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24 novembro, 2025

O último navio de guerra dos Papas

O Bispo de Roma tinha poder temporal significativo pelo menos desde o Papa Milcíades, uma tendência que geralmente se acelerou (com interrupções, bizantinas e outras) até que os domínios papais reuniram sua própria marinha para combater invasores muçulmanos em 849. Os papas mantiveram intermitentemente forças navais, além de exércitos, nos séculos seguintes.
A partir da década de 1840, a unificação gradual da Itália oprimiu os Estados Pontifícios e suas forças armadas. O último navio de guerra a servir na Marinha Pontifícia (Marina Pontifica) foi uma corveta a hélice construída pelos britânicos em 1859 e batizada de Immacolata Concezione. De acordo com um artigo de 1963 publicado nos Anais do Instituto Naval dos EUA, ela possuía 8 canhões de 18 libras e uma cabine muito confortável, construída com as viagens do Papa em mente. A tripulação de 46 pessoas, porém, tinha como principal missão proteger os direitos de pesca dos Estados Pontifícios.
Em 1870, o Reino da Itália invadiu os Estados Pontifícios e, digamos, convenceu o Papa Pio IX de que o poder temporal dos Bispos de Roma havia chegado ao fim. A Immacolata Concezione foi integrada à Marinha Real Italiana. Posteriormente, entrou em serviço na França. O destino exato da embarcação é incerto, mas foi definitivamente o último navio de guerra a navegar sob a bandeira papal.

26 abril, 2024

"Cisne Branco"

A palavra mais mal escolhida, pior que o "heróico brado/herói cobrado" do Hino Nacional, é a "derrota cumprida" do Hino da Marinha — o Cisne Branco. No caso, foi usado o sentido náutico de derrota, mas que em outro contexto significaria revés, mau êxito etc.
"Quanta alegria nos traz a volta
À nossa Pátria do coração
Dada por finda a nossa derrota
Temos cumprido nossa missão."

(última estrofe)
Música: 1SG EB Antonino Manuel do Espírito Santo
Letra: SG MB Benedito Xavier de Macedo
der.ro.ta — Caminho, carreira ou rumo seguido por um navio, do ponto de partida ao ponto de chegada, não se contando para este efeito os portos ou ancoradouros acidentais. O mesmo que rota, roteiro; relatório de viagem etc.
Antonino Manoel do Espírito Santo (Salvador, 10 de maio de 1884 – 16 de abril de 1913), conhecido e por vezes mencionado como Antônio do Espírito Santo, foi um compositor de música instrumental militar brasileira e considerado o maior autor de dobrados militares do país. Era 1.º Sargento do Exército Brasileiro, servindo no 50.º Batalhão de Caçadores de Salvador, quando em 1913 compôs em homenagem a um amigo de farda o dobrado "Sargento Calhau", que viria a se tornar a melodia da célebre "Canção do Marinheiro", popularmente chamada de "Cisne Branco". A "Canção do Marinheiro" é atualmente o Hino da Marinha Brasileira, mas a sua adoção como símbolo aconteceu após a morte do compositor. (Wiki) 
Em 1926 achava-se embarcado no Navio-Escola Benjamim Constant, o Sargento cearense Benedito Xavier de Macedo, que fizera um poema, intitulado "Cisne Branco", em homenagem ao Navio, um veleiro, classificado como "galera". Benedito Xavier de Macedo não encontrou dificuldades para fazer uma associação entre o seu poema, com a melodia daquele dobrado que passou a ter o título de "Sargento Calhau - Cisne Branco". Mas os copistas, por omissão, ou mesmo por simplificação passaram a chamá-lo, apenas de "Cisne Branco". Na década de 50, passou a ser muito cantado nas Escolas de Aprendizes-Marinheiros, agora com o novo título de "Cisne Branco - Canção do Marinheiro", omitindo assim o nome "Sargento Calhau". E a tradição acabou por fazer desaparecer, definitivamente, o nome original.
(Há controvérsia.)
http://luizberto.com/cisne-branco-hinos-e-autores/
http://sacoemaca.blogspot.com/2010/12/sargento-calhau-march-cisne-branco.html

