21 junho, 2010

José Saramago

Nelson José Cunha

Ligo o televisor e dou de cara com o defunto Saramago. Não se parece com velório de ateu. Tem velas tremulando e gente compungida recomendando o escritor ao pai de todas as almas, inclusive as dos ateus. Esses televisores em HD deixam os falecidos, maquiados, quase vivos. Os vivos, enrugados, quase mortos e as flores do caixote mortuário querendo perfumar a minha sala. Olho pra ele e percebo um certo grau de constrangimento. José Saramago praticava, com evidente prazer, o esporte de demolir as religiões num país carola como Portugal. Recebeu o troco por sua ousadia: havia pouca gente a rodear sua urna, dentre elas, a nossa Dilma em busca de uma foto para seu programa eleitoral. A imprensa quis saber se ela leu Saramago. Ela titubeou e citou o nome incompleto de algum livro. Como se a leitura fosse importante para ser Presidente do Brasil.
Os vivos são uns e os mortos são outros. Se os primeiros têm defeitos, os falecidos vão cheios de bondades. Falar mal de quem vai é covardia dos vivos porque os defuntos não gostam de retrucar. Gosto do Saramago pela sua produção pré Nobel, tinha livros chatos, mas quem não é chato por um dia? Eu mesmo, agora, um chato iconoclasta e gozador da candidata do dono do Blog.
Um prêmio quase sempre faz mal à biografia do agraciado: seja ele um Nobel ou vencedor do BBB. A imprensa tem responsabilidade nisso: está sempre a perguntar sobre tudo e sobre todos, da teoria das cordas até a receita para erisipela. O agraciado passa a ser, de repente, uma autoridade em tudo. Fica parecendo o Sheldon Cooper, da série de TV Big Bang Theory (que eu adoro) .
O pobre do Saramago caiu nessa armadilha e foi muito contraditório ao se manifestar sobre política e religião. Hoje o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, cobrou coerência do escritor que criticava a inquisição e as cruzadas, mas se calava diante dos genocídios praticados pelas ditaduras marxistas da história. O defunto que calado estava, mudo e resignado ficou.
Da minha parte está desculpado porque relevante mesmo é o seu legado literário, que o fez um dos maiores escritores da língua lusitana. Mérito maior porque escrevia num idioma com pouco prestígio como é o nosso maltrapilho português. O idioma monossilábico ficará assilábico depois que os novos escribas tiverem concluído a pós-graduação no MSN, Orkut e Twitter. Chegaremos ao ápice da evolução lingüística quando entrarmos na fase dos grunhidos como os Neandertais. O mundo é redondo e a história dá voltas.
- Inhamm, inhamm significará: te amo e quero te comer agora, vai baixando a calcinha.
- Um-hum, ela responde cheia de dengo e já abrindo as perninhas.
Não é romântico o novo-velho idioma que se está a resgatar?
Pois, pois. Oh! pá. Que Deus (se existe) ponha o José de castigo, só por uns dias, pelas ofensas ao Criador. Depois lhe dê um lugar no seu coração perdoador. Amém.

Ao enviar esse texto, Nelson Cunha acrescentou que era um "pitaco" sobre Saramago, e que "pitaco", segundo o dicionário, seria "uma opinião não solicitada". O dono da bitácora acha que o seu colaborador outra vez acertou com o taco.

9 comentários:

Marcelinho disse...

Caro Amigo Paulo,
transcrevi, também, em meu blog este pitaco do Amigo Nelson.
Também, completei com uma pequena citação minha:
Por si só, ele veio uma obra completa. Mão do Criador.
Abraços.

Nelson Cunha disse...

Marcelo,
Minha colaboração com o EntreMentes é remunerada. O copyright é do Paulo, pago com piadas de mineiros.
Ao publicar “José Saramago” no seu Blog, você passa a ser devedor de uma piada dessas. Não cobro caro. Aceito piada velha ou o golinho que costuma ir para o santo. Com queijo canastra, evidentemente.
Nelson

Paulo Gurgel disse...

Nelson,
É para mim novidade saber que posso pagar suas colaborações com pinga e queijo canastra.
Traz-me uma certa tranquilidade. Receio o dia em que acabem as piadas de mineiros e as piadas de cearenses, por seu pequeno valor de conversão, não deem para pagar o que ainda vou lhe dever.

Thiago disse...

