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18 novembro, 2021

Meu caro Chico — Depoimentos


O designer pernambucano Augusto Lins Soares está lançando pela Editora Francisco Alves o livro "Meu caro Chico — Depoimentos". O livro reúne 60 crônicas, ensaios, poemas, bilhetes e comentários em redes sociais sobre o compositor de olhos de ardósia. Foram escritos por ninguém menos que Luís Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Glauber Rocha, Rubem Braga, Antonio Candido, Augusto Boal, Cacá Diegues. José Saramago, Lula, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Teresa Cristina… Uma lista de personalidades de várias áreas que aqui se revelam seus admiradores.


ADMIRÁVEL CHICO, por Luís Fernando Veríssimo
Admiro o Chico desde que ele apareceu nos anos 1960, com "Ole olá". Aquela cara de garoto não combinava com suas primeiras melodias e suas letras incomparáveis, já tão engenhosas e inteligentes. Tudo o que Chico fez desde então – suas músicas, sua poesia, suas peças, seus romances – foi admirável, num nível sempre espantosamente alto. É tão difícil lembrar uma composição ou um texto do Chico que não mantenha o mesmo nível, quanto é difícil escolher uma canção favorita entre todas que ele produziu e continua produzindo (as minhas favoritas são "Samba do grande amor", "Sabiá", em parceria com o Tom Jobim, e "Sobre todas as coisas", em parceria com o Edu Lobo). Admirável também é o jeito do Chico de ser célebre e engajado sem ser autodeslumbrado nem panfletário. Durante a ditadura, foi dele a trilha sonora da resistência, driblando a censura, assegurando aos militares que, apesar deles, amanhã seria outro dia.
Temos nos encontrado pouco, bem menos do que eu gostaria, mas acho que posso dizer que somos amigos. Eu tocava saxofone numa banda de jazz em Porto Alegre e o Chico estava na cidade para um show. Ele e outros membros da sua banda foram nos ouvir no bar em que nos apresentávamos – e o Chico deu uma canja! Cantou "A Rita". Depois seu baterista nos diria que o “seu Chico” nunca fazia aquilo. Foi o maior momento na vida da nossa banda. E eu toquei com o Chico Buarque. Até hoje não sei o que fazer com essa frase. Acho que vou pedir que seja meu epitáfio.

Leia mais em: http://vejario.abril.com.br/beira-mar/trecho-inedito-livro-personalidades-chico-buarque/

Chico Buarque no catálogo da Livraria da Travessa: 83 livros e 12 DVDs

17 julho, 2015

Sobre funerais

Minha avó tinha sete irmãos. Quando um deles morria, ela esteve presente em seu funeral. Mas, para os últimos irmãos, já muito velha e doente para viajar, ela não compareceu a seus funerais.
Ela sempre enviava flores para os funerais de seus irmãos. Flores que ela escolhia cuidadosamente e que sempre combinavam com a personalidade de cada um.
Um dia minha avó morreu. Sua irmã mais nova encomendou as flores.
Era um arranjo grande e bonito reunindo toda a variedade de flores que a minha avó, ao longo dos anos, tinha enviado a seus irmãos – e com um girassol gigante no meio!
Eu tenho que concordar, minha avó era certamente o girassol.
†   †   †   †   †   †   †
Eu acho que é muita sorte a gente poder ir a sete funerais. Bem, há as características próprias de cada funeral, claro. Como haver um membro a menos em cada funeral, mas com uma grande família significa que você terá um monte de apoio em todos os funerais.
Imagine fazer parte de uma família de imigrantes, que tem poucos membros, e o resto da família é muito pobre para vir à América.
O caso da minha família, por exemplo.
Éramos eu, meu irmão e meus pais, por cerca de 20 anos. Em seguida, cerca de 12 anos atrás, o meu pai morreu. Todos os anos para celebrar o seu falecimento, somos três ao pé do seu túmulo. Um dia, seremos dois. Então, um. Aí, nenhum.

Dois dos muitos comentários enviados ao reddit para a questão: Coming from a big family, I don't know what is more sad - That one of us will have to go to seven funerals, or that one of us won't have to go to any.

