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19 setembro, 2020

Farinha dá dor nas costas

Por prevenção, alguns amigos estão fazendo seus exames de rotina eavaliando o estado geral de saúde. Afinal de contas, não é todo mundo que pode usufruir décadas e décadas de vida impunemente. Então, temos que ficar atentos a diabetes, pressão alta, triglicerídios, colesterol, ácido úrico, dores no joelho, costas, nas articulações em geral, etc. etc. etc.
Enfim, mil etcéteras mais.
Nosso amigo foi a seu novo geriatra. O anterior se aposentou. Mas ele não está se acostumando muito com o geriatra atual. Diz que ele é muito brincalhão. Na consulta desta semana, o geriatra, ao se levantar para aferir a pressão do nosso amigo, deu uma "travada" com dor nas costas. E falou, quase gritando de dor:
- Ai, ai, ai... Minha coluna já está reclamando de novo. Sabe o que descobri? Farinha... Farinha faz muiito mal pra coluna.
- Farinha, doutor? Nunca ouvi falar!, exclamou nosso amigo, perplexo. - Pois é. Só descobri depois de muitos e muitos anos.
E contou como fez tão importante descoberta:
- Hoje estou formado e tenho uma certa tranquilidade com a profissão que consegui abraçar. Meu sonho. Mas não foi sempre assim. Morava no interior, e era um tio que ajudava nas minhas despesas com escola e mais alguns trocados para diversão. Foi ele, afinal, que custeou todo o período de universidade. Ele vendia farinha e eu ajudava, depois da aula, nas entregas. Ás vezes chegava, ainda com fome, e tinha que carregar e descarregar a carroça com sacos e sacos de farinha...
- Aí, com fome, comia escondido a farinha do tio???, meu amigo arriscou a pergunta.
- Não, nada disso. Meu tio dava o lanche. Era o saco de farinha, mesmo. Eu sempre me considerei muito forte, mas aqueles pesos acabaram com minha coluna. E só descobri isso depois de muiitos anos!, e riu a não mais poder.
"Ninguém merece", pensou meu amigo, rindo também.
Fernando Gurgel Filho
N. do E.
Arroz também dá dor nas costas. Mas, vamos e venhamos, carregar arroz tem mais futuro.

13 maio, 2017

O Diabo - até a ponta do nariz

"O diabo na rua, no meio do redemoinho." (Guimarães Rosa)

O Diabo queria porque queria entrar na igreja, mas o padre, com toda razão, não permitia. Todo dia o Diabo, bem cedo, se colocava em frente à porta da igreja e insistia com o padre. Padre, dizia com uma doce voz o Diabo, posso entrar somente um pouquinho na igreja? O padre, experiente e conhecedor das manobras e artimanhas do Diabo, negava com veemência sua pretensão. Mas, o Diabo, como ele só, não desistia e, todos os dias, antes mesmo de o grande e suntuoso portão da igreja se abrir, já estava lá à espera do padre para renovar seu pedido. Padre – com humildade pedia o Diabo – posso entrar em sua bela igreja, somente por pouquíssimo tempo? O padre, mais firme do que nunca, com uma grande cruz ornamentando o peito dizia um sonoro não. Os anos se passaram e o Diabo não desistia, todo dia, mesma hora, na mesma igreja, com o mesmo padre, fazia o mesmo pedido.
Certo dia o Satanás, que até então não tinha alcançado seu objetivo, perguntou ao padre: – Padre eu posso entrar na igreja? O padre, já abatido pela idade e pela insistência do Demo, ainda bravamente resistia. Mas o Coisa Ruim não desiste fácil. Padre, com voz aveludada, indagava o Diabo, posso então só dar uma pequena olhadela na igreja, eu prometo que só coloco a ponta do meu nariz na sua sagrada igreja. O padre, querendo se livrar do Cão, já cansado do obstinado Demo, pensou: “somente a ponta do nariz não terá problema”. Então o padre concordando, porém sem antes deixar de alertar ao Diabo com voz poderosa e firme, segurando seu crucifixo, disse: – Está certo, vou lhe deixar olhar a igreja, por um único instante e você não poderá passar da “ponta do seu nariz”. Perfeitamente, disse o Diabo com um enigmático sorriso. O que fez então o Diabo? Entrou na igreja de costas, de modo que a ponta do seu nariz foi à última parte do corpo do Diabo a entrar na igreja.
Moral da estória: Não negocie jamais com o Diabo. Não transija com seus direitos. Se você abdicar de um direito fundamental, estará escancarando a porta para que outros direitos sejam violados.

