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22 junho, 2022

O papel de parede de Oscar Wilde

A jornalista e romancista Claire de Pratz tornou-se amiga de Oscar Wilde durante seu último período em Paris. Wilde morreu em 1900. O escritor Léon Guillot de Saix entrevistou Pratz e outros para um artigo intitulado "Souvenirs Inédits Sur Oscar Wilde" ("Memórias Inéditas sobre Oscar Wilde"), que publicou no periódico semanal "L'Européen" de Paris, em 1929. Pratz contou a Saix sobre o quarto de hotel em que Wilde ficou durante seus últimos dias.
Ele morava em um quarto mobiliado miserável no Hotel d'Alsace, na rue des Beaux-Arts. E ele, que fora o esteta da nobreza londrina, sofreu terrivelmente com essa miséria para ele simbolizada pelo pavoroso papel de parede de "estilo moderno" com flores de chocolate em um fundo azul. 
"Veja, minha querida criança, disse-me ele, há um duelo de morte entre mim e o meu papel de parede. Um ou outro de nós tem que ir. Será meu papel de parede ou eu."
Outra fascinante peça de evidência indireta para a história do papel de parede apareceu no diário pessoal da influente figura literária irlandesa Lady Gregory. Uma entrada datada de 1928 referia-se a uma carta que ela havia recebido duas décadas antes, em 1908, do conhecido poeta irlandês William Butler Yeats:
"Recebi uma carta de Paris, de dezembro de 1908, de WB Yeats. Diz que conheceu na casa de Maud Gonne, ontem à noite, um amigo de Oscar Wilde que lhe contou uma estranha e heróica história sobre Wilde. Ele morreu em grande agonia, enfiando a mão na boca para parar de chorar. Ele estava em grande pobreza, muitas vezes sem dinheiro para comprar comida, e declarou que era seu papel de parede que o estava matando. 'Um de nós precisava ir', disse ele."

03 abril, 2021

Um estatístico acidental

George E. P. Box (18/10/1919, Kent, Inglaterra – 28/03/2013, Madison, Wisconsin), após ser longamente aplaudido de pé, por uma multidão de centenas de fãs, no JMP Discovery Summit, em 2009, onde fora discursar sobre suas relevantes contribuições na área da Estatística:
"Eu me sinto como o filho do sultão em seu 21º aniversário quando foi presenteado com 21 virgens. Eu sei o que fazer. Só não sei por onde começar!"
\o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o /

An Accidental Statistician
George Box, 2010
😃 Eu quero contar como eu virei um estatístico. Eu nasci, é claro, na Inglaterra, e em 1939 ... quando a guerra estourou em setembro daquele ano, embora eu estivesse perto de me formar em Química, abandonei o curso e entrei para o Exército. Eles me colocaram no Engineers (e quando vejo uma ponte, ainda me pego calculando onde colocaria as cargas para explodi-la).
Antes que eu pudesse realmente fazer qualquer coisa, fui transferido para uma estação experimental altamente secreta no sul da Inglaterra. Na época, eles bombardeavam Londres todas as noites, e nosso trabalho era ajudar a descobrir o que fazer se, uma noite, eles usassem gás venenoso.
Alguns dos melhores cientistas da Inglaterra estavam lá. Fiz muitos experimentos com pequenos animais, eu era um assistente de laboratório fazendo determinações bioquímicas, meu chefe era um professor de fisiologia fardado de coronel, e eu estava fardado de sargento.
Os resultados que estava obtendo eram muito variáveis e disse ao meu coronel que o que realmente precisávamos era de um estatístico.
Ele disse: "Não podemos conseguir um, o que você sabe sobre isso?" Eu respondi:"Nada, uma vez tentei ler um livro de alguém chamado Fisher, mas não entendi". Ele prosseguiu: "Você leu o livro, é melhor entendê-lo", então eu disse: "Sim, senhor". [...]

21 agosto, 2013

Sem explicação

MEMÓRIAS
COMO ESTE HOMEM CONSEGUIU SER O PRESIDENTE 
DE UM PAÍS DE RELATIVA IMPORTÂNCIA?