Trocadilho
Todo mundo morre uma vez, a Alanis MORISSETTE.

12 outubro, 2014

Utilidade eleitoral da delação premiada

por Tereza Cruvinel, Brasil 247
A colaboração premiada foi instituída no Brasil para facilitar à Justiça a obtenção de provas na investigação de crimes e organizações criminosas. Mas sem apresentar provas, dois corruptos confessos e um juiz de primeira instância, que autorizou a gravação e divulgação de seus depoimentos, podem decidir a eleição presidencial. A alternância no poder é salutar para a democracia mas não pela criação de fatos destinados a afetar o resultado eleitoral.
Há uma sincronia entre as investigações das irregularidades na Petrobrás e a eleição presidencial em curso, que lembra a sintonia entre o julgamento dos réus do mensalão pelo STF e as eleições municipais de 2012. O acordo de delação premiada com Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef foi firmado antes do primeiro turno mas os depoimentos foram programados para acontecerem logo depois. O Juiz e os procuradores que o conduzem sabem o que estão fazendo.
E tanto sabem que recomendaram aos réus que, nos depoimentos gravados para serem divulgados, não mencionassem o nome de nenhuma autoridade com mandato eletivo. Se isso acontecesse, por força do foro privilegiado, o processo subiria imediatamente para a esfera do STF. E ali o presidente já não é Joaquim Barbosa, mas Ricardo Lewandowski, que não transigiria com as formalidades legais e rituais, evitando que os procedimentos judiciais ganhassem conotação eleitoral, a favor ou contra qualquer força política. Por isso Costa e Youssef falaram tanto em “agentes políticos” quando se referiam a figuras do PT, PP e PMDB que teriam relação com o esquema. Não se furtaram, porém, a mencionar três diretores da Petrobrás e o tesoureiro do PT, Vacari Neto, que não tendo mandatos, não forçam a mudança do processo para a instância superior. Os outros implicados serão citados mas eles podem ficar para depois. O alvo agora é o PT e a reeleição de Dilma Rousseff. E para isso, é bom que o processo continue na primeira instância.
A delação somente deve render vantagens aos delatores se as informações por eles fornecidas forem provadas e realmente contribuírem para o esclarecimento dos fatos. Youssef e Costa não apresentaram provas do que disseram mas jogaram uma bomba de alta potência sobre a campanha eleitoral. Embora a figura da delação seja considerada um avanço pelo meio jurídico em geral, há críticas à sua adoção e principalmente, à frágil regulamentação de sua aplicação.
O presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, Augusto de Arruda Botelho, em artigo hoje na Folha de São Paulo, pede o fim do instituto, alegando que os réus são submetidos a “um sombrio e triste percurso” até optarem pela delação: prisões ilegais, depoimentos coercitivos, torturas psicológicas e ameaças a parentes, entre outros recursos utilizados para quebrar a moral dos investigados. Este é um ponto de vista relacionado com a garantia democrática do direito de defesa.
Mas é também relevante o impacto das divulgação das delações premiadas – antes de provadas – sobre os processos sociais, entre eles o eleitoral. A Lei 12.850/2013 estabelece que as informações obtidas através da colaboração premiada (este é o verdadeiro nome da coisa, na lei), não bastam para incriminar terceiros. Essa é uma cautela para evitar que o premiado invente informações contra outros para se beneficiar. A lei teve esta preocupação com as supostas vitimas individuais dos delatores mas não considerou o impacto das denúncias sobre o coletivo e a vida social, nela incluído o processo eleitoral, questões de segurança ou mesmo de política externa.
Seu aprimoramento exigirá, em algum momento, que se regule melhor a questão da divulgação dos depoimentos, levando em conta o direito de terceiros e as circunstanciais sociais. No caso presente, o candidato de oposição, que chegou ao segundo turno por sua própria força junto a parcela expressiva do eleitorado, dispensa a colaboração de fatos que podem tisnar a pureza do processo eleitoral.