25 setembro, 2020

O homem que pediu munição ao inimigo

26 de julho de 1714. A Løvendals Gallej, uma fragata de 18 canhões, estava navegando ao largo de Lindesnes (um município da costa sul da Noruega), com bandeira holandesa, quando se deparou com um navio de bandeira britânica. Esse navio era o De Olbing Galley, uma fragata de 28 canhões disponibilizada pela Marinha Real para a Suécia.
Quando os dois navios se aproximaram um do outro com cautela, o Løvendals Gallej repentinamente ergueu sua verdadeira bandeira e o outro navio abriu fogo. Ocorrendo na sequência uma encarniçada batalha entre o Løvendals Gallej, capitaneado por Peter Jansen Wessel "Tordenskjold" (literalmente, Escudo do Trovão), e o De Olbing, capitaneado por Bactmann.
Os dois navios sofreram graves danos com os tiros (mas o Løvendals sofreu mais do que o De Olbing). E, devido à agressividade de Wessel, sua nave acabou sem munição... No entanto, ele ainda queria continuar o duelo. E então,
... Wessel baixou um barco e enviou-o com uma bandeira branca. O inglês pensou que fosse para negociar a rendição, mas ficou pasmo ao ouvir a real proposta do adversário: Wessel queria um carregamento de pólvora e balas de canhão para continuar a batalha. Obviamente, a proposta não foi aceita, mas eles trocaram brindes e elogios. Então, devido ao estado danificado dos dois navios, cada um seguiu seu próprio rumo.
Após esta batalha, Wessel foi submetido a uma corte marcial por determinação de Frederico IV, rei da Dinamarca.
Aconteceu o julgamento em novembro (do mesmo ano), e ele foi acusado de revelar ao inimigo sua situação precária e de colocar em risco um navio da Coroa ao desafiar um adversário mais bem armado. No entanto, o audacioso marinheiro foi absolvido. Tendo se defendido com uma seção do código naval dinamarquês que autorizava atacar os navios inimigos "em fuga", independentemente do tamanho.
E, se ele tinha sido audacioso naquela batalha, foi ainda mais ousado na cartada seguinte. Quando Wessel se aproximou do rei para pedir uma promoção, no que (de uma forma deveras surpreendente) foi atendido.
Em 1720, aos 30 anos, ele foi morto num duelo de espada com um coronel da Livônia a quem acusara de trapaça. Peter Jansen Wessel (enobrecido pelo nome "Tordenskjold ") é atualmente visto como uma figura heroica em dois países, tendo o nome mencionado no hino real dinamarquês e no hino nacional norueguês.

http://www.neatorama.com/2020/09/21/The-Man-Who-Asked-Ammunition-From-His-Enemy/
http://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Tordenskjold
http://www.amusingplanet.com/2020/09/the-audacity-of-peter-tordenskjold.html

20 fevereiro, 2020

Circular-assinado

Em 1627, um grupo de marinheiros ingleses resolveu se queixar do comandante do navio às autoridades superiores. Mas, tecnicamente, isso equivalia a tomar parte de um motim, o que era punível com pena de morte.
A solução foi criar um documento redondo (sinônimo: pisco de peito vermelho; em inglês: round-robin). Com este formato, foi possível que todos os reclamantes (76) assinassem a petição, já que o documento ocultava  a identificação de quem o havia assinado primeiro.
O documento original faz parte da coleção Arquivos Nacionais do Reino Unido.

06 dezembro, 2019

João Cândido, o Almirante Negro

"Salve o navegante negro / que tem por monumento / as pedras pisadas do cais."
João Bosco e Aldir Blanc

Nascido em Encruzilhada do Sul (RS), João Cândido (24/07/1880 - 06/12/1969) entrou aos 14 anos para a Marinha do Brasil. Filho de ex-escravos, ao presenciar o uso de chibatadas como penalidade para os marinheiros, ele reivindicou melhores condições de trabalho nos navios brasileiros. Em 1910, ele liderou a chamada Revolta da Chibata.
Embora o movimento tenha terminado com o compromisso de o Governo Federal acabar com os castigos corporais e de conceder anistia aos revoltosos, João Cândido e os outros líderes foram detidos. Banido da Marinha, o Almirante Negro, como ficou conhecido, sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador e descarregando peixes na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro.
Faleceu em decorrência de um câncer, pobre e esquecido, em 1969, aos 89 anos.

"O Mestre-sala dos Mares", de João Bosco e Aldir Blanc (vídeo)



GLOSSÁRIO (pela ordem de entrada)
dragão do mar, referência ao dragão do mar cearense, Francisco José do Nascimento, o jangadeiro Chico da Matilde, herói na luta por libertar os escravos no Estado do Ceará.
feiticeiro, marinheiro
navegante, almirante
acenar, navegar
alegria das regatas, bloco das fragatas
multidões, batalhões
santos, negros
cantos e chibatas, pontas das chibatas
pessoal do porão, tripulação

Arquivo: O marinheiro e o metalúrgico

04 dezembro, 2019

CORONADO: vista assim do alto

A Base Anfíbia Naval Coronado é uma instalação naval situada na baía de San Diego, Califórnia. É um dos oito componentes da Base Naval Coronado.
Os edifícios 320, 321, 322 e 323 da Base Anfíbia apresentam uma vista de planta em forma de uma suástica. Isso passou despercebido pelo público desde a sua construção na década de 1960 até 2007, quando foi mostrada em vistas aéreas do Google Earth.
A suástica é um símbolo controverso, e até mesmo uma ofensa, pois está relacionada a um período terrível da história. Então, imagine como foi embaraçoso para a Marinha dos Estados Unidos, ver que eles realmente fizeram uma construção que reproduzia o símbolo da suástica.


Embora modificações arquitetônicas e paisagísticas devessem ser feitas para obscurecer a forma, imagens de 24 de junho de 2017, as mais recentes usadas pelo Google Earth, não mostram nenhuma mudança substancial.

