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16 maio, 2025

Discurso sem verbos

D. Antônio de Macedo Costa*
"Primeira regra de estilo, uma das principais e porventura a mais esquecida de todas: naturalidade por oposição a afetações ridículas.
Quanto no galarim da fama réu deste delito e quantos oradores, aliás dignos de encômios pelos dotes singulares de seu engenho e imaginação, responsáveis perante a crítica sisuda, pela falta de uma nobre simplicidade de estilo e boleio das frases.
Muita atenção, orador noviço, para este ponto capital.
Nada de ornatos supérfluos, apegados como parasitas ocos a cada palavra: miserável ouropel por cima de pensamentos muitas vezes ocos e sem solidez. alguma, só para engano da vista de espíritos superficiais ou de mau gosto. Um brilho fosforescente e um deslumbramento passageiro, como o de um fogo de artifício, tal o único mérito desses campanudos oráculos do púlpito cristão.
Idéias porém sólidas e bem dosadas, ordem rigorosa de raciocínio, doutrinas exatas luculentamente expostas, isso nunca. Não assim Bossuet, os Bourdalouse, os Massilon e todos os outros grandes modelos da eloqüência do púlpito do grande século de Luís XIV.
Que nobre simplicidade! Que naturalidade sublime! Que opulenta sobriedade! Qual rio caudaloso por entre margens, ora severa e escarpadas, ora floridas e risonhas, mas sempre formosas de naturalidade, assim o pensamento desses famosos gênios, por entre a frase ora simples, ora mais ornada, sempre porém em relação com o assunto cheio de graças ingênuas, de louçainhas despretensiosas.
A cada um desses grandes gênios o seu merecimento próprio: a Bossuet sobretudo, em suas orações fúnebres, uma grandeza e majestade incomparáveis; ao nosso Vieira, apesar dos seus senões, uma sutileza, uma retentiva e uma fecundidade pasmosa; e assim os mais, cada qual com seus primores e as suas qualidades características, em todos porém a naturalidade e a simplicidade no seu último auge!
A frase sempre límpida, tersa, louçã; o estilo sempre acomodado ao pensamento, modestamente ataviado, sem arrebiques, sem enfeites pretensiosos e ridículos, sem todas essas lentejoulas tão em voga nas épocas de decadência literária.
Mas sobretudo no orador sagrado, no homem do Evangelho, no Ministro de Deus morto na Cruz, nada mais desairoso, em verdade, do que essas afetações de estilo! Ai! Onde aquele espírito dos varões apostólicos, onde aquela abnegação aos vãos ornatos da eloquência do mundo?
Ministros do Altíssimo, culpados desta espécie de profanação da palavra santa! Desgraçados de vós por este abuso tão estranho dos dons de Deus e das graças do nosso divino ministério! Mas nem mais palavra! Sobre desvios como estes, só lágrimas e muitas lágrimas!"
*D. Antônio de Macedo Costa (Bahia, 1830-1891) estudou em Paris e doutorou-se em Roma. Teólogo notável, foi bispo no Pará e juntamente com D. Vital de Oliveira (bispo de Olinda) combateu a Maçonaria. Ambos foram presos e anistiados após um ano e meio.
Fonte: Usina de Letras

16 fevereiro, 2024

O quêfobo Itamar Espíndola

Itamar Santiago de Espíndola (1917 - 1992) foi um advogado e escritor cearense. Membro dos mais atuantes da Academia Cearense de Letras, era um estudioso da Língua Portuguesa e tinha uma marca: ser quêfobo. Itamar escrevia sobre os mais diversos assuntos (pois era um polígrafo) sem utilizar-se do monossílabo "que".
Conheci Itamar Espíndola no Centro Médico Cearense, em 1982. Ao partiparmos de uma mesa-redonda de uma campanha (da qual fui um dos organizadores) contra o tabagismo. Em sua elocução, a par dos conhecimentos jurídicos demonstrados, Itamar mostrou possuir também o dom de grande orador.
Tempos depois, digitei e divulguei no Blog EM o texto "Números brincões", de autoria dele, o qual havia sido originalmente publicado a 09/04/88, em sua coluna "Vinhetas", no caderno "Fame" do jornal "O Povo". Como era do estilo de Itamar, o texto não apresenta a palavra "que", partícula considerada por ele como afeadora da Língua Portuguesa.

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14 março, 2023

Pifilologia

A pifilologia compreende a criação e o uso de técnicas mnemônicas para lembrar os muitos dígitos da constante matemática π. A palavra é um jogo com a própria palavra "pi" e o campo linguístico da filologia.
Existem muitas maneiras de memorizar π, incluindo o uso de "piemas" (um termo formado pela combinação de "pi" e po"ema"), que são poemas que representam π de forma que o comprimento de cada palavra (em letras) represente um dígito. 
Aqui está um exemplo de um "piema" em inglês: "Now I need a drink, alcoholic of course, after the heavy lectures involving quantum mechanics" (Agora eu preciso de uma bebida, alcoólica é claro, depois das palestras pesadas envolvendo mecânica quântica). Observe como (em inglês) a primeira palavra tem três letras, a segunda palavra tem uma, a terceira tem quatro, a quarta tem uma, a quinta tem cinco e assim por diante.
No "piku", são seguidas as regras do haicai convencional (três linhas de 5, 7 e 5 sílabas), mas com o truque mnemônico adicional de que cada palavra contenha o mesmo número de letras que os numerais de pi. Por exemplo:
"How I love a verse / Contrived to unhusk dryly / One image nutshell" (Como eu amo um verso / Concebido para descascar secamente / Uma imagem resumida).
Em exemplos mais longos, palavras de 10 letras são usadas para representar o dígito zero, e essa regra é estendida para lidar com dígitos repetidos quando em "pilês" (um tipo de escrita restrita). O conto "Cadaeic Cadenza" registra os primeiros 3.834 dígitos de π dessa maneira, e um romance de 10.000 palavras, "Not A Wake", foi escrito de acordo.
E, na língua que Gilberto Gil chorou no exílio, pifilólogos lusofalantes também contribuíram:
"Cai a neve e novas ferrovias de marfim serão por casas trocadas."
(com 11 casas decimais).
"Sou o amor,
o homem impetuoso da libido.
Homem que ataca mulheres atraentes,
meninas pecadoras que no céu imiscuem amor, paixão, fé, desejo, tudo!"
(parte inicial de um "piema)