistas e novos-ricos, toda uma burguesia improvisada e inautêntica, exploradora da colônia. Perigoso e mordaz, apelidaram-no de "O Boca do Inferno".

29 outubro, 2021

A inconveniência de ser poeta

por Viriato Correia
(em seu discurso de recepção a Raimundo Magalhães Jr. na ABL)
[...] Nós, os escritores, devemos ser cautelosos. Precisamos fazer o possível para que o público não saiba que escrevemos.
E por que essa cautela? Para não perder consideração do público.
João Ribeiro disse-me, uma vez, com aquela sinceridade de sábio: "O que é que você pensa? Literato não vale nada. Ninguém leva literato a sério. E quando o literato é poeta, a desconsideração do público é ainda maior".
Para o povo, poeta é sinônimo de distraído, de vadio e até mesmo de aluado.
– Ele é um poeta – é a expressão que ouvimos, frequentemente, quando alguém quer falar de uma criatura que vive no mundo da lua.
Aquele fato que contam de Raimundo Correia mostra que o literato, principalmente se é poeta, para não perder o conceito de gente de bem, deve fazer tudo para que não se saiba das suas virtudes intelectuais.
Raimundo Correia, nomeado, não sei se promotor ou juiz, de uma localidade mineira, para lá seguiu, hospedando-se em casa de um velho conhecido. No dia seguinte, à hora do almoço, o dono da casa disse ao hóspede: – Se chegar aos seus ouvidos a notícia de algum mau juízo que estejam fazendo do senhor, não faça caso. Esta gente aqui é horrível – de falar mal da vida alheia.
O poeta de "Mal secreto" (texto inserido acima), que era um temperamento arisco e crispável, tremeu, empalideceu, perguntando:
– Estão dizendo mal de mim?
– Não se incomode, doutor, esta gente aqui não presta.
– Mas que é que estão dizendo? Que é? Que é?
O dono da casa baixou a voz como se fosse pronunciar uma palavra feia:
– Estão dizendo que o senhor é poeta. – E acrescentou imediatamente, como para salvar a situação: – Mas eu já desmenti, eu já desmenti.
João Ribeiro tinha razão: ninguém leva a sério o literato.

Ler também: Para que serve o secretário de um poeta?

12 agosto, 2016

O poeta, segundo Wislawa Szymborska

O poeta, independentemente da educação, idade, sexo e gostos, permanece no fundo do próprio coração como um herdeiro espiritual da humanidade primitiva. As explicações científicas do mundo não o impressionam muito. Ele é um animista e um fetichista, que acredita nos poderes secretos que dormem em todas as coisas, e está convencido de que pode agitar essas forças com a ajuda de algumas palavras bem escolhidas. O poeta pode até ter sete distinções cum laude –, mas no momento em que ele se senta para escrever um poema, o seu uniforme acadêmico racionalista começa a apertá-lo. Ele se contorce e sibila, desprende-se o primeiro botão, depois outro, e, finalmente, ele pula para fora de sua roupa, completamente, e se apresenta como o que é: um selvagem com uma argola no nariz. Sim, sim, um selvagem. De que outra forma você pode chamar uma pessoa que fala em versos para os mortos e os não-nascidos, as árvores, os pássaros, e até mesmo para as lâmpadas e as pernas de uma mesa, exceto, talvez, de um idiota?
Maria Popova, Brains Pickings

10 junho, 2016

Um engano em bronze

Mario Quintana foi personagem de histórias inesquecíveis. Em sua terra natal, Alegrete-RS, por exemplo, a prefeitura resolveu homenageá-lo com uma placa de bronze na praça principal da cidade. Na placa, planejou-se gravar um dos poemas de Quintana.
Contou o poeta:
"Fiquei numa situação terrível, aquilo já tinha sido votado, mas como é que eu ia escolher um poema? Se eu achava que não poderia escolher, muito menos os outros poderiam. Mas eu não poderia cometer a grosseria de recusar. Em discussões com o prefeito e o presidente da Câmara, disse-lhes que não podia escolher um poema, porque um engano em bronze é um engano eterno." 
Discutiu-se, o poeta se negou a escolher, e a placa ficou assim:
"Um engano em bronze é um engano eterno." Mario Quintana (palavras com que o poeta se eximiu a que fosse gravado um poema seu, nesta praça, como justa homenagem de seus conterrâneos). Alegrete – 1968.