Google Maps


23 janeiro, 2019

Carne, limões e queijo!

Uma história ridícula é contada sobre um grande desfile naval que ocorreu no reinado do último Napoleão da França (Napoleão III) e da imperatriz Eugénie (Eugénia de Montijo).
Vários navios americanos estavam presentes, e eles foram alinhados para saudar o iate da Imperatriz quando passasse. Os marinheiros franceses, claro, sabiam como fazê-lo e de seus navios gritavam "Vive l'Impératrice!". Enquanto o almirante americano sabia que era impossível ensinar essas palavras a seus homens no tempo que lhe restava, então ordenou que sua tripulação gritasse "beef, lemons and cheese!". O iate imperial se aproximou e, quando passou pela frota, ouviu-se um poderoso rugido de "carne (de vaca), limões e queijo".
E a imperatriz disse que nunca havia recebido antes tal ovação.
— Current Literature, agosto de 1893
(https://www.futilitycloset.com/2018/03/22/in-a-word-581/)

14 julho, 2017

Nelson e sua habilidade de ignorar ordens

 "Insubordinação só pode ser evidência de uma mente forte." - Napoleão Bonaparte (1817)

Horatio Nelson tem sido frequentemente chamado de melhor marinheiro da Grã-Bretanha. Além de sua capacidade inigualável para motivar aqueles que estavam sob seu comando, ele era um bruxo no campo da tática. Nelson não deixava que pequenos detalhes, como "ordens de seus superiores", o constrangessem. E, por não obedecer ordens, ele foi capaz de vencer batalhas críticas. A batalha de Copenhague é um exemplo disso.
Em 1801, os britânicos estavam lutando uma batalha crucial contra a Dinamarca. O Almirante Sir Hyde Parker era o comandante das forças britânicas. Vendo-se impossibilitado de tirar os navios de maior porte do alcance do inimigo – por causa das águas rasas, Parker enviou Nelson, seu segundo em comando, à frente com os navios mais leves. E, quando Parker achou que as coisas estavam indo mal, ele enviou o sinal de retirar-se.
Uma das formas preferidas de Nelson para não seguir ordens, e assim, ganhar batalhas críticas, era sua habilidade incomparável de não ver as mensagens indesejadas.
De acordo com testemunhas, quando Nelson viu o sinal voltou-se para Thomas Foley, seu substituto imediato, e disse: "Você sabe, Foley, eu tenho apenas um olho. Eu tenho o direito de ser cego, às vezes". Ele então transferiu sua luneta para o olho cego e concluiu: "Eu realmente não vejo o sinal". Você, provavelmente, já ouviu a expressão "fechar os olhos" (com o fim de não tomar conhecimento de algo óbvio). Se você já se perguntou de onde veio, ela veio de Horatio Nelson e sua habilidade de ignorar ordens.

10 Military Victories Achieved by Not Following Orders, TOPTENZ

03 dezembro, 2012

Marinheiros de água doce

O mundo tem hoje 43 países sem acesso ao mar. Segundo dados da CIA, apenas oito deles possuem marinhas militares. É o caso do pequeno Malauí, no centro do continente africano, que tem uma Marinha com 225 homens dentro do Lago Niassa, com os canhões apontados somente para Tanzânia e Moçambique. Uganda, também na África, conta com uma força naval de 400 homens que virou motivo de anedotas internacionais. Na década de 70, o ditador Idi Amin começou a aparelhá-la para exibir seu poderio militar frente aos americanos. A única dificuldade era o fato de a Marinha estar cercada no interior do Lago Vitória. A Mongólia, na Ásia, mantém uma força naval dentro do Lago Hovsgol, na fronteira com a Sibéria, que permanece congelado seis meses por ano, impedindo a navegação. Segundo um documentário feito pelo americano Robert Stern, ela tem somente um navio e sete marinheiros, sendo que apenas um deles sabe nadar. Na lista das marinhas sem saída para o oceano também estão a do Cazaquistão, a do Azerbaijão e a do Turcomenistão, na Ásia, e a do Paraguai, cujo arsenal tem 3.600 oficiais, vinte embarcações, dois aviões e dois helicópteros.
De todas essas, a Marinha boliviana (com cerca de 5 mil membros) salta aos olhos por ser a maior força naval ribeirinha do planeta. Nasceu na década de 60, quando o então presidente Víctor Paz Estenssoro, entusiasmado com o projeto de recuperar o litoral (perdido para o Chile na guerra de 1879), povoou com navios militares o Lago Titicaca e os rios que fazem fronteira com o Brasil e o Paraguai. A perda da costa marítima é um assunto de forte sentimento na Bolívia, onde foi também instituído o "Dia do Mar". Escolares são ensinados que recuperar o acesso ao oceano é um dever patriótico e, dentro desse espírito, a existência de uma Marinha boliviana "serve para não deixar a idéia morrer".
Fonte: arquivoetc