Em 1989, o sequestro do empresário Abílio Diniz foi relacionado ao Partido dos Trabalhadores. A investigação policial apontou depois que não houve esse envolvimento. Um dos criminosos acusou a polícia de obrigá-lo a vestir uma camisa da campanha de Lula para ser fotografado. E o desmentido do envolvimento do PT com o sequestro foi divulgado... somente após as eleições em que Lula perdeu para Collor. Em toda campanha, há denúncias que depois não se comprovam e que, após a eleição, ninguém é responsabilizado por elas. (PGCS)

04 agosto, 2013

Ascensão

Ascenso tinha quase 2 metros de altura, usava um chapéu de palha na cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel, com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade de uma jaca mole. Quando chegou a casa, à noite, disse à esposa que estava sem fome e que, por isso, se contentava com um prato de pirão de leite e um pedaço de carne de sol.
Sobre o poeta, Manuel Bandeira escrevia:
"Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama [...] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos."
Por sua vez, Luís da Câmara Cascudo ressaltava:
“Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados.”

(extraído do artigo Ascenso Ferreira, de Semira Adler, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco)

03 janeiro, 2012

Rio de Janeiro, fevereiro e março

Apreciemos alguns depoimentos sobre o Rio de Janeiro, extraidos do texto de Frederico de Morais no Catálogo de Soraia Cals para o leilão de maio de 2011:

A - Pero Lopes de Souza relatando a expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza, em 1531:
Toda a terra deste rio he de montanhas e serras muy altas. As melhores águas há neste rio que podem ser.
B - Dezoito anos depois Tomé de Souza em carta ao rei assim se expressava:
Mando o debuxo dele a V.A., mas é tudo graça o que dele se pode dizer. Parece-me que V.A. deve mandar fazer ali uma povoação honrada e boa.
E foi o que Estácio de Sá fez ao chefiar a armada, destinada a expulsar os invasores franceses e seus aliados tamoios, que desembarcou no sopé do Pão de Açucar em 1º março de 1565.
C - De Darwin, ao aportar no Rio em sua histórica viagem de circunavegação (1831-1836) a bordo do Beagle :
À distância, todas as cores se fundem num fosco admirável. As formas e as cores excedem tanto, em magnificência, tudo que o europeu viu em seu país, que faltam expressões para dizer o que sente.
D - Leo Putz, pintor alemão que esteve no Rio no ano de 1931, a convite de Lúcio Costa, quando integrou o corpo docente da Escola Nacional de Belas-Artes, e que assim se manifestou:
Descrever em palavras é impossível. A primeira impressão foi de êxtase.
E - De Lasar Segall, que escreveu ao amigo Will Grohmann em sua passagem pelo Rio em dezembro de 1923:
Luz, muita luz. Tudo dá a impressão de ter sido criado para um dia, para um dia feliz.


Postado em Itapiúna - CE

14 dezembro, 2009

O homem que adorava Petrolina

Paulo,

"Meu pai, como você sabe, era cearense de Ubajara. Na velha vitrola valvulada lá de casa não faltavam Luiz Gonzaga e Nat King Cole. Aprendi a gostar de ambos, o que não é pouca coisa. Ainda considero o negão o maior cantor de todos os tempos. A minha infância foi vivida entre Belo Horizonte e Ouro Preto, portanto, longe das origens paternas. Durante algum tempo pensei que Luiz Gonzaga fosse meu tio porque o irmão do meu pai tinha o mesmo nome. Eu não sabia que duas pessoas podiam compartilhar o mesmo nome.
Em 1971, ano da nossa formatura, fui de Fortaleza a Campinas participar do Congresso Brasileiro de Oftalmologia.
Ao chegar a Petrolina, vi um tumulto na rodoviária ao redor de um casal de meia idade que tomava o ônibus onde eu estava. O senhor veio se sentar na fila ao lado. Risonho, bonachão, calçado com alpargatas brancas e óculos escuros para esconder um defeito, acho que era um exotropia. O homem era o Rei do Baião.
Pude observar durante o trajeto que a figura era simples e interagia sem estrelismos. Tinha a voz grave, potente, falava alto ao contar casos e nas paradas pedia sempre pastel de carne. Troquei meia dúzia de palavras com ele, generalidades. Arrependo-me hoje de não ter conversado mais. Naquela época, eu ainda era um ignorante, hoje sou também um boçal porque, às vezes, penso que deixei de ser ignorante.
O mundo mudou e vemos hoje artistas com um milésimo do seu valor, viajando de jatinhos e ganhando em um show o que Gonzaga levava anos para ganhar. Não se canta mais: rapeia-se, requebra-se, engana-se. A música de sucesso é uma lástima. Todo mundo hoje acha que é artista e o pior é que o público acredita.
Artista foi o Gonzagão que a asa branca levou, foi esse gigante aí que acabei de descrever-lhe o dedo."

