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03 fevereiro, 2026

Ratos na mala e outros afetos

Nelson José Cunha

Nas minhas idas a Nova Iorque, prefiro ficar do outro lado do rio, em Jersey City. Os hotéis custam metade do preço e são melhores. Manhattan, por valores semelhantes, oferece espeluncas com história. Minha filha, certa vez, hospedou-se em uma delas e foi surpreendida por ratos dentro da mala - um choque de realidade na cidade que nunca dorme, especialmente esses bichinhos.
Numa dessas viagens, meu pai foi conosco.
Francisco era sisudo por obrigação da farda. Em casa, porém, o uniforme ficava no cabide. Ele se desarmava. Tornava-se brincalhão, emotivo, um homem dado a afetos. Lembro-me de quando assistimos à Annie, na Broadway. Sentado ao seu lado, eu traduzia a história da menina órfã quando, de repente, vi uma lágrima escorrer por seu rosto. Aquele era o meu pai: um manteigão.
Herdei dele o gosto pela música e pela dança. Anos depois, em Nova Iorque, Annie voltou aos palcos. Não fui vê-lo. Por pura covardia. Temia reencontrar aquela lágrima - e a ausência dele, já morto. Preferi outros espetáculos. O melhor deles foi Jersey Boys.
O musical conta a história de uma banda de rapazes de New Jersey que, nos anos sessenta, rivalizou em popularidade com os Beatles. Os americanos sabem fazer esse tipo de espetáculo. Nada sobra, nada falta: som, luz, coreografia. Tudo funciona. E quem, na minha geração, nunca dançou colado ao som de Can’t Take My Eyes Off You?
No final, quando o próprio Frankie Valli surgiu em cena, a plateia explodiu. Aplaudimos de pé.
Lamento não ter assistido também a The Book of Mormon. Em seu lugar, tentamos ouvir jazz com a banda The Hot Sardines, no bar do hotel The Standard. Mas o porteiro barrou um amigo por causa da mochila e dos tênis. Ainda há lugares em que a roupa pesa mais do que a companhia.
Para não deixá-lo sozinho, desistimos. Fomos comer hambúrguer com feijão no Greenwich Village. Perdemos os espetáculos, mas ganhamos a noite: conversa solta, roupa confortável, amizade sem cerimônia.
No fim das contas, foi assim também com meu pai. Perdemos o musical que não vimos juntos, mas ficou a memória da lágrima, intacta, guardada como quem protege algo frágil na mala. Nova Iorque tem ratos, porteiros exigentes e palcos grandiosos. Mas o que realmente levamos - e o que nos acompanha de volta - são esses pequenos afetos: imperfeitos, clandestinos, e absolutamente nossos.

24 janeiro, 2020

A caixa de gelo

Uma de minhas lembranças mais antigas é de quando eu era jovem e morávamos em um apartamento de três cômodos no segundo andar de um condomínio de apartamentos. Nós éramos pobres, ou com certeza uma família de baixa renda, mas meu irmão e eu não sabíamos disso. Vivíamos da renda de nosso pai como operário de uma fábrica que produzia telhas de amianto.
Nós não tínhamos uma geladeira, mas tínhamos uma caixa de gelo.
A caixa de gelo, se bem me lembro, era um armário em sua maior parte de madeira, que tinha algumas prateleiras de metal e o interior de latão em que nós mantínhamos o leite e alguma outra comida perecível.
A nossa não era tão boa quanto a que está sendo mostrada aqui. Mas tinha o espaço suficiente para alojar um grande bloco de gelo. Um par de vezes por semana, o homem de gelo vinha e reabastecia nossa caixa com um novo bloco de 25 libras de gelo.
Minha lembrança mais vívida é a do homem do gelo tendo no ombro um pedaço de aniagem, do tipo que se vê em sacos de batatas, utilizando-se de umas pinças gigantes para pegar o bloco de gelo, que era depois colocado no ombro. Ele então subia as escadas até o nosso pequeno apartamento no segundo andar. Lembro-me muito bem de estar sentado nas escadas em que o homem de gelo tinha de pisar enquanto subia os íngremes degraus. E lembro-me de ver aquelas gotas d'água pingando do bloco de gelo que ele carregava sobre o ombro. Eu corria meus dedos pelas gotas e podia sentir toda a frieza da água.
O homem do gelo cobrava uma pequena taxa, retomava o caminho da sua lista de entregas para retornar poucos dias depois. Eu nunca me lembro de ele ter dito algo para mim, nem de como ele exatamente era, mas acho que sempre vou me lembrar daquelas gotas frias do gelo derretido em seus passos dados até o nosso apartamento.

Jonco’s True Bits
[http://bitsandpieces.us/2019/08/10/joncos-true-bits-the-iceman-cometh/]

Jonco, sua família