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30 março, 2022

As mulheres deveriam ser completamente abolidas?


Em 28 de março de 1912, o bacteriologista Almroth Wright escreveu uma carta ao London Times argumentando que as mulheres deveriam ter o direito de votar negado e, de fato, mantidas completamente afastadas da política devido às suas deficiências psicológicas.
Dois dias depois, o Times publicou esta resposta. Assinada por "One of the Doomed", mas na verdade foi escrita por Clementine Churchill, de 26 anos, esposa de Winston:

30 de março de 1912

Ao editor do London Times.

Senhor,

Depois de ler a exposição capaz e ponderada de Sir Almroth Wright sobre as mulheres como ele as conhece, a pergunta não parece mais ser "As mulheres não deveriam votar?", mas "as mulheres não deveriam ser completamente  abolidas?"

Fiquei tão impressionado com a dissertação de Sir Almroth Wright, apoiada por tanta experiência científica e pessoal, que cheguei à conclusão de que as mulheres deveriam ser interrompidas.

Aprendemos com ele que elas em sua juventude são desequilibradas, que de vez em quando sofrem de irracionalidade e hipersensibilidade, e que sua presença distrai e irrita os homens em suas vidas e atividades diárias. Se assumem uma profissão, a indelicadeza de suas mentes as torna parceiras indesejáveis para seus colegas homens. Mais tarde na vida, elas estão sujeitas a graves e prolongados distúrbios mentais e, se não são totalmente insanas, muitos delas têm de ser silenciadas.

Sendo assim, quão mais feliz e melhor não seria o mundo se pudesse ser purgado das mulheres? É aqui que olhamos para os grandes cientistas. O caso é realmente sem esperança? As mulheres, sem dúvida, tiveram seus usos no passado, caso contrário, como essa tribo detestável poderia ter sido tolerada até agora? Mas é certo que serão indispensáveis no futuro? A ciência não pode nos dar alguma garantia, ou pelo menos alguma base de esperança, de que estamos às vésperas da maior descoberta de todas — isto é, como manter uma espécie de machos por meios puramente científicos?

E não podemos olhar para Sir Almroth Wright para coroar suas muitas conquistas ao libertar a humanidade das espécies parasitas, dementes e imorais que infestaram o mundo por tanto tempo?

Sua obedientemente,

CSC ("Uma das Condenadas")

http://lettersofnote.com/2012/05/14/ought-women-not-to-be-abolished-altogether/

20 março, 2020

Santa Corona

Em Anzù, norte da Itália, há uma basílica onde as relíquias de São Victor e Santa Corona são preservadas desde o século IX.
Santa Corona tinha apenas quinze anos quando professou sua fé cristã, por volta de 165, durante a perseguição promovida pelo imperador romano Marco Aurélio.
Corona foi presa e amarrada pelos pés ao topo de duas palmeiras que estavam dobradas até o chão. Quando as palmeiras foram soltas, ela foi despedaçada. Segundo a Martirologia Romana, isso aconteceu na Síria.
Santa Corona é especialmente venerada na Áustria e na Baviera como a padroeira contra pragas e epidemias.
Sua data festiva é 14 de maio.

12 abril, 2019

O ponto de "ironia"

Sabiam que em grego clássico não existia o sinal de exclamação?
Grego para mim é grego!
Salvo melhor informação, foi por influência da língua grega que, pouco a pouco, os sinais de pontuação foram sendo introduzidos nas línguas europeias.
Isto não quer dizer que a obra se tenha completado. Já que os idiomas ocidentais continuavam carentes de certos sinais de pontuação que representassem algumas emoções ou dessem novos sentidos às frases.
Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, sempre se queixou da falta do ponto de "ironia". E o "kkkkk", como a ele sugeriu Nelson Motta, não pode ser considerado algo similar.
Na verdade, o tal ponto de "ironia" já foi inventado. Por Alcanter de Brahm, no século XIX:
Alcanter de Brahm, pseudônimo de Marcel Bernhardt, foi um poeta francês.
Tempos depois, Hervé Bazin,em seu ensaio de 1966 "Plumons l'Oiseau", propôs uma ortografia quase fonêmica para a língua francesa. Com seis novos sinais de pontuação:

Na sequência:
– ponto de "amor"
– ponto de "certeza"
– ponto de "autoridade"
– ponto de "ironia" (2.º)
– ponto de "aclamação"
– ponto de "dúvida".

