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20 março, 2026

As quatro estações segundo Ver!ssimo

"O outono é a única estação civilizada. A primavera é o descontrole glandular da Natureza. O inverno é o preço que a gente paga para ter o outono, e por isso está perdoado. O verão é uma indignidade." (LFV)

18 novembro, 2021

Meu caro Chico — Depoimentos


O designer pernambucano Augusto Lins Soares está lançando pela Editora Francisco Alves o livro "Meu caro Chico — Depoimentos". O livro reúne 60 crônicas, ensaios, poemas, bilhetes e comentários em redes sociais sobre o compositor de olhos de ardósia. Foram escritos por ninguém menos que Luís Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Glauber Rocha, Rubem Braga, Antonio Candido, Augusto Boal, Cacá Diegues. José Saramago, Lula, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Teresa Cristina… Uma lista de personalidades de várias áreas que aqui se revelam seus admiradores.


ADMIRÁVEL CHICO, por Luís Fernando Veríssimo
Admiro o Chico desde que ele apareceu nos anos 1960, com "Ole olá". Aquela cara de garoto não combinava com suas primeiras melodias e suas letras incomparáveis, já tão engenhosas e inteligentes. Tudo o que Chico fez desde então – suas músicas, sua poesia, suas peças, seus romances – foi admirável, num nível sempre espantosamente alto. É tão difícil lembrar uma composição ou um texto do Chico que não mantenha o mesmo nível, quanto é difícil escolher uma canção favorita entre todas que ele produziu e continua produzindo (as minhas favoritas são "Samba do grande amor", "Sabiá", em parceria com o Tom Jobim, e "Sobre todas as coisas", em parceria com o Edu Lobo). Admirável também é o jeito do Chico de ser célebre e engajado sem ser autodeslumbrado nem panfletário. Durante a ditadura, foi dele a trilha sonora da resistência, driblando a censura, assegurando aos militares que, apesar deles, amanhã seria outro dia.
Temos nos encontrado pouco, bem menos do que eu gostaria, mas acho que posso dizer que somos amigos. Eu tocava saxofone numa banda de jazz em Porto Alegre e o Chico estava na cidade para um show. Ele e outros membros da sua banda foram nos ouvir no bar em que nos apresentávamos – e o Chico deu uma canja! Cantou "A Rita". Depois seu baterista nos diria que o “seu Chico” nunca fazia aquilo. Foi o maior momento na vida da nossa banda. E eu toquei com o Chico Buarque. Até hoje não sei o que fazer com essa frase. Acho que vou pedir que seja meu epitáfio.

Leia mais em: http://vejario.abril.com.br/beira-mar/trecho-inedito-livro-personalidades-chico-buarque/

Chico Buarque no catálogo da Livraria da Travessa: 83 livros e 12 DVDs

15 junho, 2021

À maneira do ABCDEtc.

O que é, o que é?
O que tem seis letras, nenhuma é vogal, mas duas já foram estrangeiras?
Resposta - QWERTY, e você precisa conhecer mais o seu teclado.

06 abril, 2020

Só mudar o suficiente

CLASSES
O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada.

DEMOCRACIA
Toda a história da democracia no Brasil é a história da educação da nossa elite na arte de não mudar nada, ou só mudar o suficiente para não perder o controle.

ELITES
O Brasil é governado por uma minoria esmagadora.

JEITINHO
Nós brasileiros somos, paradoxalmente, a raça do jeito pra tudo e a raça que não tem jeito mesmo.

MUDANÇAS
As nossas elites não mudaram muito desde dom João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.

PACIÊNCIA
No Brasil, as classes inferiores cumprem seu papel e dão às elites repetidos exemplos de bom senso, honestidade e, principalmente, contenção e paciência. Quando a paciência acaba – como na questão das invasões de terra –, não falta quem se sinta ultrajado, como se os pobres estivessem, irresponsavelmente, esquecendo as regras da etiqueta.

PRIVILÉGIOS
Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de qualquer casta dominante.

