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14 março, 2025

A aquisição do fascista Tech Bro está aqui

Joan Westenberg (@Daojoan) expõe a verdade nua e crua do que está acontecendo em nosso redor:

O futuro dos Estados Unidos não é mais decidido em Washington. Esse navio já partiu. Agora é ditado nos bunkers, jatos particulares e complexos de um Vale do Silício ideológico, por bilionários e extremistas da riqueza com a intenção de tratar a democracia como um incômodo que deve ser afastado. Esses homens — criados em uma imprensa raivosa que mitificou sua existência em suas vidas, os chamou de Wunderkind (do alemão wunder "prodígio" + kind "criança) e os tratou como algo acima e além da mera mortalidade — consumiram uma dieta constante de fanfics (de fan fiction, escritas ficcionais feita por fãs, baseadas em obras existentes) por  libertárias e autoritárias e, em seus estertores, conceberam uma nova ordem, projetada para servir seus egos elevados a todo e qualquer custo.

A Internet deveria ser o grande equalizador. Ela deveria ser uma força que destruísse hierarquias e desse poder às pessoas comuns. Em vez disso, ela permitiu a extração de riqueza e a avareza de um cartel de déspotas superalimentados e supermimados que enriqueceram em nome da inovação, sangraram o mundo até o ponto de um colapso quase total, intelectualizaram seu fetiche de poder e agora veem as instituições públicas como os obstáculos finais a serem desmantelados em sua busca egoísta e delirante por mais.

O declínio da América para o fascismo (envolto na bandeira e carregando uma cruz, segundo Elisabeth Vallet) foi permitido, apoiado, nutrido e encorajado por bilionários da tecnologia e CEOs que estão tão distantes da humanidade e do florescimento humano que se imaginam melhores administradores da nossa existência do que nós. Era evitável. É deplorável. E deveria ser uma afronta a qualquer um que acredite em liberdade, determinação e autonomia.

Este não é um debate abstrato ou uma preocupação distante. Esta não é uma teoria da conspiração, embora, em algum nível, seja claramente uma conspiração. O deslizamento autoritário nos Estados Unidos está acontecendo hoje, possibilitado por bilionários que veem a governança como uma ferramenta para ganho pessoal. A democracia está sendo desmantelada em tempo real, não por meio de golpes militares, mas por meio de aquisições corporativas, propaganda algorítmica e a influência descontrolada da riqueza.

Leia o ensaio completo em theindex.media.

Os grifos são nossos. PGCS

05 maio, 2021

Como funciona o fascismo

Os dez pilares do fascismo de acordo com o livro Como Funciona o Fascismo, de Jason Stanley.
Passado mítico (culto a um passado maravilhoso que não existiu)
Propaganda (onde tudo está invertido: as notícias reais são chamadas de fake news, a anticorrupção é corrupção)
Antiintelectualismo (Steve Bannon disse: é a emoção, a raiva que leva as pessoas a elegerem seus líderes)
Hierarquia (as minorias devem se adaptar ou sumir)
Distanciamento da realidade (pós-verdade; substituir os fatos por teorias da conspiração)



Vitimização (os homens são vítimas do feminismo, os brancos são vítimas dos negros)
Lei e ordem (criminalizar as dissidências)
Tensão sexual (repulsa à sexualidade)
Sodoma e Gomorra (os valores de um grupo são superiores aos de outro grupo, logo a perseguição aos inferiores é justificada)
Arbeit Macht Frei (os opositores são preguiçosos, fracos, criminosos)

08 dezembro, 2019

A novidade que se cristaliza

Brasil 24/7 - Uma análise da pesquisa Datafolha de hoje:

1. Não há polarização: 30% dos eleitores são de direita; 30%, de esquerda e 40% totalmente voltados a um pragmatismo vivencial: para os excluídos, a melhor promessa do momento (aqui entram a manipulação midiático-empresarial e, no contexto atual, as redes de fake news de ultradireita) é que vale. A "promessa" já foi à esquerda, com Lula/Dilma; agora, à direita.

2. A novidade que se cristaliza nessa pesquisa: algo em torno de 15% da direita brasileira é protofascista (fascismo em sua vertente inicial).

2.1. O clã Bolsonaro e personagens como Olavo de Carvalho atuam para mobilizar essa parcela da população. São, claramente, antidemocráticos, autoritários e violentos. Constantemente, insuflam o terrorismo de Estado.

2.2. A direita tem uma arma poderosa em sociedades capitalistas: o poder do dinheiro - dos que não têm compromisso com a democracia de fato (empresários, banqueiros, latifundiários, think tanks...).

2.3. Mas, o poder dos sentimentos e dos afetos, ou seja, o poder simbólico, é a grande disputa do momento. Este jogo está em aberto.