Nelson Cunha
Comentário
Pelo dedo se conhece o gigante, Nelson. E você mostrou, com sua visão 20/20, que um mito pode ser uma pessoa extremamente simples. Foi uma impressão como essa que eu também tive de Patativa do Assaré, quando o conheci numa feira agropecuária no Crato.

P.S.>
O professor Arimatéa, natural de Barbalha - CE e que leciona em escolas de Santa Luzia do Oeste, Rondônia, enviou ao blog um excelente texto sobre Luiz Gonzaga. Para ler clique nos comentários (comments) desta postagem.

11 dezembro, 2009

Um deus dormiu lá em casa - 4

No existir monótono do ser humano, e tornado ainda infeliz pelos projetos não realizados, tudo seria bem mais venturoso se súbito um deus aparecesse. Eu não falo de um deus bíblico, muito poderoso, mas de um deus em carne e osso, não preocupado com a espiritualidade. Apenas capaz de transformar algum sonho em realidade, porque instrumentalizado se achasse para isso. Embora coubesse também ao eleito: abrir a porta, recebê-lo cordialmente (não se desleixando nos detalhes de cada situação) e indicar-lhe o quarto de dormir.
Eis a experiência - inesquecível - vivida pelo quarto de quatro eleitos que aqui deram seus testemunhos.

Lucas, 38, ufólogo - "Tenho lido tudo sobre o assunto, participado de inúmeros congressos... A ufologia é uma ciência e os ufos são naves espaciais que transportam seres alienígenas, acredito nisso. No tempo de que disponho, chova ou faça sol, armado de luneta posto-me no terraço de minha casa a perscrutar o céu. Certa vez, no terraço... eu ia até me recolher mais cedo, não estava com o aspecto de que ia aparecer algum ufo... Pois bem, mas surgiu algo que me encheu a vista. Não, eu não tinha bebido nem estava tomado de uma ilusão. No descampado, ao fundo da residência, vi que pousava um disco voador. E dele, minutos após, vi que descia um ser indiscutivelmente extraterrestre. Verde, presumíveis dois metros, a cabeça desproporcional ao corpo e com anteninhas, olhos bovinos, os braços finos, longos, com os dedos rentes ao chão... Caminhava arqueado. Um ufólogo tem de estar preparado para o grande momento, recebi o estranho com naturalidade. E graças ao tradutor de línguas - ele estava equipado de um - foi possível a comunicação verbal, de lá para cá e vice-versa. De maneira que, a noite toda, trocamos informações sobre coisas e fatos da Terra e de Cloros, o planeta dele. Clima, fauna, flora, sistemas de governo, esportes, religiões, G-20, de tudo um pouco. Fui interlocutor desse deus, porém não o deixei dormir. E não relaxei em meu papel nem quando amanhecia, com ela já a partir... Porque aproveitei para lhe fazer minha última pergunta, uma curiosidade que eu tinha... Perguntei-lhe: 'Como é que vocês transam sexo, lá?' E ele me respondeu: 'Assim, ao mesmo tempo em que os seus dedos agilmente sacolejavam os lóbulos das minhas orelhas.' Por sinal, fizera isso comigo muitas vezes durante a noite. Antes de ele partir, imaginei fotos, vídeo e tal, mas o habitante de Cloros me proibiu de fazer tais registros. Entretanto, eu tenho como provar esse contato de, digamos, quarto grau. Peço apenas que aguardem nove meses, talvez menos. Que a futura mamãe aqui vai deslumbrar o mundo, ora se vai..."

