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27 fevereiro, 2023

A Vênus Hotentote

por Justin Parkinson, da BBC
(texto condensado)
Há dois séculos, Sarah Baartman morreu após passar anos sendo exibida em feiras europeias de "fenômenos bizarros humanos". Ela morreu em 29 de dezembro de 1815, mas o show, sob uma perspectiva ainda mais macabra, continuou.
Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até 1974. Seus restos mortais só retornaram à África em 2002, após a França concordar com um pedido feito por Nelson Mandela.
Ela foi levada para a Europa, aparentemente, sob promessas falsas por um médico britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo em Londres e Paris, onde multidões observavam seu traseiro.
Hoje em dia, ela é considerada por muitos como símbolo da exploração e do racismo colonial, bem como da ridicularização das pessoas negras muitas vezes representadas como objetos.
História
A vida de Baartman foi marcada por penúrias.
Acredita-se que ela tenha nascido na Província Oriental do Cabo da África do Sul, em 1789.
Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos e seu pai, um criador de gado, morreu quando ela era adolescente.
Ela começou a trabalhar como empregada doméstica na Cidade do Cabo, quando um colono holandês assassinou seu companheiro, com quem havia tido um bebê que também morreu.
Em outubro de 1810, apesar de ser analfabeta, ela supostamente assinou um contrato com o cirurgião inglês William Dunlop e o empresário Hendrik Cesars, dono da casa em que ela trabalhava, que disse que ela viajaria para a Inglaterra para aparecer em espetáculos.
Atração
Quando ela foi exibida em um estabelecimento em Piccadilly Circus, em Londres, causou fascinação.
"É preciso lembrar que, nesta época, nádegas grandes estavam na moda, e por isso muitas pessoas invejavam o que ela tinha naturalmente", diz Rachel Holmes, autora de "A Vênus Hotentote: vida e morte de Saartjle Baartman".
Clientes mais abastados podiam pagar por demonstrações privadas em suas casas, em que era permitido que os convidados a tocassem.
O motivo para isso é que Baartman, também conhecida como Sarah ou Saartjle, tinha esteatopigia, uma condição genética que faz com que a pessoa tenha nádegas protuberantes devido à acumulação de gordura. Essa condição é mais frequente em mulheres e principalmente entre aquelas de origem africana.
Mas a própria palavra é motivo de debate, porque, para muitos, seria racista o fato de ela sugerir que se uma mulher tem nádegas grandes e é negra, sofre de uma doença.

Pensamento do dia
Uma bunda incomoda muita gente. Duas bandas incomodam muito mais.

09 dezembro, 2021

Vida em Marte!

Manchete do NY Times em 09/12/1906:

HÁ VIDA NO PLANETA MARTE

Tradução - Prof. Percival Lowell, reconhecido como a maior autoridade no assunto, declara não haver dúvida de que seres vivos habitam nosso mundo vizinho.

Dez anos antes

Percival viu um sistema de raios em atividade na superfície de Vênus (que ninguém mais além dele conseguiu ver).

09 agosto, 2018

Vênus, seu eterno entardecer

Vênus gira tão lentamente em seu próprio eixo que precisa de 243 "dias da Terra" para completar um "dia de Vênus". Na verdade, é o "dia" mais longo dos planetas do Sistema Solar, mais longo inclusive do que o próprio ano do planeta (o tempo que Vênus leva para rodar em torno do Sol).
Como o raio de Vênus é de 6.000 km, isso significa que sua circunferência máxima é de cerca de 38.000 km. Então, se você caminhar sobre o equador de Venus, caminhando a um bom ritmo sem parar — 156 km / dia, cerca de 6,5 km / h — você poderá andar sem ver findar o pôr-do-sol, em uma espécie de pôr-do-sol eterno.

