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13 maio, 2019

"O Livro Vermelho" de Jung

Carl Gustav Jung (1875 - 1961) foi o famoso psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a Psicologia Analítica.
Jung propôs e desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida, arquétipo, sincronicidade e inconsciente coletivo. Ele foi também aluno de Sigmund Freud, embora mais tarde divergisse das teorias do pai da Psicanálise. Foi nessa época que ele começou a trabalhar no que foi formalmente intitulado "Liber Novus" (Livro Novo), que ficou conhecido informalmente entre seus seguidores e herdeiros, e, eventualmente publicado, como "O Livro Vermelho".
O livro teve seu início no que parecia ser um colapso psicótico em Jung, a partir de 1913. O próprio Jung referiu-se ao período como um confronto com o seu próprio inconsciente. Ele trabalhou nisso por 16 anos, enquanto desenvolvia suas teorias psicológicas. O conteúdo do livro foi produzido usando uma técnica desenvolvida pelo próprio Jung, que ele chamou de "imaginação ativa", durante a qual ele era visitado por uma figura masculina e feminina, a quem ele mais tarde identificou como o profeta Elias e Salomé, que o guiou através do livro no processo de mergulho no inconsciente coletivo.
Os herdeiros de Jung impediram que "O Livro Vermelho" fosse acessado por quase oitenta anos, até 2001. Finalmente, foi publicado em 2009.

15 Weird and Mysterious Books, Business Pundit

02 outubro, 2015

Terra Sonâmbula

"Mas Junhito ainda lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito." ~ "Terra Sonâmbula", Mia Couto

Leio "Terra Sonâmbula" como um livro de sonhos, onde o autor nos mostra duas coisas muito humanas: a prisão que o medo provoca e a busca da felicidade possível.
É difícil avaliar o quanto de superstições e preconceitos, medos enfim, existem nos relacionamentos humanos. E essas superstições e preconceitos estão em toda a obra. Como, por exemplo, quando alguém chega a um povoado, por nascimento ou como viajante e, por um acontecimento qualquer – falta de chuva, morte de um outro ser humano... –, passe a ser visto como um ser maléfico, que trouxe infortúnios, tragédias e má sorte para a comunidade.
Parece impensável uma tal situação. Talvez, porque impensáveis são as superstições e preconceitos dos outros. Impensáveis são os medos que o outro cultiva. Os nosso, não. São muito normais para um ser humano. Mas o outro está fora da nossa humanidade. Nossos medos, superstições e preconceitos transformaram-no em bicho.
Como, então, desfazer essa maldição humana, fazendo o ser humano voltar a olhar o outro como um ser humano? Talvez lembrando os laços que os unem fraternalmente na infância e à primeira comunidade que conhecemos. inicialmente, o aconchego e a proteção do útero materno e, depois, muito depois, da família.
Como um dia esse aconchego e proteção acabam, o ser humano busca nos sonhos uma libertação para seus sofrimentos e prisões. Nos sonhos o ser humano tenta se libertar dos "desprazeres" da existência para sentir os "prazeres" possíveis.
Mas a felicidade possível é o sonho do caminhar na estrada difícil da existência. Não é uma felicidade como um fim. É a felicidade como meio de se viver, quando a vida não tem mais valor, nenhum amparo e nem futuro possível. É a vida destroçado pela guerra. É a vida de todos nós.
É a felicidade que se descobre quando ainda resta "um pouco de infância", uma "última ponte" com um passado que nos fazia feliz, uma réstia de felicidade do sonho... O que nos leva a concluir que essa recordação é a única que pode desfazer a maldição humana, nos levando a "desbichar" até que possamos ir nos "vertendo todo gente".
Segundo Freud "Esse homem encontrou a felicidade ao descobrir o tesouro de Príamo, o que prova que a realização de um desejo infantil é o único capaz de proporcionar a felicidade" Sigmund Freud, citado por Raymundo de Lima e Marta Dalla Torre Fregonezzi, no artigo "A Felicidade existe? – Freud, a psicanálise e a felicidade".

Fernando Gurgel Filho

10 agosto, 2013

O vaso de Freud



Sigmund Freud teve uma grande coleção de antiguidades que reunia cerca de 2.500 itens.
Ao lado, a reprodução fotográfica de uma delas: um vaso grego de 4 a.C., que foi presente da princesa Marie Bonaparte, grande amiga do Pai da Psicanálise. Esta peça ostenta uma cena da lenda de Édipo e a Esfinge.
O interesse de Freud pela antiguidade é evidente em sua obra. O Complexo de Édipo, uma de suas teorias mais conhecidas, é uma ode à sua formação clássica.
O vaso descrito (►) é atualmente a urna funerária em que repousam as cinzas de Freud e de sua esposa Martha.

FREUD Museum London

04 junho, 2013

Duas ironias de Borges

Diz-se que Borges, um dos grande mestres da literatura, era extremamente irônico. Aqui trazemos duas amostras dessa particularidade do grande escritor argentino.
(Grande e argentino formam um pleonasmo, sei disso.)
A primeira aconteceu em uma livraria. Quando um jovem fã se aproximou dele e, querendo expressar sua gratidão por tudo o que já lera do autor, exclamou:
- Mestre, você é imortal!
A que Borges, talvez enfastiado com a vida, respondeu:
- Vamos, homem, não há porque ser tão pessimista.
A segunda se deu em uma convenção de psicanalistas, à qual Borges foi convidado para falar. Ao final da palestra, no tempo reservado a perguntas e respostas, alguém resolveu provocá-lo:
- Senhor Borges, como você se sente sabendo que é o único literato entre tantos psicanalistas neste congresso?
Sem hesitar, Borges respondeu:
- Na verdade, estou com meus colegas. Não é a psicanálise um ramo da literatura fantástica?

11 janeiro, 2008

Fósforos

Um fato intrigante, e que não livra a cara de sociedade alguma, é a enorme quantidade de maridos que somem de casa para sempre. Outro, é que os sumiços quase todos apresentam um ponto em comum. Os maridos saíram de casa pretextando comprar fósforos. Em minhas lucubrações, não afasto a possibilidade de que uns poucos estejam a zanzar por aí, cumprindo um percurso de algum Plano Cruzado roteirizado por Kafka.
A maioria, contudo, encontra-se em algum local bem distante do ponto de desaparecimento. Numa região, geralmente soalheira, onde ninguém os conhece. Digo mais: onde ninguém os julga, já que no presente estão a viver com novas caras-metades. Os especialistas atribuem essas peripécias à andropausa (nesta síndrome, mulher nova, bonita e carinhosa é elixir da juventude). E os franceses, ao dêmon de midi, o diabo que se insinua na alma do homem cinqüentão, com o fito de promover as chamadas uniões entre o Outono e a Primavera.
Existindo ou não o diabretes, o desertor conjugal só veio a surgir, a meu ver, depopis que apareceu a caixa de fósforos. Antes, havia a poligamia, o sadomasoquismo, a inversão, o fetichismo, o bestialismo e mais um monte de práticas sexuais com nomes em latim. Mas marido fujão, não. Surgiu, como eu já disse, com o advento da caixa de fósforos. A seguir, inflamando um coração entediado aqui, outro acolá, a utilitária caixinha deu no que deu: transformou-se num dos clichês da época atual. Um fado que não vislumbro para o isqueiro descartável, por exemplo.

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