O Diabo e as dez medidas contra a corrupção, por Leonardo Isaac Yarochewsky

Os nomes do demônio na obra de Guimarães Rosa

Janaína foge ao controle dos padres Hélio e Miguel:

06 julho, 2014

Moedas na Fonte

Pessoas em todo o mundo atiram moedas nas fontes enquanto fazem pedidos ou desejam a si mesmas boa sorte. Provavelmente, a fonte mais usada no lançamento de moedas é a Fontana di Trevi, tornada ainda mais popular por ter sido cenário dos filmes "Three Coins in the Fountain", estadunidense de 1954, e "La Dolce Vita", franco-italiano de 1964, do cineasta Federico Fellini, em que Anita Ekberg entra na água e convida Marcello Mastroianni a fazer o mesmo.
Diz a lenda que quem joga uma moeda nessa fonte (avaliem três) retorna a Roma, a cidade onde fica a famosa fonte.
Mas...
O que em geral acontece com as moedas que são atiradas nas fontes?
Moedas que expressam desejos de pessoas deveriam ficar para sempre nelas, certo?
Na verdade, essas moedas costumam ser removidas por equipes de limpeza.
Voltando à Fontana di Trevi. Em meados da década de 1980, numa só remoção a equipe de limpeza encontrou cerca de três milhões de liras de moedas.
Destino do dinheiro: as moedas italianas foram recolhidas ao cofre municipal para financiar a manutenção da fonte e as moedas estrangeiras foram para a Cruz Vermelha.

Vídeo


Estória
EM MIÚDOS

22 agosto, 2013

Emburrado emburrecido

Fernando Gurgel Filho
Meu amigo calhorda está muito preocupado. Muito, não. Muitíssimo!
- Porque tanta preocupação? Você não vive cantando pra gente "não se avexe, não, amanhã pode acontecer tudo inclusive nada"?
- Né nada disso, não, mininu! É coisa séria. Cê sabe que nunca fui nenhuma sumidade em nada, né? Tou sempre ali, ó, na média. Pois bem. Danaram de fazer umas pesquisas (*) por aí, que esse pessoal não tem mais o que fazer, e chegaram a uns resultados que, se for verdade, vou acabar comendo capim. Pior ainda: como tem muita gente boa que conheço que está na mesma situação, vai faltar capim no pasto.
- Quequiéissu, meu amigo? Como é essa história de comer capim?
- Segundo essas pesquisas, tem coisa que emburrece a gente e eu descobri que são as coisas que faço constantemente. Ainda não vi nenhuma pesquisa que diga o que gente pode fazer pra anular o efeito dessa burrice.
- Se preocupe, não. Seu doutorado na vida vale mais que qualquer enciclopédia. Seu saber acumulado, sua sabedoria... e, além disso, você tem mais inteligência que todos nós juntos, seus amigos.
- Ah, é mané? Mamá na vaca cê num quer, né? Cês são assim limitados e querem me colocar no mesmo balaio? Vocês é que não precisam se preocupar, não. As pesquisas só valem para HOMENS, hetero, com agazão bem grande! Além do mais, vocês andam em duas patas por teimosia, Então, pra vocês não faz nenhum efeito. kkkkkkkkkkkkkkkk
- Seu fii de uma quenga! Assim que cê trata os amigos? Então diga, que coisas são essas que te emburrecem?
- Tudo que a gente faz: viver em cidade grande, fazer reunião, tomar refrigerante, ter ressaca, conversar com mulher bonita... Ora, moro em cidade grande, minha chefe é mais bonita que muita atriz, apesar de muito inteligente adora fazer reunião de trabalho, vivo de ressaca e, pra rebater, tomo uns refri bem geladinhos... Que tal?
- ???
- E ainda tem mais. Gosto de namorar umas gatas, vivo reunido com vocês que bebem mais que gambás - ainda bem que são mais feios que briga de foice no escuro -, a ressaca no outro dia é terrível e, ao invés de umas aguinhas Perrier, vocês só oferecem refri... Tenho com que me preocupar ou não?
- Tem não. Vamos fazer o inverso da pesquisa. Depois a gente publica. Vou levar você pro sítio do Zé Macumba. Cê vai passar uma temporada lá. Vai voltar com o QI mais alto do Brasil. Lá só tem mulher feia, a maior cidade lá perto tem apenas umas duas ruas, não tem geladeira, então, adeus refri gelado, o Zé Macumba não gosta nem de falar, então, não tem reunião... Devezenquandamente pode até ter uma ressaca, pois o Zé gosta de tomar umas, mas é só no fim de semana. Daqui a uns meses, você volta e a gente mede seu QI pra ver se melhorou. Então, topa?
- Nã Nã Nim Nã Não. Prefiro ficar burro aqui com vocês. No coletivo. Vou continuar levando essa cangalha junto com a tropa, a manada.
E saiu chutando - ou escoiceando, sei lá - pedra, lata, cachorro, poste... Tudo que tinha pela frente.

