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15 maio, 2023

A linda palavra SAUDADE

“As palavras pertencem umas às outras”, disse Virginia Woolf na única gravação sobrevivente de sua voz.
De fato, essa arte imensamente complexa, mas muito subestimada, da ginástica multilíngue, que ajuda as palavras a pertencerem umas às outras e pode revelar camadas sobre a condição humana, inclui o rol das palavras estrangeiras cuja tradução para a língua inglesa, apesar de seu grande e incomum vocabulário, acaba se tornando uma tarefa praticamente impossível. (revisar)
As palavras tão belamente elusivas são o que a escritora e ilustradora Ella Frances Sanders, uma autodenominada nômade global intencional, explora em "Lost in Translation: An Illustrated Compendium of Untranslatable Words from Around the World", publicado pouco antes de Sanders completar vinte anos.
O português tem a linda palavra SAUDADE, que Aubrey F. G. Bell descreve como:
"a vague and constant desire for something that does not and probably cannot exist, for something other than the present, a turning towards the past or towards the future" (um desejo vago e constante por algo que não existe e provavelmente não pode existir, por algo que não seja o presente, uma volta para o passado ou para o futuro). 

27 setembro, 2020

Saudade é um parafuso

saudade é um parafuso
que na rosca quando cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai
e quando enferruja dentro
pode quebrar mas não sai
quem quiser plantar saudade
primeiro escalde a semente
e depois plante em lugar seco
onde bata o sol mais quente
pois se plantar no molhado
quando nascer mata a gente
(antonio pereira)



Antônio Pereira de Moraes – O Poeta da Saudade
Conhecido como o poeta da saudade, Antônio Pereira nasceu a 13 de novembro de 1891, no sítio Jatobá, hoje município de Itapetim-PE, (*) onde viveu até a morte, a 7 de novembro de 1982. Violeiro e poeta popular, ele mal assinava o nome e nunca fez da arte a sua profissão, tendo sobrevivido como modesto agricultor. Antônio Pereira participava de jornadas de improviso com os amigos e seus versos repassados verbalmente por seus admiradores sobreviveram ao tempo. Em 1980, com a ajuda de amigos, publicou seu único folheto, "Minhas Saudades", uma coletânea de sua poesia.
http://forrobodologia.wordpress.com/2008/02/26/antonio-pereira-de-moraes-%e2%80%93-o-poeta-da-saudade/
(*) Itapetim é o berço de outros poetas como: Otacílio Batista, que compôs "Mulher nova, bonita e carinhosa" (c/ Zé Ramalho), e o jornalista Rogaciano Leite, autor de "Cabelos Cor de Prata" (c/ Silvio Caldas). Para Maria Sônia Leite, Antônio Pereira de Moraes nasceu no sitio Barra do Mineiro, em Livramento, no Cariri paraibano, também terra de grandes poetas.

Luiz Vieira no blog EM (arquivo)
http://blogdopg.blogspot.com/2020/01/adeus-menino-passarinho.html
http://blogdopg.blogspot.com/2020/02/seu-delegado.html

09 maio, 2010

Mães só morrem quando querem

“Eu tinha sete anos quando matei minha mãe pela primeira vez. Eu não a queria perto de mim quando chegasse à escola no meu primeiro dia de aula. Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer. Poucas semanas depois descobri aliviado que ela ainda estava lá, pronta para me defender, não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam como das dificuldades intransponíveis da tabuada.
Quando fiz 14 anos eu a
matei novamente. Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos voos juvenis. Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva, foi quando ela não só me curou da ressaca como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.
Aos 18 anos ache que
mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição. Entrara na faculdade, iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese. Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.
Aos 23 anos me dei conta de que a
morte materna era possível, apenas requeria lentidão... Foi quando me casei, finquei bandeira na independência e segui viagem. Mas bastou nascer meu primeiro filho para descobrir que o bicho mãe se transformara numa espécie ainda mais vigorosa chamada avó.
Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla. . .
Apesar de tudo continuei acreditando na tese da
morte lenta e demorada e, aos poucos, fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela aparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar.
Mas o final da história, ao contrário de que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando menos esperava, ela decidiu morrer. Assim sem mais nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida.
Ela simplesmente se foi, deixando a lição que mães são para sempre. Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade."

Minha mãe ainda não decidiu morrer, felizmente. Aquelas que o fizeram, ao partirem para o "etéreo terreno da saudade", deixaram com seus filhos esta lição e muitas outras.
Enviou-me a crônica acima (cujo autor não é identificado) o genealogista Ormuz Simonetti.