Acho que LFV estava ironizando. Pois usá-lo é como explicar uma anedota depois de contá-la.

Arquivo:
Sinais de pontuação pouco usuais
O papel do ponto final nas mensagens
Símbolos gráficos perdidos

18 março, 2019

Outro nível de abstração

No rescaldo do furacão Sandy, o estúdio cavernoso  de Ray Smith no Brooklyn, em um armazém perto do Canal Gowanus, era uma gigantesca piscina interior com seis pés de profundidade. Ali, suas enormes telas figurativas e suas totêmicas esculturas de madeira flutuavam a esmo, enquanto ele e seus assistentes tentavam desesperadamente drenar o estúdio, recuperando o que podiam de 30 anos de sua arte.
Todas as obras que estavam no estúdio no momento da tempestade sofreram algum dano. "Mas há algumas de que eu agora até gosto mais", diz Smith.
E o artista aponta para uma pintura em madeira de ondas colossais e espelhadas, ondulando umas para as outras, que ficou boiando na água por vários dias. Houve uma área em que a água, ao tornar a tinta temporariamente pegajosa, acabou proporcionando um outro nível de abstração.
"Eu nunca teria conseguido este efeito", diz ele sobre a atuação da água em um quadro que representa exatamente isto: ondas. "É agora uma pintura maravilhosa", acrescenta.

[https://learning.blogs.nytimes.com/2013/03/22/word-of-the-day-irony/]
[http://www.nytimes.com/2013/03/17/nyregion/ray-smiths-work-is-rescued-after-a-hurricane.html]

04 dezembro, 2017

A ironia do destino

É uma expressão popular usada para indicar um acontecimento inesperado e que serve para mostrar que nem sempre as pessoas controlam o que vai ocorrer em sua vida e na vida das outras pessoas.
A ironia do destino pode acontecer de muitas maneiras. Por exemplo, alguém comprar um circo e o anão começar a crescer.
Pior do que a ironia do destino só o sarcasmo do destino.

04 março, 2016

Na íntegra

Carta de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, a Winifred Stevens, em 22 de maio de 1887:

Minha querida Winnie,
Mas como você já deve estar cansada dessa longa carta, vou finalizar e assiná-la.
Carinhosamente,
CL Dodgson

O enigmático Lewis Carroll
[1] [2] [3] [4] [5] etc.

Contraditório
[...]
Peço desculpas por escrever-lhe uma carta tão longa. Eu não tenho tempo para escrever-lhe uma curta.
(atribuída na internet a Mark Twain ou Blaise Pascal ou, possivelmente, a Cícero)

03 novembro, 2015

Dirigido por Alan Smithee

Quando um diretor termina um filme, odiando-o (porque sofreu muitas interferências ou se envergonha com os resultados), e não quer ver o seu nome nos créditos, então, o que ele faz?
Até 2000, esses filmes órfãos foram creditados a "Alan Smithee."
"Alan Smithee" era o pseudônimo oficial usado por diretores de cinema, membros do Directors Guild of America, que desejavam negar suas obras.
Exigências para usar o pseudônimo: ele não poderia discutir sobre as circunstâncias que o levaram a tomar a decisão, nem mesmo reconhecer ter sido o diretor real.
Aqui estão alguns filmes que foram dirigidos por "Alan Smithee":
"Death of a Gunfighter" (1969)
"Let's Get Harry" (1986)
"Catchfire" (1990)
"An Alan Smithee Film: Burn Hollywood Burn" (1998)
"Supernova" (2000)

Muito Além das Câmeras
Filme: "An Alan Smithee Film: Burn Hollywood Burn" (1998)
Título no Brasil: "Hollywood - Muito Além das Câmeras"
Diretor: Arthur Hiller
História: O conceito de "Alan Smithee" se tornou tão famoso em Hollywood que, em 1998, o roteirista Joe Esterhaus escreveu esta sátira à indústria do cinema. O enredo trata da realização conturbada de um filme, dirigido por um homem cujo nome realmente é Alan Smithee. Ele tenta excluir o seu nome do filme, mas não pode porque, ironicamente, seu nome é Alan Smithee. O "Burn Hollywood Burn" teve uma produção tão conturbada e cheia de interferências do estúdio, que o diretor Arthur Hiller demandou e conseguiu creditar o filme a Alan Smithee.
Considerado como um dos piores filmes de todos os tempos, ganhou cinco prêmios (incluindo o Pior Filme) no "Framboesa de Ouro", de 1998. O filme teve um orçamento estimado em 10 milhões dólares e, lançado em 19 salas de cinema, arrecadou 52.850 dólares.
Este filme levou o Directors Guild of America a interromper oficialmente o crédito Alan Smithee em 2000.
Fontes
Neatorama, The Presurfer e Wikipédia

