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03 maio, 2026

Mucuripe

Existe uma lost media (mídia perdida) de Belchior que, só quem frequentava um bar específico em Fortaleza, na década de 1970 (quando o compositor tinha vinte e pouco anos), é que teve a rara chance de ouvi-lo cantando.
Não sei se posso chamá-la assim pois, para ser uma lost media, primeiro tem que ser uma media, e eu acho que a versão que ele cantava nunca foi gravada. Nunca houve registro da mesma, a não ser na memória de quem andava com ele.
Eis a história de "Mucuripe", copidescada de @meubrasil, no Instagram:
Belchior tinha vinte e quatro anos e, depois das aulas na Faculdade de Medicina, ele se juntava com os amigos e iam para o bar do Anísio, que ficava na praia do Mucuripe.
Um dia, Belchior estava lá observando o vai e vem das jangadas e lembrou-se de uma cena de filme antigo, em que uma pessoa dialogando com a mulher de um marinheiro, dizia-lhe para entregar todas as mágoas e sofrimentos para o mar.
É por isso que, na música, ele diz: "Vou mandar as minhas mágoas pras águas fundas do mar."
Certo dia, Fagner estava no Anísio conversando com amigos, quando Belchior lhe entregou um papel, dizendo:
 Fagner, dá uma olhada nisto
O que tinha no papel era a letra de "Mucuripe", uma canção que futuramente seria gravada por Elis Regina, Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e pelo próprio Fagner.
Fagner levou o papel para casa e, no dia seguinte, quando almoçava com a família, uma melodia surgiu em sua cabeça. Na mesma hora, correu para o seu quarto onde se trancou. 
Naquela época, alguém só saía da mesa de refeição, se o pai ou a mãe desse autorização. Então, eles ficaram batendo na porta do quarto de Fagner enquanto ele compunha a melodia.
(Pois é... Quando uma música surge assim, de repente, e se a gente não gravá-la na hora pode a esquecer para sempre. E muita gente não tinha naquele tempo um gravador.)
Não demora, Fagner apareceu com a música pronta no bar do Anísio e causou espanto. Quem ouviu aquele canção logo percebeu que era só uma questão de tempo para virar um sucesso nacional.
O próprio Belchior reconheceu que a versão do Fagner era muito melhor do que a dele. É que, antes de entregar aquele papel com a letra para o Fagner, Belchior já havia colocado uma melodia em "Mucuripe", que ele até cantava no bar do Anísio.
Ou seja, "Mucuripe" virou uma letra com duas versões melódicas  bem diferentes.
Apesar das eventuais turbulências entre os dois, o próprio Belchior considerava a versão de Fagner muito melhor. E nunca mais cantou "Mucuripe" em sua versão original.

"Aquela estrela é dela. Vida, vento, vela, leva-me daqui."

Trata-se de uma citação de Augusto Pontes, poeta e "guru" do Pessoal do Ceará. Belchior incorporou-a ao final da música, e estes versos tornaram-se um dos pontos mais fortes da canção. Em entrevista (de 2006), Augusto Pontes afirmou que não se importava com a utilização dos versos e que considerava a citação como uma homenagem, nunca tendo pedido parceria por isso.

30 abril, 2025

Tons musicais

Uma música em tom menor costuma estar associada à melancolia devido a uma combinação de fatores acústicos, culturais e psicológicos. 
Aqui estão as principais razões:
1. Estrutura da escala menor
A terceira menor (1½ tons acima da tônica, em comparação com 2 tons no modo maior) cria um som mais "sombrio" ou "triste".
Dó menor (Cm): C - E♭ - G (terceira menor: E♭) → som "melancólico".
Dó maior (C): C - E - G (terceira maior: E) → som "brilhante" (alegre, eufórico...)
2. Resolução harmônica
Os acordes menores tendem a ter uma resolução menos conclusiva do que os maiores, o que pode evocar sensações de incompletude ou tensão emocional.
Progressões como I - VII - VI (ex.: Am - G - F) são comuns em músicas tristes.
3. Contexto cultural e aprendizado
Desde a música clássica até o pop, o tom menor é frequentemente usado para expressar tristeza, drama ou introspecção.
Exemplos: "Samba em Prelúdio" e "Apelo", de Baden e Vinicius, e "Sem Fantasia", de Chico Buarque.
4. Psicologia e percepção humana
Estudos sugerem que o cérebro associa frequências mais baixas (como as enfatizadas em escalas menores) a emoções mais sombrias. A melodia descendente (comum em músicas menores) também remete a isso.
5. Contraste com o maior
Enquanto o tom maior soa "estável" e "feliz" (por razões físicas de ressonância harmônica), o menor quebra essa expectativa, criando um efeito emocional mais complexo.
Exceções:
Nem toda música em tom menor é triste! Alguns estilos (como flamenco) usam escalas menores para transmitir paixão, mistério ou vigor.