06 dezembro, 2009

Miss Hermengarda

Humberto Teixeira, cearense de Iguatu, foi um dos principais parceiros de Luiz Gonzaga. Juntos criaram "Asa branca", "Baião", "Juazeiro", "Estrada de Canindé", "Qui nem jiló", "Légua tirana", "Respeita Januário", "Kalu", "Assum preto" e muitas outras belas páginas de nosso cancioneiro. No depoimento que deu para o Museu Cearense da Comunicação de Nirez, em 11 de dezembro de 1977, transformado posteriormente no livro "Humberto Teixeira - Voz e Pensamento", ele relatou o seguinte:
"... foi uma valsa (sobre a primeira música) que eu fiz em homenagem a Miss Hermengarda, uma moça do Ceará, que foi eleita miss num desses primeiros concursos que houve no Ceará. E eu, naquele encantamento, via aquela moça como uma coisa inatingível; eu, garoto e acabei fazendo a tal valsa dedicada a Miss Hermengarda. Era uma moça da família Gurgel, Hermengarda Gurgel, uma coisa assim. De maneira que o maestro (Antônio Moreira) me fez uma surpresa maravilhosa, ele mandou aquela valsa para São Paulo e a editou. Um belo dia, numa das aulas, ele me deu de presente a música editada. Então, foi a primeira música impressa, não gravada, que eu fiz."
Nascido em 1915, o "Doutor do Baião" fez essa música quando tinha 13 anos de idade. No ano de 1928, portanto. E quem teria sido, àquela época, a musa de sobrenome Gurgel que inspirou Humberto Teixeira?

Publicado também no blog Família Gurgel Carlos

05 novembro, 2009

Um deus dormiu lá em casa - 3

No existir monótono do ser humano, e tornado ainda infeliz pelos projetos não realizados, tudo seria bem mais venturoso se súbito um deus aparecesse. Eu não falo de um deus bíblico, muito poderoso, mas de um deus em carne e osso, não preocupado com a espiritualidade. Apenas capaz de transformar algum sonho em realidade, porque instrumentalizado se achasse para isso. Embora coubesse também ao eleito: abrir a porta, recebê-lo cordialmente (não se desleixando nos detalhes de cada situação) e indicar-lhe o quarto de dormir.
Eis a experiência - inesquecível - vivida pelo terceiro de quatro eleitos que aqui deram seus testemunhos.


Juvenal, 56, leitor inveterado - "Bem, eu sou agnóstico. Mas um dia deus dormiu lá em casa. Na pessoa de um vendedor de enciclopédia que bateu à minha porta, com a proposta de vender uma coleção por um plano especial. Não tem ninguém mais bibliomaníaco que eu, mas, ultimamente, eu vinha me privando do hábito. Sem dinheiro para comprar livros e, por vezes, até o jornal. Os tempos bicudos... Aí, eu disse ao vendedor que desculpe mas não dá... Ele até não insistiu muito. E desabafou que fizera uma rota enorme, achava-se naquele momento longe de casa... Já era noite, e eu entendi aquela conversa mole como um pedido de hospedagem. Então, mandei que ele arriasse os livros num canto da sala, e mostrei-lhe o quarto onde ele podia descansar o corpo afadigado. E, noite adentro, enquanto ele ressonava, fiz meu serviço esperto na enciclopédia. Bendita a hora em que fiz meu curso de leitura dinâmica! De modo que, quando o homem despertou pela manhã, eu já estava no verbete 'zwinglianismo'. Depois disso, voltei à realidade só que mais instruído."

25 setembro, 2009

Um deus dormiu lá em casa - 2

No existir monótono do ser humano, e tornado ainda mais infeliz pelos projetos não realizados, tudo seria bem mais venturoso se súbito um deus aparecesse. Eu não falo de um deus bíblico, muito poderoso, mas de um deus em carne e osso, não preocupado com a espiritualidade. Apenas capaz de transformar algum sonho em realidade, porque instrumentalizado se achasse para isso. Embora coubesse também ao eleito: abrir a porta, recebê-lo cordialmente (não se desleixando nos detalhes exigidos em cada situação) e indicar-lhe o quarto de dormir.
Eis a experiência - inesquecível - vivida pelo segundo dos quatro eleitos que aqui deram seus testemunhos.


