A velhice não estava entre as minhas aflições. Era apenas a ruína inevitável dos outros.
O que é ser velho?
Hoje eu sei. Ou, ao menos, sei mais do que ele sabia.
E, ainda assim, há dias em que me surpreendo diante do espelho, quase paralisado. Olho com uma estranheza quase infantil para aquele rosto e penso, com uma sinceridade desarmada:
Não pode ser. Isso não sou eu.
Há um desencontro profundo entre o que os olhos veem e o que o peito sente. O espelho me mostra um homem gasto: a pele do pescoço frouxa, as bochechas rendidas pela gravidade, a testa sulcada - tanto no riso quanto na dor, como se um e outro estivessem sempre presentes. É um corpo que revela.
Que denuncia.
Que conta, sem pedir licença, a história que o tempo escreveu.
Mas há mudanças mais silenciosas, mais fundas - aquelas que o espelho não alcança. Descobri, por exemplo, que o choro se tornou fácil. Agora ele brota quieto, como quem já não tenta conter o que transborda.
Não consigo olhar fotografias dos meus filhos pequenos. Evito - como quem evita um lugar perigoso. Porque a saudade não chega: avança. É súbita, afiada, quase física. Dá uma vontade desmedida de voltar no tempo.
Não para refazer grandes escolhas - elas foram acertadas. Mas para o pequeno. Segurar de novo aqueles corpos leves no colo. Sentir o calor deles adormecendo sobre o peito. Beijar as testas mornas.
A velhice me alcança com força nesses instantes. Não pelo que perdi - mas pelo que foi bom demais para caber apenas na memória.
Por isso, às vezes, fecho os álbuns antes da última página. Não por esquecimento. Por excesso.
As fotografias de meu pai - morto há trinta e cinco anos - ainda sabem me encontrar. Basta um segundo a mais… e algo cede por dentro. É um choro manso. Uma dor educada, comportada, desavergonhada - que aprendeu a falar baixo.
Nos momentos importantes, penso nele. Essa ausência nunca envelheceu. Queria que estivesse aqui - nem que fosse para ver o tamborete que acabei de fazer na oficina.
Há, nisso tudo, uma ironia discreta. A velhice só pesa quando me lembro dela. No resto, sigo vivendo - às vezes até com humor. Gosto de me chamar de velho quando tropeço, quando subo escadas e as pernas reclamam, quando o corpo, com sua honestidade brutal, me lembra dos limites.
Mas, se o corpo envelhece com franqueza quase cruel, o pensamento fez o caminho inverso. Hoje penso com mais leveza. Já não me agarro às minhas certezas. Compreendo mais do que julgo. Observo mais do que reajo.
Há uma serenidade que não existia antes - não por virtude, mas por realismo. Vejo o mundo com uma clareza que a pressa da juventude não permitia. Percebo padrões. Às vezes, antevejo finais.
Você já sabia? - perguntam.
Não. Eu não sabia. Apenas aprendi que o mundo se repete.
E é assim que respondo ao jovem que fui:
Ser velho não é apenas perder.
É um deslocamento.
O corpo enruga.
Mas algo dentro - silencioso - rejuvenesce.
Talvez porque já não precise provar nada.
Ou porque o essencial, enfim, tenha se revelado.
Envelhecer é isso:
a casca se fragiliza, por dentro, a vida insiste.
E insiste com esplendor.
Exatamente como um maracujá.
Nelson José Cunha
N. do E.A flor do maracujá (Passiflora) simboliza principalmente a Paixão de Cristo, sendo conhecida como a "flor-da-paixão".
Quando chegaram no continente americano, missionários espanhóis do século XVI interpretaram suas estruturas como símbolos religiosos: filamentos como a coroa de espinhos, estigmas como os cravos, e anteras como as chagas de Jesus.
A flor também representa a paz e a espiritualidade.
Paulo Gurgel

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