Antonio Carlos Belchior (26/04/1946 - 30/04/2017) deixou-nos um legado de mais de 200 canções. Dentre suas 20 canções mais lembradas, quase todas são composições em tom maior. 
"Tudo Outra Vez" * "A Palo Seco" * "Sujeito de Sorte" * "Como Nossos Pais" * "Apenas um Rapaz Latino-Americano" * "Comentário a Respeito de John" * "Na Hora do Almoço" * "Paralelas" * "Divina Comédia Humana" * "Fotografia 3x4" * "Velha Roupa Colorida" * "Galos, Noites e Quintais" * "Medo de Avião" * "Todo Sujo de Batom" * "Espacial" * "Alucinação" * "Caravele" * "Em Resposta a Carta de Fã" * "Pequeno Mapa do Tempo" * "Mucuripe".
A exceção é "Mucuripe" (no vídeo: em Mi menor), o que me faz suspeitar de que a melodia tenha sido do parceiro Raimundo Fagner.


Sobre "Mucuripe" - Fagner lembra que estava numa noite de boemia, quando Belchior o chamou para mostrar uma letra. "Não éramos parceiros ainda. E Belchior me apresentou essa letra. No outro dia eu botei a música e, de noite, apresentei a canção para um grupo de pessoas. Quando me toquei que as pessoas ficaram surpresas, eu percebi que ela era especial", disse o cantor ao jornal O Globo (Jotabê, 2024).
Gravada por Elis Regina no álbum "Elis", de 1972. Foi a partir de então que o artista cearense se tornou conhecido nacionalmente e, mais tarde, mudou-se do Ceará para São Paulo. A canção também ganhou uma versão de Roberto Carlos.

13 abril, 2025

O Grito do Silêncio

por Fernando Gurgel Filho
A arte, em qualquer de suas manifestações, nunca ficará escondida embaixo de nenhum tapete ditatorial e violento. Podem até negá-la como expressão da liberdade e da cultura. Podem confundi-la com anarquia, licenciosidade, imoralidade, marginalidade...
Não liguem, a arte nunca será marginal, mesmo que o carimbo sem dono seja-lhe esfregado na face.
Um carimbo não é nada mais que a baixa estima da vileza. Ao invés de borrar a beleza da arte e amordaçar o grito impossível, a mensagem da arte, mesmo silenciosa, sorrateira, é um desabafo de luz, som, cores, palavras...
Quando a arte bater à sua porta emocional você vai escancarar as portas de sua casa e sentá-la no lugar mais nobre de sua sala.
Não adianta sua louça de porcelana chinesa, seus cristais da Bohemia e talheres de prata de lei torcerem o nariz, fazerem caras e bocas de nojo.
Suas Swarovski vão cintilar de alegria e tilintar de emoção. Você chorará humildemente de prazer e alegria e afastará o melhor de seu pior ódio para poder apreciar a grandeza que o preconceito e a ignorância um dia afastaram de ti.
Mas o medo é a porta de aço que tira total e totalitariamente toda a liberdade. Os tiranos que querem tutelar a humanidade precisam que os seres humanos se sintam inseguros e com medo. Medo de ter prazer, de ter ideias, de ter ideais, de sentir amor e de sentir-se amado, feliz e em paz.
Por isso os loucos, os "malucos beleza", os "corações selvagens", libertos do medo, são tão importantes para a paz e o amor, para a felicidade e para a liberdade.
Belchior nos ensinou que "Viver é melhor que sonhar" e que "Para abraçar meu irmão E beijar minha menina na rua É que se fez o meu lábio O meu braço e a minha voz" adquirindo total liberdade como os "loucos", ou, como diria Jack Kerouac, "os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo..."
Ora, Jack Kerouac que, bem antes de Belchior, meteu o "Pé Na Estrada", talvez tivesse seus mesmos questionamentos, que vêm da ânsia de liberdade e de viver intensamente.
Você pergunta: "O que é que pode fazer o homem comum Neste presente instante senão sangrar? Tentar inaugurar A vida comovida Inteiramente livre e triunfante?"
Ora, "Ano passado eu morri Mas esse ano eu não morro"
Então, queria conversar com o presente, que respondeu: Aqui você não pode ficar!
Mandei uma mensagem para o futuro, que respondeu: Espere até você chegar!
Mandei outra para o passado, que respondeu: Não consigo te alcançar!
Desisti de o passado esperar; disse para o futuro: eu vou lá; e o presente, resolvi aproveitar.
E, ao mesmo tempo, "Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não Eu canto".

