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05 junho, 2026

O legado que Thermen deixou no Ocidente

Na década de 1960, altos funcionários da KGB ficaram obcecados por OVNIs e fenômenos paranormais, e incumbiram Termen de investigar isso. Ele considerou uma perda de tempo. Palavras duras de um sujeito que queria descongelar Lenin!
As pessoas que conheceram Termen depois da guerra comentaram que ele mal movia os lábios enquanto falava, um hábito adquirido por viver sob constante vigilância.
No final da década de 60, Termen deixou o trabalho de espionagem e conseguiu um emprego em uma universidade, onde fazia pesquisa acústica. Certo dia, um jornalista ocidental em visita encontrou Termen e, infelizmente, noticiou no New York Times que ele ainda estava vivo.
Isso foi demais para o chefe de Termen, que levou todos os instrumentos musicais dele para fora e os destruiu com um machado. "Eletricidade só serve para fazer cadeiras elétricas", explicou. E assim terminou a carreira universitária de Termen.
É assim que a opressão muitas vezes se manifesta. Ninguém ligou de Moscou para dizer a esse cara para destruir a obra de Termen. Mas ele não quis se arriscar e adotou uma postura proativa.
O resto da vida de Termen foi gasto tentando encontrar um pequeno espaço para trabalhar. Ele recebeu um pequeno quarto individual em um apartamento compartilhado, que encheu de equipamentos e arquivos antigos. Ele nunca parou de dar aulas de theremin.
Ele passou seus últimos anos tentando despertar interesse em um dispositivo chamado microscópio do tempo. Havia minúsculos corpúsculos no sangue que podiam ser vistos com o equipamento fotográfico de alta velocidade adequado. Eles eram a chave para a imortalidade.
As pessoas que convidaram Termen para conferências musicais no final de sua vida fizeram grandes esforços para mantê-lo em silêncio sobre o microscópio temporal. Assim frustrado, ele morreu em novembro de 1993, aos 97 anos.
Sabemos o legado que o Theremin deixou no Ocidente. Na década de 1930, ele foi utilizado nas trilhas sonoras de alguns filmes sobre protagonistas com distúrbios mentais. A música do Theremin passou a ser associada a thrillers psicológicos e, eventualmente, à ficção científica pura. Tinha aquele som exótico e perturbador.
Apesar dos esforços de músicos como Clara Rockmore e de participações ocasionais em músicas populares, como "Good Vibrations", o theremin permaneceu um instrumento de nicho. Os poucos músicos de estúdio que sabiam tocá-lo ganhavam muito bem compondo trilhas sonoras para filmes. Mas o theremin tinha esse poder de cativar a imaginação. Inspirou uma geração de pessoas como Robert Moog, o grande pioneiro dos sintetizadores, que começou fabricando theremins e nunca perdeu a paixão por eles. Moog considera o reparo do theremin original de Clara Rockmore o ponto alto de sua carreira.
O que tornou o instrumento tão durável foi sua bela simplicidade. Não apenas como interface, mas como circuito. É um dos circuitos de rádio "reais" mais simples que você pode construir. O projeto original de Termen exigia apenas cinco válvulas eletrônicas. Por isso, sempre foi um elemento básico em projetos de eletrônica caseira e um ótimo ponto de partida para experimentos. Era "hackeável" no melhor sentido da palavra.
E, claro, o theremin, e Termen, têm outro legado, em todos os dispositivos com tela capacitiva (sensível ao toque). Esses celulares em nossos bolsos não são apenas dispositivos de vigilância, mas pequenos theremins, capazes de rastrear a posição dos seus dedos com a mesma magia elétrica que Termen usava para criar música. Acho maravilhoso que o legado desse homem se estenda até aí.
Gostaria de encerrar com minha anedota favorita sobre Termen, do final de sua vida. Termen passou anos tentando se filiar ao Partido Comunista, e eles sempre arranjavam desculpas para rejeitá-lo.
Quando ele tinha noventa anos, candidatou-se novamente, mas disseram-lhe que para ingressar teria de fazer um curso avançado de cinco anos em marxismo-leninismo. Então ele o fez. Frequentou a escola noturna e concluiu o curso.
Em 1991, literalmente semanas antes da queda da União Soviética, Termen recebeu seu distintivo do partido. O bolchevique de 95 anos foi, por um breve período, o comunista mais jovem do país. Naturalmente, as pessoas lhe perguntavam: "Lev Sergeyevich, por que diabos você se filiaria ao Partido Comunista agora, quando todos os outros estão saindo?" Ele lhes deu a resposta mais ousada que se possa imaginar: "Eu prometi a Lenin."
Prometi à Tasha e ao Mike que minha apresentação teria duração de trinta minutos. Muito obrigado a todos!
(Aplausos estrondosos e prolongados.)
OUR COMRADE THE ELECTRON (NOSSO CAMARADA, O ELÉTRON) - 10.ª parte desta palestra, que Maciej Ceglowski proferiu em 14/02/2014, na Webstock, em Wellington, Nova Zelândia.
[http://idlewords.com/]
Traduzida por Paulo Gurgel.

