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01 fevereiro, 2026

A cajuína

A cajuína é uma bebida não alcoólica, feita a partir do suco do caju separado do seu tanino, por meio da adição de um agente precipitador (originalmente, a resina do cajueiro, durante muitas décadas a cola de sapateiro e atualmente, a gelatina em pó), após coado várias vezes em redes ou funis de pano, em um processo que recebe o nome de clarificação. O suco clarificado é então cozido em banho-maria em garrafas de vidro até que seus açúcares sejam caramelizados, tornando a bebida amarelada, e permitindo que possa ser armazenada por longos períodos.
Seu consumo é um ato de degustação, geralmente acompanhado de comentários e comparações sobre as qualidades daquela garrafa da bebida, ressaltando sua cor, doçura, cristalinidade, leveza ou densidade, qualidades que derivam tanto dos cajus escolhidos, quanto das técnicas de cada produtor. Essas referências revelam o sentimento de pertencimento do grupo ou família produtora e reforçam os laços entre os membros das redes familiares por onde a cajuína circula.
Atribui-se a invenção da cajuína (de acordo com Rachel de Queiroz) a Rodolfo Teófilo, um farmacêutico, escritor e pesquisador cearense (nascido na Bahia) que viveu entre 1853 e 1932. Em 2014, esta bebida típica do Piauí e do Ceará foi reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Brasileiro.
http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/286
A canção "Cajuína"
Nasceu de uma experiência pessoal (de luto) de Caetano Veloso, após a morte em 1972 do amigo e poeta Torquato Neto, importante figura da Tropicália. Ao visitar a família de Torquato em Teresina, Caetano foi acolhido pelo pai do poeta, Seu Eli, que lhe serviu cajuína e lhe presenteou com uma rosa. Essa experiência do acolhimento em Teresina, com a cajuína cristalina da cidade, inspiraram a composição desta música, que explora questões sobre a vida e a morte.
http://globoplay.globo.com/v/3119899/ 


Existirmos: a que será que se destina? (Dm) (Gm/6) 
Pois quando tu me deste a rosa pequenina (A7) (Dm) 
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina (D7)  (Gm) 
Do menino infeliz não se nos ilumina (C7) (F) 
Tampouco turva-se a lágrima nordestina (D7) (Gm)
Apenas a matéria vida era tão fina (A7) (Dm)
E éramos olharmo-nos, intacta retina (D7) (Gm)  
A cajuína cristalina em Teresina. (A7) (Dm)

08 outubro, 2020

A bandana de Anna

"Espero que você consiga trabalhar arduamente na ciência e, assim, banir lembranças dolorosas, na medida do possível", escreveu Charles Darwin, na primavera de 1864, a um jovem e obscuro correspondente alemão que acabara de lhe enviar dois fólios de sua autoria: estudos impressionantemente ilustrados de pequenos organismos marinhos unicelulares - uma obra-prima que encantou Darwin como uma das coisas mais majestosas que ele até então tinha visto.
Mas Ernst Haeckel (16 de fevereiro de 1834 - 9 de agosto de 1919), que adiante cunharia o termo ecologia e se tornaria um proeminente defensor da teoria da evolução, não poderia banir o inatingível: meses antes, em seu trigésimo aniversário, Anna Sethe, o amor de sua vida, havia sido arrancado dele por uma morte súbita, quando o casal, após um longo noivado, estava prestes a se casar.
Na esteira de seu luto insondável, o jovem biólogo marinho aplicou o método de Joan Didion para lidar com o luto por movimento e seguiu para a França. Andando pelas praias de Nice, sua mente em um lugar irrecuperável e seu coração com um vazio ameaçador, ele parou no meio do caminho - algo havia tomado sua atenção: flutuando perto da superfície do mar, em uma piscina de maré, deparou-se com uma água-viva - uma espécie de medusa que ele nunca tinha visto antes.
Ele havia caído sob o "feitiço da medusa" dez anos antes, aos vinte anos, enquanto acompanhava um orientador em uma expedição de pesca e pesquisa. Agora, uma década e uma devastação depois, Haeckel se rendeu a esse encantamento inicial para se firmar nos corrimãos paralelos da maravilha e da descoberta, do esplendor estético e do desafio científico.
Haeckel passou os quinze anos seguintes estudando e  desenhando essas criaturas estranhas e belas - evocativas de árvores e cogumelos, ovários e naves espaciais - e para nomear a mais bela das espécies que encontrou inspirou-se em sua amada perdida: Mitrocoma annae - "bandana de Anna" (na ilustração).

Extraído de: The Otherworldly Beauty of Jellyfish: How Ernst Haeckel Turned Personal Tragedy into Transcendent Art in the World’s First Encyclopedia of Medusae, by Maria Popova - Brain Pickings

Ernst Haeckel, 1879:
"Mitrocoma annae é uma das mais lindas e a mais pequena entre todas as medusas; ela foi observada pela primeira vez por mim, em abril de 1864, na baía de Villafranca perto de Nice. (...) Eu designei esta espécie, a princesa da Eucopiden, em lembrança da minha inesquecível esposa, Anna Sethe."
(do livro de R.J. Richard "O trágico sentido da Vida : Ernst Haeckel e a luta pelo pensamento evolutivo")

21 outubro, 2014

Um olhar para o passado


O quarto de um militar francês é mantido inalterado até hoje – 96 anos depois de sua morte na Primeira Guerra Mundial
De sua casa, na aldeia de Bélâbre, França, Hubert Rochereau obedientemente marchou para a guerra. Ele serviu como segundo tenente no 15º Regimento e, em 26 de abril de 1918, Rochereau morreu devido aos ferimentos sofridos numa batalha contra os alemães em Loker, Bélgica. Por sua coragem, a França lhe concedeu postumamente a Cruz de Guerra e a Legião de Honra.
Os pais de Rochereau ficaram inconsoláveis. Eles mantiveram em sua casa o quarto do filho morto da maneira que este o deixou ao partir para a guerra. Quando eles se mudaram em 1935, foi estipulado no contrato de venda que o quarto deveria permanecer como estava por, pelo menos, 500 anos.
Essa exigência era legalmente duvidosa, mas os novos proprietários respeitaram os desejos do casal enlutado. Como ainda faz o atual proprietário desde que herdou a casa de seus avós.
Neatorama

Pedaço de canção
"A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." ~ Chico Buarque

28 janeiro, 2013

Luto por Santa Maria

Tragédia  na madrugada de 27/01, em Santa Maria - RS

29/01/2013 - Atualizando...
Não é fácil fazer uma charge com a tragédia humana. Ainda mais quando o acontecimento, que não tem nada de risível, alcança a dimensão da tragédia que ocorreu em Santa Maria, com centenas de vidas prematuramente ceifadas ou sobrevivendo em estado crítico. Apesar da aparente experiência, Chico Caruso excedeu-se ao cometer uma charge abjeta. Ele fez uma gaiola em chamas, na qual ardem pessoas no interior e da qual exala uma fumaça sinistra. Dilma, sempre Dilma (Caruso é da Globo!), observa a cena, com as mãos na cabeça, enquanto exclama: “Santa Maria!” E o pior veio a seguir (como destacou Paulo Nogueira). Numa decisão incompreensível, Ricardo Noblat republicou a charge "politizada" do Caruso em seu blogue, acrescentando-lhe a palavra “humor”.