12 junho, 2024

Doce Mistério de Belchior

"E foi já durante o autoexílio uma das últimas aparições nos palcos, em 2009, durante um show de Tom Zé onde estava como expectador. O cantor Belchior é chamado ao palco e com a plateia em êxtase canta a música 'Doce Mistério da Vida', originalmente gravada por Victor Herbert e composição de Rida Johnson Young, de 1910 (Ah! Sweet Mystery of Life). A versão nacional da música foi gravada inicialmente por Alberto Ribeiro, médico e compositor carioca, autor de várias marchinhas de carnaval. Posteriormente, essa música foi regravada por Maria Bethânia e Caetano Veloso, Núbia Lafayette (com letra diferente), Moacyr Franco, Agnaldo Timóteo e também por Belchior, no álbum 'Vício Elegante', lançado em 1996 e dedicado às releituras e interpretações de canções de outros artistas."
~ Bira Pereira, Mais PB

03 julho, 2022

Parallele, por Gigliola Cinquetti

Paralelas, de Belchior.
Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em casa Francisco Dário, Osternes Brandão, o violonista Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros. Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica da noitada e fomos ao "Pombo Cheio", onde nos encontraríamos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um compromisso profissional. Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma fita-cassete registrou todas aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era sua canção "Paralelas", que inicialmente Belchior cantava assim: "No Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Mas que depois foi modificada para: "Dentro do carro...".



Dentro do carro, sobre o trevo a cem por hora,
Oh! Meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho e fico rico
Quanto mais eu multiplico diminui o meu amor
Em cada luz de mercúrio vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar
De voltar, de voltar
No Corcovado, quem abre os braços sou eu!
Copacabana, esta semana o mar sou eu!
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão.
E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
Grito quando o carro passa:
"Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu".
No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão.

Tu dentro l'auto sul raccordo a centoventi
Amore mio,
Hai solamente le carezze del motore
E nello studio in cui lavori e fai i soldi
Quanto più fai bene i conti tanto meno arrivi a me
Ogni fanale di mercurio prende luce agli occhi tuoi
Questo è uno strano viadotto vuoi tornare ma non puoi
Ma non puoi, ma non puoi
Sui manifesti ogni ragazza son io
La ballerina sesso e neon ma si, son io
Com'è perversa questa giovinezza che io porto in me
Che esiste solo quando brucia e quando è in croce
Le parallele delle gomme sul bagnato
Son due rotaie nude su cui fuggi anche da te
Io da lassù, dal sesto piano, a vetri aperti grido
Grido all'auto che si perde:
"Il tuo infinito son io, son io, son io".
Sui manifesti ogni ragazza son io

La ballerina sesso e neon ma si, son io
Com'è perversa questa giovinezza che io porto in me
Che esiste solo quando brucia e quando è in croce.

26 outubro, 2018

Belchior, 72 anos

Aniversário
O cantor/compositor cearense Belchior (1946 – 2017), reconhecido como um dos principais ícones da música brasileira, completaria hoje 72 anos. Em comemoração ao aniversário do artista, a Prefeitura de Fortaleza, por meio do Instituto Iracema, oferece uma programação especial e gratuita nesta sexta-feira (26/10), no Centro Cultural Belchior.
O evento traz na programação debate, intervenções, lançamento de livro e shows musicais.
Serviço
Data: Sexta-feira (26/10)
Hora: A partir das 17 horas
Local: Centro Cultural Belchior (Rua dos Pacajús, 123 – Praia de Iracema)

Recordando Belchior no blog EM.

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29/10/2019 - Belchior, 73 anos
O cantor e compositor Belchior foi homenageado com uma estátua em tamanho real numa praça em sua cidade natal, Sobral, no Norte do Ceará. Feita de bronze pelo artista plástico Murilo Sá, a escultura retrata o artista cantando com um violão nas mãos.
Encomendada pela Prefeitura de Sobral, a estátua foi inaugurada oficialmente na noite da última terça-feira (29), três dias após o aniversário de Belchior – que teria completado 73 anos se vivo estivesse.
Foto: Blog Dom Expedito