3. Parte dos protofascistas estão a disputar o poder simbólico utilizando o discurso religioso (o meio mais eficaz de disseminar discursos de ódio). Há um imenso investimento financeiro no neopentecostalismo.

3.1. A esquerda, em boa medida, está sem uma bandeira afetiva e mobilizadora. Lula encarna, em certa medida, esse vácuo.

4. Mesmo assim, a direita, definitivamente, não é imbatível. Argentina provou que o ultraliberalismo não responde às demandas de sociedades marcadas pela desigualdade e injustiça estruturais.

4.1. Mas, a esquerda precisa radicalizar sua posição para mostrar as contradições brasileiras. Caso contrário, os 40% dos eleitores "folha de bananeira" (que vão à onda do vento) continuarão na passividade (altíssimos índices de absenteísmo eleitoral), na omissão (imobilização social) ou conivência com os que gritam mais alto.

Robson Sávio Reis Souza
Doutor em Ciências Sociais

01 abril, 2019

A adesão ao fascismo

Neste texto (*) datado de 1951, Theodor W. Adorno demonstra como a teoria de Sigmund Freud sobre a psicologia das massas desenvolvida em 1921 antecipou de maneira impressionante as dinâmicas pulsionais envolvidas na ascensão de Hitler; e indica como ela pode ser usada para compreender o fenômeno dos agitadores fascistas que ele observava em primeira mão nos EUA do pós-Segunda Guerra Mundial. Passadas mais de seis décadas desde sua publicação, o ensaio de Adorno se mostra de relevância assombrosa para o leitor brasileiro de 2018.

“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”

“Como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização.”

“A irracionalidade redespertada do seguidor é bastante racional do ponto de vista do líder: ela necessariamente tem de ser ‘uma convicção que não é baseada em percepções e raciocínios, mas em um vínculo erótico’.”

“A agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas o mandatário de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideia do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo.”

“Mostrando-se como um super-homem, o líder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio.”

“As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel.”

“É provavelmente a suspeita do caráter fictício de sua própria ‘psicologia de grupo’ que torna as multidões fascistas tão inabordáveis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encenação desmoronaria, e só lhes restaria entrar em pânico.”

“O ganho narcisista fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente, e às vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao grupo, é superior, melhor e mais puro que aqueles que estão excluídos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de crítica ou autoconsciência é ressentida como uma perda narcisista e provoca fúria.”

“O líder pode adivinhar os desejos e necessidades psicológicas dos que são suscetíveis à sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibições o que neles está latente, em vez de lançar mão de alguma superioridade intrínseca.”

“O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles são – os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade – em vez de estabelecer metas cuja realização transcenderia o status quo psicológico não menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus próprios propósitos – não precisa induzir uma mudança –, e a repetição compulsiva, que é uma de suas características primárias, estará em acordo com a necessidade dessa reprodução contínua.”

“A psicologia das massas foi controlada por seus líderes e transformada em meio para sua dominação. Ela não se expressa diretamente pelos movimentos de massa.”

(*) extraído de "A psicanálise da adesão ao fascismo", publicado no Blog da Boitempo

Contemporâneas

"Reconhecer erros engrandece instituições. Comemorá-los demonstra que podem repeti-los." ~ Jorge Solla

"Como voltar atrás, recuar sem vergonha de tê-lo feito, desdizer o que dissera, autotraduzir as próprias palavras são atos praticados por Bolsonaro sem se sentir em situação vexaminosa e sem enrubescer sequer os lábios emaciados, descoloridos, lembrando lábios de defuntos emaciados, que nos oferece na TV todas as vezes em que nela aparece, há tempo para ele anunciar que o apelo à celebração do golpe de 1964 foi uma chula, inoportuna e malfeita piada de 1.º de abril." ~ Luis Costa Pinto, O golpe da piada pronta

24 agosto, 2018

A força centrípeta da estupidez

Aqui já nos reportamos ao historiador italiano Carlo Cipolla, autor de um ensaio chamado "As Leis Fundamentais da Estupidez Humana", lançado em livro.
http://blogdopg.blogspot.com/2013/07/as-leis-da-estupidez.html

No referido ensaio de Cipolla, consta também uma referência sobre a contribuição de cada néscio para tornar mais forte o seu grupo:
"Esse grupo é muito mais poderoso do que a Máfia, o complexo militar-industrial ou a internacional comunista; se trata de um grupo desprovido de estatuto, sem estrutura nem constituição, sem chefe nem presidente, que consegue, no entanto, funcionar de maneira perfeitamente coordenada, de tal maneira que a atividade de cada membro contribui para ampliar e tornar mais forte e mais eficaz a de todos os outros."
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/antes-de-apoiar-a-chapa-bolsonaro-mourao-os-evangelicos-deveriam-ler-o-que-a-biblia-diz-sobre-estupidez-por-kiko-nogueira/ (apud Kiko Nogueira)