Ver!ssimas frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo / Luis Fernando Verissimo : organização Marcelo Dunlop : seleção de ilustrações Fernanda Verissimo e Fraga – 1ª ed. – Rio de Janeiro : Editora Objetiva. 2016.

25 agosto, 2019

Drauzio entrevista LFV

O Dr. fez o criador da Velhinha de Taubaté e do Analista de Bagé falar muito!



00:26 - Velhinha de Taubaté
01:38 - Começo no jornalismo
06:38 - Pai escritor
08:38 - Copy desk e publicidade
10:50 - Experiências musicais
14:39 - O Analista de Bagé
18:40 - Disciplina
20:13 - Braguilha aberta
21:12 - Romances
24:48 - Tecnologias
27:08 - Charlie Parker
28:23 - Influências
29:24 - Ditadura
34:15 - Saúde e ateísmo

12 abril, 2019

O ponto de "ironia"

Sabiam que em grego clássico não existia o sinal de exclamação?
Grego para mim é grego!
Salvo melhor informação, foi por influência da língua grega que, pouco a pouco, os sinais de pontuação foram sendo introduzidos nas línguas europeias.
Isto não quer dizer que a obra se tenha completado. Já que os idiomas ocidentais continuavam carentes de certos sinais de pontuação que representassem algumas emoções ou dessem novos sentidos às frases.
Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, sempre se queixou da falta do ponto de "ironia". E o "kkkkk", como a ele sugeriu Nelson Motta, não pode ser considerado algo similar.
Na verdade, o tal ponto de "ironia" já foi inventado. Por Alcanter de Brahm, no século XIX:
Alcanter de Brahm, pseudônimo de Marcel Bernhardt, foi um poeta francês.
Tempos depois, Hervé Bazin,em seu ensaio de 1966 "Plumons l'Oiseau", propôs uma ortografia quase fonêmica para a língua francesa. Com seis novos sinais de pontuação:

Na sequência:
– ponto de "amor"
– ponto de "certeza"
– ponto de "autoridade"
– ponto de "ironia" (2.º)
– ponto de "aclamação"
– ponto de "dúvida".

Acho que LFV estava ironizando. Pois usá-lo é como explicar uma anedota depois de contá-la.

Arquivo:
Sinais de pontuação pouco usuais
O papel do ponto final nas mensagens
Símbolos gráficos perdidos

25 janeiro, 2019

Tu e eu

Luís Fernando Veríssimo
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal
e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss,
eu, um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.

Dizes na cara
o que te vem à cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.

15 junho, 2016

Transbording

Luis Fernando Verissimo
Triste o país que tem vergonha da própria língua.
Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil.
— Isto é o que nos chamamos de entrance.
Entrance?
— Ou front door. Porta da frente.
— Ah.
— Aqui temos o living room e o dining room conjugados. Ou conjugated. Por aqui, a gourmet kitchen.
Kitchen é…?
— Cozinha, mas nós não gostamos do termo. Isto aqui é interessante: é o que chamamos de coffee corner, onde a família pode tomar seu breakfast de manhã. A gourmet kitchen vem com todos os appliances, e o prédio tem uma smart laundry comunitária.
— O que é smart laundry?
— Não tenho a menor ideia, mas é o que está escrito no flyer. E passamos para o corridor que leva ao master bedroom, ou suíte, em português. As camas podem ser king size ou queen size. Aqui temos o closet, que em português também é closet. E aqui temos esta giant window que dá para o garden do prédio, e o playground. Você tem kids?
— O quê?
Kids. Crianças.
— Ah. Não.
— O garden também tem uma green walk, que é uma trilha para passear entre as trees and tropical plants, e um infinity pool que é uma piscina que parece que está sempre transbordando, outransbording. Além disso, claro, existe um indoor pool, que faz parte do fitness center. Ah, e se comprarem o apartamento vocês automaticamente passam a fazer parte do party club, onde tem um barbecue pit.
Barbecue pit?
— Churrasqueira. E podem usar o working hub, que eu também não sei o que é, mas com esse nome só pode ser coisa fina.
— E a segurança...?
— Garantida dia e noite, ou twenty-four/seven.
— Porteiro?
— Sim, mas não chamamos de porteiro. Ele é um hall concierge.
— Tudo ótimo, mas não sei se vamos comprar o apartamento.
— Por que não?
— Ter que mostrar o passaporte, sempre, para entrar em casa... Sei não.