Amigo, sinto dizer que me parece que a sua idéia de ser um "ateu" é errônea. Ateísmo é uma corrente filosófica que explica o mundo e seus dilemas apenas com a razão, sem mitos e fenômenos sobrenaturais, uma pessoa pode ser atéia e acreditar em deus ou até mesmo em outras "formas" divinas. Aquele que discute se deus existe ou não é agnóstico, etimologicamente vc estaria certo, a quebra da palavra ateu seria: sem deus, mais não é bem esse o significado.
José Saramago dizia: "Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de deus, mas infelizmente não encontro." Isso significa que a partir do momento que ele o encontrar(deus) ele verá o mundo como um criacionista o vê e não mais pela razão. Se esse post foi uma crítica ou uma chacota a José Saramago, amigo vc têm problemas com o humor. Ele não é um demolidor de religião! Já o viu destruir alguma? Ele pode ser um empecilho, mais não um demolidor. E amigo, qualquer pessoa Sã criticaria as cruzadas e a inquisição, até mesmo os fiéis que são poucos os que entendem de história concordariam, vc acha as cruzadas e a inquisição algo válido, inteligente?(Lembre-se das cruzadas das crianças), se tu gosta de genocídio, pois bem. Me pergunto aqui, por que vc o critíca por não dizer sobre os genocídios marxistas? Você alega então que ele é adpeto do comunismo?
Por que divulgar uma coisa assim em seu blog?

Thiago disse...

Achei infame colocar e passar adiante algo assim, é minha opinião, desculpe se pareci exaltado, mais afinal os comentários servem para isso, refutação ou elogio, dessa vez fiquei com a refutação, abraço.

Paulo Gurgel disse...

Meu caro Thiago,
Você leu o Nelson Cunha em um momento bastante demolidor, agravado pelo fato de que ele fizera um necrológio. Mas nem sempre nosso enfant terrible é assim. Se você pesquisar o que ele já escreveu por aqui (postagens com a etiqueta NJC), corre o risco de se tornar mais um de seus admiradores.
O controlador deste blog só censura mau-gosto, falta de originalidade, ofensa gratuita, calúnia, injúria e difamação, o que já não é pouco.
Não vou entrar no mérito do teor de suas argumentações, embora me pareçam um tanto confusas. Deixo isso para o Nelson. E se ele não resolver contestá-las é porque está realmente aborrecido com os pagamentos por seus trabalhos que andam atrasados (os pagamentos, bem entendido). Já tentei quitar as dívidas com piadas de gaúchos, mas ele recusa por serem tristes.
Agora, quanto a seu segundo comentário, o mesmo aqui alcançou o número 500. Contudo, a interpretação de que não passa de um desdobramento do primeiro faz com que o prêmio previsto para esse feito seja suspenso. Ficando acumulado para o leitor que fizer o comentário de número 1000. Além do mais, estamos passando por algumas dificuldades financeiras desde que o Facebook, atirando no próprio pé, nos cortou de sua verba publicitária.
Abraço.

Nelson Cunha disse...

Meu caro Thiago,
Escrevi um texto de humor e como tal deve ser lido.O humorista assim como os poetas, são por natureza irresponsáveis. Nunca cobre coerência ou exatidão desses escribas. Simplesmente ria ou goze se o texto tiver graça ou poesia.

Quem se declarou ateu foi o próprio quando vivo e a irônica frase dele que você citou confirma isso. Saramago era comunista de carteirinha. Entrou para o Partido Comunista Português em 1969.
Eu não disse que acho as Cruzadas e a Inquisição válidos ou que gosto de genocídio.Leia novamente o texto e confirme.
O que eu disse é que a Igreja revidava as críticas de Saramago com a acusação de que o escritor se calava diante dos crimes cometidos pelas ditaduras marxistas.

Obrigado a você por defender o Saramago, mas o texto não é ofensivo, ao contrário, faz elogios e termina muito carinhoso.

Nelson Cunha

Thiago disse...

Paulo Gurgel, eu não sabia que existia prêmio para quem fizesse o post número 500, não li muita coisa no blog, li apenas a matéria sobre Saramago, realmente a achei infame.
Nelson Cunha,peço desculpas,não sabia que se tratava de um blog de humor, também admito que me esqueci do fato que Saramago era comunista, quando você citou que ele entrou no partido comunista me lembrei. Agora sei que seu blog é uma espécie de humor sério, quando estiver com mais tempo lerei outras matérias para entender melhor o funcionamento de seu blog, me chamou a atenção, me parece um humor inteligente. Peço desculpas também por minha exaltação.
Abraço.

Paulo Gurgel disse...

Caro Thiago,
O número 500 não se refere a posts e sim a comentários, mas isso é só uma brincadeira. Como é também uma brincadeira este pequeno blog querer medir forças com o Facebook.
Aqui as fronteiras entre o risível e o sério não costumam ser respeitadas. Senão, acaba a graça.
Quando tiver tempo leia as matérias do blog. E fique à vontade para comentá-las.
As palavras podem brigar, mas as pessoas, não.