Para lacrar, vale citar um trecho de autoria de Celso Toledo, em que ele também resgata a teoria de Cipolla e suas consequências:
"Note-se que, muitas vezes, a existência de uma fatia grande de ingênuos com traços de estupidez é insuficiente para bloquear o avanço dos bandidos porque estes ingênuos são mais complacentes e propensos a serem iludidos pelas artimanhas retóricas da bandidagem. Felizmente, a experiência sugere que parte não desprezível desses ingênuos com traços de estupidez (I2) migram, mesmo que temporariamente, para a região I1 quando percebem com algum atraso os estragos perpetrados pelos bandidos. Esse é o motor dos ciclos de avanço e retrocesso tão comuns em regiões atrasadas como a América Latina porque, ao menor sinal de alívio, eles voltam de I1 para I2. A força centrípeta da estupidez faz o trabalho."
http://terracoeconomico.com.br/as-leis-fundamentais-da-estupidez-humana (apud Pedro Lula Mota)

03 outubro, 2017

Na Itália, no Brasil e em qualquer país





O monstro fascista quando sai da garrafa 
fica difícil colocá-lo de volta.




Imagem: vinho Benito Mussolini
(Não usei uma "garrafa de gênio" para a ilustração desta postagem porque não há gênios fascistas.)

11 agosto, 2017

A resposta de Bertrand Russell a um fascista britânico

22 de janeiro de 1962
Prezado Sir Oswald Mosley,
Obrigado por sua carta e por seu anexo. Eu tenho pensado em nossa correspondência recente. É sempre difícil decidir como responder a pessoas cujo ethos é tão estranho e, de fato, repulsivo para si próprio. Não é que eu não concorde com os pontos gerais que você apresenta, mas é que cada centelha de minha energia tem sido dedicada a uma oposição ativa contra o fanatismo cruel, a violência compulsiva e a perseguição sádica que caracterizaram a filosofia e a prática do fascismo.
Eu me sinto obrigado a dizer que os universos emocionais que habitamos são bem distintos e, de formas mais profundas, se opõem, que nada frutífero ou sincero jamais poderá surgir da associação entre nós.
Gostaria de que você entendesse a intensidade desta convicção de minha parte. Não é por qualquer tentativa de ser rude que eu digo isto, mas é por  causa de tudo que eu valorizo ​​na experiência e realização humanas.
Com os melhores cumprimentos,
Bertrand Russell
The Guardian, via FLASHBAK

26 abril, 2017

Guernica, uma pintura contra o fascismo

"Sempre acreditei e ainda acredito que os artistas que vivem e trabalham com valores espirituais não podem nem devem permanecer indiferentes a um conflito em que estão em jogo os mais altos valores da humanidade e da civilização." - Picasso, 1937
Em 26 de abril de 1937, bombardeiros alemães e italianos atacaram a cidade basca de Guernica. Ao longo de três horas, destruíram três quartos da cidade antiga, matando e ferindo centenas de pessoas . O ataque foi "sem paralelo na história militar", segundo relatos na época - e inspirou uma das mais famosas pinturas anti-guerra da história: Guernica.
Respondendo às atrocidades da Guerra Civil Espanhola, artistas como Pablo Picasso, Julio González, Joan Miró, Alexander Calder, Alberto Sánchez e José Gutiérrez Solan foram reunidos pela Exposição de Paris de 1937, que abriu menos de um mês após o bombardeio e dez meses após a Guerra Civil haver começado.
Depois de ler relatos do ataque de Guernica por aliados de Franco, Picasso começou a trabalhar em uma pintura que viria a simbolizar a luta mais ampla contra o fascismo. De acordo com o historiador de arte Fernando Martín Martín, "pela primeira vez na história contemporânea da guerra, uma cidade e sua população civil foram aniquiladas, tanto como uma tática de amedrontação como uma maneira de testar a máquina de guerra".
Instantaneamente, Picasso sabia qual seria o assunto de seu mural para a Exposição de Paris.
Pintado em uma lona de má qualidade, o mural levou pouco mais de um mês para ser concluído. Enquanto pintava, para combater rumores de que apoiava os nacionalistas, Picasso emitiu esta declaração: "No painel em que estou trabalhando, que chamarei Guernica, e em todas as minhas obras de arte recentes, manifesto claramente minha aversão à casta militar que afundou a Espanha num oceano de dor e morte".
(http://www.bbc.com/culture/story/20170206-the-artists-who-fought-fascism)
Sua pintura, Guernica, encontra-se atualmente no Museu Reina Sofía de Madrid.

Leitura recomendada: El Guernica de Picasso. Historia de un souvenir, JOTDOWN

Ver também: H. G. Wells pergunta por García Lorca