15 dezembro, 2017

O Conde Lucanor

O Conde é uma obra narrativa da literatura espanhola medieval, escrita entre 1330 e 1335 por Don Juan Manuel, príncipe de Villena e neto do rei Fernando III de Castela. O seu título castelhano completo é "Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio".
O livro consiste de cinco partes, a mais conhecido das quais é uma série de 51 exempla (plural de exemplum) ou histórias moralizantes tiradas de várias fontes, como Esopo e outros contos clássicos e tradicionais.
A finalidade didático-moral é a marca do livro. O conde, começa a conversa dando ciência a seu conselheiro Patrônio de um problema ( "Um homem me fez uma proposta ...") e solicitando um parecer para resolvê-lo. Patrônio sempre responde com grande humildade, garantindo não ser necessário dar conselhos a uma pessoa tão ilustre como o conde, mas oferecendo-se para contar uma história da qual se pode tirar uma lição para resolver o problema.
Cada capítulo termina mais ou menos da mesma maneira, com pequenas variações, com um dístico que condensa a moral da história.
Conto VII - O que aconteceu a uma mulher chamada senhora Truhana
Don Juan Manuel
Trad.: Henry Alfred Bugalho
Certa vez, Conde Lucanor conversava com Patrônio deste modo:
— Patrônio, um homem me propôs algo e também me disse a forma como consegui-lo. Assegurou que tem tantas vantagens que, se com a ajuda de Deus tudo ocorrer bem, seria para mim de grande utilidade e proveito, pois os benefícios se unem uns aos outros, de tal forma que, no final, seriam muito grandes.
Então, contou a Patrônio tudo que sabia. Após ouvi-lo, Patrônio respondeu ao conde:
— Senhor Conde Lucanor, sempre ouvi dizer que o prudente se atém às realidades e desdenha as fantasias, pois muitas vezes a quem vive destas costuma ocorrer o mesmo que se sucedeu à senhora Truhana.
O conde perguntou o que havia acontecido a ela.
— Senhor conde, disse Patrônio, havia uma mulher que se chamava senhora Truhana, que era mais pobre do que rica, e que, indo um dia ao mercado, levava um jarro de mel sobre a cabeça. Enquanto seguia pelo caminho, começou a pensar que venderia o mel e que, com o que lhe dessem, compraria um bocado de ovos, dos quais nasceriam galinhas e que logo, com o dinheiro que lhe dessem pelas galinhas, compraria ovelhas, e assim iria comprando e vendendo, sempre com lucro, até que se visse mais rica do que todas as suas vizinhas.
Logo pensou que, sendo tão rica, poderia arranjar um bom casamento a seus filhos e filhas, e que iria acompanhada pela rua por genros e noras, e pensou também que todos comentariam sua boa sorte, pois havia conseguido tantos bens, mesmo que houvesse nascido muito pobre.
Assim, pensando nisto, começou a rir com muita alegria por causa de sua boa sorte, e rindo, rindo, deu um tapinha na própria testa, o jarro caiu no chão e se rompeu em mil pedaços. Senhora Truhana, quando viu o jarro quebrado e o mel derramado pelo chão, começou a chorar e a se lamentar amargamente, porque havia perdido todas as riquezas que esperava obter com o jarro, se este não houvesse se quebrado. Assim, porque pôs toda sua confiança em fantasias, não pôde fazer nada do que tanto esperava e desejava.
Se quereis, senhor conde, aquilo que dizeis e pensais sejam realidade algum dia, procura sempre que se tratem de coisas razoáveis e não fantasias, ou imaginações duvidosas e vãs. E quando quiserdes iniciar algum negócio, não arrisqueis algo mui caro, cuja perda vos possa causar desgosto, com o intuito de obter um proveito baseado apenas na imaginação.
O que Patrônio contou agradou muito o conde, que agiu de acordo com a história e, assim, se saiu muito bem.
E como Don Juan gostou deste conto, escreveu-o neste livro e compôs estes versos:
Em realidades certas podeis confiar,
Mas das fantasias deveis vos afastar,

http://www.revistasamizdat.com/2008/11/o-conde-lucanor.html

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