27 dezembro, 2012

UTI e Praia da Pipa

Registro o recebimento em minha residência destes dois livros enviados por seus autores:
TERAPIA INTENSIVA NO CEARÁ. UTI - LUGAR DE VIDA, de Joel Isidoro Costa e Luiza Helena Amorim, que trata da evolução da terapia intensiva, da implantação das UTI no Brasil, da história da terapia intensiva no Ceará, da formação em terapia intensiva e da regulamentação dessa especialidade, da criação da sociedade e da cooperativa dos médicos intensivistas no Ceará, da crise nas UTI e da situação atual da medicina intensiva no Ceará, dentre outros tópicos. Com esta obra, o médico intensivista Joel Isidoro e a jornalista Luiza Helena produziram a mais importante referência em nosso Estado, quiçá no Brasil, sobre os aspectos históricos e administrativos da terapia intensiva. No terceiro capítulo do livro, das páginas 39 a 41, os autores me surpreendem com a transcrição do meu relato A UTI Respiratória do Hospital de Messejana, originalmente postado neste blog em 19 de novembro de 2006.
A PRAIA DA PIPA DO TEMPO DOS MEUS AVÓS, de Ormuz Barbalho Simonetti, com histórias vivenciadas pelo autor em seus veraneios na Praia da Pipa, Rio Grande do Norte. Reunidas em mais de 400 páginas, juntam-se a essas histórias (que remontam a "um tempo da delicadeza") preciosas informações sobre os costumes, a culinária, a geografia, a fauna e a flora da região. Cada capítulo traz ainda apreciações dos leitores do blog Genealogia e História, no qual o autor antecipou, sob a forma de postagens, muitas das crônicas enfeixadas no livro. Ormuz, que é também genealogista, prepara para publicação um livro sobre a família GURGEL. Aproveite para ver, em Linha do Tempo, os vídeos de sua recente entrevista para o programa "Conexão Potiguar".
Aos autores: agradeço os livros enviados e acrescento que estou lendo-os com grande interesse e prazer.

05 dezembro, 2012

O público, o privado e os interesses da família

Os jornais destacaram a fala de FHC em um seminário, em que criticou subrepticiamente Lula por misturar o público e o privado. Seria cômico, se não … Mesmo nos comentários anti-FHC poucos lembraram do quanto ele misturou o público e o privado. FHC sabe bem do que fala. Afinal, como presidente da República, nomeou o então genro David Zylbersztajn como diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (sem nem passar pela sabatina do Congresso) e para o Conselho Administrativo do Banco do Brasil. Também garantiu emprego para o filho Paulo Henrique no comissariado-geral responsável pelo pavilhão do Brasil na Expo 2000, na Alemanha. O comissariado, criado por decreto presidencial, geriu projeto orçado em R$ 14 milhões, mas realizado por 18 milhões, com recursos públicos. Para montar o estande foi contratada (sem licitação), por R$ 13,7 milhões, a Artplan Prime, uma agência de publicidade (!) dirigida por Fernanda Bornhausen Sá e Ricardo Dalcane Bornhausen, filha e sobrinho do então senador Jorge Bornhausen, na época presidente do então PFL (aliado do governo e hoje renomeado DEM). E olha que nem falei na “boquinhas” que Fernando Henrique conseguiu para o mesmo filho nas ex-estatais Companhia Siderúrgica Nacional na Light. Tudo isso enquanto ocupava a Presidência da República. Temos que reavivar essas memórias.
Manuel Henrique, leitor do Diário do Centro do Mundo

Já ao fazer insinuações sobre os “interesses de família”, FHC deveria evitar este falso caminho moralista. Muitos ainda se lembram da filha do ex-presidente, Luciana Cardoso, a “funcionária fantasma” do Senado que prestava serviços a Heráclito Fortes (DEM-PI). Outros também se lembram do filho de FHC, Paulo Henrique Cardoso, que ganhou uma concessão de tevê e se tornou testa de ferro do grupo estadunidense Walt Disney Company – burlando a legislação brasileira sobre meios de comunicação.
Há também o caso do ex-genro David Zylbersztajn, que foi nomeado pelo sogro para presidir a Agência Nacional do Petróleo e virou consultor de poderosas multinacionais petrolíferas. Ele foi um dos mentores da proposta de transformar a Petrobras em “Petrobrax” para facilitar a sua privatização. Isto para não falar do filho bastardo com a jornalista Miriam Dutra, que a TV Globo exilou na Europa e que depois FHC descobriu que não era seu. De fato, há muita confusão entre os “interesses de família e o interesse público”.
Altamiro Borges, Blog do Miro