08 abril, 2016

H. G. Wells pergunta por García Lorca

O escritor inglês H. G. Wells enviou o seguinte telegrama para as autoridades militares de Granada, Espanha:
H. G. Wells, presidente Pen Club de Londres, desea con ansiedad noticias de su distinguido colega Federico García Lorca, y apreciará grandemente la cortesía de una respuesta,
A resposta foi a seguinte:
Coronel gobernador de Granada a H. G. Wells.—Ignoro lugar hállase D. Federico García Lorca.—Firmado: Coronel Espinosa.
O poeta García Lorca tinha sido preso e executado a mando das autoridades franquistas. Esta resposta confirmava sua morte.


19 fevereiro, 2015

Para que serve o secretário de um poeta?

"Entre as excentricidades de Paula Nei, havia o fato de, mesmo desprovido de recursos, possuir um secretário. essa figura tinha por nome Rocha Alazão. Entre as cláusulas do regulamento a ser obedecido por esse serviçal, estava o dever de resolver questões de gineceu, evitando chiliques e faniquitos, acompanhar enterros, comparecer a missas de sétimo dia, assinando pelo patrão o livro de presenças, e também votar pelo chefe nas eleições."
(extraído de "Paula Nei e a rua literária", de Batista de Lima, no Caderno 3 do "Diário do Nordeste", edição de 30/09/14)

Paula Nei (1858–1897)
Nascido em Aracati-CE, não escreveu nem dez poemas, não deixou livro publicado, mas sabia da importância de juntar-se aos bons. Em sua boemia literária no Rio de Janeiro, Paula Nei (foto) costumava dividir a mesa com Aluízio Azevedo, Coelho Neto, Olavo Bilac e outros. O poeta fez duas "sacadas" geniais: a expressão "Fortaleza, a loura desposada do Sol", que figura no soneto que escreveu para a cidade, e a frase "pelo Brasil, eu morro; pelo Ceará, eu mato", que citava como prova de seu amor à terra natal. Virou nome de rua na Aldeota, em Fortaleza. Mereceu.

O Secretário de Ariano
Quando Secretário da Cultura do Estado de Pernambuco, Ariano Suassuna pedia para ser chamado somente de Ariano. Pois "Secretário", para ele, era o nome de um jumento em sua fazenda na Paraíba.

04 agosto, 2013

Ascensão

Ascenso tinha quase 2 metros de altura, usava um chapéu de palha na cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel, com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade de uma jaca mole. Quando chegou a casa, à noite, disse à esposa que estava sem fome e que, por isso, se contentava com um prato de pirão de leite e um pedaço de carne de sol.
Sobre o poeta, Manuel Bandeira escrevia:
"Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama [...] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos."
Por sua vez, Luís da Câmara Cascudo ressaltava:
“Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados.”

(extraído do artigo Ascenso Ferreira, de Semira Adler, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco)

22 junho, 2007

Embarcou: tem de remar

Sobre o quadro Poeta, de Leon Girardet:


É uma cena romântica: um rio (ou será um lago?), um barco, um poeta e três raparigas em flor. O poeta faz um recital dos últimos poemas que escreveu. Cada uma das moças deve se imaginar a própria musa inspiradora de um, vários, muitos desses poemas... Até de todos, se uma delas for bisavó da Luana Piovani.
A propósito, não é uma cena contemporânea. O figurino das pessoas mostra que não pertencem ao nosso tempo. O bardo mantém uma distância respeitosa das três raparigas, que se acotovelam num dos cantos da embarcação. A qual, por sua vez, está quase encalhada no capim aquático.
Mas... há remos no barco à espera de braços dispostos. Não se faça de rogado, meu poeta. Está a terminar a leitura do livro em suas mãos, agora é empunhar os remos. E levar o barco, as moças, a si próprio para novas paisagens. Onde o enlevo, o encanto, o arrebatamento, tudo é feito sem palavras.
Sim, faça isto. Para não ser depois recomendado à Sociedade dos Poetas Mortos nas Calças.