03 abril, 2015

Não é irônico? Provavelmente não

por BOB HARRIS, The NYT
Em "Reality Bites", Winona Ryder, candidata a um emprego num jornal, fica perplexa quando lhe pedem para "definir ironia'. É uma boa questão. Ryder responde: "Bem, eu realmente não posso definir ironia ... mas eu sei o que é uma ironia quando eu vejo isso".
Sério? Ironia confunde.
A ironia requer um sentido de oposição entre o que é dito e o que está previsto. Parece simples, mas não é. Um paradoxo, algo que parece contraditório mas pode ser verdade, não é uma ironia. O stylebook do "Times" oferece conselhos úteis.
"O uso livre de ironia e, ironicamente, para significar uma virada incongruente de eventos, é banal. Nem todo coincidência, curiosidade, estranheza e paradoxo é uma ironia, mesmo vagamente. E onde ela existe, como na escrita sofisticada, conta com o leitor para reconhecê-la."
A canção "Ironic", de Alanis Morissette (foto), é igualmente útil.Se chover no dia do casamento, que é uma coincidência, não uma ironia. Se você ganhar na loteria e cair morto antes de reivindicar o dinheiro, é boa sorte seguida de má sorte. Se você encontrar o homem dos seus sonhos e depois conhecer sua linda esposa, é uma chatice. Mas, se uma canção chamada "Ironic" não contém nenhuma ironia, é que é, em si, irônico?
Não. Depende da intenção do criador. Então, como foi sugerido, se Morissette propositadamente escreveu uma canção chamada "Ironic" que não contém qualquer ironia, é que irônico?
Podemos estar nos aproximando. Sabe a ironia quando você vê isso?

Há algum tempo escrevi o texto abaixo, porque alguns amigos diziam que eu era "irônico" e outros que meu "sarcasmo era destrutivo. Finalizando: tentei colocar as coisas no devido lugar. Nem sei se consegui. E o texto estava guardado até hoje.
Fernando Gurgel
Ironia, sarcasmo, escárnio... e o cinismo
Parecem sinônimos. E a sua utilização numa discussão, palestra ou mesmo em uma conversa informal com amigos deve ser feita com muito cuidado, pois a entonação pode ser determinante para rirmos ou para perdermos o amigo, os ouvintes etc.
O sarcasmo e o escárnio estão mais próximos entre si, pois em qualquer situação são destrutivos e tentam mostrar, no mínimo, a indiferença com que o assunto ou pessoa objeto da frase é tratado.
A ironia é mais sutil. Talvez mais sábia, por não ser tão destrutiva, mas também dá a entender que o objeto da ironia não merece tanta seriedade assim. Em uma apresentação ou manifestação oral talvez não produza um efeito tão devastador quanto o sarcasmo ou o escárnio, pois normalmente o modo como se fala dá o tom e a diferença de significados.
Mas a diferença entre ser sarcástico e ser irônico pode ser tão sutil quanto a diferença entre a própria ironia e o seu significado verdadeiro.
Em textos escritos, onde não estão presentes a entonação nem os gestos do autor, apenas o contexto pode nos dar o real significo da frase, mesmo as mais divertidas.
O perigo é o uso fora do contexto, pois algumas frases irônicas, fora do contexto, podem parecer vis, preconceituosas, debochadas. Ainda mais quando não conhecemos a formação e os princípios morais do autor.
Por exemplo, podemos esperar de um Cínico que ele aja com desprezo pelo padrão estabelecido em uma sociedade. Assim, ele tanto pode ser irônico, expressando sua opinião com sutileza, ou pode ser sarcástico, tentando demolir as bases da argumentação que lhe é contraria.
Creio que aí está a verdadeira diferença entre um significado e outro. A ironia pode estar presente onde há opiniões divergentes, mas é mais persuasiva. O sarcasmo e o escárnio são destrutivos, atingem as ideias e as pessoas que lhes são oponentes.
O Cinismo foi uma escola filosófica grega que pregava o total desapego aos bens materiais.
Esta filosofia levou os indivíduos a uma total indiferença a todas as convenções sociais, bem como a toda e qualquer regra de conduta, e o estilo de vida de seus praticantes era tido como amoral, debochado e irônico.
Como agiam com sarcasmo em relação a todos e a tudo que não fazia parte do seu círculo filosófico, passaram a ser confundidos com indivíduos totalmente sem escrúpulo. Sem ética, enfim.
Daí o cinismo passou a ter conotação de pessoa desonesta, sem pudor e com uma imensa cara de pau e que ainda debocha dos que a critica.
Dentro da ampla variedade do cinismo, creio que seria correto dizer que todo cínico deve ter profundo desapego às regras de conduta. Porém, e isto é que diferencia um Cínico por filosofia de um cínico por desonestidade, todo cínico verdadeiro deve, em primeiro lugar, ter profundo desapego aos bens materiais.
Então, o cínico pessoa desonesta, em seu deboche acaba usando mais do sarcasmo do que de ironia.
Porém, dependendo do contexto e do objetivo a ser alcançado, a ironia pode ser tão demolidora e destrutiva quanto o sarcasmo e o escárnio. Funciona tal e qual o humor, a caricatura, o teatro burlesco e as peripécias dos palhaços de circo.
Isto porque têm o poder de abrir as resistências e chama a atenção, de forma engraçada, para coisas sérias que, de outra forma, não teria o mesmo apelo nem atrairia a mesma simpatia.