O que é mais vergonhoso para um presidente da República? Ter as ações de seu governo investigadas e os responsáveis, punidos, ou varrer tudo para debaixo do tapete? Eis a diferença entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva: durante o governo do primeiro, nenhuma denúncia – e foram muitas – foi investigada; ninguém foi punido. O segundo está tendo que cortar agora na própria carne por seus erros e de seu governo simplesmente porque deu autonomia aos órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o Ministério Público. O que é mais republicano? Descobrir malfeitos ou encobri-los?
FHC, durante os oito anos de mandato, foi beneficiado, sim, ao contrário de Lula, pelo olhar condescendente dos órgãos públicos investigadores. Seu procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, era conhecido pela alcunha vexaminosa de “engavetador-geral da República”. O caso mais gritante de corrupção do governo FHC, em tudo similar ao “mensalão”, a compra de votos para a emenda da reeleição, nunca chegou ao Supremo Tribunal Federal nem seus responsáveis foram punidos porque o procurador-geral simplesmente arquivou o caso. Arquivou! Um escândalo.
Cynara Menezes, CartaCapital

Temos que reavivar outras memórias
Sem gravar pode
Os calotes do iFHC
Só para comparar
Até que enfim
O pseudocaçador de cupins

09 fevereiro, 2012

O fantasma

Fernando Gurgel Filho
Sempre fui um medroso corajoso. Lembro que, ainda criança, quando tinha ainda a altura de uma mesa de jantar - não cresci muito depois disso, não - fui à cozinha beber água. Atravessei a sala de jantar, que não tinha nenhuma divisória com a cozinha, e me dirigi ao filtro de água.
A cozinha era separada do quintal apenas por um alpendre e, de dia, com a porta da cozinha aberta, podia-se avistar até o fundo do quintal. Naquele momento era noite e estava escuro. Era praticamente impossível ver-se qualquer coisa no quintal, mas divisei algo como um vulto se mexendo na direção da porta, que estava aberta.
Mesmo com o coração na boca, batendo mais forte que zabumba em forró, fui devagarinho conferir aquela visão. Sai do alpendre tentando ver algo naquela escuridão impenetrável, quando uma coisa enorme se destacou da escuridão e parecia vir na minha direção. O medo crescente chegou ao limite. Corri feito um desesperado.
Na corrida dei de frente com a mesa de jantar, ou seja, na ponta da mesa e cai sentado. Levantei e logo estava todo ensanguentado, com um furo do lado esquerdo da testa, que conservo de lembrança até hoje.
Conclusão, mesmo tendo coragem de conferir a origem do medo, este ultrapassou o limite aceitável pelas pernas, que me levou para longe. E o vulto? Era apenas um lençol branco estendido no varal.
Muito tempo depois - bota tempo nisso! - estava viajando de carro e, como não gosto de dirigir à noite, quase sempre paro em algum hotel ao anoitecer.
Numa dessas paradas, que não lembro em qual cidade muito menos em qual hotel ficamos hospedados, chegamos bem tarde.
Após todos tomarem banho, jantamos, demos uma volta na pracinha próxima ao hotel e fomos dormir.
Como estava morto de cansado, quando deitei, apaguei completamente.
De madrugada, acordei com sede e com vontade de urinar.
Sem acender as luzes do quarto, me dirigi primeiro ao banheiro, devagar, meio sonolento, cabeça vazia, quase sonâmbulo, parecia que apenas o instinto me guiava.
Acordei totalmente quando levei a mão à maçaneta do banheiro e vi, na penumbra, uma outra pessoa que estendia a mão na direção da minha.
Dei um salto e quase caí em cima de uma das camas.
Apenas depois do susto lembrei que o banheiro tinha um espelho enorme cobrindo quase toda a porta.
Creio que fui o primeiro ser humano a ver o próprio fantasma e fugir da própria figura.

30 junho, 2011

Mal-entendidos

1. Primeira revisão depois da operação de catarata, a senhora espera pacientemente para ser atendida pelo oftalmologista.
De tempos em tempos, vem uma atendente e pinga colírio para dilatar a pupila.
Depois de concluído este procedimento, vem outra atendente para verificar se a dilatação teve êxito e, se for o caso, levar a paciente para o exame médico.
A atendente aproxima-se toda risonha e falante:
- Bom dia, Dona Gumercinda, como é? a senhora já foi dilatada?
- Fui não, minha filha, é que sou gordinha assim mesmo!
E caiu na gargalhada.

2. No consultório oftalmológico a recepcionista pergunta ao paciente o motivo de sua visita.
- É que eu não paro de ver manchas na frente dos meus olhos, queixa-se o homem.
- O senhor já viu algum médico?, pergunta a recepcionista.
- Não, minha filha, só manchas mesmo.