18 setembro, 2023

A campanha de eletrificação da União Soviética

Lev Sergeyevich Termen teve um bom timing. Lenin estava prestes a lançar uma enorme campanha sob o slogan curiosamente específico:
COMUNISMO = PODER SOVIÉTICO + ELETRIFICAÇÃO DE TODO O PAÍS
Por que fazer tanta eletrificação?
Bem, Lenin acabara de liderar uma Grande Revolução Proletária em um país sem proletariado, o que é como fazer uma omelete sem ovos. Você pode fazê-lo, mas levanta questões. É estranho.
Lenin precisava de um proletariado com urgência, e a maneira mais rápida de fazer isso era eletrificar e industrializar o país.
Mas havia outra razão não declarada para a campanha. Ao longo dos séculos, os camponeses russos se tornaram especialistas em resistir passivamente à autoridade central. Eles contavam com o fato de que as aldeias de seu enorme país eram atrasadas, dispersas e de difícil acesso.
Lenin sabia que, se conseguisse colocar os camponeses na rede, isso consolidaria seu poder. O processo de eletrificação do campo criaria cidades, fábricas e concentraria as pessoas em torno de grandes obras. E uma vez que o campesinato dependesse da energia elétrica, não haveria como voltar atrás.
A história não registra se Lenin acariciou um grande gato branco em seu colo e riu loucamente enquanto pensava nisso, porém devemos assumir que aconteceu.
(Aqui estão mais dois pôsteres de eletrificação de quando os designers legais ainda estavam no Time do Comunismo, antes do Realismo Socialista sufocar tudo.)


Termen era exatamente o que Lenin precisava: um inventor soviético com uma engenhoca elétrica (o teremim) que deslumbraria e surpreenderia as massas e ajudaria a vender eletrificação ao campo sob suspeição. Ele deu a Termen um passe ferroviário permanente, encorajando-o a fazer seu show aos camponeses por toda a União Soviética.
Quando Lenin morreu, alguns anos depois, Termen enviou uma mensagem urgente para que o corpo de Lenin fosse imediatamente congelado. Ele teve uma ideia de como trazê-lo de volta à vida, mas exigia colocar o corpo no gelo. Ele ficou arrasado ao saber que o cérebro de Lenin já havia sido retirado e conservado em álcool, e seu corpo embalsamado para exibição pública.
Dado o histórico de realizações técnicas de Termen, provavelmente é bom que ele não tenha tido a chance de transformar Lenin em zumbi.

OUR COMRADE THE ELECTRON (NOSSO CAMARADA, O ELÉTRON) - 4.ª parte desta palestra, que Maciej Ceglowski proferiu em 14/02/2014, na Webstock, em Wellington, Nova Zelândia.
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01 fevereiro, 2023

Tocando o intangível

Então hoje eu quero falar sobre o passado, sobre o homem que projetou aquele aparelho de escuta inteligente, Lev Sergeyevich Termen.
Termen foi um visionário cujas invenções estavam décadas à frente de seu tempo, mas em sua vida pessoal lutou contra o inesperado. O pobre rapaz sempre parecia estar pisando no ancinho do Destino.
Termen nasceu em Petersburgo em 1896, em uma família aristocrática. Ele era uma criança musical e se tornou um violoncelista talentoso, mas seu maior amor sempre foi a física e a engenharia.
Em 1917, Termen participou da revolução bolchevique e foi designado para trabalhar em um novo laboratório de pesquisa soviético.
Uma de suas primeiras tarefas foi construir um sensor capacitivo para medir as propriedades elétricas dos gases. Consistia em duas placas de metal; introduzindo uma amostra de gás entre as placas, você pode fazer uma leitura.
Em vez de dar a este instrumento um mostrador regular para fazer leituras, Termen teve a ideia inspirada de conectar seus fones de ouvido.
O tom do sinal nos fones de ouvido correspondia ao valor da leitura. Termen notou que quando ele movia as mãos perto das placas de metal, isso afetava o tom.
Ele aprendeu sozinho a tocar algumas melodias, e seus colegas ficaram empolgados. "Termen está tocando o voltímetro!"
E essa foi a última vez que o mundo ouviu falar do analisador de gás. Termen começou a trabalhar e logo construiu o primeiro instrumento musical eletrônico do mundo. Seus colegas o chamavam de 'Termenvox', em sua homenagem. Nós, é claro, o chamamos de theremin (O teremim).
Aqui está um vídeo de um gato tocando o theremin.
Você vê que o instrumento tem uma antena vertical que controla o tom. À medida que o gato aproxima as patas da antena, ou a morde, o som fica mais alto.
Há também uma bobina horizontal, que o gato optou por não usar, que controla o volume.
Você não toca o theremin ao tocá-lo – basta apenas mover suas mãos (ou patas) para perto.
Aqui está um ser humano tocando o theremin, com um pouco mais de habilidade.



Por favor, perdoem a qualidade do vídeo, mas este é o próprio Termen, demonstrando sua invenção.
Você notará como o theremin é sensível a pequenas mudanças na posição da mão.
Bem, isto foi um grande sucesso com os rapazes do laboratório. E logo Termen foi convidado ao Kremlin para dar uma demonstração a Lenin, um grande nerd da tecnologia. Ele atingiu o grande momento!
Há dois temas recorrentes na obra de Termen. A primeira é essa ideia de tocar o intangível, palpar o impalpável, efetuar o inefável. Termen adorava conectar o mundo invisível do elétron aos nossos sentidos físicos, de maneiras surpreendentes. Você vê isso no theremin e também em The Thing ("A Coisa"); ambos os dispositivos acoplam o som a um campo eletromagnético de alta frequência.
E esse é o outro tema, que tudo em que Termen trabalhou parecia ter um lado sombrio.
Parte disso não era culpa dele, apenas devido à natureza amoral da física. Você não pode ter um mundo com um theremin sem também poder construir "A Coisa". Os elétrons não se importam.

OUR COMRADE THE ELECTRON (NOSSO CAMARADA, O ELÉTRON) - 3.ª parte desta palestra, que Maciej Ceglowski proferiu em 14/02/2014, na Webstock, em Wellington, Nova Zelândia.
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