21 outubro, 2014

Prefácios interessantíssimos

O "prefácio interessantíssimo" é o prefácio de Mário de Andrade ao seu próprio livro Pauliceia Desvairada, considerado a base do modernismo brasileiro. O prefácio não fala do livro, mas sim de uma atitude geral perante a literatura. É uma espécie de manifesto poético, em versos livres. No início do prefácio, ele próprio denuncia a sua atitude. Depois de afirmar que "está fundado o Desvairismo", afirma que o seu texto é meio a sério, meio a brincar. O que lhe dá um caráter inconfundível de, por um lado, programa poético e, por outro, paródia. Assim o sério e o divertimento se misturam num todo sem fronteiras definidas. Repare-se, ainda, que é um texto muito assertivo, provocativo e polêmico, como é característico do Modernismo.
+ + +
Sobre um certo historiador
"Ele nunca completou a sua História de Éfeso, mas seu nome foi mencionado em vários prefácios." ~ W. Craddle

26 agosto, 2014

A ironia de Machado de Assis sobre a Abolição da Escravidão

Em 19 de maio de 1888, poucos dias após a Abolição da Escravatura, ocorrida oficialmente a 13 de maio de 1888, Machado de Assis publicou no jornal Gazeta de Notícias essa crônica (na verdade um pequeno conto irônico).
Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. (*) Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
- Oh! meu senhô! fico.
- …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
- Artura não qué dizê nada, não, senhô…
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-reis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-reis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.
(Texto extraído do livro; Assis, Machado de. Obra Completa, Vol III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 – 491)
(*) Achteraf is het makkelijk praten. No retrospecto é fácil falar. Machado vai ficar devendo essa: a mim e ao Tradukka.

20 agosto, 2014

Que houve com a ironia?

Ocorre-me o seguinte:
Escreves um tweet ou publicas uma frase no Facebook, repleta de sagacidade, humor sutil, que fará com que todos teus amigos e seguidores queimem os mouses de tanto retuitear e clicar likes. Contudo, passa desapercebida. Ou, o que é pior, o pessoal te responde seriamente, sem entender a fina ironia de teu enunciado. "Deverias ter colocado um smiley no final?", pensas enquanto decides se apagas o frustante comentário.
Que explicação encontras para o que aconteceu?
  1. O modo online de consumir informação matou a ironia.
  2. Todos os teus amigos são subnormais.
  3. Todos os teus seguidores são sub-subnormais.
  4. Ninguém lê nada além do título.
Siga lendo La ironía ha muerto, por Javier Salas

Prossiga lendo Ferramenta computacional detecta humor e ironia na linguagem

Slideshows do PG - Apresentação 332

25 abril, 2014

A história repetida como farsa

Quando interpretava o personagem Aquiles, no filme Troia, de 2004, Brad Pitt sofreu uma lesão durante as filmagens.
No tendão de Aquiles esquerdo.