(*) Fonte das pesquisas: SUPERINTERESSANTE, via www.maisbrasilia.com

21 fevereiro, 2009

A cruel Doralice

"Chamava atenção o volume que carregava entre pernas. Caminhava com desenvoltura como se nada tivesse a lhe atrapalhar o passo. Simpático, falante, abordava quem passava com algo bem-humorado a dizer. Alguns riam, outros paravam para comprar seus bilhetes de loteria. Aquele escroto gigantesco não lhe tirava o sorriso e a desinibição.
- Oi Saquinho! Era a saudação de todos que o conheciam. Levava na esportiva o apelido sarcástico.
Morava nas Cinzas(1) e fazia ponto na esquina da Santa Casa, que era meu caminho quando vinha do Colégio Castelo Branco na Avenida Dom Manuel. O tempo passou e só tive notícias dele numa aula de urologia naquele mesmo hospital. O professor contou, para deleite geral, a história do vendedor de loteria. Recém-formado, comprava bilhete das mãos do Saquinho e aproveitava para convencê-lo a se deixar operar da hidrocele(2). Depois de muita insistência conseguiu levá-lo à mesa de operação. O pós-operatório correu bem, mas depois da alta, Saquinho desapareceu do hospital e da esquina. Meses passados, num encontro fortuito, o cirurgião o encontrou na praça da estação. Estava alquebrado, sujo e bêbado. Quis saber as razões do seu sumiço.
- Doutor! Aquela operação acabou comigo. Depois dela minha Doralice(3) fugiu com outro e comecei a beber de paixão. Então fui saber com a amiga dela as razões da traição e pra minha surpresa soube que minha mulher não gostava de mim.
- O que ela gostava mesmo era da pancadinha."   


Quando jovem, o médico oftalmologista Nelson José Cunha morou na região central de Fortaleza. Algumas reminiscências desse período, passadas para o papel, tomaram o nome de "Um hino às mulheres". Uma de suas cenas, "A cruel Doralice", foi a que o internauta acabou de ler.
Notas explicativas: 
(1) Área do baixo meretrício em Fortaleza, antes da demolição de suas casas, em 1974, para a construção da avenida Leste-Oeste, atual avenida Presidente Castello Branco. 
(2) Grande aumento dos testículos pelo acúmulo anormal de líquidos no saco escrotal. 
(3) Não é a mesma Doralice, que ressurgiu na canção de Caymmi, eternizada pela voz de João Gilberto.

22 novembro, 2008

Velha e nova fobias

Um homem sofria de claustrofobia, o medo exagerado de permanecer em locais fechados. Por conta disso, evitava os locais confinados onde poderia entrar em pânico. E só ficava em ambientes bem abertos.

Até o dia em que começou a sentir agorafobia, que vem a ser o medo infundado de estar em locais abertos (PGCS).

16 novembro, 2008

Escrivão não leu, o pau comeu

Tenório Avenças era o escrivão juramentado do cartório de Arapiúna. Uma cidade fincada num pé de serra, onde ele, morando e autenticando documentos, fazia um tipo perfeitamente adaptado à monotonia do lugar.
Ao amanhecer, ele punha a sela no velho burrico, as suas pernas para atravessar a cidade, e ia se entediar no cartório em regime de tempo integral. Aí, apenas quando o crepúsculo começava a soltar os morcegos, é que ele, montado na lerdice do asno, fazia o caminho de volta para a casa.
Um pacato cidadão, o diligente Tenório. Com a ressalva de que, à sua passagem, não o chamassem jamais de "escrivão jumentado".
Porque aí, meu irmão, dava briga com viés para guerra mundial.