Tony, 45, bicheiro - "Em verdade, foi uma deusa que dormiu lá em casa. Eu me achava num astral mais baixo que poleiro de pato... Tinha levado o fora duma 'mina', numa circunstância que não interessa contar agora, quando a deusa apareceu. Na graça de uma loura - de fechar o comércio 24 horas, meus queridos - que bateu à minha porta. Perguntando por uma pessoa que eu nem conhecia, e depois pedindo para usar o telefone. Ligou várias vezes, porém, do outro lado ninguém atendia. Aí, entre uma ligação e outra, eu puxei conversa. Depois, preparei-lhe um drinque que ela bebeu. E, como o programa dela havia mixado, topou o meu convite para sair na noite. Fizemos um circuito de bar, restaurante e danceteria, nessa ordem. Ao fim da noite, como pessoas civilizadas, fomos pra cama. Entorpecido pelo álcool, caí em sono profundo até por volta de meio-dia. E, ao despertar, constatei que a deusa, talvez decepcionada pelo meu apagão, tinha ido embora. No espelho do banheiro, havia deixado escrito a batom um número: 1985. Uma charada que, de imediato, eu não decifrei. Mas um bicheiro experiente como eu devia ter entendido o aviso e mandado 'cotar' o malfadado número. Que foi a milhar do tigre que deu, naquele dia, e me quebrou a banca."

28 agosto, 2009

Um deus dormiu lá em casa - 1

No existir monótono do ser humano, e tornado ainda mais infeliz pelos projetos não realizados, tudo seria bem mais venturoso se súbito um deus aparecesse. Eu não falo de um deus bíblico, muito poderoso, mas de um deus em carne e osso, não preocupado com a espiritualidade. Apenas capaz de transformar algum sonho em realidade, porque instrumentalizado se achasse para isso. Embora coubesse também ao eleito: abrir a porta, recebê-lo cordialmente (não se desleixando nos detalhes exigidos em cada situação) e indicar-lhe o quarto de dormir.
Eis a experiência - inesquecível - vivida pelo primeiro dos quatro eleitos que aqui deram seus testemunhos.


Beto, 23, aficionado por automóveis - "A vida toda eu quis ter um carro, mas cadê a grana para isso? Sou franco. Por diversas vezes, cheguei a pensar em puxar um, sair rodando por aí... Mas, seria uma fria, meu irmão. Chega a polícia, me engaveta e, o que é pior, daí para frente sou um cara marcado. Por isso, meu consolo era imaginar que um dia a coisa ia mudar. E como foi que mudou. No dia em que eu estava folheando a 'Quatro Rodas', me babando todo de um Comodoro 88 com opcionais. Entrou um cara meio parrudo, cabelo curtinho, em minha casa. Todo sujo de graxa, me pediu água para beber e lavar as mãos. Dei-lhe água para uma e outra coisa, e disse-lhe também que sentasse um pouco. O homem era um cegonheiro, desses sujeitos que transportam veículos das fábricas para as revendedoras. Na porta, estava lá o seu 'caminhãozinho' que não me deixava mentir. Parara por causa de prego. Como eu sempre guardo em casa uma pinga da boa, indo com o jeitão dele ofereci-lhe uma dose... no capricho. O homem ficou doido. Me disse que nunca havia provado cachaça igual. Aí, mandei ver outra, outra e outra. E ficamos amigos. Pelas tantas, sabendo da minha fissura ele me ofereceu a chave de um Monza, para que eu desse umas voltinhas. Saí no carro, né? E ele ficou em casa bebendo da 'branquinha'. E cada dia eu saía num carro diferente, que o gente boa me facilitava. Desde que não lhe faltasse a 'maldita'. Enquanto ele lá mamava, eu rodava com a minha gata. Oito dias, oito carros, até que a polícia apareceu para estragar tudo... a mando dos patrões dele. Mas não peguei cana, né? Não havia roubado nada. Pois é, deus dormiu lá em casa um... não, oito dias, mas para ver que nem ele é perfeito. Eu tinha que pagar o combustível que botava nos carros."