Por exemplo, um guerreiro grego, naquilo que ele tinha de mais frágil, emprestar o nome ao mais robusto tendão do corpo humano. O guerreiro Aquiles, e chega a ser irônico o fato.
Dr. Carta Pácio, O loteamento humano

11 janeiro, 2014

O Prêmio Doublespeak

O Prêmio Doublespeak foi criado em 1974 pelo Conselho Nacional de Professores de Inglês dos Estados Unidos. Como a entidade define, trata-se de uma “homenagem irônica a oradores públicos que perpetuaram uma linguagem grosseiramente enganosa, evasiva, eufemística, confusa ou autocentrada”.
Nesses 40 anos, a lista de premiados incluiu Bushs pai e filho, Bill Clinton, o Departamento de Estado norte-americano, Ronald Reagan, a indústria do tabaco, a Exxon e a Associação Nacional do Rifle.
A CIA também foi agraciada com a honraria por anunciar que não iria mais usar o termo “matar” em seus relatórios. Em seu lugar, entraria a expressão “privação ilegal ou arbitrária da vida”.
Ainda com a palavra o jornalista Paulo Nogueira, diretor-adjunto do excelente Diário do Centro do Mundo:
É preciso criar algo parecido aqui. O Prêmio CPBD, Conversa Para Boi Dormir. O primeiro vencedor é relativamente batata. Marina Silva. Pelo conjunto da obra e, especialmente, por seu último artigo na Folha. É um texto que cabe na definição de George Orwell em um ensaio: feito para dar “aparência de solidez a vento puro”.

01 dezembro, 2013

Controle da natalidade

"Atualmente, é permitido a uma mulher católica evitar a gravidez recorrendo à Matemática, embora ela ainda seja proibida de recorrer à Física ou à Química." - HL Mencken , Minority Report (1956)

Física e Química: a dança dos proscritos

O que é contracepçao? In: JORNAL LIVRE

24 junho, 2013

Transcendental

Um crítico cínico devolveu o manuscrito de um amigo com esta observação:
"Ele será lido quando Shakespeare e Milton forem esquecidos."
E acrescentou, cruelmente:
"Mas não até então."

Tit-Bits From All the Most Interesting Books, Periodicals and Newspapers in the World, 10 de dezembro de 1881

25 maio, 2013

Um exemplo de ironia

(apenas ilustrativo)


Pôr a mão sobre um livro de mentiras 
para jurar que vai dizer apenas a verdade.

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Ironia das ironias, Uma ironia espacial, A máquina de elogios e Ironias

15 abril, 2013

Ironia e humor na linguagem

Ferramenta detecta ironia e humor na linguagem
por Romulo Augusto Orlandini, Com Ciência
(publicado em 27/08/2012 / acessado em 21/09/2012)
Pesquisadores espanhóis criaram uma ferramenta que detecta ironia e humor nos comentários da rede social. O modelo, criado na Universitat Politécnica de Valencia (UPV), foca no Twitter para identificar o que é dito pelos usuários na Internet. O objetivo foi desenvolver modelos que permitissem identificar padrões linguísticos de como os internautas concebem e verbalizam fenômenos complexos como a linguagem figurada online.
A pesquisa é parte do trabalho do professor Paolo Rosso, do Laboratório de Engenharia em Linguagem Natural (Lab NLE), com o doutorando Antonio Reye na UPV. “Interessa-nos entender o que os usuários reais consideram ser um texto humorístico ou irônico”, disse Reyes.
A conclusão obtida foi que as características da linguagem funcionam como um “sistema”, sendo que não há uma particularidade linguística que caracterize um texto como irônico ou com humor. Para chegar aos resultados os pesquisadores consideraram quando os usuários utilizaram hastags como #ironia ou #humor para identificar as frases.
De acordo com artigo “From humor recognition to irony detection: The figurative language of social media”, escrito por Rosso, Reyes e também por Davide Buscaldi, da universidade francesa Paul Sabatie, alguns cenários foram revelados durante o estudo. Para os pesquisadores, ambiguidade estrutural, morfossintática ou semântica, polarização (entre negativo e positivo), usos inesperados da linguagem e cenários emocionais são alguns dos elementos utilizados por internautas para transmitir ironia ou humor. Um exemplo é o uso de comunidades profissionais como “gatilhos” irônicos, como na frase “estava tão frio no último inverno que eu vi um advogado com as mãos em seu próprio bolso” – ou fonológico, como na citação: “infantes não gostam de infância tanto quanto adultos de adultério”.
A ferramenta computacional poderá ser utilizada por empresas para coletar informações sobre como os internautas se referem a produtos e serviços disponibilizados.