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11 abril, 2023

Mudança e identidade (3)

A identidade sobrevive através da mudança – na verdade… ela sobrevive apenas através da mudança.
~ KA Appiah, Rethinking Identity

Os internautas de Teseu debatem

— Quando cada uma de suas células morre, uma parte de você morre com ela. Quando você é completamente substituído, é uma nova pessoa que pensa que é você em todos os sentidos. Tem todas as suas memórias, todos os seus hábitos, todos os seus pensamentos. Como um clone. Mas o velho você está morto. Se foi. Substituído. Então viva, viva agora, neste momento... antes de você partir também.

— Eu acho que você está errado. Já que se você morresse toda vez que fosse completamente substituído (isso dura cerca de 7 anos), você meio que desmaiaria depois de 7 anos. Então, para provar que você está errado, eu só tenho que ficar consciente por 7 anos.

— Cara, isso me atingiu com força. Nunca pensei tão profundo.

— Eu sempre considerei o software mais importante do que o hardware. Depois de um ponto, o hardware só importa para mim na medida em que ele pode executar bem o software. Eu sou o navio de Teseu, partes de minha mente e do meu corpo foram todas substituídas muitas vezes. Cada célula do meu corpo é uma cópia de uma cópia de uma cópia feita com novos materiais. Mas não sou apenas um computador de carne, sou uma configuração única e em constante mudança de software neurológico, com minhas próprias configurações altamente personalizadas e cache de memória. Se eu pudesse fazer uma cópia, haveria dois de mim, a cópia não teria menos direito de ser eu do que o original. Nós, com o tempo suficiente, provavelmente evoluiríamos para duas pessoas muito diferentes, mas ambos teríamos uma reivindicação igual à mesma identidade-raiz. Na minha experiência, as pessoas que insistem no contrário estão apenas sendo arbitrárias.

— Uma cópia exata teria igual direito à sua identidade-raiz, mas, a partir desse ponto, você e sua duplicata divergiriam, potencialmente, em pessoas substancialmente diferentes devido às experiências divergentes. O software está em constante evolução e a versão 4.0 pode nem se parecer com a versão 8.0.

— Quando eu era criança, decidi que era um buraco de rosca (significando que não sou nada), mas quem sou e o que sou são definidos por coisas que não são eu, assim como um buraco não é nada, mas definido pela rosca que não é o buraco em si. Sim, eu era um garoto estranho. Hoje em dia, penso em mim mais como um padrão de ondas.

— Por que um padrão de ondas?

— Porque não sou feito das mesmas partículas de antes, mas sou uma continuação da ação. Sou um animal com 46 cromossomos que continua replicando o mesmo padrão genético em cada nova célula. O que me faz eu é cada experiência que eu experimento. Eu sou a totalidade da minha própria história. Agora isso não foi difícil. Terminei. Por favor, posso agora ter meu prêmio Nobel de literatura?

05 agosto, 2020

Mudança e identidade (2)

Ao visitar o Templo do Pavilhão de Ouro em Kyoto (foto), Douglas Adams ficou impressionado como aquela estrutura do século 14 havia resistido à passagem do tempo. Seu guia japonês disse-lhe que o edifício não havia resistido; de fato, ele havia queimado duas vezes no século XX.

"Então, este não é o edifício original?", perguntou Adams.
"Claro que é."
"Mas foi queimado?"
"Sim."
"Duas vezes."
"Muitas vezes."
"E reconstruído."
"Claro. É um edifício importante e histórico."
"Com materiais completamente novos."
"Mas é claro. Foi incendiado.
"Então, como pode ser o mesmo prédio?"
"É sempre o mesmo prédio."

"Eu tive que admitir para mim mesmo que esse era, de fato, um ponto de vista perfeitamente racional, apenas partindo de uma premissa inesperada", escreveu Adams. A essência de um edifício é seu projeto, a intenção do construtor. Os materiais podem se deteriorar e serem substituídos, mas são apenas instanciações de uma ideia persistente. "Eu não podia me sentir totalmente confortável com essa visão, porque ela lutava contra minhas suposições básicas ocidentais", escreveu Adams, "mas eu entendi o ponto".

- Douglas Adams, "Last chance to see"
http://www.goodreads.com/quotes/742883-i-remembered-once-in-japan-having-been-to-see-the

John Locke perguntou: "Se eu continuar remendando os orifícios da minha meia até que nenhum material original permaneça, é a mesma meia?". 

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22 junho, 2018

Mudança e identidade


Sobre isso nos fez refletir o historiador, biógrafo e filósofo grego Plutarco (46 - 120 d.C.) durante quase 2.000 anos com o paradoxo do navio de Teseu, o mítico rei fundador de Atenas, filho de Etra e Eseo, ou, segundo outras lendas, de Poseidon.
"O navio em que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos e foi conservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero. Suas tábuas antigas foram removidas à medida em que introduziram madeiras novas e mais resistentes em seu lugar, de modo que o navio se tornou um exemplo permanente entre filósofos para discutir a questão lógica das coisas que sofrem mudanças. Um lado sustenta que o navio permanece o mesmo, e o outro diz que não".
Se o navio fosse preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero, isso significaria cerca de 300 anos.
Com tantas reformas, o navio era o mesmo?
E foi-se além. Se com a madeira velha construíssem outro barco idêntico, qual dos dois seria o original: aquele com as tábuas originais ou aquele que foi restaurado?

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42613187 (reescrito)
https://mundoestranho.abril.com.br/curiosidades/o-que-e-o-paradoxo-do-navio-de-teseu/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Navio_de_Teseu

02 setembro, 2011