25 setembro, 2026

A bomba atômica do Brasil

Nove países possuem a bomba atômica: EUA, Rússia, França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. Ao longo da sua história, o Brasil teve oportunidades de fazer parte desse seleto clube de países — mas nunca levou muito adiante a ideia.
Por que, afinal, o Brasil nunca desenvolveu armas nucleares — tido como instrumento importante de poder e dissuasão?
Ao longo da ditadura militar (1964 - 1985), o Brasil deu sinais ao mundo de que estaria aberto, em tese, a desenvolver suas próprias armas nucleares. Ao não aderir, no final dos anos 1960, ao recém-criado Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.
Em 1979, os cientistas das Forças Armadas começaram a cooperar com centros de pesquisa civis, como o Instituto de Engenharia Nuclear do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) da Universidade de São Paulo (USP). Essa cooperação tinha vários objetivos específicos para o Brasil desenvolver diferentes aspectos do desenvolvimento da energia nuclear. O Exército tentou construir um reator para produção de plutônio. Já a Aeronáutica buscou usar o método laser para enriquecer urânio. E a Marinha perseguiu a criação de um submarino nuclear.
Mas, nos projetos paralelos da ditadura militar, houve a intenção de construir uma bomba atômica brasileira? Como, por exemplo, no projeto secreto da Aeronáutica para desenvolver artefatos nucleares para uso pacífico — o de obter explosivos que seriam usados para abrir poços de petróleo ou desviar rios?
Uma das evidências da existência desse programa especial secreto foram os túneis construídos na Serra do Cachimbo, no Sul do Pará.
A existência desses poços de testes da Serra do Cachimbo era desconhecida do público e foi revelada pela Folha de SP em 1986, já após o fim da ditadura, durante o governo do presidente José Sarney.
Com o fim da ditadura militar e a redemocratização, o Brasil procurou mostrar ao mundo que não tinha intenção de desenvolver armas nucleares. Em 1990, o então presidente Fernando Collor foi à Serra do Cachimbo e enterrou os poços construídos pela Aeronáutica. Em uma imagem simbólica, Collor apareceu colocando uma pá de cal nos poços.
"Sou o único candidato a presidente que tem coragem de dizer que o Brasil precisa construir a bomba atômica. Só cinco países no mundo têm o monopólio do poder nuclear, impondo aos outros a humilhação de assinar tratados de não proliferação de armas nucleares. É preciso construir a bomba, não para jogar a bomba em ninguém, mas sim para evitar que alguém jogue a bomba aqui, como os EUA fizeram com o Japão em 1945. Se o Japão tivesse a bomba, eles não se atreveriam a ter destruído Hiroshima e Nagasaki. Meu nome é Enéas."
O trecho acima é parte da curta e folclórica propaganda eleitoral de 1994 de Enéas Carneiro, médico que fundou nos anos 80 o partido nacionalista e conservador Prona e concorreu diversas vezes à Presidência.
Em 1998, o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, no qual assumiu o compromisso com o resto do mundo de não desenvolver armas do tipo.
No entanto, o projeto paralelo da Marinha, conduzido pelo almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi extremamente bem-sucedido. Com o objetivo inicial de desenvolver submarinos com propulsão nuclear,  o projeto civil militar do Ipen e Marinha levou o Brasil a dominar a capacidade de enriquecer urânio através da tecnologia da ultracentrifugação. Em 1987 o Brasil anunciou esta capacidade ao mundo.
Mesmo não fazendo parte do restrito clube de nove países com bombas atômicas, o nosso país é hoje parte de outro seleto grupo. "O Brasil é um dos poucos países do mundo que tem jazidas de urânio e tem essa capacidade de produção de combustível nuclear", afirma Carlo Patti, historiador da Universidade de Pádova, na Itália.
Em 2022, a Fundação Getúlio Vargas fez uma pesquisa de opinião com 2 mil brasileiros sobre o apoio a uma bomba atômica do Brasil. Apenas 25% dos entrevistados se manifestaram em favor da bomba brasileira.
Bônus:
A BOMBA, por Paulo Gurgel LINK

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