3. Outro dia, estava assistindo a um famoso programa de músicas de raízes, por onde passam bons e autênticos músicos caipiras. Depois da apresentação de um grupo que foi um verdadeiro sucesso, o apresentador do programa, despediu-se:
- Brigado, meus irmãos. Cês voltam hoje pra aquela nossa cidade tão formosa e tão cheia de artistas, né?
Nem deixou o pessoal responder e emendou:
- Cês vão de avião, né? Que o São..., São... Como é mesmo o nome do santo que protege os viajantes de avião? Das estradas é São Bartolomeu...
Um integrante da banda - não vou dizer se é feminino - tascou:
- Acho que é o Santos Dumont!
- Não, tenho certeza que não é este, não, Santos Dumont foi o "descobridor" da aviação.
Juro que ouvi esse diálogo! Juro, também, que a turma parecia estar falando sério. Não era gozação, não.
Tou com vergonha por eles até hoje.

por Fernando Gurgel Filho, de Brasília
4.
Blog Diário de um Solitário

16 maio, 2011

Acontecimento na Videira


por Fernando Gurgel Filho (recontado e transplantado para a Chapada)

Maior incêndio que já se viu na Chapada dos Viadeiros.
Os bombeiros foram chamados imediatamente, mas o fogo estava cada vez mais forte e os bombeiros não conseguiam dominar as chamas.
A situação já estava ficando fora de controle, quando alguém sugeriu que acionassem o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal.
Apesar de alguma dúvida quanto à real necessidade, seria mais uma forma de auxílio. Assim foi.
Os bombeiros do DF chegaram num caminhão usado, desgastado pelos anos e operações de combate, mas bem equipado e brilhando como novo.
Passaram em grande velocidade e dirigiram-se em linha reta para o centro do incêndio! Foram mesmo até ao meio das chamas e pararam. Estupefata a população assistiu a tudo. Os bombeiros saltaram todos para fora do caminhão e começaram a pulverizar freneticamente em todos os sentidos. Como estavam mesmo no meio do fogo, as chamas dividiram-se, e restaram duas porções facilmente controláveis. Impressionado com o trabalho dos bombeiros candangos, o dono de um hotel da região respirou de alívio quando viu a sua propriedade ser poupada à devastação das chamas. Em grande cerimônia cívica na cidade fez uma doação inédita de R$ 50 mil. Um repórter do jornal local perguntou logo ao comandante da corporação:
- Cinquenta mil reais! Já pensou o que a corporação vai fazer com o dinheiro?
- Penso que é óbvio, não é? - responde o comandante da operação, ainda com o capacete chamuscado - A primeira coisa que vamos fazer é arrumar a porra do freio do caminhão e comprar pneus!!!

24 maio, 2009

O Francisco

Paulo,
Ao mencionar meu pai (postagem de 17/05), devo-lhe um agradecimento duplo: pela gentileza e pela lembrança de desencavar um texto que fiz há tempos. Mando pra você uma cópia que se aplica a todos que tiverem a sorte de ter um pai maravilhoso.
Nelson Cunha

"Cavalgava sobre seus ombros, abraçando-lhe a cabeça. Era todo o mundo de uma criança de sete anos: uma cabeça de pai molhada pelo sereno da madrugada. Guardo ainda o seu cheiro de bilhantina misturado ao das  velhas candeias  de Ouro Preto-MG.
Escuto minha mãe dizendo:

- Cunha ! Põe este menino no chão, está fingindo dormir para ser carregado.
Ele, fingindo acreditar, resistia, e ofegante subia as ladeiras desfrutando daqueles momentos tão íntimos: um filho melosamente abraçado ao pai. Em casa retirava-me os sapatos, ajeitava-me o cobertor  e abaixando-se dizia-me no ouvido:
- Sei que estás acordado.    
E, em seguida, o beijo de boa noite.
O menino endiabrado às vezes esgotava sua paciência e levava boas chineladas, que começavam fortes e terminavam leves e arrependidas, quase carícias. O estalo do chinelo ia se calando diante do bater surdo do coração sensível do pai amoroso. Entristecia-se. Procurava os cantos e punha-se a me fitar de longe. São esses singelos e mágicos momentos que fazem a vida valer a pena.
Certa vez, foi do Ceará ao Rio de Janeiro por terra, quando eram de terra as estradas do Brasil. Queria assistir a formatura do filho de seu irmão Meton, a quem devia o apoio que tivera na adolescência. Fora internado às custas do seu irmão no Colégio Batista de Cachoeiro de Itapemirim-ES. Para ele, um telegrama só era pouco para demonstrar que não há distância que separe o homem honrado da sua dívida.
Uma montanha de afeto e gratidão.
Sempre apaixonado pelos irmãos e sobrinhos. Nos últimos tempos, com a aposentadoria, vivia para os Cunhas sob o olhar já menos enciumado de Lindaura conformada de que aquele homem  tinha uma missão terrena a cumprir. Mostrar que este mundo tem lugar para a bondade.  
No Golpe militar de 1964 foi chamado para ser o interventor em Crateús-CE onde serviu ao Exército. Recusou! Depois o ouvi dizendo:
- Lá fiz grandes amigos e não queria perdê-los. 
Sabia que o poder político quase sempre substitui as  amizades. Troca-se ouro velho por latão novo.
Ninguém lhe resistia. O bom humor era seu visgo. No quartel, o militar mais querido e respeitado. Era seguido como se andasse armado de bolinhas de pão. Os soldados passarinhos lotavam a sua ante-sala.
Parecia um confessionário e ele um Francisco.
Os seus últimos momentos foram  angustiados: recostado no alpendre lá de casa, desfalecendo-se,  faltava-lhe o ar expulso dos pulmões já inundados de sangue. O seu olhar pedinte dizia para minha mãe:
- Quero ficar um pouco mais nesta festa, não me deixe ir embora.  
Mamãe apenas lhe estendeu a mão e esperou o inicio daquela que seria a única segunda vida de todos. A  memória.
Esses Franciscos, pais de venturosos filhos, vivem dentro dos que os amaram em vida. Cinco anos passados, a sua lembrança me comove e choro.
Esse é meu pai, um anjo, Francisco."

Nelson,
Também tive a sorte. Com outro anjo, Luiz.
Um abraço em você, filho de Francisco.
Paulo Gurgel

23 janeiro, 2009

Cidade de Deus

Em 1970, vivi o mês de julho no Rio de Janeiro como participante do Projeto Rondon - VI. Naquela época, cursando o quinto ano da Faculdade Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), fui selecionado com outros universitários para essa atividade extracurricular.
Criado sob o lema de INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR, frase cunhada pelo grande desbravador Marechal Rondon, este projeto enviava grupos de universitários de uma região do Brasil para outras. Onde, com seus trabalhos voluntários, os jovens podiam aplicar os conhecimentos adquiridos em suas universidades. E, pelo contato com as comunidades de regiões que não conheciam, podiam também assimilar um pouco da realidade nacional (os "brasis" existentes no Brasil).
Evidentemente, havia propósitos outros da parte do governo federal quando, em 1968, criou o Projeto Rondon. Como, por exemplo, o de estabelecer uma aproximação com a comunidade universitária, em geral hostil ao regime de exceção que se implantara no país. 
Em Fortaleza, o então responsável pela coordenação do projeto chamava-se Major Renê. Ele podia ser encontrado numa das dependências da Reitoria da UFC, onde os estudantes não lhe dávamos trégua. Desejosos que estávamos de participar daquela edição do Projeto Rondon e, ao mesmo tempo, suspeitando de que não houvesse vagas suficientes para todos.
Quando embarcamos no ônibus que nos levaria ao Rio, constatamos que éramos poucos. Quatro estudantes do curso de Medicina, alguns mais de outros cursos (do Serviço Social, por exemplo), e o ônibus partiu com pouca gente para uma viagem que durou três dias até a Cidade Maravilhosa.
No local de destino, ficamos alojados no bairro Cidade de Deus, a nossa base de operações. Num grupo escolar com tamanho suficiente para abrigar mais de uma centena de rondonistas, pois havia participantes oriundos de muitas unidades da federação.
Os estudantes de medicina acompanhávamos os profissionais do posto de saúde da Cidade de Deus em suas rotinas. Por vezes, visitávamos os pacientes em suas casas. E o fato de locomovermos a pé pelas ruas de um bairro pobre, em nenhum momento, ofereceu perigo a qualquer de nós. Ah, os  tempos eram outros!
Nas horas de folga, aproveitávamos para conhecer outras regiões do Rio de Janeiro, os pontos turísticos inclusive. E acodem-me à memória os banhos frios matinais tomados nos banheiros coletivos, as refeições servidas em bandejões por soldados do Exército e a "publicação" de um jornal mural de fofocas (a que dei o nome de Marginália).
Numa noite, alguém nos trouxe o músico Nonato Buzar. Para que nos desse um show de voz e violão,  que encantou a todos. Um show que ele ilustrou com o relato de alguns fatos pitorescos do meio musical. Nonato Buzar, além de compositor, cantor e produtor musical, era uma das figuras de proa da Turma da Pilantragem, um movimento que foi efêmero na música popular brasileira.