Pôr do Sol ou pôr-do-sol
Escrevemos sem hífen e Sol (com inicial maiúscula), quando nos referimos exclusivamente ao astro. E escrevemos pôr-do-sol, com hífenes e sol (com inicial minúscula), quando não nos referimos ao astro, mas sim à ocasião, ao momento, ao aspecto em que o Sol se põe. Uma coisa é o Sol — o astro; outra coisa é a posição, o momento em que ele está, ou o aspecto que ele nos oferece. Por isso, escrevemos: «Trabalho de sol a sol.» Suponhamos um astrônomo a escrever sobre o astro Sol. Escreverá pôr do Sol com a palavra Sol bem individualizada: com inicial maiúscula e inteiramente separada do que lhe antecede. Repare-se que o vocábulo Sol não se encontra ligado à palavra anterior por meio de hífen. Não forma um todo com as palavras anteriores. Reparemos em pôr-do-sol. O vocábulo sol não está individualizado. Forma um todo com as duas palavras anteriores. Por isso está ligado ao antecedente pelo hífen e escrito com inicial minúscula.

20 maio, 2016

Zeuxis e seu discípulo

Fecisti divitem, quia non potuisti facere pulchram.
A um discípulo de Zeuxis, famosíssimo pintor da antiguidade, disse-lhe o mestre que, por obra de examinação,- lhe pintasse uma imagem da deusa Vênus com todos os primores da formosura a que pudesse chegar a sua arte. Fê-lo assim o discípulo, e, com estudo e aplicação de muitos dias e desvelo de muitas noites, apresentou o quadro ao mestre. Via-se nele a deusa, toda ornada e enriquecida de jóias, que mais pareciam roubadas à natureza que imitadas da arte; nos dedos, anéis de diamantes; nos braços, braceletes de rubis; na garganta, afogador de grandes pérolas; no toucado, grinalda de esmeraldas; nas orelhas, chuveiros de aljôfar; no peito, um camafeu em figura de cupido, cercado de uma rosa de jacintos, com oásis da mesma flor imitando raios; as alparcatas semeadas de todo o gênero de pedraria; as roupas, recamadas de ouro e tomadas airosamente em um cintilho de safiras. Esta era a forma do quadro, e nele todo o engenho e arte do discípulo.
Estava esperando a aprovação do mestre. Mas que vos parece que lhe diria Zeuxis?
– Fizeste-a rica, porque a não pudeste fazer formosa.

Extraído do "Sermão da Segunda Dominga da Quaresma" (1651), do Padre António Vieira.
www.literaturabrasileira.ufsc.br

Que é camafeu?
Pedra semipreciosa com duas camadas de tonalidades ou cores diferentes, sobre uma das quais se lavrou uma figura em relevo, à qual a outra camada serve de fundo.

18 novembro, 2014

Os raios de Vênus

Durante o verão e o outono de 1896, o astrônomo Percival Lowell passou o seu tempo dedicado a estudar o planeta Vênus. Um dia, no final do outono, descobriu uma estranha mancha com raios finos na superfície do planeta, uma descoberta surpreendente que, curiosamente, só ele via.
Aglomeração de relâmpagos em Vênus?...
Como era de esperar, foi criticado pelos resultados. Em 1902, ainda que parcialmente, ele recuou, falando de um problema óptico, mas logo voltou a escrever com intolerante confiança a respeito de sua observação de Vênus.
Ele começou a especular sobre a ascensão de um funil de ar estagnado quente, criando um vazio parcial em que correntes de ar frio dariam lugar a um sistema de raios... Esse era o espírito de Percy.
Absolutamente ninguém podia ver o sistema de raios em atividade na superfície do planeta Vênus.
Tudo isso produziu uma notável falta de credibilidade que, supostamente, repercutiu em seus novos estudos, dessa vez sobre o planeta Marte. Anteriormente, fora ele que descrevera os canais marcianos, logo convertidos em uma suposição da existência de vida inteligente em Marte.
Mas... Por que só Percival Lowell podia ver raios em Vênus?... Seriam eles o produto da imaginação de um astrônomo?
O problema foi solucionado mais de cem anos depois, em 2003, em um artigo de William Sheehan e Thomas Dobbins, THE SPOKES OF VENUS: AN ILLUSION EXPLAINED (Os raios de Vênus: uma ilusão explicada). O artigo sustenta que Lowell tivesse deixado de forma intempestiva o telescópio e que, ao fazê-lo, o telescópio tivesse acidentalmente virado em uma espécie de oftalmoscópio, um instrumento utilizado para o exame dos olhos.
Em outras palavras, o que Percival Lowell observara na superfície de Vênus tinha sido a própria retina, sendo os raios os vasos sanguíneos da dita-cuja.

Percival Lowell y los rayos de Venus, El Baúl de Josete