Glossário imobiliário

25 dezembro, 2014

O incrível e o inacreditável

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo
13/02/2014
"Incrível" e "inacreditável" querem dizer a mesma coisa - e não querem. "Incrível" é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom. Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando - a linha média do Execrável Futebol Clube.
Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do corner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.
Inacreditável seria o Jair Bolsonaro [1] na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase "ir de mal a pior".
Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana n.º 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr do sol que enleva.
Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.
Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.
Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.
Incrível é um solo do Yamandú. [2] [3]
Inacreditável é este verão.

17 agosto, 2013

Picasso e os nazistas

Caricatura de Picasso: veio daqui.
Quando o Homero disse (se é que disse mesmo, nada que se sabe de Homero é cem por cento certo, nem a sua existência) que as guerras aconteciam para serem cantadas pelos poetas, não queria dizer que a arte compensava tudo. Ou queria? Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro Guernica, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: "Ah, foi você que fez isso, não foi?". Ao que Picasso (◄) teria respondido: "Não, foram VOCÊS que fizeram isso". Por um tortuoso raciocínio homérico se poderia concluir que os alemães foram coautores da pintura.

Extraído da magnífica crônica Compensações, do magnífico Luis Fernando Veríssimo.

09 agosto, 2013

Veríssimo pede desculpas

Devo um pedido de desculpas à grande imprensa nacional. Me desculpe, grande imprensa nacional. Quando li a matéria da “IstoÉ” sobre o cartel consentido formado em São Paulo para a construção de linhas de trem e metrô sob sucessivos governos do PSDB e as suspeitas de um propinoduto favorecendo o partido, comentei com meus botões (que não responderam porque não falam com qualquer um): essa história vai para o mesmo pântano silencioso que já engoliu, sem deixar vestígios, a história do mensalão de Minas, precursor do mensalão do PT.
E não é que eu estava enganado? A matéria vem repercutindo em toda a grande imprensa. Com variáveis graus de intensidade, é verdade, em relação ao tamanho do escândalo, mas repercutindo. Viva, pois, a nossa grande imprensa. Já se começava a desconfiar que o Brasil, onde inventam tanta novidade, tinha adotado, definitivamente, dois sistemas métricos diferentes.
Prossiga lendo...
Luis Fernando Veríssimo

Emanações do pântano silencioso
O propinoduto do tucanato paulista com dinheiro da Siemens, IstoÉ
Um propinoduto criado para desviar milhões das obras do Metrô e dos trens metropolitanos foi montado durante os governos do PSDB em São Paulo. Lobistas e autoridades ligadas aos tucanos operavam por meio de empresas de fachada.
Trens e Metrô superfaturados em 30%, IstoÉ
Ao analisar documentos da Siemens, empresa integrante do cartel que drenou recursos do Metrô e trens de São Paulo, o Cade e o MP concluíram que os cofres paulistas foram lesados em pelo menos R$ 425 milhões.
Serra deu uma patada atômica nos paulistas, por Paulo Nogueira, DCM
Com cinco anos de atraso, a Folha coloca Serra na manchete no escândalo do metrô.
Escândalos do PSDB represados por 19 anos inundam o JN
Abaixo, a matéria lida por Willian Bonner e Patrícia Poeta durante longos minutos, possivelmente um recorde de veiculação de notícia incômoda para o PSDB. É longa, mas quem não assistiu a edição do JN da última quinta-feira (8), poderá ainda ver a matéria neste vídeo, que é surpreendente tanto pela duração quanto pelo conteúdo.